
Amar de Novo

Danielle Steel

Ttulo original: To Love Again
Traduo: Neide Camera Loureiro

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Impresso na Espanha - Printed in Spain
Impresso e encadernao: Cayfosa-Quebecor (Barcelona)







 (Este livro foi digitalizado por Katia Oliveira em Junho de 2002.
Caso deseje livros no gnero, escreva para katiaoliveira@uol.com.br)















Para Beatrix e Nicholas, com todo meu amor.
E para Phyllis Westberg, com amor e meu obrigada.













































Captulo Um



        Em qualquer cidade h uma poca do ano que se aproxima da perfeio. Aps o calor intenso do vero, antes da desolao hibernal, antes que a neve e a chuva 
sequer faam parte de nossos sonhos. Uma poca que se destaca pela sua limpidez cristalina, quando o ar comea a esfriar; uma poca em que o azul do cu ainda  
radiante, quando usar l d um enorme prazer outra vez e quando se anda mais depressa do que se andava antes. Uma poca para se reviver, fazer planos, agir, ser, 
 medida que setembro caminha para outubro.  uma poca em que as mulheres tm uma aparncia melhor, os homens se sentem mais dispostos e at as crianas do a impresso 
de mais animadas ao voltarem para o colgio em Paris, Nova York ou So Francisco. E, talvez, mais ainda em Roma. Todas esto em casa outra vez aps os ociosos meses 
de vero passados estrepitosamente em txis antigos desde a piazza at a Marina Piccola, em Capri, ou esto reanimadas com os banhos de mar tomados em Ischia, com 
os dias ensolarados de San Remo ou at mesmo com os banhos de mar na praia de Ostia. Mas no final de setembro tudo est terminado, o outono acaba de chegar. Um ms 
srio, um ms lindo, quando o simples fato de se estar vivo faz um enorme bem.
        Isabella di San Gregorio achava-se sentada tranqilamente no banco traseiro da limousine. Ria consigo mesma, os olhos escuros danando, o cabelo preto brilhante 
afastado do rosto por dois pesados pentes de tartaruga, enquanto observava os transeuntes caminharem apressadamente pelas ruas. O trfego estava como sempre est 
o trfego romano: apavorante. Ela se acostumara, vivera ali toda a sua vida, exceto em suas visitas ocasionais  famlia da me, em Paris, e no ano que passara nos 
Estados Unidos, aos 21 anos.
        No ano seguinte casara-se com Amadeo e tornara-se uma espcie de lenda, a rainha preponderante da alta-costura romana. Naquele reino era uma princesa de 
nascena, e com o casamento tornara-se algo mais. Porm sua lenda fora conquistada pelo talento e no apenas por obter o nome de Amadeo. Amadeo di San Gregorio era 
o herdeiro da Casa de San Gregorio, o tabernculo da alta-costura italiana, o pinculo do prestgio e do gosto requintado na eterna competio internacional entre 
as mulheres de recursos e aspiraes colossais. San Gregorio - palavras consagradas para mulheres consagradas, e Isabella e Amadeo eram as palavras mais consagradas 
de todas.
         Ele em toda sua magnificncia florentina loura, de olhos verdes, herdando a casa aos 31 anos; ela neta de Jacques-Louis Parei, o rei da alta-costura de 
Paris desde 1911. O pai de Isabella era italiano, mas sempre tivera prazer em dizer  filha que estava certssimo de que ela possua sangue totalmente francs. Isabella 
tinha sentimentos franceses, como francesas eram suas idias e francs o seu estilo e o gosto infalvel do av. Aos dezessete anos j sabia mais a respeito da alta 
moda do que a maioria dos homens do ramo aos 45. Estava em suas veias, em seu corao e em seu esprito. Isabella possua um dom excepcional para o design, talento 
para lidar com cores e um conhecimento do que combinava e o que no combinava, originado dos estudos que fazia nas colees do av ano aps ano. Quando finalmente, 
aos oitenta anos, ele vendeu a Parei para uma firma americana, Isabella jurara que jamais o perdoaria.  claro que o perdoou. Contudo, se ao menos ele houvesse esperado, 
se tivesse sabido... Porm, por outro lado, ela teria vivido em Paris e jamais conheceria Amadeo, como ocorreu ao instalar seu pequeno atelier de design em Roma, 
aos 22 anos. Foram necessrios seis meses para seus caminhos se cruzarem; seis semanas para seus coraes determinarem qual seria o futuro deles; e apenas mais trs 
meses para que Isabella se tornasse esposa de Amadeo e a luz mais brilhante no firmamento da Casa de San Gregorio. Um ano depois, ela tornou-se a designer chief, 
um posto que qualquer profissional daria a vida para obter. 
        Era fcil invejar Isabella. Uma criatura que tinha tudo: elegncia, beleza, uma coroa de sucessos que usava com a mesma desenvoltura com que punha um chapu 
Borsalino, e o tipo de estilo que ainda faria um salo inteiro parar para olh-la. Isabella di San Gregorio era uma rainha em cada milmetro do seu ser, e ainda 
havia mais. O riso fcil, o lampejo sbito dos diamantes engastados nos magnficos olhos de nix; o modo de saber o que havia por trs do que as pessoas diziam, 
quem eram, por que eram, o que eram e o que no eram e com o que sonhavam ser. Isabella era uma mulher cheia de magia num mundo maravilhoso.
        A limousine diminuiu a velocidade na confuso do vasto trfego prximo  Piazza Navona.  Isabella recostou-se sonhadoramente no banco e fechou os olhos. 
O som agressivo e atordoante das buzinas era reduzido pelas janelas hermeticamente fechadas do carro, mas seus ouvidos h muito que estavam acostumados com os rudos 
de Roma para que isso a perturbasse. Gostava do burburinho, crescera naquele ambiente, que fazia parte de cada fibra do seu ser exatamente como o ritmo arrebatado 
do seu trabalho. Seria impossvel viver sem nenhum dos dois. Razo pela qual jamais deixaria sua vida profissional inteiramente, apesar de ter ficado meio afastada 
no ano anterior.
        Quando Alessandro nascera, cinco anos atrs, o trabalho tinha sido tudo para Isabella: a linha primavera, a ameaa de espionagem de uma casa rival, a importncia 
de desenvolver uma linha de butique de prt--porter a fim de exportar para os Estados Unidos, a sensatez de acrescentar roupas masculinas e, finalmente, cosmticos, 
perfumes e sabonetes. Interessava-se intensamente por tudo. No conseguira abrir mo disso, nem mesmo pelo filho de Amadeo. Era sua fora vital, seu sonho. 
        Porm,  medida que os anos foram passando, chegou a sentir algo lhe roendo por dentro com maior intensidade, um anseio, uma solido, quando chegava em casa 
s oito e meia e o filho j estava dormindo, posto na cama por outras mos que no as suas.
        - Isso a aborrece, no ? 
        Amadeo ficara observando-a enquanto ela sentava-se pensativamente na poltrona de cetim cinza, colocada num ngulo perfeito no canto da sala de estar.
        - O qu? - Ao responder dera a impresso de distrada, cansada, aborrecida.
        - Isabellezza... - Ele sempre a fizera sorrir quando a chamava assim. Desde o princpio, era assim que a chamava. - Fala comigo.
        Ela sorrira timidamente e deixara escapar um longo suspiro.
        - Estou ouvindo.
        - Eu perguntava se a aborrece muito no ficar aqui com o menino.
        - s vezes. No sei.  difcil de explicar. Passamos... Passamos momentos adorveis juntos. Aos domingos, quando tenho tempo. 
        Uma pequena lgrima brotara de um de seus olhos, de uma tonalidade escura maravilhosa, e Amadeo estendera-lhe os braos. Prontamente, ela lanara-se a eles 
e sorriu atravs das lgrimas. 
        - Sou uma louca. Tenho tudo. Eu...  que essa maldita bab no o deixa acordado at chegarmos!
        - Alie dieci?
        - Ainda no so dez horas, so apenas... 
        Consultou o relgio com irritao, percebendo ento que ele estava certo. Deixaram o escritrio s oito horas, passaram pela casa do advogado, onde ficaram 
cerca de uma hora, pararam mais um "minuto" para dar um beijo em sua cliente americana favorita, em sua sute no Hassler e... dez horas. 
        - Droga! Muito bem,  tarde mesmo. Mas normalmente estamos em casa as oito e ele nunca est acordado. 
         Lanara um olhar para Amadeo que rira gentilmente ao estreit-la nos braos.
        - O que quer? Uma daquelas crianas que as estrelas de cinema levam aos coquetis quando ainda no completaram dez anos? Por que no tira mais tempo de folga?
        - No posso.
        - Voc no quer.
        - Quero sim, eu realmente quero... no, no quero.
        Ambos riram. Era verdade. Ela queria e no queria. Queria estar com Alessandro, para no deixar passar aquilo tudo, para no v-lo de repente com dezenove 
anos e ela no ter aproveitado a sua oportunidade. Vira acontecer isso a muitas mulheres com carreiras. Elas pretendem, aproximam-se do seu intento, querem e jamais 
conseguem. Acordam numa bela manh e seus filhos j no esto mais ali. As idas ao zoolgico, ao cinema, aos museus, que nunca aconteceram, os momentos que pretenderam 
compartilhar; porm os telefones estavam sempre tocando, os clientes aguardando. Os grandes acontecimentos...
        Isabella no queria que isso acontecesse com ela. Quando o filho era apenas um beb no tinha importado tanto. Mas agora era diferente. Ele completara quatro 
anos e j sabia quando no a via por mais de duas horas em trs dias, sabia quando ela no estava l para apanh-lo na escola ou quando ela e Amadeo passavam seis 
semanas loucas, fazendo planos para a prxima coleo, para a linha a ser exportada para os Estados Unidos.
        - Voc parece infeliz, meu amor. Quer que eu a demita?
         Para assombro de Amadeo e dela prpria, Isabella assentira com a cabea. 
        - Srio mesmo? 
        Havia uma expresso de choque nos olhos dele.
        - Em parte. Deve haver um meio para que eu possa trabalhar parte do tempo e estar aqui um pouco mais tambm. 
        Olhara para o esplendor de sua villa, pensando no filho que no vira o dia todo.
        - Vamos pensar a respeito, Bellezza. Acharemos uma soluo.
        E acharam. Era perfeita. Durante os ltimos oito meses ela fora a consultora-chefe das criaes da Casa de San Gregorio. Tomara as mesmas decises de sempre, 
e em cada detalhe havia a presena de seu dedo. O toque inconfundvel de Isabella ainda podia ser distinguido em cada criao que a San Gregrio vendia. Mas ela 
prpria retirara-se do mecanismo do negcio, dos problemas espinhosos do cotidiano. O que significou sobrecarregar ainda mais o estimado diretor, Bernardo Franco, 
e contratar outro designer para encarregar-se dos passos intermedirios entre as idias de Isabella e o produto final. 
        Mas tudo estava funcionando perfeitamente. Agora Isabella tinha um horrio flexvel. Tomava parte nas reunies principais. Estudava tudo cuidadosamente com 
Amadeo durante um dia exaustivo por semana. Dava uma passada inesperada na casa sempre que tinha um compromisso iminente, mas, pela primeira vez, sentia que era 
de fato a me de Alessandro tambm. Eles almoavam no jardim. Pela primeira vez levou-o ao jardim de infncia. Levava-o ao parque e ensinava-lhe versos infantis 
em ingls e canezinhas jocosas em francs. Ria com ele, corria com ele e o empurrava no balano. Isabella tinha o melhor dos mundos. Um trabalho, um marido e um 
filho. E nunca se sentira mais feliz. 
        Demonstrava isso na luz que danava em seus olhos, na maneira como se movia, ria e se apresentava quando Amadeo vinha para casa. Demonstrava nas coisas que 
dizia aos amigos ao deleit-los com as histrias das ltimas realizaes de Alessandro: "E Deus do cu, como aquele menino desenha!" Todos achavam divertido. Principalmente 
Amadeo, que desejava v-la feliz. Ele ainda a adorava, aps dez anos de casados. Na verdade, mais do que nunca. E a casa prosperava, apesar da ligeira mudana na 
administrao. Isabella no conseguia ausentar-se de todo. Simplesmente no era seu estilo. Sua presena fazia-se sentir em toda parte. O som de sua voz assemelhava-se 
ao eco de uma campainha de cristal perfeito.
        A limousine parou no meio-fio enquanto Isabella lanava um ltimo olhar para as pessoas na rua. Gostava do que as mulheres estavam vestindo naquele ano. 
Sensual, mais feminino. Reminiscncias das colees dos anos anteriores do av. Um look que a agradava muito. Ela prpria desceu do carro em um vestido de l cor 
de marfim, cujo drapeado perfeito era formado por um mar de pequeninas pregas impecavelmente executadas. Os trs longos fios de enormes prolas pendiam-lhe do pescoo 
precisamente na direo certa do decote suavemente ondulado, e sobre o brao trazia uma jaqueta curta de vison cor de chocolate, um abrigo de pele criado especialmente 
para ela em Paris pelo peleteiro empregado anteriormente por Parei. 
        Mas Isabella estava apressada demais para vesti-lo. Queria discutir com Amadeo alguns detalhes de ltima hora da linha americana, antes de ir ao encontro 
de uma amiga para o almoo. Consultou o relgio de ouro sem mostrador em seu pulso, onde uma safira e um diamante flutuavam misteriosamente em sua superfcie, indicando 
aos conhecedores apenas a hora exata. Eram 10:22.
         - Obrigada, Enzo. Sairei cinco para o meio-dia. 
         Segurando a porta com uma das mos, ele tocou no bon com a outra e sorriu. Era fcil trabalhar para ela atualmente, e ele gostava dos freqentes passeios 
de carro com o menino. Ele o fazia lembrar-se de seus prprios netos, sete dos quais viviam em Bolonha e os outros cinco em Veneza. Ele os visitava de vez em quando. 
Mas seu lar era Roma. Exatamente como era de Isabella, apesar de a me dela ser francesa e do ano que passara nos Estados Unidos. Roma fazia parte dela, nascera 
ali, tinha de viver ali, morreria ali. Ele sabia o que todo italiano sabia: que um romano no se dispunha a viver em nenhum outro lugar.
        Enquanto caminhava resoluta pela calada em direo  pesada porta preta na fachada antiga, ela lanou um olhar para a rua, como fazia sempre. Era um meio 
seguro de saber se Amadeo estava no escritrio. Tudo que precisava fazer era procurar a Ferrari prateada estacionada no meio-fio. O "torpedo prateado", como Isabella 
o chamava.
         E ningum tocava no carro, exceto ele. Todos o provocavam por causa disso, principalmente Isabella. Amadeo parecia um menino com um brinquedo. No admitia 
compartilh-lo. Ele prprio o dirigia, estacionava, mimava e brincava com ele. Tudo sozinho. At mesmo o porteiro da San Gregorio, trabalhando na firma h 42 anos, 
nunca tocara no carro. Isabella ria consigo ao aproximar-se da suntuosa porta preta. s vezes, Amadeo parecia um menino; o que a fazia estim-lo ainda mais.
         - Buon giorno, signora Isabella. 
        Apenas Ciano, o porteiro idoso de libr preta e cinza, a chamava assim.
         - Ciao, Ciano, come sta? - Isabella esboou-lhe um largo sorriso, exibindo dentes to lindos como suas famosas prolas. - Va bne?
         - Benissimo. 
        O tom rico de bartono chegou at ela numa onda musical, enquanto ele abria-lhe a porta com uma inclinao de cabea.
        A porta fechou-se com estrondo. Isabella permaneceu na entrada por um momento, olhando para todos os lados. A Casa era o seu lar tanto quanto a villa na 
Via Appia Antica. Os pisos de mrmore rosado perfeito, os veludos verdes e as sedas rosadas, o candelabro de cristal que trouxera da Parel, de Paris, aps longas 
negociaes com seu proprietrio americano. O av mandara faz-lo em Viena e era de um valor praticamente incalculvel. Uma escada de mrmore majestosa levava ao 
salo principal no andar superior. No terceiro e quarto andares havia escritrios decorados nos mesmos tons cinza e rosa, as cores das ptalas das rosas e da cinza 
da lareira. Uma cor que agradava aos olhos, tanto quanto os quadros escolhidos cuidadosamente, os espelhos antigos, as luminrias elegantes, os sofazinhos Lus XVI 
para duas pessoas, aconchegados em reentrncias aqui e ali, onde as clientes podiam descansar e conversar. 
        Criadas em uniformes cinzentos moviam-se apressadamente por toda parte, fazendo farfalhar os aventais brancos engomados enquanto levavam ch e sanduches 
s salas privativas nos andares superiores, onde as clientes, em p, suportavam rduas provas, imaginando como as modelos sobreviviam depois de desfiles inteiros. 
        Isabella ficou ainda mais um pouco, como geralmente ficava, examinando seu domnio. Entrou discretamente no elevador privativo, apertando o boto para o 
quarto andar, e comeou a revisar mentalmente o trabalho matutino. Havia apenas algumas coisas para providenciar; para sua satisfao, no dia anterior acertara a 
maioria dos negcios atuais. Precisou resolver com Gabriela, a designer chief, detalhes nas criaes e discutir problemas administrativos com Bernardo e Amadeo. 
O trabalho daquele dia no lhe tomaria muito tempo. 
        As mulheres eram loucas pelas criaes da San Gregorio. Muitas eram mulheres como a prpria Isabella - espetaculares, sensuais, soberbas.
        Isabella caminhou silenciosamente em direo s portas duplas do final do longo corredor e calcou o trinco de metal extremamente polido. Surgiu como uma 
viso diante da mesa da secretria.
         - Signora! - Exclamou a jovem, espantada, ao erguer os olhos.
Ningum sabia exatamente quando Isabella apareceria ou o que teria em mente. Mas Isabella apenas assentiu com a cabea, sorriu e caminhou imediatamente para o escritrio 
de Amadeo. Sabia que estava ali, pois vira seu carro. E, ao contrrio de Isabella, ele raramente perambulava pelos outros andares. Amadeo e Bernardo costumavam ficar 
em seus escritrios nos andares superiores. Era Isabella quem fazia a ronda, quem percorria os departamentos, quem aparecia de repente na sala dos manequins, nos 
corredores onde se localizavam as salas de provas privativas, no salo principal com a longa passadeira sedosa cinza, que precisava ser substituda com freqncia. 
O que significava uma fonte de constante irritao para Bernardo, sempre prtico na direo da casa. Era sobre os seus ombros que caa o oramento. 
        Como presidente e chefe do departamento financeiro, Amadeo planejava o oramento, mas Bernardo tinha que conviver com ele, providenciando para que os tecidos, 
as contas, as plumas e os maravilhosos e mnimos ornamentos se restringissem aos limites estabelecidos por Amadeo. E graas a Bernardo, eles sempre subsistiram dentro 
desse oramento. 
        Graas a Bernardo, a casa fora dirigida cuidadosamente e, s vezes com brilho, durante anos. Graas aos investimentos e  perspiccia financeira de Amadeo 
haviam prosperado. Graas ao gnio criativo de Isabella se desenvolveram, bem como conquistaram a glria. 
        Mas era Bernardo quem servia de ponte para o mundo da criao e das finanas. Era quem calculava, especulava, avaliava e ponderava o que daria certo e o 
que no daria, o que lhes custaria o sucesso da linha ou se o empreendimento valeria a pena. E, at agora, jamais se enganara. Bernardo tinha por instinto e o talento 
que fazia Isabella pensar em um matador: orgulhoso, ereto, ousado, fazendo cintilar o cetim vermelho diante do touro e sempre vencendo no final. Ela amava seu sistema 
e amava-o. Mas no da maneira como Bernardo a amava. Ele sempre a amara. Sempre. Desde o primeiro dia em que a conhecera.
        Bernardo e Amadeo eram amigos h anos e trabalhavam juntos na Casa de San Gregorio antes de Isabella aparecer em cena. Fora Bernardo quem a descobrira em 
seu minsculo atelier em Roma. Fora ele quem insistira com Amadeo para que fosse ver o trabalho dela, conhec-la, falar com ela e talvez at convenc-la a trabalhar 
para eles. Isabella j era notvel ento, de uma beleza sensacional e incrivelmente jovem. Aos 22 anos, era uma mulher extraordinria e um gnio em desenho de moda.
        Naquele dia chegaram ao seu pequeno ateli e a encontraram usando uma camisa vermelha de seda e uma saia branca de linho, sandlias douradas e praticamente 
mais nada. Parecia um pequeno diamante preso num carto do Dia dos Namorados. O calor estivera insuportvel, mas piorou momentos depois, quando os olhos de Isabella 
encontraram os de Amadeo pela primeira vez. S ento Bernardo percebera o quanto tambm se interessava por ela e que j era tarde demais. Amadeo e Isabella apaixonaram-se 
instantaneamente, e Bernardo jamais se manifestara. Jamais. Era tarde e ele nunca teria cometido uma traio com o amigo. Amadeo significava muito para ele; durante 
anos fora como um irmo, e Amadeo no era o tipo de homem que se podia trair. Era de grande valor, para todos, amado por todos. Era a pessoa que todos gostariam 
de ser, no o homem que algum desejaria magoar. Portanto, Bernardo no o magoou. 
        Tambm sabia que isso lhe poupava a dor de descobrir que ela no o amava. Sabia o quanto Isabella amava Amadeo. Era a maior paixo de sua vida. Na verdade, 
Amadeo significava mais do que seu trabalho, o que, no caso de Isabella, era de fato notvel. Bernardo no podia competir com isso. Assim, conservou seu orgulho, 
seu segredo, seu amor e tornou o negcio ainda melhor; aprendeu a am-la de outra maneira, a amar ambos com uma paixo s dele, e uma espcie de pureza que chegava 
a queim-lo intimamente como se fosse uma pureza incandescente. Isso criava enorme tenso entre ele e Isabella, mas valia a pena. O resultado de seus embates, da 
fria que sentiam e de suas guerras era sempre esplndido: mulheres de beleza extica que desfilavam em suas passarelas... Mulheres que, de vez em quando, desfilavam 
nos braos de Bernardo.
        Mas ele tinha direito a isso. Tinha direito a algo mais do que seu trabalho e seu amor por Amadeo e Isabella. Mantinha acesa uma espcie de luz brilhante 
s sua, e as mulheres que freqentavam a casa, modelos ou clientes, sentiam-se atradas por ele, por algo que jamais compreenderam realmente, algo que jamais revelaram 
por completo, algo em que o prprio Bernardo, conscientemente, j no pensava a respeito. Era apenas uma parte dele, como seu infalvel senso de estilo ou seu respeito 
para com duas pessoas com quem trabalhava que, a seu prprio modo, tornaram-se uma s. Compreendia perfeitamente o que eram. E sabia que com ele e Isabella jamais 
aconteceria o mesmo. Teriam continuado dois, sempre dois, sempre apaixonados, sempre em p de guerra; mesmo se ela soubesse de seus sentimentos, continuariam se 
encontrando como constelaes em coliso, explodindo numa chuva de cometas atravs dos cus do seu mundo. 
        Mas com Isabella e Amadeo no era assim. Era gentil, terno, forte. Estavam ligados como uma alma nica. Ver Isabella olhar nos olhos de Amadeo era v-la 
desaparecer neles, mergulhar numa parte mais profunda de si mesma, v-la crescer e voar com suas asas abertas de par em par. Amadeo e Isabella eram como duas guias 
pairando em seu cu particular, as asas em perfeita harmonia, seu prprio ser um s, uma total unio. Era algo de que Bernardo j no se ressentia mais. Era impossvel 
ressentir-se com um casal como aquele, lindo de se ver. 
        E agora ele se achava mais  vontade com o que parecia um relacionamento profissional ardente com uma dama que amava de longe. Tinha sua prpria vida. E 
compartilhava algo especial com eles. Sempre compartilharia. Formavam um trio indestrutvel, inseparvel. Nada conseguiria intervir entre eles. Os trs sabiam disso.
        Enquanto parou por um momento diante da porta do escritrio de Amadeo, Isabella sorriu. No podia observar aquela porta sem pensar na primeira vez em que 
a vira, bem como os corredores. Eram diferentes na poca. Bonitos, mas no possuam a extrema elegncia atual. Ela os tornara algo mais, como Amadeo a transformara 
em algo mais. Ela crescia em sua presena. Sentia-se infinitamente valiosa e totalmente segura. Segura o suficiente para ser o que era, para fazer o que queria, 
para ousar, para mover-se num mundo absolutamente ilimitado. 
        Amadeo a fazia sentir-se ilimitada, mostrara-lhe o que ela era, que podia ser tudo que quisesse e fazer tudo que desejasse, e Isabella fez tudo com o poder 
do amor dele.
        Isabella bateu suavemente na porta a que poucas pessoas tinham acesso. A porta levava direto ao gabinete particular do marido. Uma porta que apenas ela e 
Bernardo usavam. A resposta veio rpida. Ela moveu o trinco e entrou.
        Por um momento nada disseram, apenas se olharam enquanto a alma de Isabella era dominada pela mesma emoo que sentira ao v-lo pela primeira vez. Amadeo 
retribuiu com um sorriso. Ele tambm sentia o mesmo. Em seus olhos havia um prazer irrestrito, uma espcie de adorao gentil que sempre a atraa para os seus braos 
como m. Era essa gentileza nele que Isabella amava tanto, essa bondade, essa ternura que o marido demonstrava sempre. O fogo existente nele era diferente do de 
Isabella. O dele era uma chama sagrada que permaneceria acesa eternamente, dominante, em prol dos sofredores e oprimidos, uma luz altiva, um guia para todos. O dela 
era a tocha que danava no cu noturno, to brilhante e linda que fazia algum quase recear aproximar-se. Mas ningum receava aproximar-se de Amadeo. Ele era extremamente 
acolhedor. Todos queriam ficar ao seu lado, embora apenas Isabella ficasse de fato. E tambm Bernardo,  claro, mas de modo diferente.
         - Allora, Isabellezza. O que a traz aqui hoje? Pensei que tivssemos acertado tudo ontem. 
        Ele recostou-se na cadeira, estendeu a mo e Isabella pegou-a.
         - Acertamos mais ou menos. Alm disso, tive algumas novas idias.
         - Algumas... 
        Ele riu diante da palavra. "Algumas" para Isabella significavam 35 ou 47 ou 103. Isabella jamais tinha "algumas" do que quer que fosse: nem algumas idias, 
nem algumas jias, nem algumas roupas. Amadeo esboou um largo sorriso quando ela inclinou-se um pouco para beij-lo no rosto e estendeu a mo para tocar na dela.
         - Voc est linda hoje. 
         O brilho em seus olhos banhou-a como um raio de sol.
         - Mais do que pela manh? 
        Ambos riram. Ela havia passado um novo creme no rosto, o cabelo estava preso no alto da cabea, usava uma roupa caseira confortvel e os chinelos dele.
        Mas Amadeo apenas sacudiu a cabea.
         - No. Acho que gostei mais de voc como estava esta manh. Mas... tambm gosto desse vestido.  um dos nossos? 
         - Claro. Eu usaria alguma coisa que no fosse nossa?  
        Por um momento, os olhos escuros faiscaram em direo aos olhos verdes.
         - Parece uma das criaes do seu av. 
        Ele a examinava com cuidado, estreitando os olhos. Tinha um modo de ver e saber de tudo.
         - Voc  muito esperto. Roubei-o da coleo dele de 1935. No totalmente,  claro. Apenas um pouco. - Ofereceu-lhe um largo sorriso. - E as pregas.
        Divertido, ele retribuiu o sorriso e curvou-se para a frente a fim de dar-lhe um beijo rpido.
         - Esse pouco  excelente.
         - Acho timo no trabalharmos mais juntos tempo integral, pois jamais conseguiramos fazer alguma coisa. s vezes pergunto a mim mesma como pudemos um dia.
         Ela recostou-se na cadeira, admirando-o. Impossvel no faz-lo. Amadeo era o deus grego de uma centena de quadros da Uffizi em Florena, a esttua de todo 
rapaz romano de ombros largos, magro, gracioso, elegante; contudo, havia mais. Os olhos verdes sagazes, maliciosos, inteligentes, alegres. Eram rpidos e seguros, 
e apesar da beleza loura florentina dos genes de Amadeo, havia energia naqueles olhos, bem como poder e autoridade. Ele era o chefe da Casa de San Gregorio, fora 
o herdeiro de um trono positivamente importante, e agora usava bem o manto de sua posio. Harmonizava-se com ele. Amadeo parecia o chefe de um imprio, ou talvez 
de um enorme banco. Seu terno de listras finas, elegantemente talhado, acentuava o porte alto e esguio, contudo os ombros largos eram autnticos. 
        Tudo em Amadeo era autntico. No havia nada de falso ou imperfeito, nada emprestado, nada roubado, nada irreal. A elegncia, a beleza aristocrtica, o calor 
do seu olhar, a inteligncia rpida, o esprito aguado e o interesse que tinha por todos que o cercavam. E a paixo pela mulher.
         - A propsito, o que est fazendo aqui hoje, to bem vestida? Exceto compartilhar "algumas" idias comigo,  claro. 
        Sorriu outra vez quando seus olhos se encontraram. Isabella tambm sorriu.
         - Tenho um almoo com algumas senhoras.
         - Parece terrvel. Ser que um encontro comigo no Excelsior no a atrairia mais?
         - Talvez, mas tenho um compromisso com outro homem depois do almoo. 
         Ela disse isso com presuno, um riso bailando nos olhos, bem como nos dele.
         - Meu rival, Bellezza? 
        Mas ele no tinha razo para se preocupar e sabia disso.
         - Seu filho.
         - Nesse caso, nada de Excelsior.  uma pena. 
         - Da prxima vez.
         - Certo. 
        Muito satisfeito, ele estendeu as longas pernas, como um gato preguioso ao sol.
         - Muito bem. Silncio agora. Temos muito trabalho a fazer.
         - Ecco. Essa  a mulher com quem casei. Terna, romntica, gentil.
        Isabella fez uma daquelas caretas horrveis do filho e ambos riram, ao mesmo tempo em que ela tirava da bolsa um mao de anotaes.  luz do sol que banhava 
seu escritrio, Amadeo viu o fulgor do grande diamante lapidado do anel que lhe dera naquele vero, como presente pelo dcimo aniversrio de casamento. Dez quilates, 
 claro. Que mais? Dez quilates para dez anos.
         - Esse anel  lindo.
        Ela assentiu, muito feliz, e olhou para a jia. Ficava lindo em sua mo longa e graciosa. Tudo caa bem em Isabella. Principalmente diamantes de dez quilates.
         - E  mesmo. Mas voc  mais. A propsito, eu te amo. 
        Sua inteno foi ser insolente, mas ambos sabiam que no era.
         - Tambm te amo.
        Compartilharam um ltimo sorriso e depois se lanaram ao trabalho. Agora era melhor. Melhor quando no ficavam juntos o dia todo. No final da tarde Amadeo 
sempre estava faminto por ela e ansioso para chegar em casa. E agora havia algo especial em seus encontros, em suas noites, em seus almoos, no trato cotidiano. 
Ela voltara a tornar-se misteriosa para ele. Via-se imaginando o que ela andaria fazendo o dia todo, onde estava, o que usava, enquanto a lembrana do seu perfume 
dominava-lhe a mente.
         - Voc no acha que a linha americana est sbria demais? Fiquei pensando nela a noite passada. 
        Olhou-o de soslaio, mas sem v-lo, pois s tinha em mente os esboos que ela e Gabriela examinaram detalhadamente no dia anterior.
         - No acho. E Bernardo ficou entusiasmado.
         - Merda! - Ela voltou os olhos para Amadeo com genuna preocupao. - Ento estou certa.
        Amadeo riu, mas ela no.
         - Estou falando srio. Quero mudar quatro dos tecidos e acrescentar uma ou duas peas da linha francesa  linha americana. Ento dar certo. 
        Parecia segura, como sempre. E raramente se enganava. Essa certeza absoluta fora responsvel pelas recompensas que conquistaram durante anos no mundo da 
moda. 
         - Quero introduzir aqueles em roxo, os vermelhos e o casaco branco. Ento, ficar perfeito.
         - Resolva com Bernardo e avise Gabriela.
         - J fiz. Falei com Gabriela, quero dizer. E o novo sabonete de Bernardo para a linha masculina no est bom. Ficou no meu nariz a tarde toda.
         -Isso  ruim?
         - Pssimo. Um perfume feminino deve ficar com voc. O cheiro de um homem s deve chegar at voc no momento em que se aproximar dele, deixando apenas uma 
lembrana. No uma dor de cabea.
         - Bernardo vai vibrar.
        Por um momento deu a impresso de cansado. s vezes as brigas de Isabella e Bernardo o deixavam esgotado. Embora fossem essenciais para os negcios. Sem 
o feroz empenho de Isabella e o apoio incondicional de Bernardo, a Casa de San Gregorio teria sido muito diferente. Mas assim como o eixo que impede duas rodas de 
se soltarem em direes diferentes, Amadeo sentia que a tenso sobre ele s vezes era maior do que gostaria que fosse. Mas, como um trio, formavam um time miraculoso, 
e os trs sabiam disso. E no final, de alguma forma, sempre conseguiam permanecer amigos. 
        Ele jamais conseguiu entender. Com Isabella vociferando e xingando Bernardo com nomes que ele jamais sonhara que ela soubesse, e Bernardo parecendo que acabaria 
cometendo assassinato, horas depois ia encontr-los em uma das salas de provas, bebendo champanha e esvaziando um prato cheio de sanduches, como duas crianas usufruindo 
dos restos de um ch aps a retirada dos convidados adultos. Ele jamais poderia entender; apenas ficava grato porque tudo se resolvera daquela maneira. Agora, com 
um suspiro, consultou o relgio. 
         - Quer que o chame para vir aqui? 
        Ele no precisava dar recados por Isabella. Ela mesma os entregava sempre. Diretamente. Sem rodeios.
         - Seria prefervel agora. Preciso estar no restaurante ao meio-dia. 
        Consultou o relgio de mostrador ilegvel. Tambm presente dele.
         - timo! O almoo com as senhoras  mais importante. 
        Mas havia divertimento em seus olhos. Sabia que, na vida de Isabella, isso jamais seria verdade. Sem contar ele prprio e Alessandro, era para o trabalho 
que Isabella vivia, o que a mantinha respirando, estimulada e a mil por hora.
        Amadeo pegou no telefone e falou brevemente com a secretria. Ela chamaria o sr. Franco agora mesmo. O que realmente fez, e ele veio imediatamente, como 
sempre. Bernardo entrou na sala em largas passadas, como uma exploso, e de repente Amadeo sentiu Isabella tensa. Ela j estava se preparando para a batalha.
         - Oi, Bernardo.
        Isabella lanou-lhe um sorriso despreocupado quando ele entrou no escritrio com um terno escuro escolhido entre uns cem que possua. Para Isabella todos 
pareciam exatamente o mesmo. Usava o mesmo relgio de ouro, de bolso, as mesmas camisas brancas impecavelmente engomadas e gravatas geralmente escuras com minsculas 
pintinhas brancas. Ou, quando ele se sentia muito agressivo, pintinhas vermelhas. 
         - Adoro seu terno.
        Era o gracejo normal deles. Ela sempre lhe dizia que seus ternos eram excessivamente enfadonhos. Mas a simplicidade dos ternos fazia parte do seu estilo.
         - Ouam, vocs dois, no comecem hoje. No estou com disposio. 
        Amadeo olhou-os ameaadoramente, porm, como sempre, seus olhos riam mesmo quando seus lbios no.
         - Alm disso, ela tem um almoo dentro de quarenta minutos. Agora seus almoos so mais importantes.
         - Calcula-se. - Bernardo exibiu um pequeno sorriso forado e sentou-se. - Como est meu afilhado?
         - Alessandro est timo. As cortinas da sala de jantar, entretanto, no esto. 
        Amadeo comeou a esboar um largo sorriso enquanto Isabella contava a histria. Ele adorava a malcia do menino, o fogo em seus olhos escuros, to semelhante 
ao dos da me. - Enquanto eu estava aqui ontem, resolvendo os problemas para vocs - ela ergueu uma sobrancelha, aguardando que Bernardo engolisse a isca e ficou 
claramente desapontada por ele no engolir - ele pediu  minha manicure suas tesouras e "deu um jeito nelas", como ele prprio disse. Alessandro cortou cerca de 
um metro que, como me disse, ficava em seu caminho toda vez que dirigia seu caminho favorito ao longo da janela. Ele no conseguia ver o jardim. Agora pode ver 
o jardim. Na verdade, perfeitamente.
        Mas ela tambm ria, tal como Bernardo. Quando ele sorria daquela maneira, vinte dos seus 38 anos desligavam-se dele e Bernardo no era mais que um menino. 
Porm h muito que vinha trabalhando exaustivamente, e quando no estava se divertindo com as histrias de Alessandro, em geral aparentava austeridade. Grande parte 
da responsabilidade da Casa de San Gregorio repousava em seus ombros e muitas vezes isso se evidenciava. Sempre trabalhara com afinco e conscienciosamente, e tivera 
de pagar um preo por isso. Nunca se casou, no tinha filhos, sofria de muita solido, trabalhando at tarde da noite, logo cedo de manh, aos sbados, nos feriados 
e dias santificados e nos dias em que deveria ter estado em outro lugar, com outra pessoa. Mas vivia para o que fazia, suas responsabilidades ajustavam-se a ele 
como seus ternos escuros; faziam parte dele, como seu cabelo, quase to escuro como os de Isabella, e seus olhos, que eram da cor do cu do vero romano. Tinha o 
tipo de rosto pelo qual as modelos se deixavam seduzir. Mas, para Bernardo, elas pouco significavam. Divertiam-no por uma ou duas noites, no mais que isso.
         - Seu novo sabonete no est bom. 
        Como sempre, Isabella fez a comunicao de modo direto e Amadeo quase chegou a estremecer, esperando pela batalha.
        Bernardo continuava muito calmo. 
         - Por que no?
        - Me deu dor de cabea.  muito forte.
         - Se algum cortasse a cortina da minha sala de jantar pela metade, eu tambm ficaria com dor de cabea.
         - Estou falando srio. 
        Os olhos dela fixaram os dele, ameaadores.
         - Eu tambm. Todos os nossos testes mostraram que  perfeito. Ningum o achou forte demais.
         - Talvez estivessem muito resfriados e no o sentissem. 
        Bernardo revirou os olhos e refugiou-se mais na cadeira. 
         - Pelo amor de Deus, Isabella, acabei de lhes dizer para prosseguirem com a produo. O que quer que eu faa agora? 
         - Suspenda-a. Ele no est bom. Exatamente igual  colnia que, a princpio, no estava boa pelas mesmas razes.  
        Desta vez Amadeo fechou os olhos. Ela estivera certa sobre a colnia tambm, mas fora uma batalha que Bernardo perdera com desgosto. E fria. Ele e Isabella 
mal se falaram durante um ms.
        Os lbios de Bernardo estreitaram-se e ele enfiou as mos nos bolsos do colete.
         - O sabonete tem de ser forte. Voc usa com gua. No banho. Voc se enxgua. O perfume desaparece. 
        Ele fez a explicao atravs dos lbios apertados.
         - Capisco. J usei sabonete antes. O meu no me d dor de cabea. O seu sim. Quero que o mude.
         - Porra, Isabella! 
        Ele bateu com o punho fechado na mesa de Amadeo e olhou para ela, mas Isabella estava imvel. 
        Lanou um olhar vitorioso para ele.
         - Diga ao pessoal do laboratrio para fazer sero, e a nica ajuda que voc receber para a produo ser de uma ou duas semanas.
         - Ou meses. Sabe o que vai acontecer com os anncios que j publicamos? Ficaro perdidos.
         - Ficaro mais ainda se voc continuar com o produto errado. Confie em mim. Estou certa.
        Ela sorriu lentamente. 
        Durante um instante, Bernardo deu a impresso de que ia explodir.
         - Tem mais alguma surpresa desagradvel para mim esta manh?
         - No, s tenho algumas adies a fazer na linha americana. J falei com Gabriela a respeito. No apresentam nenhum problema.
         - Meu Deus, como no? Voc quer dizer que ser fcil? Isabella, no! 
        Mas, de sbito, ele sorria de novo. Bernardo possua enorme capacidade para a raiva e o perdo.
         - Voc me dar notcias sobre o sabonete? - Insistiu ela, sem rodeios.
         - Darei.
- timo. Ento tudo est resolvido e ainda tenho vinte minutos para o meu almoo. 
        Amadeo lanou-lhe um largo sorriso. Ela refestelou-se no brao da cadeira do marido e, gentilmente, passou-lhe a mo pelo rosto. Com o gesto, o diamante 
do anel captou a luz do sol e lanou-a numa chuva de reflexos coloridos na parede oposta. Ela notou que isso no escapou a Bernardo, devido ao seu olhar de sbita 
irritao, o que pareceu diverti-la. 
         - O que h, Nardo? Uma de suas namoradas o est fazendo passar por novos aborrecimentos?
         - Muito engraada. Acontece que fiquei preso  minha mesa a semana inteira. Estou comeando a me sentir o eunuco da Casa. 
        As sobrancelhas de Amadeo se uniram num sbito franzir da testa. Ficou preocupado se estariam fazendo Bernardo trabalhar demais, mas Isabella sabia que o 
repentino olhar de infortnio de Bernardo originava-se de uma outra coisa. Conhecia-o bem demais para acreditar que pudesse se importar com o fato de estar mais 
sobrecarregado de trabalho do que ela. E estava certa ao pensar que ele no se importava. Os trs viviam tremendamente sobrecarregados de trabalho e adoravam isso. 
Bernardo era apenas um pouquinho mais compulsivo que seus dois amigos. Agora, porm, parecia verdadeiramente perturbado ao desviar o olhar do grande diamante do 
anel de Isabella para o colar de prolas. 
         - Voc  louca, Isabella, por usar essas jias. - E depois, com um olhar significativo para Amadeo - Falei com voc na semana passada.
         - O que significa tudo isto? 
         Isabella olhava de um para outro, fingindo consternao; depois, seus olhos detiveram-se no rosto do marido.
         - Ele est tentando fazer com que voc receba de volta meu anel?
         - Mais ou menos. 
        De repente, Amadeo pareceu muito italiano ao dar de ombros. Mas Bernardo no estava gostando do jogo deles.
         - Sabem muitssimo bem que no  isso que eu quis dizer. Sabem o que aconteceu aos Belloggios na semana passada. Poderia acontecer o mesmo com vocs.
         - Seqestro? - Isabela parecia aturdida. - No seja ridculo, Nardo! Os irmos Belloggios eram os dois polticos mais importantes de Roma. Conheciam todo 
mundo e exerciam um poder extraordinrio. Os terroristas os odiavam como smbolos capitalistas.
         - Tambm sabiam que ambos valiam uma fabulosa fortuna. E suas esposas andam pela cidade parecendo anncios da Van Cleef. No acham que isso poderia ter 
alguma coisa a ver com o seqestro?
         - No acho. - Isabella parecia imperturbvel. Depois, tornou a olhar fixamente para Bernardo. - O que deu em voc? Por que de repente comea a se preocupar 
com isso? Est tendo problemas com a sua lcera outra vez? Ela sempre o deixa estranho.
         - Pare com isso, Isabela. No seja infantil. Esse foi o quarto seqestro importante deste ano e, ao contrrio do que parecem pensar, nem todos os seqestros 
ocorridos ultimamente na Europa so de carter poltico. Alguns acontecem apenas porque as pessoas so ricas e deixam que o mundo inteiro saiba.
         - Ah, ento voc pensa que fico andando por a fazendo propaganda do que tenho?  isso? Meu Deus, Bernardo, que coisa mais vulgar e incrvel!
         - - Mas  isso mesmo, no ? 
        De repente, seus olhos lanaram chispas, enquanto agarrava um jornal da mesa de Amadeo. Seus olhos fixaram-se nas pginas, que folheava rapidamente. Os outros 
dois o observavam. 
         - Sim, Isabela, terrivelmente vulgar. Estou contente porque voc no faria uma coisa to grosseira assim.
        A seguir, abriu o jornal com uma sacudida e mostrou uma grande fotografia de ambos entrando num suntuoso prdio pblico na noite anterior, uma festa para 
comemorar a abertura da temporada lrica. Isabela trajava um belssimo vestido de noite bege de moir, com um casaco combinando, debruado de luxuosa zibelina, que 
caa at seus ps como um manto. No pescoo e nos pulsos trazia fileiras de diamantes que cintilavam em unssono com a enorme pedra do anel.
         - Estou contente por voc ser to simples. - Depois olhou sinistramente para Amadeo. - Por vocs serem to simples. 
        O Rolls-Royce com motorista, que Amadeo s usava em ocasio de gala, achava-se visvel bem atrs deles, e os botezinhos da camisa sob o traje a rigor de 
Amadeo cintilavam tanto quanto os pequenos diamantes das orelhas de Isabella. Ambos olhavam estupidamente para a fotografia, enquanto Bernardo os fitava de modo 
acusador do lugar em que se achava.
- Voc sabe que no ramos os nicos na festa - replicou Isabella em voz baixa. 
        Comoveu-a o fato de Bernardo se importar, e o assunto no era de todo novo. Ele j o trouxera  baila antes, mas agora, com os Belloggios seqestrados e 
assassinados, parecia haver uma determinao obstinada em seu interesse. 
         - Querido, voc realmente no precisa se preocupar conosco.
         - Por qu? Acham que so to sagrados assim? Acham que ningum tocar em vocs? Se pensam assim nos tempos que correm, ento so malucos! Os dois! 
        Por um momento ele pareceu prximo s lgrimas. Conhecia um dos Belloggios e tinha ido ao enterro na semana anterior. Como insanos, os raptores haviam exigido 
quinze milhes de dlares e a liberdade de seis presos polticos. Mas a famlia no pudera aceitar tais exigncias e o governo tambm no demonstrara disposio. 
Os resultados tinham sido trgicos. Mas, embora Isabella e Amadeo parecessem compreensivos, permaneceram impassveis. Obviamente Bernardo estava vendo fantasmas.
        Isabella levantou-se devagar e caminhou at Bernardo. Estendeu os braos, abraou-o e sorriu.
         - Ns amamos voc. E voc se preocupa demais. 
        Amadeo estava de cenho franzido, mas sem preocupao por Bernardo, sem receio por ele.
         - Vocs no compreendem, no ? 
        Bernardo olhou-os com um desespero crescente.
        Mas desta vez foi Amadeo quem respondeu, enquanto Isabella sentava-se numa cadeira com um suspiro.
         - Compreendemos. Mas acho que no h tanto motivo para preocupao como imagina. Olhe para ns - ele apontou humildemente para Isabella e para si mesmo 
- no somos ningum. Apenas comerciantes de vestidos. O que algum pode querer de ns?
         - Dinheiro. E quanto a Alessandro? E se o pegarem? 
        Por um instante Amadeo quase estremeceu. Bernardo marcara um tento.
         - Isso seria diferente. Mas ele nunca fica sozinho, Bernardo. Sabe disso. A villa  fechada. Ningum conseguiria entrar. No precisa ficar to preocupado. 
Ele est a salvo e ns estamos a salvo.
         - Engana-se. Ningum tem mais segurana. E enquanto vocs dois ficam badalando desta maneira - com expresso infeliz, apontou novamente para a foto do jornal 
- esto procurando desgraa. Quando vi isto pela manh, minha vontade foi dar um pontap em vocs.
        Amadeo e Isabella trocaram um rpido olhar, e Bernardo se virou para o outro lado. Eles no compreendiam. Achavam que ele estava doido. Mas os loucos eram 
eles. Ingnuos, simplrios e estpidos. Bernardo queria gritar com eles, mas sabia que seria intil. Comerciantes de vestidos...  A maior Casa de alta-costura da 
Europa, uma das maiores fortunas de Roma, duas pessoas de beleza espetacular, um filho vulnervel, uma mulher coberta de jias... Comerciantes de vestidos. Olhou 
para um, depois para o outro, sacudiu a cabea e encaminhou-se para a porta.
         - Vou providenciar a respeito do sabonete, Isabella. Mas faam-me um favor, os dois. - Parou por um momento, parecendo angustiado. - Pensem no que eu disse.
         - Pensaremos - prometeu Amadeo suavemente, enquanto Bernardo fechava a porta. E, ento, olhou para a mulher. - Sabe bem que ele pode estar certo. Talvez 
devssemos ser mais cuidadosos em relao a voc e Alessandro.
         - E quanto a voc?
         - Dificilmente serei objeto de grande interesse. - Sorriu. - E no fico circulando em diamantes e peles.
        Ela tambm sorriu por um instante; depois ficou amuada. 
         - Voc no pode tomar meu anel de volta.
         - Nem pretendo. 
        Lanou-lhe um olhar carinhoso. 
         - Nunca? 
        Ela era uma criana petulante, sentada em seu colo, e ele esboou um largo sorriso.
        - Jamais. Prometo.  seu. E eu sou seu. Para sempre. 
        Ento a beijou e ela sentiu o mesmo fervor brotar dentro dela, o mesmo ardor que ele conseguira despertar desde que se conheceram. Passou os braos ao redor 
do pescoo dele e seus lbios pousaram exigentes sobre os do marido.
         - Amo voc, carissimo... mais do que qualquer coisa neste mundo...
         Beijaram-se de novo e ela sentiu lgrimas brotarem em seus olhos quando finalmente se separaram. Isso acontecia s vezes. Ela ficava to feliz que sentia 
vontade de chorar. Tinham tanta coisa em comum, uma histria frtil, muitas vitrias; no apenas os trofus e a fama, mas tambm as lembranas ternas, o nascimento 
do filho, os dias que passaram sozinhos numa ilha grega cinco anos atrs, quando sentiram que o trabalho se tornara de repente demasiado para eles; fora ento que 
Alessandro tinha sido concebido. Mil momentos projetaram-se em sua mente e, mais uma vez, tornaram Amadeo infinitamente precioso para ela.
         - Isabellezza... - Ele olhou-a, e seus olhos, de um verde profundo, pareceram sorrir. - Voc tornou minha vida perfeita. J lhe disse isso ultimamente?
         - Voc fez o mesmo comigo - respondeu ela, sorrindo. 
         - Sabe o que eu gostaria de fazer?
         - O qu? 
         Fosse o que fosse, eles o fariam. No havia nada que ele lhe negasse. Talvez outros pudessem dizer que ela era mimada, tratada com indulgncia pelo marido. 
Mas no era. Ela tambm o mimava. Era algo que faziam mutuamente. A reciprocidade de um amor generoso que ambos desfrutavam. 
         - Gostaria de ir  Grcia outra vez. 
        As palavras de advertncia de Bernardo j estavam esquecidas.
         - Quando? 
        Ele tornou a sorrir. Tambm gostaria de ir. Tinha sido uma das mais belas pocas de sua vida.
         - Na primavera?
        Ela ergueu os olhos para o marido e ele achou-a irresistivelmente sensual.
         - Vamos fazer outro beb?
        Era algo em que ele estivera pensando durante algum tempo. Esta parecia uma oportunidade tima. Antes de Alessandro, eles apenas desejavam um filho. Mas 
ele representava tal alegria que, ultimamente, Amadeo estar pensando em abordar o assunto com Isabella. 
         - Na Grcia? - Os olhos escuros de Isabella arregalaram-se e seus lbios pareciam apetitosos e carnudos quando ele curvou-se para beij-la. Depois, ela 
sorriu. - Sabe que no precisamos esperar at chegarmos  Grcia. As pessoas fazem bebs em Roma o tempo todo.
         - Fazem? - Sussurrou ele em seu pescoo. - Ter de me mostrar como.
         - Ecco, tesoro. - E, ento, de sbito, ela soltou uma gargalhada e consultou o relgio. - Mas s depois do almoo. Estou atrasada.
         - Que pena. Talvez fosse prefervel voc no ir. Poderamos ir para casa e...
         - Mais tarde. 
        E ento ela o beijou mais uma vez e caminhou devagar at a porta, virando-se por um instante com a cabea inclinada para o lado, enquanto agarrava a maaneta. 
Olhou-o por cima do ombro, com uma indagao: 
         - Estava falando srio?
         - A respeito de voc no comparecer ao almoo? - Divertido, ele sorriu.
        Mas ela sacudiu a cabea e riu.
         - Almoo no, fera devassa. Quero dizer sobre o beb. 
        Ela pronunciou a ltima sentena muito gentilmente, como se a idia tambm significasse algo para ela.
        Mas Amadeo assentiu, sem desviar o olhar.
         - Sim, eu falava srio. O que acha, Bellezza? 
        Ela lanou-lhe um sorriso misterioso da porta.
         - Acho que devemos considerar. 
        Depois, com um beijo, ela partiu e Amadeo continuou olhando para a porta. Queria dizer-lhe mais uma vez que a amava. Mas isso teria que esperar at a noite. 
Tambm estava surpreso com o que acabara de dizer sobre outro beb. Tinha pensado a respeito, mas ainda no havia expressado seu pensamento. Agora, de repente, sabia 
que pretendia isso. E no precisava interferir na carreira dela. 
        Alessandro no interferiu, e ambos tinham muito a dar  criana. Na verdade, quanto mais pensava no assunto, mais o apreciava. Voltou-se para a escrivaninha 
e apanhou uma folha de papel com um sorriso.
        Era quase uma hora da tarde quando Amadeo finalmente se levantou. Espreguiou-se. Estava satisfeito com os clculos que andara fazendo. Os negcios americanos 
que tinham feito naquele outono iam render uma respeitvel soma. Muito salutar, realmente. Ele estava a ponto de oferecer a si mesmo um almoo solitrio de congratulaes 
quando ouviu uma leve batida na porta.
        - Si? 
        Parecia surpreso. Em geral a secretria usava o interfone, mas provavelmente j devia ter sado para o almoo.
        Virou-se para a porta e viu uma das subsecretrias meter timidamente a cabea pela porta entreaberta.
        - Sinto muito, senhor, mas... 
        Ela sorriu. Amadeo era de uma beleza to incrvel que a moa nunca sabia bem o que dizer. De qualquer modo, dificilmente tinha de falar com ele.
        - Sim? - Ele retribuiu o sorriso. - H alguma coisa que posso fazer?
        - H dois homens aqui que desejam v-lo, senhor. 
        A voz da jovem foi sumindo aos poucos, enquanto um rubor subia-lhe ao rosto.
        - Agora? - Ele lanou um olhar para a agenda aberta sobre a mesa. No havia nada anotado para antes das trs. - Quem so?
        - Eles...  sobre seu carro. O... a Ferrari.
        - Meu carro? - Ele pareceu surpreso e confuso. - O que h com ele?
        - Eles... eles disseram que houve... um acidente. 
        Ela aguardou uma exploso, mas nada aconteceu. Ele parecia perturbado, mas no zangado.
        - Algum se feriu?
        - Acho que no. Mas eles esto aqui... no escritrio da srta. Alzini, senhor.
        Ele assentiu gentilmente com a cabea e passou por ela ao dirigir-se para o outro escritrio. Os dois homens pareciam constrangidos, embaraados. Estavam 
bem arrumados, mas suas roupas eram simples, possuam mos grandes e morenas e tinham faces coradas; Amadeo ainda no estava certo se isso se devia  mortificao 
ou ao sol. E era evidente que de modo algum estavam acostumados com um ambiente daqueles. O mais baixo parecia afligir-se com o simples fato de pisar no tapete, 
enquanto o outro demonstrava claramente desejar que o cho o tragasse. Talvez um aougueiro, talvez um padeiro, trabalhadores braais. E quando falaram suas vozes 
soaram speras, porm temerosas, respeitosas. Estavam consternados com o que tinha acontecido. Ficaram fora de si ao constatarem que o carro era dele.
        - O que aconteceu? 
        Amadeo ainda parecia confuso, mas sua voz era gentil e os olhos bondosos; e se sentia alguma consternao por causa do carro, ocultava muitssimo bem.
        - Estvamos dirigindo; o trnsito intenso, doutor. Como sabe,  hora do almoo. - Amadeo assentiu paciente com a cabea enquanto ouvia o relato. - Uma mulher 
e uma menina corriam pelo meio da rua; desviamos para no peg-las, e... - O homem mais baixo corou ainda mais. - ...mas batemos no seu carro, em vez de peg-las. 
No foi demais, mas amassou um pouco. Podemos consertar. Meu irmo tem uma oficina, ele trabalha bem. O senhor ficar satisfeito. E ns pagaremos. Tudo. Pagaremos 
tudo.
        -  claro que no! Executaremos o servio com as nossas companhias de seguro. O estrago foi muito grande? - Procurou no demonstrar a infelicidade que sentia.
        - Ma... Lamentamos muitssimo. Por coisa alguma deste mundo teramos batido no carro do doutor. Um Fiat, um carro estrangeiro, qualquer coisa, mas nunca 
um belo carro como o seu. 
        O homem mais alto torcia as mos e, finalmente, Amadeo chegou at a sorrir. Eles eram to absurdos, parados ali, no escritrio de sua secretria, provavelmente 
mais arrasados do que seu carro. Viu-se tendo de reprimir uma exploso de gargalhadas nervosas e ficou de repente satisfeito por Isabella no estar ali para encar-lo 
maliciosamente, com seu olhar srio e ao mesmo tempo de zombaria.
        - No importa. Venham, vamos dar uma olhada. 
        Conduziu-os at o pequeno elevador privativo, introduziu a prpria chave e ficou parado junto com eles, enquanto desciam para o trreo, os dois homens de 
cabeas abaixadas, num gesto de humildade, e Amadeo numa tentativa de envolv-los numa brincadeira comum. 
        At Ciano tinha ido almoar quando Amadeo saiu do prdio e lanou um olhar pela rua  procura do carro. Conseguiu ver o carro deles ainda estacionado em 
fila dupla, ao lado do seu. Era um carro grande, deselegante, antiquado e, na verdade, devido ao seu evidente peso, talvez pudesse ter causado um srio dano. Com 
uma expresso preocupada que tentava ocultar, foi subindo a rua em largas passadas, os dois homens caminhando nervosamente atrs dele, sem dvida aterrorizados com 
o que ele iria ver. Quando se aproximou do carro, caminhando pela calada, Amadeo notou que uma terceira pessoa aguardava no Fiat antiquado, com um ar infeliz ao 
ver Amadeo chegando mais perto. Inclinou a cabea num breve cumprimento.
        Amadeo acercou-se do seu prprio carro a fim de examinar o lado esquerdo danificado. Seus olhos percorreram devagar o lado afetado  medida que se abaixava 
um pouco, para ver melhor o estrago. Mas enquanto ele, curvado, examinava o local, seus olhos de sbito estreitaram-se, aturdidos; no havia dano algum, nenhum amassado, 
nenhum arranho no querido automvel. 
        Mas era tarde demais para fazer outras perguntas. Quando seus olhos se arregalaram com a surpresa, um objeto de peso incalculvel desceu brutamente sobre 
sua nuca. Ao se vergar, no mesmo instante, foi empurrado e depois puxado rudemente para o banco traseiro do carro que estava esperando. A cena toda se desenrolou 
em menos de um minuto e foi controlada concisamente pelos dois visitantes de aparncia inocente. Tranqilos, os dois entraram furtivamente no Fiat, ao lado do amigo, 
e o carro afastou-se. Dois quarteires depois da Casa de San Gregorio, Amadeo estava cuidadosamente amarrado, amordaado e de olhos vendados; sua figura imvel achava-se 
em silncio, mal respirando no cho do carro, enquanto os seqestradores o levavam para longe.
















Captulo Dois



        O sol acabara de desaparecer, derramando brilhantes tons alaranjados e malva, no momento em que Isabella, resplendente em seu vestido de cetim verde, se 
encontrava na sala de estar.
        Na parede, discretos candelabros de lato e cristal espalhavam uma luz suave no aposento. Ela lanou um olhar para o relgio Faberg azul forte sobre o console 
da lareira. Ela e Amadeo o haviam comprado anos atrs em Nova York. Era uma pea de colecionador, de preo incalculvel, quase to incalculvel como o colar de esmeraldas 
e diamantes cuidadosamente colocado ao redor do seu pescoo. Fora de sua av e diziam que outrora pertencera a Josefina Bonaparte. O colar pendeu no longo pescoo 
branco em seu fecho delicado quando Isabella levantou-se devagar e comeou a andar de um lado para outro na sala. 
        Faltavam cinco minutos para as oito, e eles ficariam muito atrasados para o jantar da princesa de Sant'Angelo. Maldito Amadeo! Que coisa! Ser que ele no 
podia chegar na hora? A princesa era uma das poucas pessoas que realmente enervavam Isabella. Tinha 83 anos e possua um corao de mrmore de Carrara e olhos de 
ao; h muitos anos amiga ntima da av de Amadeo e uma mulher que Isabella sinceramente abominava. Recebia em sua casa com rgida pontualidade: coquetis as oito, 
jantar precisamente s nove. E ainda precisavam praticamente atravessar Roma e depois percorrer a regio do campo at o Palazzo Sant'Angelo, aonde a princesa conduzia 
o cortejo usando vestidos de baile antigos, embora surpreendentemente lindos, e brandindo sua bengala de bano com casto de ouro.
        Impaciente, Isabella viu-se de relance no espelho sobre a mesa francesa de entalhes primorosos e perguntou a si mesma se deveria ter feito algo diferente 
com os cabelos. Examinou sua imagem com desnimo. Simples demais, severa demais. Erguera os cabelos para o alto da cabea num coque bem natural, de forma a no depreciar 
o colar e os brincos iguais que Amadeo mandara fazer. As esmeraldas eram belas e seu vestido exatamente no mesmo tom de verde. Era da sua prpria coleo daquele 
ano, um tubinho longo de cetim verde que parecia cair diretamente dos ombros at o cho. Usaria por cima o casaco de cetim branco, que criara para o vestido, de 
gola estreita e bem ajustada e punhos largos, forrados de seda num tom fcsia fora do comum. Mas talvez fosse requintado demais ou o cabelo estivesse simples demais 
ou... Droga, onde estaria Amadeo? E por que estava atrasado? Consultou o relgio outra vez e comeou a franzir os lbios ao ouvir um suave sussurro ofegante que 
vinha da porta. Surpresa virou-se e viu-se olhando fixamente para os olhos escuros e arregalados de Alessandro, de pantufas, escondendo-se atrs da porta da sala 
de estar.
        - Psiu... Mamma... Vem c.
        - Mas o que est fazendo? 
        No mesmo instante aderiu ao tom conspirador, com um largo sorriso dominando seu rosto. 
        - Fugi dela! 
        Seus olhos estavam faiscantes, com a mesma chama dos olhos da me.
        - De quem?
        - Mamma Teresa! - Maria Teresa,  claro. A bab. 
        - Por que no est dormindo? - Ela j estava ao lado do filho, ajoelhando-se cuidadosamente com os saltos altos. -  muito tarde.
        - Eu sei! - Uma risadinha de puro contentamento de uma criana de cinco anos. - Mas eu queria ver voc. Veja o que ganhei de Luisa! 
        Mostrou a mo cheia de biscoitos, ofertados amorosamente pela cozinheira, as migalhas esmagadas j escapando pelos dedos rolios. Os farelos de chocolate 
no passavam de uma pasta marrom em sua mo. 
        - Quer um?  
        Ele meteu um biscoito na boca antes de estender a mo.
        - Voc devia estar na cama! - Ela ainda sussurrava, contendo o riso.
        - Est bem, est bem. - Alessandro devorou outro biscoito antes que a me tivesse oportunidade de recusar. - Voc me leva para a cama? 
        Ele lanou-lhe um olhar que lhe derreteu a alma e, cheia de felicidade, ela assentiu com a cabea. Essa era a razo por que Isabella no trabalhava mais 
onze horas por dia no escritrio, no importa quanto lamentava, s vezes, por no passar todo momento possvel ao lado de Amadeo. Isto valia a pena. Aquele olhar 
e aquele brilhante sorriso maroto. 
        - Onde est papai?
        - A caminho de casa, espero. Vamos. 
        Alessandro introduziu cuidadosamente a mo limpa na dela e dirigiram-se ao vestbulo revestido de parquete e suavemente iluminado. Aqui e ali se viam retratos 
dos ancestrais de Amadeo e alguns quadros comprados por ambos na Frana. A casa dava mais a impresso de um palcio do que de uma villa e, ocasionalmente, quando 
ofereciam suas magnficas festas, os casais valsavam lentamente pelo longo vestbulo revestido de espelhos, aos acordes de uma orquestra.
        - O que faremos se mamma Teresa nos encontrar aqui? 
        Alessandro ergueu os olhos para a me, aqueles olhos castanhos, enternecedores.
        - No tenho idia. Acha que ajudaria se a gente gritasse? 
        Ele assentiu srio com a cabea, depois deu uma risadinha, escondendo a boca com a mo cheia de farelos.
        - Voc  esperta.
        - Voc tambm. Como escapuliu do seu quarto?
        - Pela porta do jardim. Luisa disse que ia fazer biscoitos esta noite.
        O quarto de Alessandro estava decorado com brilhantes tons de azul e repleto de livros, jogos e brinquedos. Ao contrrio do resto da casa, no era nem elegante 
nem suntuoso, apenas o quarto dele. Isabella deixou escapar um longo e significativo suspiro enquanto o levava para a cama e sorria novamente para ele.
        - Conseguimos.
        Contudo, foi mais do que Alessandro pde agentar. Desabou na cama com um pequeno grito de alegria, retirando do bolso o resto dos biscoitos - na mo ele 
apenas carregara o excesso. Passou a devor-los enquanto Isabella insistia em aconcheg-lo debaixo das cobertas.
        - E no faa muita sujeira. 
        Mas era um aviso intil e, na verdade, ela no se importava. Meninos eram assim mesmo: farelos de biscoitos, rodas de carros quebradas, soldadinhos sem cabea 
e manchas pelas paredes. Ela gostava que fosse dessa maneira. O resto da sua vida era requintado demais. Gostava dos mnimos e significativos momentos que passava 
com o filho e tudo que envolvia esses momentos. 
        - Promete que dormir assim que terminar de comer os biscoitos?
        - Prometo! - Olhava para ela com ar srio e com os olhos cheios de admirao. - Tu sei bella.
        - Obrigada. Voc tambm . Buona notte, tesoro. Durma bem.
        Beijou-o no rosto e no pescoo. Ele deu uma risadinha. 
        - Amo voc, mamma.
        - Tambm amo voc.
        Ao voltar para o vestbulo, ela sentiu os olhos se encherem de lgrimas e achou-se uma tola. Que se dane a princesa de Sant'Angelo. De repente, sentiu-se 
contente pelo atraso de Amadeo. Mas, meu bom Deus, que horas deviam ser agora? Seus saltos altos batiam rapidamente enquanto se dirigia s pressas para a sala de 
estar, a fim de consultar de novo o relgio. Eram 20:25. Como era possvel? O que estava acontecendo? Mas sabia muito bem o que provavelmente acontecia. Um problema 
de ltima hora, um telefonema urgente de Paris, de Hong Kong ou dos Estados Unidos. Um tecido que no podia ser entregue, uma tecelagem em greve. Sabia muito bem 
como era comum um atraso desses. Uma crise semelhante a mantivera afastada de Alessandro todas as noites durante um perodo longo demais. 
        Com o smoking de Amadeo no brao, Isabella decidiu que talvez fosse aconselhvel telefonar para ele, encontr-lo no escritrio. Encaminhou-se para o seu 
pequeno boudoir, todo decorado com seda cor-de-rosa, e pegou no telefone. Os nmeros faziam parte dos seus dedos, de sua alma, bem como de sua mente. Uma secretria 
exausta atendeu:
        - Al. San Gregorio.
        - Buona sera.
        Isabella identificou-se rapidamente e sem necessidade, pedindo  moa que localizasse Amadeo para que ele atendesse ao telefone. Houve uma pausa, depois 
uma rpida desculpa pela demora, a seguir outra pausa, enquanto Isabella batia o p e comeava a franzir a testa. Talvez estivesse acontecendo alguma coisa. Talvez 
ele tivesse batido com aquele seu maldito carro super veloz. De repente, comeou a sentir muito calor naquele vestido pesado de cetim verde, achou que o corao 
parecia prestes a parar. Foi ento que Bernardo atendeu.
        - Oi, o que h?
        - Onde est Amadeo, droga? Ele est quase duas horas atrasado. Prometeu que chegaria cedo esta noite. Temos um jantar na casa da grgula.
        - Sant'Angelo? - Bernardo a conhecia bem. 
        - Quem mais? A propsito, onde ele est?
        - No sei. Pensei que estivesse com voc. 
        As palavras lhe escaparam rpido demais. Ele franziu as sobrancelhas, formando um vinco na testa.
        - O qu? Ele no est a? 
        Pela primeira vez Isabella ficou assustada. Talvez tivesse realmente acontecido alguma coisa com ele e o carro.
        Mas Bernardo foi rpido na resposta e no havia nada de extraordinrio em seu tom firme de voz.
        - Na certa est aqui em algum lugar. Estive ocupadssimo com aquele maldito sabonete de que voc no gostou. No estive no gabinete dele desde a hora do 
almoo.
        - Bem, tente encontr-lo e diga-lhe para me telefonar. Quero saber se devo ir ao encontro dele no escritrio, ou se ainda quer vir em casa para mudar de 
roupa. Aquela bruxa velha na certa vai nos matar. Jamais chegaremos a tempo para o jantar. 
        - Vou verificar.
        - Obrigada. E... Bernardo? Acha que pode ter acontecido alguma coisa?
        -  claro que no. Num minuto localizo Amadeo para voc. - Sem dizer mais nada, ele desligou.
        Inquieta, Isabella ficou olhando fixamente para o aparelho.
        Suas palavras ficaram soando nos ouvidos de Bernardo... Poderia ter acontecido alguma coisa. Acontecido alguma coisa... Foi exatamente o que ele pensou. 
Ele mesmo tentara localizar Amadeo a tarde toda para discutir uma nova possibilidade para o malfadado sabonete. Precisariam de mais dinheiro para os testes, muito 
dinheiro mesmo, e tinham necessidade da aprovao de Amadeo. Mas Amadeo estivera ausente O dia todo. Desde a hora do almoo.
        Bernardo consolara-se com a idia de que Isabella e Amadeo deviam ter desaparecido para uma tarde de amor. Faziam isso com freqncia, como s ele sabia. 
Mas se Amadeo no estava com ela, ento onde estava? Sozinho? Com outra pessoa? Com outra mulher? Bernardo afastou essa idia. Amadeo no enganava Isabella. Nunca 
enganara. Mas ento onde estava? E onde estivera desde o meio-dia?
        Bernardo comeou a vasculhar os escritrios, procurando nos quatro andares. Tudo que pde descobrir foi uma jovem e trmula secretria, ainda em sua mesa, 
martelando na mquina de escrever, que explicou que dois homens procuraram Amadeo para explicar que, acidentalmente, tinham amassado o carro dele. O signore San 
Gregorio sara ento, explicou ela. Bernardo sentiu-se empalidecer enquanto precipitava-se para a rua e entrava nervoso no prprio carro. Enquanto engrenava o Fiat 
e afastava-se, viu a Ferrari no mesmo lugar onde o vira pela manh, em seu espao de estacionamento junto ao meio-fio. Diminuiu a marcha por um momento ao passar 
pelo carro. O automvel no sofrera dano algum. No fora tocado. Seu corao comeou a disparar. Dirigiu-se o mais rpido possvel para a casa de Isabella e Amadeo.
        Conforme prometera, obviamente Bernardo o encontrara. Isabella sorriu ao precipitar-se pela sala de estar em direo ao boudoir para atender ao telefone. 
Idiota! Ele provavelmente esquecera-se da principessa e do seu jantar, bem como da hora. Ela o faria passar um mau pedao. Mas sem muita convico. Praticamente 
era capaz de tanto fazer Amadeo passar um mau pedao quanto de proibir Alessandro de comer seus biscoitos de chocolate. A viso do seu sorriso nos lbios carnudos, 
cobertos de farelos, voltou  sua mente enquanto pegava no telefone.
        - Ora, ora, querido. Um pouquinho atrasado para chegar em casa esta noite, no ? E que diabos faremos quanto  principessa?
        J estava sorrindo, falando antes mesmo de aguardar por uma palavra. Sabia que devia ser Amadeo. Mas no era. Era um homem estranho.
        - Pronto, signora. No sei o que faro quanto  principessa. A questo  o que faremos quanto ao seu marido... 
        - O qu? Deus do cu! 
        Telefonema de um manaco. S lhe faltava essa. E, num breve espao de tempo, sentiu-se uma idiota. Um admirador secreto, talvez? Apesar do nmero do seu 
telefone no constar da lista, de vez em quando algum ligava. 
        - Lamento. Acho que discou o nmero errado. Estava a ponto de desligar quando ouviu a voz de novo. Desta vez soava mais spera.
        - Espere! Signora di San Gregorio, creio que seu marido est desaparecido. No  mesmo?
        - Claro que no! - O corao dela havia disparado. Quem era esse homem?
        - Ele est atrasado. Certo? 
        - Quem est falando?
        - Isso no interessa. Estamos com seu marido. Aqui... 
        Ouviu-se um ntido grunhido, como se algum tivesse levado um empurro com violncia ou um soco; depois, Amadeo apareceu na linha.
        - Querida, no entre em pnico. - Mas sua voz parecia cansada, fraca.
        - O que  isso? Algum tipo de brincadeira? 
        - No  uma brincadeira. De jeito nenhum.
        - Onde voc est?
        Ela mal podia falar, dominada pelo pnico. Ento Bernardo tinha razo!
        - No sei. No importa. Mantenha-se calma, s isso. E saiba... - Houve uma pausa dolorosamente sem fim. O corpo todo de Isabella comeou a tremer violentamente, 
enquanto ela ainda agarrava-se ao telefone. -...saiba que a amo.
        Nesse instante, devem t-lo afastado do aparelho, a voz do estranho reapareceu.
        - Satisfeita? Ns o temos. Quer realmente t-lo de volta? 
        - Quem  voc? Algum louco?
        - No. Apenas um ambicioso. - Houve uma risada dissonante ao mesmo tempo em que Isabella tentava, desesperadamente, manter-se firme ao telefone. - Queremos 
dez milhes de dlares. Se voc o quiser de volta.
        - Voc est louco. No temos tanto dinheiro assim disponvel. Ningum tem.
        - Algumas pessoas tm. Vocs tm. Sua empresa tem. Arranje-o. Tem todo o fim de semana para consegui-lo enquanto tomamos conta do seu marido.
        - No posso... pelo amor de Deus... oua... por favor... 
        Mas ele j havia desligado, e Isabella ficou ali de p em seu boudoir, destroada pelos soluos. Amadeo! Eles estavam com Amadeo! Oh, Deus, eram loucos!
        Isabella no ouviu a campainha da porta, nem a empregada correr para atend-la, nem os passos rpidos de Bernardo em direo aos seus soluos.
        - O que h? - Ele olhava-a com horror, enquanto ela ainda estava dominada pela convulso causada pelo que ouvira. - Isabella, diga-me, o que h? - Estaria 
Amadeo ferido? Morto?
        Por um momento, ela no conseguiu falar; a seguir, sem compreender, ficou olhando para Bernardo fixamente, enquanto as lgrimas rolavam por suas faces. Sua 
voz no passava de um lamento pattico quando finalmente falou:
        - Ele foi seqestrado. 
        - Oh, meu Deus!
























Captulo Trs



        Uma hora mais tarde, Isabella ainda se encontrava em seu boudoir, plida e trmula, agarrada  mo de Bernardo, quando receberam o segundo telefonema.
        - A propsito, signora, esquecemos de lhe avisar. No chame os tiras. Saberemos, se chamar. E o mataremos. E, se no aparecer com o dinheiro, tambm o mataremos.
        - Mas no podem. No h como...
        - Isso no interessa. Basta ficar longe dos tiras. Eles congelaro seu dinheiro assim que os bancos abrirem e, ento, nem ele nem voc valero mais nada.
        Telefonaram de novo, mas dessa vez Bernardo tambm ouviu a ligao. Depois do telefonema, ela ficou chorando novamente.
        - Isabella, devamos ter chamado a polcia uma hora atrs.
        - Eu disse que no, que diabo! O homem tem razo. A polcia ficar nos vigiando o fim de semana todo e na segunda-feira, congelar tudo que temos para que 
no possamos pagar o resgate.
        - Seja como for, voc no pode. Levaria um ano para liberar tal importncia. E, alm disso, o nico que pode fazer isso  o prprio Amadeo, voc sabe.
        - Pouco me importa. Ns conseguiremos. Temos de conseguir.
        - No podemos. Precisamos chamar a polcia. No h outro jeito. Se de fato querem esse dinheiro, voc no o possui para lhes dar, Isabella. No pode correr 
o risco de deix-los zangados. Precisa encontr-los primeiro. 
        Enquanto, num gesto de desespero, passava a mo pelo cabelo, Bernardo parecia to plido quanto Isabella.
        - Mas e se descobrirem? O homem disse...
        - No faro nada. Temos de confiar em algum. Pelo amor de Deus, neles  que no podemos confiar!
        - Mas talvez nos dem tempo de levantar o dinheiro. H pessoas que nos ajudaro. Podemos dar alguns telefonemas para os Estados Unidos.
        - Que se danem os Estados Unidos! No podemos fazer isso. Voc no pode lhes dar tempo. E quanto ao Amadeo, durante o tempo em que voc ficar tentando arranjar 
o dinheiro? 
O que esto fazendo com ele?
        - Oh, por Deus, Bernardo! No consigo pensar... 
        A voz dela foi sumindo num gemido infantil, indistinto, no instante exato em que Bernardo a tomava em seus braos.
        - Por favor, deixe-me chamar a polcia. 
        Sua voz no passava de um sussurro. E a resposta dela foi apenas um consentimento com a cabea. Mas a polcia chegou em quinze minutos. Pela porta dos fundos, 
usando roupas surradas, dando a impresso de amigos dos criados, com velhos chapus nas mos. Pelo menos se esforaram para ocultar suas identidades, pensou Isabella, 
enquanto Bernardo os fazia entrar apressadamente. Talvez Bernardo estivesse certo, afinal.
        - Signora di San Gregorio? 
        O policial reconheceu-a imediatamente. Grudada em sua cadeira, Isabella parecia distante e magnificente, usando ainda o vestido de cetim verde e suas esmeraldas.
        - Eu mesma. 
        Sua voz quase no foi ouvida. Mais uma vez formaram-se lgrimas em seus olhos negros. Bernardo apertou sua mo com fora.
        - Lamentamos muito. Sabemos o quanto deve estar sofrendo. Mas precisamos saber de tudo. Como, quando, quem o viu pela ltima vez, se houve ameaas anteriores, 
se h algum na empresa ou em sua casa que a senhora possa ter razo para suspeitar... Ningum deve ser poupado. Nada de bondade, nada de gentileza, nada de lealdade 
a velhos amigos. A vida do seu marido est em jogo. Deve nos ajudar.
        Olharam com suspeita para Bernardo, que retribuiu o olhar tranqilamente. Foi Isabella quem explicou que Bernardo insistira em chamar a polcia.
        - Mas eles disseram... disseram que se chamssemos... que... - Ela no pde continuar.
        - Ns sabemos.
        Fizeram um nmero interminvel de perguntas a Bernardo e ficaram sentados pacientemente com Isabella durante duas horas de interrogatrio insuportavelmente 
doloroso. Por volta da meia-noite, terminaram. Sabiam tudo que havia para ser dito. Demisses desagradveis na empresa, intrigas e rivalidades, inimigos esquecidos 
e amigos ressentidos.
        - E no disseram nada sobre quando, onde ou como desejam o dinheiro? 
        Isabella sacudiu a cabea com tristeza. 
        - Desconfio que sejam amadores. Talvez amadores de sorte, contudo no so profissionais. O segundo telefonema, lembrando-a para no chamar a polcia, confirma 
isso. Os profissionais teriam avisado imediatamente - disse o policial mais velho, em tom srio.
        - Sei disso. Foi a razo pela qual no deixei o signore Franco cham-los.
        - Foi sensata ao mudar de idia - falou de novo o oficial encarregado, com tranqilidade e grande considerao. Na fora policial romana, era um especialista 
em seqestro. E, lamentavelmente, adquirira uma experincia extraordinria nos ltimos anos.
        - Nos ser til o fato de serem amadores?
        Isabella olhou-o esperanosamente, rezando para que ele respondesse de imediato que sim.
        - Talvez. Esses amadores so muito perspicazes. E teremos de proceder de acordo. Confie em ns, signora. Afirmo-lhe... - Depois, lembrou-se de algo que ele 
prprio havia esquecido. - Ia a algum lugar esta noite? -Tornou a olhar para as jias e o vestido dela.
        Isabella assentiu com a cabea.
        - amos a um jantar... uma festa... Oh, que importa isso agora?
        - Tudo importa. Festa de quem?
        Por um momento, Isabella quase sorriu.
        - Da principessa di Sant'Angelo. Far perguntas a ela tambm? - Oh, Deus, a pobre grgula!
        - S se for necessrio. 
        O inspetor sabia de quem se tratava. A viva mais terrvel de Roma.
        - Porm, no momento, o mais prudente ser a senhora mesma no falar com ningum. No saia, no fale com amigos. Diga s pessoas que est doente. Mas atenda 
pessoalmente o telefone. Pode ser que os seqestradores no estejam dispostos a falar com outra pessoa. Precisamos saber o resto de suas exigncias o mais rpido 
possvel. A senhora tem um menino, no tem? - Ela apenas concordou com a cabea. - Ele tambm no dever sair. A casa toda ficar cercada por guardas. Discretamente, 
sem a menor dvida.
        - Devo tambm reter os criados em casa?
        - No. - Ele sacudiu a cabea com firmeza. - No diga nada a eles. Talvez um deles acabe se denunciando. Deixe-os sair como de costume. Seguiremos todos.
        - Acha que pode ser um deles? 
        Isabella estava plida, mas esperanosa. No se importava de quem fosse, apenas que encontrassem Amadeo a tempo, antes que aqueles doidos fizessem alguma 
coisa, antes que eles... ela no conseguia pensar nas palavras. No queria pensar nelas. No podia acontecer. No para Amadeo. No para eles. As lgrimas tornaram 
a inundar seus olhos e o inspetor se virou para o outro lado.
        - Precisamos apenas nos certificar. E quanto  senhora, lamento, mas ser uma hora muito difcil.
        - E quanto ao dinheiro? 
        Porm, assim que pronunciou essas palavras, ela arrependeu-se. A expresso do rosto do inspetor endureceu.
        - O que tem o dinheiro? 
        - Devemos... devemos...
        - Todas as suas contas, particulares e comerciais, ficaro congeladas segunda-feira de manh. Notificaremos seu banco momentos antes de abrirem.
        - Oh, meu Deus. - Por um instante ela olhou para Bernardo, cheia de terror, a seguir furiosa, tanto com ele quanto com o inspetor. - Como espera que prossigamos 
com a empresa?
        - A crdito. Por enquanto. - Tambm o rosto dele parecia ter congelado. - Estou certo de que a Casa de San Gregorio no ter problemas a respeito.
        - Ento do que o senhor est certo, inspetor, e do que eu estou certa so duas coisas diferentes. 
        Ela levantou-se rapidamente, seus olhos faiscando com a prpria luminosidade cheia de ira. Pouco se importava com o dinheiro destinado  empresa. Ela s 
queria saber que podia botar a mo nele se fosse obrigada, para Amadeo, caso as idias dos policiais provassem ser insuficientes. Malditos policiais, maldito Bernardo, 
maldito...
        - Vamos deix-la para que durma um pouco.
        Pela primeira vez, Isabella tinha vontade de gritar "foda-se" bem alto para o inspetor, mas no o fez. Apenas cerrou os dentes e apertou as mos. Um momento 
depois, eles tinham ido embora e ela ficou sozinha com Bernardo na sala.
        - Viu? Diabo que te carregue! Viu s? Eu disse que fariam isso. O que faremos agora?
        - Esperar. Deixe que faam o trabalho deles. Rezemos. 
        - Ser que no compreende? Eles esto com Amadeo. Se no arranjarmos os dez milhes de dlares mataro Amadeo! Isso ainda no entrou na sua cabea? 
        Por uma frao de segundo ela pensou que ia esbofete-lo, mas a expresso dele dizia que ela j o havia feito. Isabella esbravejou, enfureceu-se, chorou. 
E, naquela noite, ele dormiu no quarto de hspedes. Mas tambm no havia nada que pudessem fazer. No num fim de semana, e no com as contas congeladas; e provavelmente 
nada poderiam fazer, mesmo se no estivessem.
        Naquela noite ela no deitou. Ficou sentada, aguardou, chorou, sonhou. Quis quebrar tudo que havia na villa, quis embrulhar tudo e dar de presente... qualquer 
coisa... qualquer coisa... contanto que o mandassem para casa... por favor...
        Tiveram de aguardar mais 24 horas at o telefonema seguinte. Nesse havia mais uma particularidade. Queriam os dez milhes na tera-feira e estavam na noite 
de sbado. Ela procurou cham-los  razo, que estavam num fim de semana, que era impossvel reunir o dinheiro quando os bancos, os escritrios e a prpria empresa 
deles estavam fechados. Pouco se importaram. Tera-feira. Imaginavam que lhe davam muito tempo. Avisariam quanto ao local depois. E, dessa vez, no deixaram Amadeo 
vir ao telefone.
        - Como posso saber se ele ainda est vivo?
        - No pode. Mas ele est. E ficar, se voc, por estupidez, no estragar tudo. Enquanto no chamar os tiras e aparecer com o dinheiro, ele estar timo. 
Ligaremos para voc. Ciao, signora.
        - Ora, Deus... e agora?
        Na manh de domingo Isabella parecia um fantasma, os olhos rodeados por olheiras fundas, o rosto mortalmente plido. Numa tentativa de manter uma aparncia 
de normalidade, Bernardo ia e vinha e pedia notcias de Amadeo. Era fcil acreditar na histria de que Isabella estava doente. Ela realmente dava essa impresso. 
Mas nenhum dos criados deixou escapar nada. Ningum parecia saber a verdade. E a polcia no descobrira nada. No domingo  noite Isabella tinha certeza de que ia 
enlouquecer.
        - No posso, Bernardo, no posso mais. Eles no esto fazendo nada. Tem que haver outro jeito.
        - Como? Aparentemente, at minha conta pessoal ficar congelada. Amanh vou pedir  minha me dinheiro emprestado. A policia me disse que nem posso descontar 
um cheque no meu banco.
        - Vo congelar sua conta tambm? - Ele assentiu com a cabea, em silncio. - Droga!
        Mas havia uma coisa que eles no poderiam congelar na segunda-feira. Uma coisa na qual no poderiam tocar. Ela ficou acordada em seu quarto durante a noite 
toda de domingo, contando, calculando, imaginando e, pela manh, foi at o cofre. Talvez no tivesse dez milhes, mas um milho. Ou at mesmo dois. Apanhou as duas 
caixas compridas de veludo verde, onde guardava suas jias, e levou-as para o quarto, trancou a porta e espalhou tudo sobre a cama. As esmeraldas, o novo anel de 
diamantes de dez quilates dado por Amadeo, um colar de rubi que detestava devido  sua extravagncia, suas prolas, o anel de noivado com uma safira que Amadeo lhe 
dera h quase onze anos, o bracelete de diamantes da me, as prolas da av. Fez um inventrio cuidadoso e dobrou calmamente a lista. Depois tirou o contedo das 
caixas e colocou-o num grande leno Gucci de pescoo e enfiou a trouxa pesada numa grande e velha sacola marrom de couro. A sacola quase lhe deslocou o ombro quando 
a colocou a tiracolo, mas no se importou.
        Para o inferno a polcia, ela e sua vigilncia eterna, sua verificao e sua idia de esperar para ver. Um homem em que sabia que podia confiar era Alfredo 
Paccioli. Durante anos, tanto a famlia dela quanto a de Amadeo fizeram negcios com ele. Paccioli comprava e vendia jias para reis e prncipes, estadistas e vivas, 
e todos os grandes e os quase grandes de Roma. Ele sempre fora seu amigo.
        Isabella vestiu-se em silncio, colocando calas compridas e um velho suter de cashmere; chegou a pegar a jaqueta de vison, mas desistiu. Preferiu uma velha 
jaqueta de camura e, para a cabea, usou uma echarpe. Mal se parecia com a Isabella di San Gregorio. Ficou sentada em silncio por um momento, pensando, imaginando 
como chegar l, apesar da vigilncia dos guardas. Em seguida, achou que no importava. No tinha que se esconder deles. Tudo que precisava era obter o dinheiro. 
E era importante que ningum a reconhecesse quando estivesse dentro da joalheria.
        Chamou por Enzo em seu apartamento sobre a garagem e disse-lhe que o queria na porta dos fundos dentro de dez minutos. Gostaria de dar um pequeno passeio. 
Dez minutos mais tarde, ele aguardava com o carro, conforme ela mandara e, furtivamente, Isabella saiu de casa. No queria que Alessandro a visse, no queria responder 
s indagaes contidas em seus olhos. Dissera-lhe que nesses ltimos quatro dias estava doente e no desejara transmitir-lhe a doena, assim ele teria que se ocupar 
e brincar com mamma Teresa, sua bab, em seu quarto ou ao lar livre. Papai estava viajando; para a escola telefonaram dizendo que todos estavam em frias. Graas 
a Deus que ele s tinha cinco anos. Mas, ao sair, conseguiu evit-lo mais uma vez e ficou de sbito grata pela rotina movimentada que Maria Teresa usava para a criana. 
Naquele momento ela no poderia ocupar-se do filho, no poderia encar-lo sem apert-lo estreitamente nos braos e romper num pranto violento e assustado.
        - Va meglio, signora?- Enzo olhou-a pensativo pelo espelho retrovisor enquanto se afastavam. Isabella apenas acenou com a cabea no momento em que sua escolta 
policial disfarada afastava-se discretamente do meio-fio.
        - Si. 
        Deu-lhe o endereo da loja ao lado da de Paccioli, no muito longe da sua prpria casa de modas, e resolveu que no se importaria se Enzo soubesse por que 
estava indo quele endereo. Se ele fosse um dos conspiradores, ento era melhor que soubesse que ela estava esforando-se ao mximo. Os sacanas. No restava um 
em quem pudesse confiar. No agora. E talvez nunca mais. E Bernardo, aquele maldito, como pudera estar to certo? Reprimiu as lgrimas enquanto dirigiam-se para 
o endereo dado. A corrida levou menos de quinze minutos, e ela fez uma ligeira encenao parando brevemente em duas boutiques antes de desaparecer depressa no interior 
da loja de Paccioli. Como a Casa de San Gregorio, tinha uma fachada discreta, neste caso apresentada apenas pelo endereo. Ela entrou no silencioso recinto bege 
e falou com uma jovem sentada numa grande escrivaninha Lus XV.
        - Quero ver o signore Paccioli. 
        Mesmo envolta numa echarpe e sem maquiagem, era difcil despojar-se do seu tom autoritrio. Mas a jovem no ficou impressionada.
        - Lamento muitssimo, mas o sr. Paccioli est numa reunio. Com clientes de Nova York. 
        Ergueu os olhos como se esperasse que Isabella compreendesse. Mas no foi bem sucedida. E a obscura saca de couro marrom no ombro de Isabella a incomodava 
extremamente.
        - No importa. Diga a ele que ... Isabella.
        A mulher hesitou, mas desta vez apenas por um momento. 
        - Muito bem.
        Havia algo desesperado nessa mulher, algo assustador em seu olhar alucinado enquanto mudava a sacola de lugar em seu ombro. Durante um momento insano, a 
jovem rezou para que a desconhecida, estranhamente mal vestida, no estivesse carregando uma arma. Porm, nesse caso, havia mais motivo ainda para tirar o sr. Paccioli 
da reunio. Encaminhou-se para um longo e estreito corredor, deixando Isabella sozinha, com dois guardas uniformizados de azul. E voltou em menos de um minuto, com 
Alfredo Paccioli andando apressado ao seu lado. Tinha sessenta e poucos anos, era quase careca, com uma delicada orla de cabelos brancos que combinavam com seu bigode 
e acentuavam, de certa forma, seus risonhos olhos azuis.
        - Isabella, cara, come stai? Em busca de alguma coisa para apresentar com as colees?
        Mas ela apenas sacudiu a cabea.
        - Posso falar com voc por um instante?
        - Naturalmente. 
        Ele olhou-a mais de perto e no gostou do que viu. Algo terrivelmente estranho se passava com ela. Como se Isabella estivesse muito doente ou, talvez, um 
pouquinho louca. O que ela fez um momento depois quase confirmou essa opinio, ao abrir silenciosamente a sacola marrom com um puxo e retirar a trouxa formada pelo 
leno de seda, espalhando seu contedo sobre a mesa dele.
        - Quero vender isto. Tudo!
        Ento ela enlouquecera mesmo? Ou seria uma briga com Amadeo? Alguma infidelidade da parte dele? Por Deus, o que estava acontecendo?
        - Isabella... querida... no pode estar falando srio. Mas esta... esta pea tem estado com sua famlia h anos. - Olhava horrorizado para as esmeraldas, 
os diamantes, os rubis, o anel e vendera para Amadeo apenas alguns meses antes.
        - Preciso vender. No me pergunte o motivo. Por favor, Alfredo, preciso de voc. Apenas compre isto.
        - Est falando srio? - A empresa deles teria ficado em dificuldades de repente?
        - Absolutamente srio. 
        Ele notava agora que ela no estava doente nem louca, mas que algo acontecia, algo muito srio, desesperadamente ruim.
        - Talvez leve um pouco de tempo. - Ele passou os dedos afetuosamente pelas belas peas, pensando em encontrar um comprador para a uma. Mas no era uma tarefa 
que sentisse prazer em executar. Era o mesmo que vender a famlia ou um filho em leilo. - No h mesmo outro jeito?
        - Nenhum. E, na verdade, no tenho tempo. Pague o que puder por elas agora. Voc mesmo. E no fale com ningum a respeito. Ningum.  uma questo de... ... 
oh, Deus, Alfredo, por favor. Precisa me ajudar. 
        De repente, os olhos de Isabella encheram-se de lgrimas e ele estendeu a mo enquanto seus olhos questionavam os dela.
        - Tenho at medo de perguntar. 
        Algo parecido j havia acontecido duas vezes antes. Uma vez, h um ano. E a segunda vez apenas h uma semana atrs. Fora horrvel... terrvel... e intil.
        - No pergunte. No posso responder. Apenas me ajude. Por favor.
        - Certo. Certo. De quanto precisa? 
        - Oh, Deus. Dez milhes de dlares.  Voc no pode me dar a quantia de que preciso. Apenas me d o que puder. Em dinheiro.
        Ele olhou, aturdido; em seguida, assentiu com a cabea. 
        - Posso lhe dar - fez um clculo rpido do dinheiro que tinha disponvel na hora - talvez duzentos mil hoje. E talvez a mesma importncia dentro de uma semana. 
        - No pode me dar tudo hoje? 
        Parecia desesperada outra vez e, por um instante, ele achou que ela fosse desmaiar sobre sua mesa.
        - No posso, Isabella. Acabamos de fazer uma compra enorme no Extremo Oriente. No momento, todos os nossos bens disponveis so em pedras. E, obviamente, 
no  o que voc deseja. 
        Olhou para o pequeno monte de diamantes, em seguida novamente para os olhos dela, com uma idia. De sbito sentia-se assustado tanto quanto ela. O desespero 
de Isabella contagiava. 
        - Pode esperar um minuto, enquanto dou alguns telefonemas?
        - Para quem? 
        - No mesmo instante, os olhos de Isabella encheram-se de terror, e ele viu que as mos dela tremiam de novo.
        - Confie em mim. Telefonemas para alguns colegas, alguns amigos. Talvez possamos levantar mais algum dinheiro.  E... IsabeIla.... - Hesitou, mas achou que 
tinha entendido. -       Tem de ser... dinheiro?
        - Tem.
        Ento ele estava certo. Agora as mos dele tambm tremiam.
        - Farei o que puder. 
        Sentou-se ao lado dela, pegou o telefone e ligou para cinco ou seis amigos. Joalheiros, peleteiros, um banqueiro de reputao um tanto duvidosa, um jogador 
profissional que tinha sido fregus e que se tornara amigo. Com eles, Alfredo conseguiu levantar mais trezentos mil em dinheiro. 
        Ele disse a ela e Isabella confirmou com a cabea. Essa soma completaria o total de quinhentos mil. Meio milho de dlares.  Um vigsimo do que eles queriam. 
Cinco por cento. Os olhos dele procuravam os de Isabella com uma expresso penalizada. 
        - Isso no vai ajudar? - Viu-se rezando para que ajudasse. 
        - Ter de ajudar. Como apanho o dinheiro?
        - Mandarei imediatamente um mensageiro. Pegarei o que acho que precisaremos em jias para os outros joalheiros. 
        Sem paixo, ela ficou observando enquanto ele apanhava algumas peas. Quando Paccioli pegou o anel de diamante, ela mordeu o lbio para reprimir as, lgrimas. 
Nada importava, s Amadeo.
        - Isto deve bastar. Devo ter o dinheiro aqui em uma hora. Pode esperar?
        Ela apenas assentiu com a cabea.
        - Mande seu mensageiro sair pela porta dos fundos. 
        - Estou sendo vigiado?
        - No. Eu  que estou. Mas meu carro est a em frente, e eles podem estar observando quem sai daqui. 
        Alfredo no fez mais perguntas. No era preciso.
        - Gostaria de um pouco de caf enquanto espera? 
        Ela apenas sacudiu a cabea, e ele deixou-a depois de bater-lhe afetuosamente no brao. Sentia-se totalmente intil, e de fato era. Ela ficou sentada em 
um silncio solitrio pouco mais de uma hora, aguardando, pensando, tentando no deixar sua mente retroceder para os momentos de ternos arroubos que ambos tinham 
compartilhado. Ficou recordando-se dos primeiros e dos ltimos tempos, dos tempos alegres, de v-lo com Alessandro pequenino em seus braos pela primeira vez; do 
lanamento da sua primeira coleo que apresentaram com excessiva coragem e prazer; da lua-de-mel; das primeiras frias; da primeira casa; da primeira vez que fizeram 
amor, e da ltima vez, apenas quatro dias atrs... Lembranas que lhe despedaavam o corao de tal modo que no conseguia suportar. Os momentos, as vozes e os rostos 
apinhavam-se em sua cabea ao mesmo tempo em que ela tentava afast-los, ao mesmo tempo em que sentia o pnico dominar-lhe a alma. Foi uma hora sem fim at que Alfredo 
Paccioli acabou voltando. A quantia exata estava num envelope comprido, pardo. Quinhentos mil dlares em dinheiro.
        - Obrigada, Alfredo. Ficarei grata a voc at o fim da minha vida. 
        E de Amadeo. No eram os dez milhes. Mas era um comeo. Se a polcia estivesse certa, se os raptores fossem, de fato, amadores, talvez at meio milho servisse 
para eles. Teria de servir. Era tudo que tinha, agora que as contas estavam congeladas.
        - Isabella... posso... posso fazer alguma coisa? 
        Silenciosamente, ela sacudiu a cabea, abriu a porta e saiu, passando rpido pela jovem na entrada, que alegremente cumprimentou-a. Ao ouvi-la, Isabella 
parou.
        - O que disse?
        - Eu disse bom dia, sra. di San Gregorio. Ouvi o sr. Paccioli mencionar colees e percebi que era a senhora... desculpe... no a reconheci a princpio... 
eu...
        - Voc no reconheceu. - Isabella virou-se para ela, furiosa. - Voc no me reconheceu porque nunca estive aqui. Compreendeu?
        - Compreendi... sim... desculpe... 
        Santo Deus, a mulher era realmente maluca. Mas havia algo mais naquela criatura tambm... Algo... a sacola... agora no parecia to pesada; pendurou-a no 
ombro como se de repente estivesse leve. O que a mulher trouxera ali que tinha sido to importante e to pesado?
        - Entendeu o que eu disse? - Isabella ainda olhava fixamente para a recepcionista, a exausto de trs noites insones fazendo-a realmente parecer doida. - 
Porque, se no entendeu, e contar a algum, se contar que estive aqui, ser despedida. Permanentemente. Cuidarei disso.
        - Entendi. 
        Ento ela estava vendendo suas jias. A rameira. Educadamente, a jovem assentiu com a cabea enquanto Isabella precipitava-se em direo  porta.
        Isabella ordenou a Enzo que a levasse diretamente para a villa. Durante horas ficou aguardando, sentada ao lado do telefone. Sempre imvel. Ficou sentada 
ali no quarto, com a porta trancada. Uma indagao de Louis a respeito do almoo resultou apenas num simples no. A viglia prosseguia. Eles tinham que telefonar. 
Era segunda-feira. Queriam o dinheiro para o dia seguinte... Teriam de dizer onde deixar o dinheiro e a que horas exatamente.
        Porm, por volta das sete horas da noite daquele mesmo dia, eles ainda no tinham telefonado. Ela ouvira Alessandro fazer algazarra nos corredores e a voz 
de mamma Teresa chamando-lhe ateno, fazendo-o lembrar-se de que sua me estava resfriada. Em seguida, tudo silenciou outra vez, at que, finalmente, ouviu-se uma 
batida violenta na porta.
        - Deixe-me entrar. - Era Bernardo.
        - Deixe-me em paz. 
        Ela no o queria no quarto, caso telefonassem. Ela nada lhe revelara sobre as jias. Provavelmente ele contaria  polcia. Ela j tolerara aquela tolice 
o suficiente. Agora cuidaria sozinha do assunto. Poderia prometer-lhes um milho de dlares, metade amanh e a outra metade na prxima semana.
        - Isabella, preciso falar com voc. Por favor. 
        - Estou ocupada.
        - No interessa. Por favor. Preciso... h uma coisa que eu... tenho de mostrar a voc. - Por um momento, ela percebeu a voz dele falhar. Ento, disse: - 
-- Passe por debaixo da porta.
        Era o jornal da tarde. Pgina cinco. Isabella di San Gregrio foi vista hoje na Paccioli... Descreviam o que ela usara, como estava, e praticamente cada 
item. Mas como? Quem? Alfredo? E, ento, ela compreendeu. A recepcionista. A rameirinha impaciente na entrada. Isabella sentiu o corao parar ao abrir a porta. 
Bernardo estava ali de p, chorando em silncio, olhando para o cho.
        - Porque fez isso?
        - Eu tinha de fazer. 
        Mas, de repente, sua voz tornou-se aptica. Se sara nos jornais, ento os seqestradores tambm saberiam. E saberiam mais: que se ela estava vendendo as 
jias, provavelmente suas contas haviam sido congeladas. Saberiam que ela falara com a polcia. - Oh, no!
        No disseram mais nada um para o outro. Bernardo apenas entrou no quarto e, em silncio, ocupou seu lugar ao lado do telefone. O chamado ocorreu s nove. 
Era a mesma voz, o mesmo homem.
        - Capito, signora. Ento, deu com a lngua nos dentes. 
        - No dei, juro. - Mas sua voz tinha aquele timbre excitado da mentira. - Mas eu tinha de obter mais dinheiro. No poderamos conseguir o suficiente.
        - Voc jamais conseguir o suficiente. Mesmo se no tivesse falado com os tiras, agora eles saberiam. Vo comear a bisbilhotar por a. Se no contou, algum 
vai contar a eles.
        - Mas ningum mais sabe.
        - Besteira. Que espcie de idiotas pensa que somos? Escute, quer dizer adeus ao seu marido?
        - No, por favor... espere... Tenho dinheiro para vocs. Um milho...
        Mas ele no estava ouvindo, e Amadeo j se achava no aparelho.
        - Isabella... querida... est tudo bem.
        Est tudo bem? Ele enlouquecera? Mas ela no se importava se ele tivesse enlouquecido. Nunca lhe parecera to sincero, e o corao de Isabella, que sempre 
fora fiel, chegou s alturas agora. Ele ainda estava l, em algum lugar; no o tinham magoado. Talvez tudo pudesse ficar bem. Enquanto Amadeo ainda estivesse ali, 
em algum lugar, em qualquer lugar, estava tudo bem.
        - Voc tem sido uma garota muito corajosa, querida. Como est Alessandro? Ele sabe?
        - Claro que no. E est timo.
        - Isso  bom. Beije-o por mim. 
        Ela achou ter ouvido a voz dele tremer, ento fechou os olhos com fora. No podia chorar. Agora no. Tinha de ser corajosa como ele a imaginava. Tinha de 
ser. Por ele. 
        - Quero que voc... sempre... saiba quanto a amo - disse Amadeo. - O quanto  perfeita. Que tima esposa. Jamais me deu um nico dia de infelicidade, querida. 
Nenhum...
         Ela agora chorava abertamente e reprimia com esforo os soluos que lhe embargavam a garganta.
        - Amadeo, querido, amo voc. Tanto. Por favor... venha para casa.
        - Irei, querida. Irei. Prometo. E estou com voc agora mesmo. Seja corajosa s mais um pouquinho.
        - Voc tambm, meu querido. Voc tambm. 
        Depois a ligao foi cortada sumariamente.
        A polcia encontrou-o pela manh, prximo a um armazm, em um subrbio de Roma, estrangulado, ainda muito bonito, e absolutamente morto.



























Captulo Quatro



        Os carros da polcia cercavam a limousine enquanto Enzo a dirigia lentamente para o centro de Roma. Isabella escolhera a igreja prxima  Casa de San Gregoro, 
perto da Piazza di Spagna. Santo Stefano. No comeo do namoro, costumavam ir a essa igreja quando queriam parar em algum lugar para descansar por um momento, depois 
das longas caminhadas que davam na hora do almoo. Era antiga, simples e bonita e para ela parecia mais apropriada do que as catedrais mais aparatosas de Roma.
        Bernardo ia ao seu lado no carro, enquanto Isabella olhava fixa para a frente, sem ver, fitando apenas a nuca de Enzo. Era ele? Era outra pessoa? Quem eram 
os traidores? Agora no importava. Amadeo se fora. Levando consigo o entusiasmo e o riso, o amor e os sonhos. Amadeo se fora. Para sempre. Ela ainda estava em estado 
de choque. Acontecera dois dias depois de sua visita a Alfredo Paccioli, quando ela fora carregando seu leno cheio de jias. Dois dias. Sentia-se deprimida, como 
se tambm ela tivesse morrido.
        - Isabella... bella mia. 
        Bernardo tocava em seu brao gentilmente. Pegou em sua mo em silncio. Havia to pouco que pudesse fazer! Ele havia chorado cerca de uma hora quando a polcia 
telefonara dando a notcia. E novamente quando Alessandro correra para seus braos.
        - Mataram meu papai... eles... eles...
        A criana ficara soluando enquanto Isabella permanecia ao lado, deixando-o buscar o conforto que pudesse de um homem. Agora ele no teria nenhum homem, 
estava sem pai, sem Amadeo. Ele fitara a me com grande terror em seus olhos escuros e infelizes. 
        - Vo levar voc tambm?
        - No, ela respondera. No, nunca. - Enquanto apertava-o estreitamente em seus braos. - E jamais levaro voc tampouco, tesoro. Voc  meu.
        Fora mais do que Bernardo pde suportar, e agora isto. Isabella, rgida e formal, em seu casaco, meias e chapu pretos e um espesso vu. O luto apenas realava 
sua beleza, s fazia aumentar seu encanto, em vez de diminu-los. Ele lhe devolvera todas as jias sem dizer uma palavra. Ela agora usava apenas a aliana e o grande 
solitrio que ganhara como presente de aniversrio, poucos meses antes. Isso era tudo? Fazia apenas cinco dias que o viram pela ltima vez? Ele realmente no voltaria 
mais? O prprio Bernardo sentira-se como uma criana de cinco anos ao olhar para o rosto de Amadeo di San Gregorio, to quieto e calmo na morte. Mas do que nunca 
ele se parecia com as esttuas, as pinturas, os jovens graciosos da antiga Roma. E agora se fora.
        Bernardo ajudou-a a descer discretamente do carro e segurou seu brao com firmeza. Entraram na igreja. Havia policiais e guarda-costas em todas as entradas, 
e hordas de pranteadores sentados no interior. A cerimnia fnebre foi breve e insuportavelmente dolorosa. Isabella ficou em silncio ao lado de Bernardo, as lgrimas 
rolando incontrolveis por suas faces, sob o vu preto. Empregados, amigos e parentes soluavam sem reservas. At a grgula estava l, com sua bengala de bano com 
casto de ouro. O regresso para casa pareceu levar anos. Ao contrrio da tradio, Isabella informara que no veria ningum na villa. Ningum. Queria ficar s. Quem 
haveria de saber qual deles o trara? Mas Bernardo sabia agora que era improvvel ser algum do seu crculo de amizades. A prpria policia no tinha nenhuma pista. 
Presumiam, talvez corretamente, que fora obra de "amadores de sorte", vidos por um quinho da fortuna de San Gregorio. No havia impresses digitais, a mnima prova, 
nenhuma testemunha, e no ocorrera outro telefonema. E no ocorreria, a polcia tinha certeza. Exceto os telefonemas das centenas, talvez milhares de manacos, que 
comeariam com seus jogos macabros. A polcia colocara um dispositivo no telefone de Isabella, contando com a investida violenta dos malucos minoritrios que tinham 
prazer em assombrar, escarnecer, provocar, confessar, ameaar ou sussurrar obscenidades ao telefone. Preveniram Isabella do que a esperava. Bernardo encolheu-se 
ao pensar; ela j sofrera bastante.
        - Onde est Alessandro? 
        Depois da cerimnia fnebre, Bernardo bebia uma xcara de caf, pensando como a casa parecia insuportavelmente vazia. Envergonhou-se por achar-se grato pelo 
fato de que tivesse sido Amadeo e no a criana. Isabella no teria sido capaz de fazer essa escolha. Mas para Bernardo no havia dvida. Como no teria havido para 
Amadeo. Ele teria se sacrificado de bom grado para poupar seu nico filho.
        - Est no quarto dele com a bab. Quer v-lo? 
        Isabella olhou-o tristemente sobre a borda da xcara.
        - Posso esperar. De qualquer modo, precisava falar com voc a respeito de uma coisa.
        - O qu? 
        No estava sendo fcil falar com ela ultimamente, e Isabella no permitiria que o mdico lhe desse qualquer coisa para ajudar. Bernardo no se enganou ao 
calcular que ela ficara de fato sem dormir quase uma semana.
        - Acho que voc precisa viajar.
        - No seja ridculo. - Ela pousou a xcara sobre a mesa com violncia e olhou para ele. - Estou tima.
        - Parece tima. 
        Ele retribuiu o olhar e, por um momento, Isabella cedeu ao vislumbre de um sorriso.  Era a primeira amostra da velha tenso entre eles em uma semana. Parecia 
confortador e familiar.
        - Muito bem, estou cansada. Mas ficarei tima. 
        - No ficar se permanecer aqui.
        - Engana-se. Este  o lugar onde preciso ficar. Perto das coisas dele, da casa dele... perto... dele...
        - Por que no faz uma viagem aos Estados Unidos? 
        - Por que no cuida da sua prpria vida? - Ela recostou-se na cadeira, com um suspiro. - No vou, Bernardo. No faa presso sobre mim.
        - Voc ouviu o que a polcia disse. Os manacos vo ficar telefonando, atormentando voc. A imprensa j no a est deixando em paz agora.  assim que deseja 
viver? O que deseja para Alessandro? Nem pode mand-lo para a escola.
         - Ele pode voltar mais tarde para a escola.
        - Ento viaje at ele poder voltar. Um ms. Alguns meses.
        - O que prende voc aqui?
        - Tudo. 
        Olhou-o muito cautelosa, enquanto tirava lentamente o chapu e afastava o vu dos olhos. Havia algo assustador e determinado no modo como o olhava agora.
        - O que significa isso?
        - Significa que volto para trabalhar na segunda-feira. Meio expediente, mas diariamente. Das nove  uma... Das nove s duas... O que for preciso.
        - Est brincando?
        - De modo algum.
        - Isabella. No pode estar falando srio. 
        Ele estava chocado.
        - Posso e estou falando srio mesmo. Quem voc acha que dirigir a empresa agora... agora que... ele se foi?
        Por um momento, ela titubeou ao pronunciar as palavras. Mas Bernardo empertigou-se assim que ela as pronunciou.
        - Pensei que eu pudesse. 
        Por um instante Bernardo pareceu magoado e muito irredutvel. Ela olhou ao longe, em seguida tornou a olhar para ele.
        - Voc poderia. Mas no posso fazer isso. No posso me sentar aqui e abdicar. No posso abrir mo do que Amadeo e eu compartilhamos, do que ele construiu, 
do que amvamos, do que fizemos. Ele se foi, Bernardo. Devo isso a ele. E a Alessandro. Um dia a empresa ser dele. Voc e eu teremos de ensinar a ele o que precisar 
saber. Voc e eu. Os dois. No posso fazer isso sentada aqui. Se o fizesse, poderia apenas contar-lhe como era vinte anos atrs "quando seu pai estava vivo". Devo 
a ele mais do que isso, e a Amadeo, e a voc e a mim mesma. Vou voltar na segunda-feira.
         - No estou dizendo que no deveria voltar. S acho que  muito cedo. 
        Tentou parecer gentil, mas ele no era Amadeo. No conseguiria trat-la do modo gentil de Amadeo, s com exaltao.
        Porm, desta vez, ela apenas sacudiu a cabea e seus olhos se encheram de lgrimas novamente.
        - No  no, Bernardo... no  muito cedo de modo algum.  muito... muito... muito tarde. 
        Ele ps a mo sobre a dela e esperou at que Isabella tomasse flego. 
        - O que eu faria aqui? Ficaria perambulando pela casa? Abrindo os armrios dele? Sentando no jardim?  espera em meu boudoir?  espera do qu? De um homem... 
- Um soluo brotou dela enquanto permanecia sentada com as costas eretas, o rosto erguido bem alto. - ...um homem... a quem... amei... E que jamais... Voltar... 
Para casa. Preciso... Voltar a trabalhar. Preciso! Faz parte de mim, e fazia parte dele. Eu o encontrei no trabalho. Diariamente. De mil maneiras diferentes. Das 
maneiras que importavam mais. Eu apenas... Preciso.  s. At Alessandro compreende. Falei com ele esta manh. Ele compreende perfeitamente. - Pareceu orgulhosa 
por um instante. O filho era um excelente menino.
        - Ento voc o est deixando louco, igualzinho a voc. 
        Mas Bernardo no quisera dizer isso de modo cruel, e Isabella apenas sorriu.
        - Talvez eu o deixe to louco como eu, Bernardo. E to adorvel como o pai. Talvez o torne maravilhoso assim. 
        Em seguida levantou-se e, pela primeira vez em vrios dias, ele viu um autntico sorriso e apenas um vislumbre do que outrora tinha sido um brilho em seus 
olhos, outrora de apenas alguns dias, apenas alguns dias. 
        - Preciso ficar sozinha agora. Por algum tempo.
        - Quando voltarei a v-la? 
        Ele levantou-se, observando-a. Isabella ainda estava ali. Em algum lugar, dormindo, esperando, mas ela voltaria a viver outra vez. Ele estava certo disso. 
Havia muita vida nela para ser o contrrio.
        - Voc me ver na segunda-feira de manh,  claro. Em meu escritrio.
        Ele apenas olhou-a em silncio, depois saiu. Tinha muita coisa em mente.








Captulo Cinco



        Isabella di San Gregorio apareceu de fato no escritrio na segunda-feira pela manh, e todos os dias dali em diante. Ficava das nove s duas, causando estupefao, 
terror, admirao e respeito. Era tudo que Amadeo sempre imaginara dela. Era feita de fogo e ao, de emoo e garra. Agora usava o chapu dele, bem como o seu tambm, 
e centenas de outros. Continuava a trabalhar com os documentos em casa, em seu quarto,  noite, muito depois de Alessandro ter ido dormir. Agora tinha dois interesses 
na vida: seu trabalho e o filho. E pouqussima coisa mais. Estava tensa, cansada, deprimida, mas fazia o que dissera que ia fazer. Inclusive mandou Alessandro de 
volta para a escola, com um guarda-costas, com cautela, com preocupao, mas tambm com determinao. Ensinou o menino a ser orgulhoso, a no ter medo. Ensinou-o 
a ser corajoso, a no ter raiva. Ensinou-o tudo que ela prpria era e ainda conseguiu dar-lhe algo mais. Pacincia, amor, riso. E, s vezes, tambm choravam juntos. 
A perda de Amadeo custara a ambos quase tudo que tinham. Mas isso os aproximou mais, fortaleceu sua amizade.
        O nico cuja amizade se viu prejudicada foi Bernardo. Foi ele quem suportou o impacto do sofrimento, das ansiedades e da fadiga de Isabella. Apesar de Bernardo 
dirigir mais a empresa, tinha a impresso de que dirigia menos. Trabalhava com mais afinco, durante mais tempo, fazia mais trabalho, mesmo assim ela tentava ser 
tudo, a raiz, a essncia, o corao e a alma da Casa de San Gregorio. A ele cabia o trabalho enfadonho. E a amargura. E a ira. O que transparecia entre eles em cada 
reunio. As brigas eram constantes, e Amadeo no estava mais ali para moder-las. Ela tentava ser Amadeo bem como ela prpria, e no compartilhava com ele como fizera 
com Amadeo. Ela ainda estava na chefia. Isso criou mais tenso do que nunca entre os dois. Mas, pelo menos, a empresa no sofrera com o golpe da morte de Amadeo. 
Um ms depois, os nmeros permaneciam estveis; dois meses depois, estavam melhores do que no ano anterior. Tudo melhorava, exceto o relacionamento entre Bernardo 
e Isabella; e a aparncia de Isabella.
         O telefone tocava constantemente, dia e noite, em casa e no escritrio. Os manacos apareceram, conforme o esperado. Ameaas, discusses, confisses, arengas, 
solidariedade e acusaes, obscenidades e propostas indecorosas. Ela j no atendia mais o telefone. Trs homens o atendiam 24 horas por dia na villa e outros trs 
faziam o mesmo no escritrio. Mas ainda nenhuma pista fora encontrada que identificasse os seqestradores e agora estava claro que jamais seriam encontrados. Isabella 
compreendia. Tinha de compreender. Como tambm sabia que, no final, eles a deixariam em paz. Os fanticos, os manacos, os idiotas. Todos. Um dia. Ela esperaria. 
Mas Bernardo no concordava. 
        - Voc est doida. No pode continuar vivendo dessa maneira. J emagreceu nove quilos. Est praticamente esqueltica. 
        No falava a verdade,  claro; para ele, ela era sempre linda... mas ainda parecia doente.
        - Isso nada tem a ver com os telefonemas. Tem a ver com o que eu como ou no. 
        Ela tentou sorrir do outro lado da mesa, mas estava cansada demais para continuar discutindo. O que fizeram a manh inteira.
        - Voc est prejudicando o menino.
        - Pelo amor de Deus, Bernardo, no estou no!! - Lanou-lhe um olhar furioso. - Temos sete guarda-costas na casa. Um com Enzo no carro. Outro na escola. 
No seja ridculo!
        - Espere, espere s, sua grande imbecil. Eu avisei vocs naquele dia, no avisei, sobre o modo como os dois viviam? Eu estava errado?
        Foi um golpe cruel.
        - Saia da minha sala - gritou Isabella. - Saia da minha vida!
        - Va cagare! 
        Ele bateu a porta ao sair. Por um momento Isabella ficou aturdida demais para ir atrs dele e exigir desculpas; e sentia-se cansada demais at para tentar. 
Estava extremamente cansada de brigar com Bernardo; procurou recordar se sempre fora assim. Antes no chegava at ser engraado? J no chegaram s vezes a rir juntos? 
Ou apenas tinham rido quando Amadeo estava ali para convenc-los a abandonar as lutas? J no conseguia lembrar-se mais. No conseguia lembrar-se de coisa alguma, 
exceto das montanhas de papis que tinha sobre a mesa... exceto  noite. Ento, lembrava-se. Demais. Lembrava-se dos sons suaves de Amadeo dormindo na cama  noite 
e suas mos sobre a carne tpida de suas coxas. Lembrava-se do modo como ele bocejava e espreguiava-se ao acordar, a expresso dos seus olhos ao sorrir para ela 
por cima do jornal da manh, do seu cheiro bom logo aps ter feito a barba e tomado banho, o som de sua risada vibrando no corredor enquanto corria atrs de Alessandro, 
o modo como...
        Todas as noites deitava-se com essas lembranas. Levava trabalho para casa, na esperana de deter as vises, esperando perder-se nos pedidos de tecido e 
detalhes da coleo, estatsticas, algarismos e investimentos. As noites ficavam longas demais depois que Alessandro ia para a cama.
        Agora, sentada ali no escritrio, fechou os olhos com fora, procurando obrigar-se a voltar para o trabalho, mas ouviu uma batida suave na porta. Surpresa 
deu um pulo, relutante. Era na porta lateral que dava para o gabinete de Amadeo, a porta que ele sempre usara. Por um momento, sentiu-se trmula. Ainda tinha aquela 
sensao louca de que ele ia voltar. Que tudo havia sido um pesadelo, uma terrvel mentira, que uma noite dessas a Ferrari iria deslizar suavemente na entrada de 
cascalho, a porta iria bater e ele chamaria por ela: "Isabellezza! Cheguei!"
        - Quem ? 
        Ela olhou fixamente para a porta ao ouvir outra vez a batida.
        - Posso entrar? 
        Era apenas Bernardo, ainda parecendo constrangido.
        -  claro. O que est fazendo a? 
        Ele estivera no gabinete de Amadeo. Ela no o queria ali. No queria ningum ali. Ela usava o gabinete em busca de um refgio, s vezes, por um instante, 
na hora do almoo ou no fim do expediente. Mas sabia que no podia impedir Bernardo de entrar l. Ele tinha direito de acesso aos papis de Amadeo, aos livros que 
ele mantinha na parede, atrs da escrivaninha.
        - Estava dando uma olhada em alguns arquivos. Por qu?
        - Por nada. 
        A expresso de sofrimento nos olhos dela era inconfundvel. Por um momento Bernardo tornou a sofrer por ela. No importava o quanto ela fosse impossvel 
s vezes, no importava o quanto eram diferentes em suas aspiraes para a empresa, ainda assim ele compreendia a grandeza da perda que ela sofrera.
        - Incomoda-se tanto assim quando entro ali?
        Sua voz estava diferente agora do que estivera instantes atrs, quando gritara e batera a porta. Ela assentiu com a cabea, olhando ao longe um segundo, 
em seguida para ele.
        - Estupidez, no ? Sei que precisa de coisas do escritrio dele de vez em quando. Assim como eu.
        - Voc no pode transform-lo num santurio, Isabella.
        Sua voz estava macia, mas tinha o olhar firme. Ela j fazia isso com a empresa. Ele gostaria de saber quanto tempo iria durar.
        - Eu sei.
        Constrangido, Bernardo continuou na soleira da porta, em dvida se esta seria uma boa ocasio. Mas quando ento? Quando poderia perguntar-lhe? Quando poderia 
dizer-lhe o que pensava?
        - Podemos conversar um instante ou est muito ocupada?
        - Tenho algum tempo.
        O tom de sua voz no era muito convidativo. Isabella forou-se a suavizar a voz. Talvez ele quisesse desculpar-se pelo que dissera no momento exato em que 
batera a porta da sala dela, pouco tempo atrs.
        - Alguma coisa em especial?
        - Acho que sim. - Ele suspirou suavemente e sentou-se. - H uma coisa com a qual eu no desejava incomod-la, mas acho que talvez esta seja uma boa ocasio.
        Oh, Deus. O que  agora? Quem estava pedindo demisso, o que fora cancelado, o que no ia chegar? 
        -  sobre aquele maldito sabonete outra vez? 
        Ela sabia o suficiente, e toda vez que tinham de discutir sobre o assunto, isso a fazia recordar-se do dia quando... quando Amadeo... naquela ltima manh... 
Ela desviou o olhar.
        - No faa essa cara. No  nada desagradvel. Na verdade - tentou convenc-la com um sorriso - poderia at ser muito bom.
        - No estou certa se poderia suportar o choque de alguma coisa "muito boa" acontecendo. - Recostou-se na cadeira, lutando contra a exausto e uma dor nos 
rins. Nervos, tenso, estavam ali desde... - Muito bem, desembuche! Pode falar!
        - Ecco, signora. 
        E, de repente, ele lamentou no t-la levado para almoar. Talvez tivesse sido melhor, algumas horas longe dali, uma boa garrafa de vinho. Mas quem ainda 
conseguia lev-la a algum lugar? E sair do edifcio significava levar junto o exrcito de guardies. No, aqui era melhor. 
        - Recebemos um telefonema dos Estados Unidos.
        - Algum fez um pedido de dez mil peas, estamos vestindo a primeira-dama ou acabei de ganhar o prmio cobiado internacionalmente. Certo?
        - Bem... 
        Ambos sorriram por um instante. Graas a Deus, ela se mostrava mais jovial do que no princpio da manh. Ele no estava certo do motivo, talvez porque ela 
precisasse muito dele, ou talvez apenas estivesse cansada demais para brigar.
        - Na realidade, no foi essa espcie de telefonema. Foi um telefonema de Farnham-Barnes.
        - O monstro onvoro de lojas de departamentos? Que diabo querem agora? 
        Nos ltimos dez anos, a F-B, como era chamada, estivera devorando atentamente todas as principais lojas de departamentos de alta qualidade dos Estados Unidos. 
Agora era uma entidade poderosa a ser levada em considerao e uma conta cobiada por todos no comrcio.
        - Ficaram satisfeitos ou no com seu ltimo pedido? No, no importa. Sei a resposta, querem mais. Bem, diga-lhes que no podem ter mais. Voc j sabe disso. 
        Devido ao nmero de lojas que a cadeia F-B possua, Isabella cuidara de manter um controle bastante firme. Portanto, s poderiam ter grande quantidade da 
sua linha prt--porter e uma pequenina quantidade da linha das criaes exclusivas. No queria que as mulheres de Dei Moines, Boston e Miami vestissem centenas 
do mesmo vestido. At com a linha prt-- porter Isabella era cuidadosa e mantinha um rgido controle. 
        -  isso? 
        Olhou para Bernardo, j se empertigando, e ele sentiu que perdia a coragem.
        - No  bem isso. Eles tinham algo mais em mente.  A companhia matriz, denominada I.H.I., International Holding Industries, que por acaso possui as Fbricas 
Farrington, Linhas Areas Interamericanas e Produtos Alimentcios Harcourt, vem fazendo sindicncias discretas sobre ns desde que Amadeo... nos ltimos dois meses.
        - Que espcie de sindicncias?
        Os olhos dela pareciam ardsia preta. Frios, duros e apticos. Mas no havia razo para continuar com rodeios.
        - Querem saber se voc est interessada em vender.
        - Voc enlouqueceu?
        - Em absoluto. Para eles seria uma brilhante adio ao que j fizeram com a F-B. Eles j adquiriram quase todas as principais lojas de departamentos existentes 
nos Estados Unidos, embora tenham conservado a identidade de cada uma.  uma cadeia sem ser uma cadeia. Cada loja continuou exatamente como era antes, embora lucre 
por ser parte de uma organizao muito maior, capital mais extenso para recorrer, maiores recursos. Com relao aos negcios, o sistema  brilhante.
        - Ento congratule-os por mim. E diga-lhes para irem se foder. O que esto pensando? Que a San Gregorio  alguma lojinha italiana de departamentos para anexar 
 sua cadeia? No seja ridculo, Bernardo! O que eles fazem no tem nada a ver conosco!
        - Ao contrrio. Talvez tenha tudo a ver conosco. Isso nos oferece um sistema de abastecimento internacional para todas as linhas, facilidades de produo, 
marketing de massa, se o quisermos, para as colnias, o sabonete.  uma operao de alta categoria e se adaptaria perfeitamente a todas as nossas linhas principais.
        - Voc perdeu o juzo. - Olhou-o e sorriu nervosamente. - Est mesmo sugerindo que eu venda para eles?  o que significa toda essa histria?
        Ele hesitou apenas uma frao de segundo; depois assentiu com a cabea, temendo o pior. Chegou rpido.
        - Est louco? - Gritou ela e se ps rapidamente de p. - Era isso o que significava todo aquele disparate desta manh? Como eu parecia cansada? Como estava 
magra? O que  isso, Bernardo? Eles esto lhe oferecendo enormes honorrios caso consiga me convencer? Cobia, todos so motivados pela cobia, como os... aqueles... 
- ela reprimiu as palavras, pensando nos seqestradores de Amadeo, e virou-se rapidamente para esconder uma sbita onda de lgrimas. - No quero discutir sobre o 
assunto. 
        Continuou de costas para ele, olhando pela janela, procurando inconscientemente o carro de Amadeo. J fora vendido. Atrs dela, a voz de Bernardo soou surpreendentemente 
calma.
        - No estou recebendo honorrios de ningum, Isabella. A no ser de voc. Sei que  muito cedo para voc discutir a respeito. Mas faz sentido.  o prximo 
passo bvio para a empresa. Agora.
        - O que isso quer dizer? 
        Ela virou-se de novo para encar-lo, e ele devia estar sofrendo por ainda ver lgrimas em seus olhos.
        - Acha que Amadeo teria feito isso? Vender para algum monstro comercial da Amrica? Para uma corporao? Uma F-B e uma I.H.I. e s Deus sabe que mais. Esta 
 a San Gregorio, Bernardo. San Gregorio. Uma famlia. Uma dinastia.
        -  um imprio com um trono vazio. Durante quanto tempo voc realmente acredita que pode controlar tudo? Morrer de exausto antes de Alessandro atingir 
a maioridade. E no  s isso. Voc corre o mesmo risco que correu Amadeo, como Alessandro tambm corre. Sabe o que acontece na Itlia hoje em dia. E quanto a voc? 
E se alguma coisa lhe acontecer? Com que constncia pode se manter protegida, toda vez que tiver de sair e entrar ou levantar ou sentar-se?
        - Enquanto eu precisar. Isso vai parar aos poucos. Acha mesmo que vender  a soluo? Como pode sequer dizer uma coisa dessas depois do que produziu aqui, 
depois do que construiu conosco, depois... - Novamente seus olhos encheram-se de lgrimas.
        - No a estou traindo, Isabella. - Lutou para se controlar. - Estou tentando ajud-la. No h outra soluo para voc a no ser vender. Esto falando em 
enormes somas de dinheiro. Alessandro seria um homem imensamente rico. - Mas, ao dizer isso, sabia que o dinheiro no era o problema.
        - Alessandro ser o que o pai dele era. O chefe da Casa de San Gregorio. Aqui. Em Roma.
        - Se ainda estiver vivo. 
        As palavras foram pronunciadas suavemente, com uma camada finssima de raiva.
        - Pare com isso! Pare! - Isabella olhou fixamente para ele. Suas mos tremiam, o rosto contorceu-se subitamente numa crispao hedionda. - Pare de dizer 
essas coisas. Nada igual acontecer de novo. E no venderei. Nunca! Diga a essas pessoas que no! Isso  tudo,  final. No quero saber da oferta. No quero que 
voc trate coisa alguma com eles. Na verdade, eu o probo de falar com eles!
        - No seja tola - gritou Bernardo. - Fazemos negcios com eles. E, apesar das suas estpidas restries, a I.H.I. ainda  uma das nossas maiores contas.
        - Cancele-a.
        - No cancelarei.
        - Pouco me importa com o que fizer, dane-se. Apenas me deixe em paz.
        Desta vez foi Isabella quem bateu a porta da sala e refugiou-se no gabinete de Amadeo, ao lado. Bernardo ficou sentado no escritrio dela por um momento 
apenas, depois se retirou para o seu, ao longo do corredor. Isabella era uma tola. Ele sabia que ela nunca concordaria, mas vender era a coisa mais segura para Isabella. 
Alguma coisa estava acontecendo com ela. Outrora, a empresa tinha acrescentado alegria, prazer e algo maravilhoso e poderoso  sua vida. Agora, ele via que a destrua. 
O dia inteiro nos escritrios a deixava mais solitria, mais amarga. O dia inteiro cercada de guarda-costas a deixava mais assustada, no importa quanto negasse 
o fato. O dia todo sonhando com Amadeo despedaava mais um pedao de sua alma. Mas era ela quem controlava tudo agora. Isabella di San Gregorio estava no comando.
        Na manh seguinte, Bernardo ligou para o presidente da I.H.I e comunicou-lhe que Isabella recusara. Aps ter feito isso e pensado tristemente na oportunidade 
que Isabella rejeitara, sua secretria chamou-o pelo interfone.
        - O que ?
        - H uma pessoa aqui que deseja v-lo. 
        - Sobre o qu?
        -  a respeito de uma bicicleta. Ele disse que o senhor mandou que a entregasse aqui.          Cansado, Bernardo sorriu para si mesmo e deixou escapar outro 
suspiro. A bicicleta. Praticamente era s isso que estava com disposio de tratar, depois do comeo difcil do seu expediente.
        - Irei agora mesmo.
        Era vermelha, com um selim azul e branco, flmulas vermelhas, brancas e azuis esvoaando nos guides, uma campainha, um velocmetro e a plaquinha da licena 
com o nome de Alessandro. Era uma bicicleta pequena e linda, e ele sabia que iria encantar a criana, que desde o vero morria de vontade de ter uma "bicicleta de 
verdade".
        Bernardo sabia que Amadeo planejara dar uma ao menino no Natal. Ele encomendara essa bicicleta, uma miniatura da roupa prateada de astronauta e meia dzia 
de jogos. Ia ser um Natal difcil e, lanando um olhar para o calendrio ao levantar-se, Bernardo notou que s faltavam duas semanas. 
Captulo Seis



        - Mamma, mamma...  Bernardo! 
         Alessandro comprimia o nariz contra a vidraa; a rvore de Natal cintilava atrs dele. Isabella envolveu-o em seus braos e olhou para fora, sorrindo. Ela 
e Bernardo puseram as querelas de lado alguns dias antes. Ela precisava desesperadamente dele esse ano, bem como a criana. Ela e Amadeo tinham perdido os pais na 
dcada anterior e, como filhos nicos, no tinham ningum a oferecer a Alessandro no tocante  famlia, a no ser eles prprios e seus amigos. Como sempre, Bernardo 
fazia o que era devido.
        - Oh, veja... veja!  enorme! Ele tem um embrulho... e veja! Mais!
        Bernardo fez uma pantomima hilariante, cambaleando sob o peso dos seus fardos, todos enfiados num saco de lona enorme. Usava um chapu de Papai Noel com 
um dos seus ternos escuros. Isabella tambm ria enquanto o guarda-costas abria a porta.
        - Ciao, Nardo, come va? 
        Ele beijou-a de leve no rosto e, no mesmo instante, voltou sua ateno para o menino. Tinham sido duas semanas difceis no escritrio. O assunto da I.H.I. 
estava definitivamente encerrado. Isabella enviara-lhes uma carta agressivamente sucinta que deixara Bernardo lvido. Outros problemas tinham aflorado; por fim tudo 
fora tratado e resolvido. Tinha sido uma poca cansativa para ambos. Porm, de alguma forma, com a ameaa de um Natal deprimente, os dois conseguiram pr de lado 
suas diferenas. Ela ofereceu-lhe conhaque quando se sentaram ao lado da lareira.
        - Quando posso abri-los? Agora?... Agora? -
        Alessandro estava aos pulinhos como um pequeno duende vermelho de pantufas, enquanto mamma Teresa rondava em algum lugar perto da porta. Todos os criados 
celebravam na cozinha, com vinho e os presentes que Isabella lhes dera na noite anterior. Os nicos membros da casa no includos nas festividades eram os guarda-costas. 
Eram tratados como invisveis, e a segurana de toda a famlia dependia da permanncia deles em servio, em todas as entradas da villa e do lado de fora tambm. 
Os homens que atendiam ao telefone estavam a postos, como de costume, no antigo gabinete de Amadeo, e os telefonemas dos manacos continuavam e agora, por alguma 
razo, dobraram durante os feriados, como se no bastasse o que j tinham feito. Precisava haver mais. E Bernardo sabia que isso estava custando um alto preo para 
Isabella. Ela sempre tomava conhecimento dos telefonemas, como se os sentisse. Agora no confiava em ningum. Algo terno e generoso, que tanto fizera parte dela, 
morria lentamente em seu ntimo.
        - Quando posso abri-los? Quando? 
Alessandro puxava com fora a manga de Bernardo, que fingia no entender.
        - Abrir o qu?  s minha roupa para a lavanderia que est naquele saco.
        - No  no... no  no! Mamma... por favor...
        - Acho que ele no vai agentar esperar at meia-noite, quanto mais at amanh cedo! - A prpria Isabella sorria enquanto seus olhos acariciavam gentilmente 
o filho. - E quanto  mamma Teresa, querido? Por que no d o presente dela primeiro?
        - Oh, mamma!
        - Vamos.
        Ela colocou um embrulho grande nos braos dele e o menino correu rapidamente para entregar o lindo robe de cetim rosa, o mais bonito da linha americana de 
Isabella. A bab j recebera de Isabella uma bolsa a tiracolo e um pequeno e elegante relgio. Este era um ano para ser boa com todos, todos os que tinham demonstrado 
tanta devoo a ela e ao menino. Pelo menos, j no desconfiava mais dos membros da casa. Acabou acreditando que os traidores tinham sido pessoas de fora. A Enzo 
ela dera um capote novo, um capote quente, de casimira preta, para usar sobre o uniforme quando a conduzisse pela cidade, alm de um excelente rdio novo para o 
seu quarto. Poderia, inclusive, pegar Paris e Londres nele, Enzo lhe contara com orgulho naquele dia. Houve distribuio de presentes para a casa toda, e presentes 
igualmente bonitos e atenciosos para todos no escritrio. Mas Alessandro ganhou o presente mais especial de todos. Ele ainda no o vira, mas Enzo j o tinha montado 
e preparado tudo.
        Alessandro acabava de voltar para a sala correndo.
        - Ela disse que  lindo e que usar durante toda sua vida e pensar em mim. - Ele parecia feliz com o efeito que o grande roupo rosa causara. - Agora eu.
        Isabella e Bernardo riam enquanto olhavam Alessandro com seus olhos brilhantes e muito arregalados. Por um momento, deu a impresso de como se nada de feio 
tivesse acontecido. Por um instante, o sofrimento dos ltimos meses no existiu.
        - Muito bem, sr. Alessandro.  todo seu!
        Bernardo fez um gesto pomposo com a mo, indicando o grande saco de lona. O menino abaixou-se rapidamente na direo indicada, em seguida introduziu a mo, 
soltando altos gritos de alegria. Papel e fitas comearam a voar no mesmo instante e, num abrir e fechar de olhos, ele j vestia a roupa prateada de astronauta, 
os ps calados com as pantufas vermelhas espreitando pelas aberturas. Ele sorriu, soltou pequenas risadas e saiu deslizando rpido pelo assoalho extremamente lustroso 
a fim de dar um beijo em Bernardo. Em seguida, mergulhou nos embrulhos em busca de mais presentes. Os jogos, os novos lpis de cera, um grande e irresistvel urso 
castanho, e finalmente a bicicleta, empurrada  fora para o fundo do grande saco de lona.
        - Oh... oh...  linda... ...  uma Rolls-Royce? 
        Ambos riram enquanto o observavam, j escarranchado na nova bicicleta.
        -  claro que  uma Rolls-Royce. Eu lhe daria menos do que isso? 
         Ele j acenava pela sala de estar, visando primeiro uma mesa Lus XV, depois uma parede, enquanto as duas pessoas que o amavam riam at as lgrimas. E ento 
todos viram Enzo, sorrindo hesitantemente da porta. Seus olhos questionavam Isabella e ela assentiu com a cabea e um sorriso. Ela susurrou algo para Bernardo, que 
ergueu as sobrancelhas e depois riu.
        - Acho que talvez tenha me excedido
        - De modo algum. Provavelmente, amanh cedo ele vir tomar caf de bicicleta. Mas isso... Eu queria exatamente lhe dar uma coisa que o fizesse menos infeliz 
por estar confinado a esta casa. Ele no pode... - Ela hesitou tristemente por um instante - ...ele no pode ir mais ao parquinho. 
        Bernardo assentiu com a cabea em silncio, colocou o copo de conhaque sobre a mesa e levantou-se. Mas a tristeza momentnea nos olhos de Isabella se fora 
outra vez, ao voltar-se sorridente para o filho.
        - V buscar mamma Teresa e seu casaco.
        - Vamos sair? - Parecia intrigado.
- Apenas por um instante.
- Posso ir com isto? 
        Lanou um olhar feliz para a roupa de astronauta. Bernardo inclinou-se ligeiramente para olhar nas costas do menino.
        - Pode, e vista o capote por cima.
        - Okay. 
        Pronunciou a palavra americana com seu sotaque romano e desapareceu a toda velocidade, ao mesmo tempo em que Bernardo se encolhia.
        - Talvez eu tenha de substituir os espelhos do seu vestbulo.  Sem falar na mesa da sala de jantar, em todos os armrios daqui at o quarto dele e, possivelmente, 
nos vidros das portas.
        Ambos ficaram ouvindo sorridentes enquanto a campainha da bicicleta soava ao longo do corredor. 
        - Foi o presente certo. 
        Ela tambm sabia que o presente tinha sido o que Amadeo planejara para o filho e, por um instante, nenhum dos dois falou. Ento, ela lanou um olhar penetrante 
a Bernardo e deixou escapar um pequeno suspiro. 
        - Estou contente por voc ter conseguido estar aqui com Alessandro este ano, Nardo... e comigo tambm.
        Gentilmente, ele tocou em sua mo, enquanto o fogo crepitava e ardia na lareira.
        - Eu no poderia estar em nenhum outro lugar. - E sorriu para ela. - Apesar das lceras que me causou no trabalho. 
        Mas isto era diferente. E, de repente, havia uma espcie distinta de eletricidade no ar.
        - Desculpe, eu... sinto as responsabilidades demais agora. Continuo pensando que voc sempre compreende.
        Ergueu os olhos para ele, o rosto lindamente delineado e muito plido, onde os olhos escuros ajustavam-se com extrema perfeio.
        - Compreendo mesmo. Voc sabe que eu poderia ajudar mais, se me deixasse.
        - No estou certa se conseguiria deixar. Tenho essa nsia insana de... de fazer tudo eu mesma. Difcil de explicar.  tudo que me restou, sem contar Alessandro.
        - Um dia haver mais.  Um dia... - mas ela apenas sacudiu a cabea.
        - Nunca mais. No h ningum como ele. Era um homem muito especial.
         Seus olhos marejaram-se de lgrimas no momento em que ela retirou a mo e ficou olhando em silncio para o fogo. Bernardo olhou em direo oposta e deu 
outro gole no conhaque ao ouvir a campainha da bicicleta e Alessandro disparando pelo corredor com mamma Teresa atrs. 
        - Pronto? 
        Os olhos de Isabella estavam um pouco brilhantes demais, mas nada em seu rosto voltado para o filho mostrava quanto era grande sua dor.
        - Si. -
        Dentro do grande capacete plstico de astronauta, o rostinho olhava bulioso para fora.
        - Allora, andiamo. 
        Isabella levantou-se e foi a primeira a dirigir-se para as portas duplas que davam para o jardim. Discretamente, um guarda-costas afastou-se para o lado, 
e todos viram que agora o jardim estava brilhantemente iluminado. Ela olhou para o filho e notou que ele tomava flego.
        - Mamma!... 
        Embora pequeno, era um lindo carrossel, do tamanho exato para uma criana de cinco anos. Custara uma fortuna a Isabella, mas achou que valera a pena cada 
centavo quando viu o brilho nos olhos do filho.  Quatro cavalos danavam garbosamente sob uma tenda de madeira entalhada e pintada de vermelho e branco; havia campainhas, 
palhaos e enfeites. Bernardo achou que nunca vira os olhos do menino to arregalados. Enzo ajudou-o a montar na sela de um cavalo pintado de azul, com fitas verdes 
presas ao cabresto dourado com sininhos prateados. Uma chave foi acionada e o carrossel comeou a girar. Alessandro gritou de excitao e prazer. De repente, a noite 
foi invadida por msica carnavalesca, enquanto os criados chegavam s janelas. Em toda parte, sua audincia sorria.
        - Buon Natale! 
        Isabella gritou para o menino, depois correu e saltou para a sela do cavalo ao lado, pintado de amarelo com uma selinha vermelha com beiradas douradas. Riam 
um para o outro enquanto o carrossel rodopiava lentamente.
        Bernardo observava-os, sentindo algo terno dilacerando-lhe o corao. Mamma Teresa virou-se para o lado, enxugando uma lgrima que lhe escapava dos olhos, 
e Enzo e o guarda-costas compartilhavam sorrisos.
        Alessandro ficou dando muitas voltas, montado no cavalo do carrossel, por cerca de meia hora, at que Isabella insistiu para que voltasse para casa.
        - Mas quero andar esta noite.
        - Se ficar aqui fora a noite toda, Papai Noel no vir.
        Papai Noel? Bernardo riu. O que ainda faltava quela criana? O sorriso desapareceu. Um pai. Isso  o que faltava para Alessandro. Ele ajudou o menino a 
descer do carrossel e segurou a mo dele com fora ao voltarem para a casa, Alessandro desapareceu rapidamente em direo  cozinha, e Bernardo e Isabella ocuparam 
seus lugares outra vez perto do fogo.
        - Que coisa maravilhosa, Isabella!
        O eco dos repiques carnavalescos ainda soava em sua cabea. E, finalmente, ela estava sorrindo como h meses no fazia.
         - Sempre desejei ter um carrossel s meu quando era menina.  perfeito, no ? 
        Por um momento, seus olhos estavam quase to brilhantes como o fogo. Por um instante, ele gostaria de dizer: "Voc tambm  perfeita." Era uma mulher extraordinria. 
Ele a odiava e a amava, e ela era a sua amiga mais querida.
        - Acha que Alessandro nos deixar andar no carrossel com ele se formos muito, muito bonzinhos? 
        Ela riu junto com Bernardo e serviu-se de um pequeno copo de vinho tinto. Em seguida, como se tivesse esquecido de alguma coisa, levantou-se de um salto 
e correu at a rvore de Natal.
        - Eu quase ia esquecendo. - Apanhou duas pequenas caixas envoltas em papel dourado e voltou para perto da lareira. - Para voc.
        - Se no for um carrossel s para mim, no quero. 
        E riram outra vez. Mas o riso empanou-se muito rapidamente quando ele descobriu o que continham as caixas. Na primeira uma pequena mquina de calcular extremamente 
complicada, em sua prpria caixa prateada; dava a impresso de uma cigarreira muito elegante e poderia ser carregada com discrio no colete.
        - Mandei vir dos Estados Unidos. No a entendo. Mas voc entender.
        - Isabella, voc enlouqueceu?
        - No seja tolo. Eu deveria ter comprado um saco de gua quente para a sua lcera, mas achei que isto talvez fosse mais divertido. 
        Beijou-o afetuosamente no rosto e entregou-lhe a outra caixa. Mas, desta vez, ela se virou para o outro lado, olhando fixamente para o fogo. E quando ele 
j abrira a caixa, Bernardo tambm ficou em silncio. Havia muito pouco o que dizer de fato. Era o relgio de bolso que ele sabia que Amadeo guardava como um tesouro 
e praticamente nunca usava, pois lhe era por demais sagrado. Pertencera ao seu pai e, atrs, as iniciais de trs geraes de San Gregorio estavam caprichosamente 
gravadas. Embaixo delas, Bernardo notou que havia as suas prprias iniciais.
        - No sei o que dizer.
        - Niente, caro. No h nada para dizer.
        - Deveria ser de Alessandro. 
        Mas ela apenas sacudiu a cabea.
        - No, Nardo. Voc deve possu-lo.
         E, por um momento infindvel, os olhos dela perderam-se nos dele. Isabella queria que ele soubesse: no importava quanto tivessem atritos no trabalho, ele 
era precioso para ela, e ele  que importava. Muitssimo. Ele e Alessandro eram tudo que lhe restava agora. E Bernardo sempre seria especial. Era seu amigo. Como 
tambm fora de Amadeo. O relgio era para que se lembrasse disso, que era algo mais do que apenas o diretor da San Gregorio ou o homem para quem vociferava todos 
os dias, 27 vezes antes do meio-dia. Longe do escritrio, era algum importante para ela, uma espcie de famlia. Bernardo fazia parte da sua vida particular. E 
a expresso do olhar de Isabella dizia tudo isso agora, enquanto ele a observava. Os olhos dele pareceram sustentar os dela por um tempo muito longo, como se ele 
estivesse pensando em alguma coisa, como se estivesse tentando reagir contra uma torrente irresistvel sobre a qual no tivesse controle.
        - Isabella... - De repente, ele pareceu estranhamente formal e ela ficou aguardando, sabendo que estava comovido demais por causa do presente. - Eu... eu 
tenho algo para lhe dizer. H muito tempo. Talvez no seja o momento oportuno. Provavelmente seja... no estou certo. Mas preciso lhe dizer. Devo ser honesto com 
voc agora. ... muito importante... para mim.
        Ele hesitava de forma cansativa entre as palavras, como se o que dizia lhe fosse muito difcil, e a expresso do seu olhar revelava a Isabella que de fato 
era.
        - O que est havendo?
        De repente, os olhos dela encheram-se de compaixo. Bernardo parecia angustiado, pobre homem; e nos ltimos tempos vinha sendo to dura! O que, em nome de 
Deus, Bernardo estava a ponto de lhe dizer? Sentou-se muito ereta e aguardou. 
        - Nardo... parece assustado, caro. No tem necessidade. Seja o que for, pode me dizer. Deus sabe que temos sido muito sinceros durante todos estes anos. 
        Procurava faz-lo sorrir e ele no sorria e, pela primeira vez em todos esses anos que se conheciam, Bernardo considerou-a insensvel. Meu Deus, como Isabella 
podia deixar de saber? Mas no era insensibilidade, era cegueira. Soube disso enquanto a observava. Ento, ele assentiu com a cabea e colocou o copo sobre a mesa.
        - Estou assustado, sim. O que tenho para lhe dizer costumava me assustar muito. E o que me preocupa agora  que talvez o assunto a assuste. E isso eu no 
quero.  a ltima coisa que desejo. 
        Ela estava sentada muito serena, observando-o, aguardando.
        - Nardo... 
        Ela comeou a falar, estendendo a mo graciosa, alva e longa. Ele a pegou e reteve-a rpido entre as suas. Seus olhos no se desprenderam dos dela.
        - Vou lhe dizer com toda a simplicidade, Bellezza. No h outro modo. Amo voc. - E, depois, suave - H anos que te amo.
        Ela deu a impresso de quase dar um pulo diante de suas palavras, como se uma corrente eltrica de repente tivesse passado por ela e provocado um choque 
em seu corpo todo.
        - O qu?!
        - Eu te amo.
        Desta vez ele pareceu menos assustado, fazendo lembrar mais o Bernardo que ela conhecia.
        - Mas Nardo... todos esses anos?
        - Todos esses anos - repetiu com orgulho. Sentia-se melhor. Por fim desabafara.
        - Como pde?
        - Muito fcil. Em geral voc  uma pessoa desagradvel, mas, por estranho que parea, isso no a torna difcil de ser amada. 
        Ele sorria e ela de repente riu, o que pareceu quebrar um pouco a tenso na sala.
        - Mas por qu?
        Ela levantou-se e caminhou pensativa at a beira do fogo.
        - Por que amei voc ou por que no lhe disse?
        - Ambas as coisas. E por que agora? Por que agora, Nardo... por que precisou me contar agora? 
        De repente, havia lgrimas em sua voz e nos olhos quando ela apoiou-se no console da lareira, olhando para o fogo. Bernardo caminhou devagar at ela, ficou 
ao seu lado e, gentilmente, virou o rosto dela para o seu a fim de que pudesse olhar em seus olhos.
        - No lhe disse nada em todos esses anos porque eu amava vocs dois. Tambm amava Amadeo, voc sabe. Ele era um homem muito especial. Jamais teria feito 
alguma coisa que o ferisse ou a magoasse. Coloquei meus sentimentos de lado, sublimei-os. Coloquei o que sentia na empresa e talvez - ele sorriu - inclusive nas 
brigas com voc. Mas agora... tudo mudou. Amadeo se foi. E dia aps dia, semana aps semana, eu a observo, solitria, destruindo-se, esforando-se, sozinha, sempre 
sozinha. No posso suportar mais isso. Estou l por voc. Tenho estado durante todos esses anos. J era hora de voc saber disso. Est na hora de voltar-se para 
mim, Isabella. E... - hesitou por um longo momento, em seguida ficou muito calmo e disse -...e est na hora de eu ter minha famlia tambm. Chegou a hora de poder 
lhe dizer que a amo, senti-la em meus braos, ser o padrasto de Alessandro, se voc me deixar, e no apenas seu amigo. Talvez eu esteja louco por estar lhe dizendo 
isso tudo, mas... 
eu... preciso... Amei-a durante um tempo longo demais.
        Estava rouco, com a paixo de anos enclausurada, e enquanto ela o observava, as lgrimas escorriam lentamente por seu rosto, rolando impiedosamente pelas 
suas faces e sobre seu vestido. 
        Ele a olhava e, devagar, levou a mo ao rosto dela e enxugou-lhe as lgrimas. Era a primeira vez que a tocava desse modo e sentiu a paixo descontrolada 
romper-lhe as entranhas. Quase sem pensar, puxou-a para si e esmagou seus lbios contra os dela. Isabella no lutou para soltar-se e, por um instante, Bernardo julgou 
sentir que ela retribua seu beijo. Estava ansiosa, solitria, triste, assustada, mas o que acontecia era demais e, de repente, ela afastou-o com firmeza. Ambos 
ofegavam, e Isabella lanou um olhar selvagem ao fitar seu velho amigo.
        - No, Nardo!... No! 
        Ela tanto lutava contra o que ele acabara de dizer como contra o beijo.
        Porm, subitamente, Bernardo pareceu at mais assustado do que ela. Sacudiu a cabea.
        - Desculpe. No pelo que eu disse. Mas por... por pux-la to rapidamente... eu... meu Deus, lamento muito!  cedo demais. Eu estava errado.
        Contudo, ao observ-lo, ela ficou triste e pesarosa por ele. Era bvio que h anos Bernardo vinha sofrendo. E, durante esse tempo, nunca desconfiara e estava 
certa de que Amadeo ignorara tanto quanto ela. Mas como pde ter sido to ignorante? Como no conseguiu ver? Fitava-o com compaixo e ternura e estendeu-lhe ambas 
as mos.
        - No lamente, Nardo, est tudo bem. - Mas, como surgisse um brilho intenso de esperana nos olhos dele, ela sacudiu rapidamente a cabea. - No, no  isso 
que eu quis dizer. E... eu simplesmente no sei.  cedo demais. Mas voc no estava errado, se  o que sente, devia realmente me dizer. Devia ter me dito h muito 
mais tempo.
        - Dizer o qu ento? - Por um momento parecia amargo e com cimes do velho amigo.
        - No sei. Mas devo ter parecido muito ignorante e cruel durante todo esse tempo 
         Olhou-o afetuosamente e Bernardo sorriu.
        - No. Apenas cega. Mas talvez tenha sido melhor assim. Se eu lhe tivesse dito, s complicaria as coisas. Talvez complique, inclusive agora.
        - No h necessidade.
        - Mas talvez complique. Gostaria que eu deixasse a San Gregorio, Isabella? - Ele perguntou, muito honesto, e sua voz parecia muito cansada. Fora uma noite 
muito difcil para ele.
        Mas agora Isabella olhava-o com fogo nos olhos.
        - Est louco? Por qu? Por que me beijou? Por que disse que me ama? Por causa disso iria embora? No faa isso comigo, Nardo. Preciso de voc, de muitas 
maneiras. No sei o que sinto neste exato momento. Sinto-me ainda entorpecida. Ainda quero Amadeo noite e dia... quase o tempo todo no compreendo que ele jamais 
voltar para casa. Ainda espero que 
volte... Ainda ouo sua voz, vejo-o na minha frente e sinto seu cheiro... No h lugar para outra pessoa em minha vida, a no ser Alessandro. No posso lhe fazer 
nenhuma promessa. Mal ouo o que est dizendo. Escuto, mas na verdade no compreendo. No mesmo. Talvez um dia. Mas at l tudo que posso fazer  am-lo como sempre 
amei, como a um irmo, como amigo. Se isso  razo para voc deixar a San Gregorio, ento faa, mas jamais compreenderei. Podemos continuar como sempre temos feito; 
no h nenhuma razo para ser o contrrio. 
        - Mas no para sempre. Pode compreender isso?
        Ela parecia sofrer quando seus olhos se encontraram. 
        - O que quer dizer?
        - Exatamente o que eu disse: que no posso continuar assim para sempre. Tive de lhe contar porque no posso mais viver com meus sentimentos ocultos, e no 
h razo para isso. Amadeo se foi, Isabella, quer reconhea ou no. Ele se foi e eu a amo. Dois fatos distintos. Mas continuar assim para sempre, sem que voc tambm 
me ame, continuar trabalhando para voc, porque na verdade realmente trabalho para voc e no com voc, principalmente agora, continuar ocupando posio subalterna, 
Isabella... no posso. Quero um dia compartilhar da sua vida, deixar de existir  margem dela. Quero lhe dar o que h em minha vida. Quero torn-la melhor, mais 
feliz, mais forte. Quero ouvi-la rir novamente. Quero compartilhar a vitria das nossas colees e dos negcios fabulosos. Quero ficar ao seu lado enquanto Alessandro 
vai crescendo.
        - Ficar de qualquer modo.
        - Exato. - Ele apenas assentiu com a cabea. - Ficarei. Como seu marido ou como seu amigo. Mas no como seu funcionrio.
        - Compreendo. Ento o que est me dizendo  que ou se casa comigo ou se demite?
        - Conseqentemente. Mas talvez pudesse levar muito tempo... se... eu sentisse haver esperana. - Em seguida, aps uma longa pausa: - H?
        Porm, da mesma forma que ele, Isabella levou muito tempo para responder.
        - No sei. Sempre amei voc. Mas no dessa maneira. Eu tinha Amadeo.
        - Compreendo. Sempre compreendi. 
        Ficaram em silncio por longo tempo, olhando para o fogo, cada qual perdido em seus pensamentos; e, gentilmente, Bernardo tomou-lhe a mo mais uma vez. Abriu-a, 
olhou para a palma delicada, com suas linhas finas, e beijou-a. Isabella no retirou a mo, apenas observava-o com um olhar triste. Era-lhe especial e o amava, mas 
ele no era Amadeo. Jamais seria... jamais... e enquanto estavam ali sentados, ambos sabiam disso. Bernardo olhou-a durante muito tempo e com uma expresso sria 
ao soltar-lhe a mo. 
        - Eu estava falando srio. Gostaria que eu me demitisse?
        - Por causa desta noite?
        Ela parecia cansada e triste. No tinha sido uma traio, mas uma perda. De certa forma, sentia que acabara de perd-lo como amigo. Bernardo queria ser seu 
amante. E no havia vaga para esse trabalho.
        - Sim. Por causa desta noite. Se tornei impossvel para voc viver comigo no escritrio agora, irei embora. Imediatamente, se quiser.
        - Eu no quero. Isso seria at mais impossvel, Nardo. Eu fracassaria em uma semana.
        - Talvez surpreendesse a si mesma. No fracassaria. Mas no  o que prefere?
        Ela sacudiu a cabea, com honestidade.
        - No. Mas no sei o que lhe dizer sobre isso tudo.
        - Ento no diga nada. E um dia, se a ocasio ainda for apropriada, daqui a bastante tempo, repetirei o que disse. Mas, por favor, no se atormente ou pense 
que isto seja uma ameaa para voc. No vou aparecer de repente nas soleiras das portas e torn-la em meus braos. Temos sido amigos durante muito tempo. No quero 
perder isso tambm. 
        De repente, Isabella sentiu-se aliviada. Talvez no tivesse perdido tudo afinal.
        - Fico contente, Nardo. No posso lidar com qualquer uma dessas situaes neste momento. No estou preparada. Talvez no venha a estar nunca.
        - Estar sim. Mas talvez nunca para mim. Compreendo isso tambm.
        Ela o olhou com um sorriso terno e inclinou-se devagar para beij-lo no rosto.
        - Desde quando ficou to esperto, sr. Franco?
        - Sempre fui, voc  que nunca notou.
        -  mesmo? 
        Ele sorria e ela ria, toda a atmosfera do ambiente tornou a mudar.
        - Sim,  mesmo. Acontece que sou o gnio do escritrio ultimamente, ou ainda no tinha percebido?
        - De modo algum. E todas as manhs, quando olho no espelho e digo: "Espelho, espelho da parede, quem  o gnio dentre todos eles...?" 
        Mas os dois riam agora e, de repente, seus rostos se reaproximaram, e ele pde sentir a suave respirao de Isabella em seu rosto. Tudo que desejava fazer 
era beij-la outra vez, podia ver os lbios dela aguardando os seus. Mas no a beijou, o momento passou e Isabella, embaraada, soltou uma risada estranha e afastou-se. 
No, no ia ser fcil no escritrio. Ambos sabiam.
        - Vejam o que Laura preparou para Papai Noel!
        Calado com as pantufas macias, Alessandro aproximara-se sem ser notado. Mas os dois ergueram os olhos para ver o menino carregando dois pratos cheios de 
po de mel, depositados cuidadosamente sobre um banquinho, que colocou ao lado da lareira. Olhou-os com ar srio e depois apanhou um grande pedao morno de po, 
comendo-o rapidamente. Tornou a desaparecer, aps ter rompido o penoso encantamento.
        - Isabella... - Bernardo olhou-a e sorriu. - No se preocupe. 
        Ela apenas deu um tapinha amistoso em seu brao e trocaram um sorriso, no mesmo instante em que Alessandro voltava, carregando apreensivo duas canecas de 
leite.
        - Voc est preparando uma festa ou alimentando Papai Noel?
        Bernardo lanou-lhe um largo sorriso e tornou a sentar-se.
        - No. Nada  para mim.
        - Tudo isto  para Papai Noel? 
        Bernardo olhava-o com um amplo sorriso, mas o rosto do menino foi adquirindo lentamente uma expresso compenetrada, e ele sacudiu a cabea.
        -  para mim? 
        A cabea tornou a se sacudir seriamente.
        -  para papai. Se... os anjos o deixarem vir para casa... s por esta noite. 
        Olhou outra vez para os dois lugares que arrumara ao lado da lareira, depois deu um beijo de boa-noite na me e em Bernardo. E, cinco minutos mais tarde, 
Bernardo foi embora e Isabella seguiu para seu quarto em silncio. For a uma noite muito longa.

Captulo Sete
        - Alessandro est brincando muito com o carrossel? 
        Bernardo esticou as pernas  frente, quando ele e Isabella terminaram. Uma reunio privativa no final de um dia muito cansativo. J haviam decorrido trs 
semanas aps o Natal, e eles no fizeram outra coisa seno trabalhar. Mas, finalmente, parecia que as coisas voltavam a entrar na rotina. Tinham tido uma boa briga, 
inclusive, uns dez dias atrs. E ele no voltara a mencionar a "confisso" que fizera no Natal. Isabella sentia-se aliviada.
        - Acho que ele gosta, tal como gostou da bicicleta.
        - J quebrou alguma pea da moblia com ela?
        - No, mas sem dvida est tentando. Ontem mesmo ele estabeleceu uma pista de corrida na sala de jantar, e s colidiu com cinco cadeiras. 
        Riram por um momento, e Isabella levantou-se, espreguiando-se. Estava alegre porque os feriados haviam acabado e satisfeita com o trabalho realizado. Com 
algum esforo, ambos tinham voltado ao velho relacionamento, e at Bernardo notava que Isabella demonstrava uma disposio pacfica. E, ento, ele a viu enrijecer 
ao ouvir o telefone do gabinete de Amadeo.
        - Por que esto tocando para o gabinete dele?
        - Talvez no tenham conseguido chegar at o seu.
Ele tentou mostrar-se descontrado, embora, por um momento, o som o tivesse feito estremecer tambm. Mas ambos sabiam que os homens que selecionavam as chamadas 
telefnicas para ela por vezes retinham todas as linhas. Os homens que selecionavam as chamadas telefnicas para ela por vezes retinham todas as linhas. 
        - Quer que eu atenda?
        - No. Est tudo bem. -
        Ela entrou depressa no gabinete de Amadeo e, aps ficar l uns dois minutos, ele ouviu um grito. Correu e encontrou-a plida e histrica, as mos tapando 
a boca e olhando fixamente para o telefone.
        - O que ? - Mas ela no respondeu e, quando tentou, tudo que saiu de dentro dela foi um grunhido seguido de outro grito. - Isabella, fale comigo! - Ele 
a segurava pelos ombros, sacudindo-a desesperado, enquanto procurava fit-la nos olhos.
        - O que disseram? Teve algo a ver com Amadeo? Foi o mesmo homem?
        - Isabella... 
         Ele pensava seriamente na possibilidade e esbofete-la, quando o guarda que rondava a parte externa o escritrio entrou precipitado. 
        - Isabella!
        - Alessandro!... Eles... disseram... eles... esto com ele... 
        Soluando, ela caiu nos braos de Bernardo. O guarda correu frentico para o telefone, ligando para a villa, sem conseguir completar a ligao.
        - Chame a polcia! - Bernardo gritou por sobre o ombro enquanto agarrava o casaco e a bolsa de Isabella, precipitando-a pelo escritrio dela, e depois porta 
afora. - Vamos para casa. 
        E, ento, parando um instante na porta, olhou duro, para Isabella, segurando-a pelos dois braos. 
        - Devem ser os manacos outra vez. Sabe disso, no sabe? Vai ver que ele est bem. 
         Mas a nica coisa que ela pde fazer foi olh-lo fixamente e sacudir a cabea com gestos frenticos, de um lado para outro. 
        - Foi a mesma voz, o mesmo homem? - Perguntou ele.
        Ela tornou a sacudir a cabea. Bernardo fez um sinal para que o guarda o seguisse e os trs desceram correndo as escadas para fora do prdio. No caminho, 
chamaram outro guarda para juntar-se a eles. O carro de Isabella j estava esperando por ela, conforme fazia no final de cada dia. Enzo olhou-os, cheio de confuso, 
quando os quatro entraram precipitados no carro, um dos guardas empurrando Enzo para o lado, enquanto introduzia-se no veculo, assumindo a direo.
        - Ma, che... - Enzo comeou, mas um olhar para Isabella lhe disse o que ele no queria saber. - O que h? Il bambino?
        Ningum respondeu. Isabella continuava agarrada a Bernardo e eles partiram para a villa na Via Appia Antica, fazendo um barulho ensurdecedor.
        O motorista mal esperou que os portes eltricos se abrissem de par em par. Um dos guardas j estava fora do carro antes do veculo parar. Ele entrou correndo 
na casa, seguido um instante depois por Isabella, Bernardo, Enzo e o guarda restante, todos andando freneticamente e em passadas pesadas pela casa. A primeira pessoa 
que Isabella viu foi Luisa.
        - Alessandro? Onde est ele? - Agora ela conseguia falar e agarrava rudemente a assustada criada.
        - Eu... senhora... ele...
        - Diga de uma vez!
        Confusa, a idosa cozinheira comeou a chorar.
        - No sei. Mamma Teresa saiu com ele uma hora atrs, creio eu... O que aconteceu? - Depois, vendo Isabella histrica  sua frente, compreendeu. - Oh, Deus, 
no. Oh, Deus!...
        O ar encheu-se com seus longos gritos pesarosos. O som penetrava em Isabella como uma lmina. Conseguia apenas pensar em parar com aquilo, interromper. Sem 
refletir, impulsionou a mo e esbofeteou Luisa antes que Enzo pudesse levar a cozinheira embora. Um momento mais tarde, o brao de Bernardo rodeava a cintura de 
Isabella. E ele estava meio guiando, meio arrastando-a pelo corredor at seu quarto. No momento exato em que chegaram  porta, houve um tumulto na outra extremidade 
da casa. O barulho de passos. Os guardas trovejando pela casa. Em seguida, como msica, a voz de Alessandro e de mamma Teresa, como de costume, tranqila, quando 
ela entrou com o menino. Isabella olhou para Bernardo com expresso selvagem e correu pelo corredor.
        - Mamma...! 
        Alessandro comeou, depois parou. A me no mais tivera aquela aparncia desde que lhe disseram, quatro meses atrs, que ela estava resfriada e fora quando... 
Olhando-a, assustado, cheio de lembranas, ele correu para ela e comeou a chorar. Abraando-o estreitamente contra si, a voz embargada pelos soluos, ela olhou 
para mamma Teresa.
        - Aonde foram?
        - Fomos dar um passeio de bicicleta. - A bab, que j no era moa, comeava a entender o que devia ter acontecido ao olhar para Isabella e a falange de 
guarda-costas. - Achei que uma mudana iria fazer bem ao menino.
        - Nada aconteceu? - Mamma Teresa sacudiu a cabea e Isabella olhava para Bernardo, atrs dela. - Ento foi apenas... outro daqueles telefonemas - disse ela.
        Mas acreditara neles. Parecera-se tanto com aqueles outros, aquelas terrveis vozes ameaadoras. E como tinham conseguido seu intento? Sentiu-se vacilar 
e percebeu indistintamente algum retirar o filho dos seus braos. Cinco minutos depois voltava a si em seu quarto, com Bernardo e uma das criadas de p, vigiando-a 
de perto, olhando-a ansiosamente enquanto recobrava a conscincia.
        - Grazie.
        Com um gesto de cabea, Bernardo despediu a criada, entregou a Isabella um copo com gua e sentou-se na beira da cama. Parecia quase to plido quanto Isabella. 
Silenciosamente, ela bebeu a gua do copo que suas mos trmulas seguravam.
        - Quer que eu chame o mdico?
        Isabella recusou com a cabea. Ficaram ali por um momento, abalados, silenciosos, aturdidos com o que chegaram a pensar.
        - Como conseguiram completar a ligao? - Perguntou Isabella finalmente.
        - Um dos guarda-costas disse que hoje houve alguma coisa com as linhas. O sistema interceptador dos telefonemas do escritrio deve ter sofrido uma interrupo 
por alguns minutos. Ou talvez tenham deixado escapar o chamado. Deve ter cado no escritrio de Amadeo por alguma razo. At devido a uma linha cruzada.
        - Mas por que fariam isso comigo? Oh, Deus, Bernardo... - Ela fechou os olhos e voltou a encostar a cabea nos travesseiros por um instante. - E coitada 
da Luisa.
        - Esquea a Luisa.
        - Irei v-la daqui a pouco. Pensei...
        - Tambm eu. Pensei que tivesse acontecido realmente, Isabella. E se um dia acontecer? E se algum lev-lo tambm?
        Fitou-a impiedosamente no momento em que ela fechava os olhos e sacudia a cabea.
        - No diga uma coisa dessas.
        - O que far voc? Vai acrescentar mais uma dzia de guardas ao squito? Construir uma fortaleza s para voc e o menino? Ter um ataque cardaco da prxima 
vez que receber o telefonema de um manaco?
        - No sou velha o bastante para ter ataque cardaco. 
        Olhou-o com uma expresso de tristeza e uma tentativa de sorriso, mas Bernardo no retribuiu.
        - Voc no pode mais viver assim. E no me venha com discursos sobre o que est fazendo por Amadeo, sobre assumir seu lugar. Se ele soubesse o que esteve 
fazendo, como esteve vivendo, trancada aqui, no escritrio, mantendo a criana trancada tambm. Se ele soubesse os riscos que estaria correndo com aquele menino 
s por continuar morando em Roma, ele a mataria, Isabella. Voc mesma sabe disso. No ouse jamais tentar justificar essa atitude me dizendo que est fazendo tudo 
isso s por causa dele. Amadeo jamais a perdoaria. E, talvez, um dia, nem Alessandro. Voc est proporcionando a ele uma infncia de terror, sem mencionar o que 
est fazendo a si mesma. Como ousa! Como ousa! -
        A voz de Bernardo,  medida que falava, elevava-se com firmeza. Ele andava pelo quarto em passadas rgidas e lentas, voltando-se para olh-la, gesticulando. 
Passou uma das mos pelo cabelo, depois tornou a sentar-se, lamentando a prpria exploso, preparada para encolerizar Isabella. 
        Mas ao olh-la ficou desorientado, porque desta vez Isabella no o mandara para o inferno. No evocara o sagrado nome de Amadeo, no lhe dissera que sabia 
que estava certa procedendo assim.
        - O que acha ento que eu devia fazer? Fugir? Deixar Roma? Esconder-me pelo resto da vida? - perguntou ela.
        Mas desta vez no havia ironia. Apenas a sombra do terror que acabara de sentir mais uma vez.
        - No precisa se esconder pelo resto da vida. Mas talvez tenha de fazer algo parecido por uns tempos.
        - E depois o qu? Bernardo, como eu posso?
        Ela parecia uma menina assustada, cansada. Gentilmente, Bernardo tomou-lhe a mo.
        - Voc  obrigada, Isabela. No tem escolha. Eles a deixaro louca se ficar. V viajar. Por seis meses, um ano. Resolveremos tudo. Podemos nos comunicar. 
Voc pode me dar ordens, instrues, lceras, qualquer coisa, mas no fique aqui.  Pelo amor de Deus, no fique aqui! Eu no suportaria se... - Ele sacudiu a cabea 
que deixara cair entre as mos. Chorava. - ...se algo acontecesse a Alessandro ou a voc. - Ergueu os olhos para ela ento, as lgrimas ainda escorrendo dos seus 
olhos azuis. - Voc  como minha irm. Amadeo era meu melhor amigo. Pelo amor de Deus, faa uma viagem!
        - Para onde?
        - Poderia ir para Paris.
        - No h mais nada para mim em Paris. J morreram todos. Meu av, meus pais. E se essas pessoas podem fazer isso comigo aqui, faro na Frana com a mesma 
facilidade. Por que no posso encontrar um lugar isolado, aqui no campo, talvez no muito distante de Roma? Se ningum souber onde estou, seria a mesma coisa.
        Mas agora Bernardo olhou-a zangado.
        - No comece fazendo seu jogo. V embora, droga! Agora! V para algum lugar. Qualquer lugar. No a dez minutos de Roma, nem em Milo ou Florena. V para 
longe, que diabo!
        - O que est sugerindo? Nova York? 
        Fizera a pergunta com ironia, contudo, no momento em que pronunciou as palavras, ela soube, bem como ele. Isabella ficou parada por um longo tempo, pensando, 
enquanto ele a observava, esperanoso, rezando. Silenciosamente, ela assentiu com a cabea, concordando. Olhou para ele muito sria, avaliando aquilo tudo. Ento, 
levantou-se da cama devagar e dirigiu-se ao telefone. 
        - O que est fazendo?
        A expresso dos seus olhos dizia que ela no estava derrotada, que no desistiria. Que ainda havia esperana. Ela no ficaria fora por um ano. No deixaria 
que a afastassem do seu lar, do seu trabalho, do lugar ao qual pertencia. Mas iria. Por algum tempo. Se pudesse ser arranjado. Havia fogo em seus olhos outra vez 
quando Isabella pegou no telefone.



























Captulo Oito



        Uma loura alta e magra, o cabelo caindo sobre um dos olhos, encontrava-se numa salinha pintada de amarelo-claro, martelando com empenho numa mquina de escrever. 
A seus ps, um pequeno cocker spaniel castanho dormia, e pela sala espalhavam-se livros, plantas e montanhas de papis. Havia sete ou oito xcaras de caf vazias 
ou emborcadas, depois de fuadas pelo cachorro, e, pregado sobre a janela, um pster de So Francisco. Ela o chamava de seu panorama. Evidentemente, tratava-se do 
gabinete de uma escritora. E as capas emolduradas dos seus ltimos cinco livros pendiam tortas na parede mais distante, espalhadas entre fotografias igualmente tortas 
de um iate ancorado em Monte Carlo, de duas crianas numa praia de Honolulu, de um presidente, um prncipe e um beb. Todas relacionadas, de alguma forma, com publicidade, 
amantes ou amigos, exceto o beb, que era dela. A data da fotografia era de cinco anos atrs.
        O spaniel moveu-se preguioso no calor do aquecimento do apartamento nova-iorquino. A mulher na mquina de escrever esticou os ps descalos e, distrada, 
acariciou o cachorro.
        - Agente um pouco, Ashley. Estou quase terminando. 
        Ela apanhou uma caneta preta e fez algumas correes apressadas com a mo esguia e fina, despojada de anis. A voz com que falara com o cachorro decididamente 
possua sotaque sulista. Savannah. Uma voz que lembrava grandes plantaes, festas e elegantes salas de estar do extremo sul. Uma voz aristocrtica. Uma dama. 
        -Droga!
        Ela agarrou a caneta outra vez, riscou metade de uma pgina e ajoelhou-se freneticamente no cho, em busca de duas pginas que h uma hora no via. Estavam 
ali em algum lugar. Refeitas, datilografadas, corrigidas. E,  claro, importantes. Ela estava reescrevendo um livro. Aos trinta anos, continuava com o mesmo fsico 
da poca em que viera para Nova York, aos dezenove, para ser modelo, apesar dos protestos violentos da famlia. Persistira durante um ano, odiando o que fazia, mas 
no admitindo isso para ningum, a no ser para a sua querida colega de quarto romana, que viera para os Estados Unidos por um ano, a fim de estudar o design americano. 
Como Natasha, Isabella viera para Nova York por um ano. Mas Natasha levara um ano, desde que sara da faculdade, para tentar a sorte e ter sucesso sem depender de 
ningum. No era o que seus pais planejaram para ela. Ricos em refinada linhagem sulista e pobres em dinheiro vivo, queriam que a filha terminasse a faculdade e 
se casasse com um excelente rapaz sulista, coisa que no passava pela cabea de Natasha.
        Aos dezenove anos, tudo que ela desejara era sair do sul, ir para Nova York, ganhar dinheiro e ser livre. E conseguiu. Ganhou dinheiro como modelo e, depois, 
como escritora independente. Chegou inclusive a ser livre, durante algum tempo. At que conheceu e se casou com John Walker, crtico teatral. Um ano mais tarde tiveram 
um filho, para se divorciarem um ano depois. Tudo que lhe restou foi um corpo magnfico, um rosto sensacional, talento para escrever e um filho de quinze meses de 
idade. E, cinco anos mais tarde, j escrevera cinco romances e dois roteiros para o cinema, sendo uma estrela no mundo literrio.
        Mudara-se para um grande e confortvel apartamento na Park Avenue, pusera o filho numa escola particular, contratara uma governanta, investira dinheiro; 
e Natasha Walker divertia-se muitssimo. Aps ter adquirido sucesso para acrescentar  beleza, Natasha tinha tudo.
        - Sra. Walker?
        Houve uma suave batida na porta. 
        - Agora no, Hattie, estou trabalhando.
        Natasha afastou o longo cabelo louro dos olhos e recomeou a examinar minuciosamente a pilha de papis.
        - Tem certeza?  um telefonema. Acho que  importante. 
        - Acredite em mim. No  importante.
        - Mas dizem que  de Roma.
        A porta foi aberta antes que Hattie pudesse acrescentar outra palavra  sua exortao. J no havia mais necessidade. Natasha atravessou a cozinha, com os 
ps nus, compridos e magros batendo no piso amarelo-claro, os jeans apertados realando os ossos dos quadris, a camisa masculina abotoada logo abaixo dos seios pequenos.
        - Por que no me disse que era de Roma? - Lanou um olhar de censura para a mulher negra de cabelos grisalhos, crespos e macios e, depois, esboou um rpido 
sorriso. - No se preocupe. Sei como sou desagradvel quando estou trabalhando. S no entre ali. No lave as xcaras de caf, no regue as plantas, nada. Preciso 
da confuso. 
        Hattie fez uma careta de zombaria diante do refro familiar e desapareceu por um corredor claro e ensolarado em direo aos quartos enquanto Natasha atendia 
ao telefone. 
        - Al?
        - Signora Natasha Walker? 
        - Eu mesma.
        - Temos uma ligao de Roma. Um instante, por favor. 
        Natasha ficou muito quieta e aguardou. No havia falado com Isabella desde que soube das notcias. Sua vontade foi voar para Roma, para o enterro. Mas Isabella 
no desejara que ela fizesse a viagem. Pedira-lhe que aguardasse. Ela escrevera e aguardara, porm, pela primeira vez, nos onze anos daquela amizade, no houve nenhuma 
resposta, nenhuma notcia. Quatro meses j se haviam passado desde a morte de Amadeo, e ela nunca se sentira to afastada de Isabella desde que a amiga deixara o 
apartamento que compartilharam durante um ano e voltara para Roma. Tampouco escrevera nos primeiros meses, mas isso porque Isabella andara ocupada demais com seus 
designs, e depois se apaixonara. Apaixonada demais. Natasha ainda recordava a excitao contida nas cartas de Isabella quando lhe escrevera para contar: "... e ele 
 maravilhoso... e eu o amo... to bonito... to alto, louro, e vou trabalhar para ele na San Gregorio, fazendo alta costura de verdade..." A alegria e a excitao 
continuaram atravs dos anos. Havia sido uma lua-de-mel permanente com aqueles dois. E, ento, subitamente, ele estava morto. Abalada e horrorizada, Natasha ficara 
sentada em silncio, enquanto inteirava-se do fato atravs do noticirio das seis.
        - Signora Walker?
        - Sim, sim, eu mesma.
        - A pessoa j vai falar.
        - Natasha? - A voz de Isabella estava estranhamente controlada.
        - Por que no tem respondido s minhas cartas? 
        - Eu... no sei, Natasha... no sabia o que dizer. 
        Natasha franziu a testa, depois assentiu com a cabea. 
        - Fiquei preocupada. Voc est bem? 
        A preocupao em sua voz viajou oito mil quilmetros para apresentar-se a Isabella, que enxugou as lgrimas dos olhos e quase sorriu.
        - Acho que sim. Preciso de um favor.
        Sempre fora assim com elas. Podiam recomear de onde quer que tivessem parado. Podiam no se falar durante seis meses e depois, instantaneamente, voltarem 
a ser irms quando se encontrassem ou tornassem a se falar. Era uma dessas raras amizades que sempre podia ser interrompida sem esfriar.
        - O que desejar - respondeu Natasha.
        Isabella explicou em breves palavras o que tinha acontecido com Alessandro naquele dia, ou o que no tinha, mas que podia ter acontecido.
        - No agento mais. No estou agentando uma coisa dessas - disse ela. - No posso correr o risco e deixar que acontea alguma coisa com ele.
        Ao pensar no prprio filho, Natasha sentiu-se estremecer s em ouvir a histria.
        - Ningum agentaria. Gostaria de mand-lo para mim? 
        Os meninos tinham a mesma idade, apenas quatro meses de diferena, e Natasha no era pessoa que ficasse arrasada com mais uma criana. 
        - Jason vai adorar - acrescentou. - Ele fica se queixando comigo por no ter um irmo. Alm disso, ambos tm muito em comum. 
        No ano anterior, quando todos se encontraram para esquiar em Saint Moritz, os dois meninos se divertiram cortando o cabelo um do outro. 
        - Estou falando srio, Isabella. Acho que voc devia tir-lo de Roma.
        - Concordo. - Houve uma pausa de uma frao de segundo. - Como se sentiria tendo uma companheira de quarto outra vez? 
        Ela aguardou, no sabendo o que Natasha diria, mas sua resposta foi imediata. Tomou a forma de um grito longo, encantado, de uma menina sulista. Isabella 
viu-se subitamente rindo.
        - Adoraria. Est falando srio?
        - Muito. Bernardo e eu conclumos que no h outro jeito. S por algum tempo. No permanente,  claro. E, Natasha - ela parou, imaginando como explicar que 
ela no estava apenas fugindo - talvez fosse um tanto embaraoso. Terei de ficar escondida. No quero que ningum saiba onde estou. 
        - Vai ser difcil. Voc no poder pr o p fora do apartamento.
        - Acha mesmo que as pessoas a me reconheceriam se me vissem?
        - Quer saber mesmo? Talvez os operrios que vo para o trabalho de metr no a reconheam, mas praticamente todos os demais o fariam. Alm disso, se voc 
desaparecer de Roma, isso sair nos jornais do mundo inteiro.
        - Ento s terei de ficar escondida.
        - Ser que poder viver assim? - Natasha tinha suas dvidas.
        - No tenho escolha. Pelo menos no momento. Isso  o que preciso fazer.
        Natasha sempre sentira admirao pelo senso de dever e pela coragem de Isabella, bem como por sua maneira pessoal de fazer as coisas.
        - Mas tem certeza de que pode agentar viver comigo? Posso ficar em outro lugar - disse Isabella.
        - Probo que fique em outro lugar. Se fizer isso, nunca mais falo com voc. Quando pretende chegar?
        - No sei. Mal acabei de tomar a deciso. Levar tempo para resolver os assuntos sobre o escritrio. Terei de continuar dirigindo a San Gregorio de onde 
estiver.
        Em resposta, Natasha deixou escapar um assobio longo e baixo.
        - Como vai conseguir?
        - Teremos de resolver. Coitado do Bernardo, como sempre, ter de agentar o rojo. Mas posso falar com ele todos os dias pelo telefone, se precisar, e temos 
um escritrio a para o nosso representante. Posso telefonar sem lhe dizer que estou em Nova York. Creio que pode ser resolvido.
        - Se pode, ento voc o far. Se no puder, o far de qualquer modo.
        - Gostaria de me sentir to segura. Detesto deixar a empresa aqui. Oh, Natasha...  - Soltou um longo suspiro de infelicidade. - Tem sido uma poca horrvel. 
Nem me sinto a mesma.
        Natasha nada disse, mas Isabella no parecia ela prpria. Obviamente, os ltimos quatro meses tinham cobrado um alto tributo.
        - Sinto-me como um rob - continuou Isabella. - Mal consigo chegar ao fim de cada dia que passa, matando-me no escritrio e brincando com Alessandro quando 
posso. Mas continuo... continuo pensando... - Natasha pde sentir que a voz da amiga falhou do outro lado do fio. -Continuo pensando que ele vai ainda voltar para 
casa. Que ele, na verdade, no morreu.
        - Acho que  o que acontece quando algum que amamos desaparece de repente, como foi o caso. Voc ainda no teve tempo para assimilar o que aconteceu, para 
compreender.
        - J no compreendo mais nada.
        - No  necessrio. - A voz de Natasha estava cordial. - Venha para casa apenas. - Havia lgrimas em seus prprios olhos enquanto pensava na amiga. - Voc 
devia ter permitido que eu fosse a Roma quatro meses atrs. Eu a teria trazido de volta.
        - No teria no.
        - Teria sim. Sou mais alta que voc, lembra-se?
        De repente, Isabella riu. Seria muito agradvel rever Natasha. E talvez at fosse divertido ir a Nova York. Divertido! Que loucura pensar numa coisa dessas, 
depois de tudo que acontecera nos ltimos quatro meses.
        - Falando srio, quando acha que ter resolvido tudo? - Natasha j estava fazendo clculos rpidos e comeara a rabiscar algumas anotaes. - Gostaria de 
mandar Alessandro na frente? Ou gostaria que eu fosse busc-lo agora?
        Por um momento, Isabella considerou a possibilidade, porm disse:
        - No, eu o levarei comigo. No quero perd-lo de vista. 
        Ao ouvi-la, Natasha comeou a imaginar que espcie de efeito tudo isso estaria causando ao menino, mas no era hora de perguntar e Isabella j continuava 
com o assunto.
        - E no esquea, no fale com ningum a respeito. E, Natasha... Obrigada. 
        - V para o inferno, cara de espaguete.
        Cara de espaguete, o apelido que Natasha lhe dera e que Isabella no ouvia h anos.  Ao despedir-se, percebeu que ria pela primeira vez em meses. Desligou 
o telefone e ergueu os olhos para fitar Bernardo, seu rosto uma concentrao de ansiedade e tenso. Havia esquecido que ele estava ali.
        - Vou viajar. 
        - Quando?
        - Assim que resolvermos tudo sobre o escritrio. O que acha? Dentro de algumas semanas? 
        Ela o olhava, sua mente comeando de repente a girar. Seria vivel? Poderia ser feito? Poderia ela dirigir a empresa do seu esconderijo com Natasha em Nova 
York?
        Mas Bernardo assentia com a cabea.
        - Acho que sim. Retiraremos voc daqui, nas prximas semanas. 
        Depois, ele apanhou um monte de papis sobre a mesa no quarto de Isabella e comearam a elaborar um plano.






Captulo Nove



        Nas trs semanas seguintes, os telefonemas cortaram velozmente o ar entre Nova York e Roma. Isabella ia querer uma ou duas linhas telefnicas? Alessandro 
iria para a escola? Ela levaria os guarda-costas?
        Isabella ria, erguendo as mos. Certa vez Amadeo declarara que Natasha poderia construir uma ponte, governar um pas e ganhar uma guerra sem deixar tantas 
marcas quantas deixava ao fazer as unhas. Agora Isabella concluiu que ele tinha razo.
        Dois telefones, Isabella ordenou. Decidiria mais tarde se mandaria Alessandro para a escola ou no. E, quanto aos guarda-costas, no precisaria de nenhum. 
Os edifcios residenciais da Park Avenue eram verdadeiras fortalezas hoje em dia, e o de Natasha um dos mais bem guardados de Nova York.
        -Os planos de Isabella para a partida foram igualmente bem guardados. Nenhum general chegou a esquematizar uma campanha com tanta preciso ou tanto sigilo 
como Isabella e Bernardo planejaram sua fuga da San Gregorio. Ningum, nem mesmo o mais alto escalo da San Gregorio, conhecia seu destino; a maioria nem mesmo sabia, 
de maneira alguma, que ela estava partindo. Tinha de ser dessa maneira. Tudo precisava ficar em segredo. Pelo bem dela e do menino. Ela simplesmente desapareceria. 
Correriam boatos de que estava escondida na cobertura do prdio dos seus escritrios. Apenas Isabella, sozinha com o filho. As refeies seriam enviadas l para 
cima, retornando os pratos vazios; a roupa para a lavanderia entrava e saa. Na verdade, devia haver um inquilino naquele apartamento; Livia, a secretria fiel de 
Amadeo, oferecera-se para isolar-se ali, fazendo os rudos apropriados, caminhando pelo assoalho estalante de parquete. Todos saberiam que algum estava morando 
ali escondido. Como poderiam suspeitar que a prpria Isabella estava em Nova York?  Tinha que dar certo. Pelo menos por algum tempo.
        - Est tudo pronto? -
        Isabella ergueu os olhos para Bernardo. Ele metia outra pilha de pastas de arquivo numa grande sacola de couro. Bernardo assentiu com a cabea, em silncio, 
e Isabella notou como ele parecia envelhecido e cansado.
        - Acho que tenho cpia de todo arquivo que possumos - disse ela. - E quanto s exportaes para a Sucia? Voc gostaria que eu assinasse algumas daquelas 
guias agora, antes de partir?
        Ela continuou fazendo os pacotes enquanto Bernardo dirigiu-se ao seu escritrio em busca das guias. Outra pasta de couro. Mais arquivos, mais amostras de 
tecido, alguns clculos de Amadeo, recortes de jornais financeiros enviados pelo representante deles nos Estados Unidos. J tinha trabalho suficiente para mant-la 
ocupada durante seis meses. Haveria mais, um fluxo constante de documentos, arquivos, relatrios, informaes. O que no poderia ser feito pelo telefone, Bernardo 
enviaria atravs do agente literrio de Natasha, simplesmente endereado  sra. Walker. Isabella concentrava-se no plano, no trabalho a ser feito. Pensar por que 
estava fazendo os embrulhos, admitir que estava partindo, era mais do que podia suportar.
        Momentos depois, Bernardo estava de volta com os papis. Isabella tirou a tampa da caneta de ouro da Tiffany, que fora de Amadeo, e assinou.
        - Sabe de uma coisa? Acho que esta no  a hora ou o lugar, mais ainda gostaria que voc pensasse melhor - disse Bernardo.
        - Pensasse em qu? 
        - Isabella olhou-o com uma expresso aparvalhada. Mal conseguia continuar pensando. Tinha coisas demais na cabea.
        - Na compra oferecida pela I.H.I. - F-B. Talvez acabe se encontrando com eles em Nova York.
        - No, Bernardo. Estou lhe dizendo pela ltima vez. - Nem sequer desejava discutir o assunto. E agora no tinha tempo. - Julguei que voc havia prometido 
no tocar mais nisto.
        - Tudo bem. 
        De certa forma, ela estava com a razo. Ainda tinham muito que resolver naquele exato momento. Mais tarde, sempre haveria possibilidade de discutir sobre 
o assunto quando ela estivesse cansada de tentar dirigir a empresa a oito mil quilmetros de distncia. O pensamento o deteve. Quem teria imaginado, seis meses atrs, 
que Amadeo estaria morto, Isabella escondida, e ele, Bernardo, sozinho? Sentiu uma onda de desnimo domin-lo, ao mesmo tempo em que vigiava Isabella trancar a ltima 
pasta de documentos. Lembrou-se do vero que passaram em Rapallo. Amadeo contara dezessete malas de Isabella; toalhas de mesa, lenis, roupas de banho... caixas 
de chapu, uma valise s para sapatos. Mas esta viagem no seria para Rapallo. Seria uma vida inteiramente diferente, uma vida iniciada com duas valises, uma mala 
para as roupas de Isabella e outra para as de Alessandro.
        - Alessandro ficar inconsolvel por no estarmos levando sua bicicleta - disse Isabella subitamente, interrompendo os pensamentos dele.
        - Mandarei para Nova York uma para ele. Outra melhor. 
        Deus, como ele ia sentir falta do menino! E tambm de Isabella. Seria estranho no t-la por perto. Sem disputas ruidosas, sem olhos de nix chamejantes 
presos aos dele. Sua lcera confiava nela, bem como ele prprio.
        - Estaremos de volta dentro em breve, Nardo. Acho que no poderei suportar por muito tempo ficar longe daqui. 
        Ela tornou a levantar-se, lanando um olhar pelo seu gabinete, imaginando o que poderia ter esquecido, abrindo seus arquivos mais uma vez, enquanto Bernardo 
a observava, silencioso. Ela olhou-o por cima do ombro, com um meio sorriso cansado.
        - Escute, por que no vai para casa e procura dormir um pouco? Vai ser uma longa noite.
        - , acredito. Eu... Isabella... - Sua voz estava estranhamente embargada, enquanto ela se virava lentamente. - Vou sentir sua falta. E do menino. 
        A expresso dos olhos era o primeiro sinal de seus verdadeiros sentimentos, desde o Natal. 
        - Tambm sentiremos sua falta. 
        A voz de Isabella ficou abafada quando estendeu os braos e os dois uniram-se estreitamente naquele aposento to familiar. Quando tornaria a ver aquele gabinete? 
Ou Bernardo?
        - Mas estaremos logo de volta. Muito em breve. Voc vai ver.
        - Ecco. 
        Havia lgrimas nos olhos de Bernardo, que ele procurou reprimir pestanejando, no momento em que ela se afastava. Ocultar seus sentimentos era uma coisa e 
no estar ao lado dela, em definitivo, outra totalmente diferente. Ele j sofria diante daquela perda, mas no havia outra maneira. Pelo bem dela e do menino.
        - Agora v para casa e procure dormir um pouco. 
        -  uma ordem?
        - Claro. - Ela esboou um largo sorriso enviesado e sentou-se discretamente numa cadeira. - Que poca horrvel para se ir  Riviera!
        Procurou parecer entediada e desinteressada enquanto ele ria, parado  porta. Era o plano que tinham estabelecido. Ele a levaria de carro at a fronteira 
com a Frana e atravessariam a Riviera at Nice, onde ela pegaria o vo matutino para Londres; l haveria a mudana dos guarda-costas e, enfim, ela seguiria para 
Nova York. Era bem provvel que Isabella e Alessandro ficassem em trnsito quase 24 horas.
        - H alguma coisa que eu poderia levar esta noite para Alessandro? Biscoitos? Um jogo?
        - Biscoitos so sempre uma excelente idia, mas talvez uma manta e um pequeno travesseiro. E um pouco de leite. 
        - Mais alguma coisa? Para voc?
        - Apenas no falte, Nardo. E reze para que estejamos a salvo. 
        Ele assentiu, com ar srio, abriu a porta com um puxo e se foi. Ele no s rezou para que ela partisse em segurana, como tambm para que voltasse a salvo. 
E logo. E que voltasse para ele.







































Captulo Dez



        - Mamma, quer me contar uma histria?
        Isabella estava sentada na beirada da cama de Alessandro. Uma histria... uma histria... nessa noite, ela mal conseguia pensar, quanto mais inventar narrativas 
complicadas.
        - Por favor...
        - Muito bem. Vejamos. - Sua testa franziu-se, produzindo uma carranca ao olhar para o menino, seus dedos longos e elegantes apertando-lhe a mozinha branca. 
- Era uma vez um menino. Ele vivia com sua: me e...
        - Ele no tinha pai? 
        - J no tinha mais.
        Alessandro assentiu com a cabea, compreendendo, e aconchegou-se na cama. Ela lhe disse o nome do lugar onde o menino morava com a me e todos os amigos 
que tinham, pessoas que os amavam e uns poucos que no.
        - O que eles fizeram?
        Alessandro comeava a gostar da histria; possua um tom de credibilidade.
        - A respeito de qu? - Era fcil distrair-se, Isabella tinha milhares de coisas na cabea.
        - O que eles fizeram a respeito das pessoas que no gostavam deles?
        - Ignoraram-nas. E sabe mais o que fizeram? - Ela abaixou a voz, num tom de conspirao. - Fugiram.
        - Fugiram? Isso  horrvel! - Alessandro parecia chocado. - Papai sempre dizia que era errado fugir. S quando voc tem absoluta necessidade, como fugir 
de um leo ou de um co muito bravo.
        Ela gostaria de lhe dizer que algumas pessoas so como ces, mas, na verdade, no estava muito certa sobre o que dizer. Olhou pensativamente para o filho; 
sua mo ainda estava entre as dela.
        - E se fugindo ficassem em maior segurana? E se fugindo evitassem que fossem importunados pelos lees e ces bravos? E se fossem para um lugar maravilhoso 
onde pudessem ser felizes outra vez? Isso no seria certo? 
        Enquanto olhava para o menino, ela descobriu que tinha muito para dizer.
        - Acho que sim. Mas h um lugar assim? Onde todos vivam em segurana?
        - Talvez. Porm, de qualquer modo, voc est a salvo, meu querido. Sabe disso. Jamais deixarei que alguma coisa lhe acontea.
        Ele olhou-a com ar preocupado.
        - Mas e quanto a voc? 
        Ele ainda tinha pesadelos. Se tinham apanhado seu pai, no podiam tambm apanhar sua me? Era intil dizer-lhe, repetidas vezes, que no. Nesse caso, por 
que a casa vivia cheia de guarda-costas? Ningum enganava Alessandro.
        - A mim tambm no acontecer nada. Prometo. 
        - Mamma...
        - O que ?
        - Por que no fugimos?
        - Se o fizssemos, no ficaria triste? No haveria mamma Teresa, nem Enzo, nem Luisa... 
        Nem carrossel, nem bicicleta, nem Roma. Nenhuma lembrana de Amadeo...
        - Mas haveria voc! - Parecia encantado. 
        - Seria suficiente? - Ela achou divertido. 
        - Claro!
        O sorriso gentil do filho deu-lhe coragem para continuar com a histria, a do menino e sua me que encontraram um novo lar numa nova terra, onde ficaram, 
como num passe de mgica, a salvo e onde fizeram novos amigos. 
        - Ficaram l para sempre?
        Ela ficou olhando o filho por um longo tempo.
        - No estou certa, acho que voltaram para casa outra vez. No final.
        - Por qu? - Parecia-lhe uma idia ridcula.
        - Talvez porque o lar seja sempre o lar, no importa o quanto possa ser difcil.
        - Acho que  uma estupidez.
        - Voc no gostaria de voltar para casa se fosse embora? 
        Ela olhou-o, aturdida, surpresa com o que ele acabara de dizer.
        - No se tivessem acontecido coisas ruins ali. 
        - Como aqui na villa?
        Ele assentiu em silncio.
        - Mataram meu pai aqui. So pessoas ruins.
        - No foram todos que fizeram isso, Alessandro. Apenas alguns homens muito ruins.
        - Ento como ningum descobriu eles para serem castigados ou espancados?
        Olhou-a com pesar, e ela puxou-o gentilmente para seus braos.
        - Talvez ainda venham a faz-lo.
        - No me interessa. Quero fugir. Com voc. 
        Aninhou-se mais a ela e Isabella sentiu o calor dele em seus braos. Era o nico calor que sentia ultimamente, agora que Amadeo se fora.
        - Talvez um dia... fujamos para a frica juntos e vivamos numa rvore.
        - Puxa, eu gostaria disso! Podemos? Por favor, podemos?
        - No, claro que no. Alm disso, voc no poderia dormir em sua bela cama aconchegante numa rvore. Poderia? 
        - Acho que no. - Lanou para a me um olhar meigo por um longo momento, depois sorriu e deu um tapinha em sua mo. - Foi uma tima histria.
        - Obrigada. A propsito, j lhe disse hoje o quanto amo voc? - Estava inclinada sobre ele, sussurrando em seu ouvido. 
        - Tambm amo voc.
        - timo. Durma agora, querido. At amanh cedo. 
        Muito cedo. Dentro de sete horas. Aconchegou-o bem debaixo das cobertas e fechou a porta de mansinho, caminhando pelo longo corredor espelhado.
        A noite foi uma espera longa e angustiante. Isabella ficou na sala de estar, examinando alguns papis e vigiando o relgio Faberg arrastar-se em direo 
s oito horas da noite. As oito em ponto, o jantar foi servido na sala de jantar, e ela comeu, como sempre, rpido e sozinha. s 8:40, estava de volta ao quarto, 
olhando pela janela, para a sua imagem no espelho, para o telefone. No poderia fazer nada antes que tudo ficasse em silncio. Nem ousou voltar para o vestbulo. 
Ficou sentada ali sozinha durante trs horas, pensando, esperando, olhando para fora. Da janela do quarto podia ver o carrossel, no jardim, as janelas da cozinha, 
as da sala de jantar e as do pequeno gabinete onde Amadeo fazia reviso de documentos em casa. Por volta da meia-noite, todas as janelas da casa estavam s escuras, 
exceto as do seu prprio quarto. Ela dirigiu-se furtivamente at o final do longo corredor onde havia um armrio. Abriu-o, verificou seu interior e retirou duas 
grandes sacolas Gucci. Havia uma de couro macio cor de chocolate, com as clssicas listras verdes e vermelhas. Olhou-as com expresso especulativa. Como se pode 
colocar uma vida inteira dentro de duas sacolas?

        De volta ao quarto, trancou a porta, puxou as, persianas e abriu o closet, escolhendo as coisas sem fazer nenhum rudo. Em seguida, retirou rapidamente as 
calas dos cabides, os suteres de cashmire dos sacos plsticos forrados de seda, feitos especialmente para esse fim. Bolsas, meias, roupas de baixo, sapatos. Era 
mais fcil agora. Tudo que usava ultimamente ainda era preto. Isabella levou exatamente meia hora para colocar na mala trs saias, sete suteres, seis vestidos pretos 
de l e um tailleur. Mocassins pretos, cinco pares de sapatos de salto alto, um par de sapatos pretos de noite, de cetim e camura. Sapatos de noite? Olhou de novo 
para o closet e retirou cuidadosamente um vestido preto de cetim, longo, totalmente liso. Terminou tudo em menos de uma hora. Dirigiu-se ao cofre. Tudo estava outra 
vez em suas respectivas caixas, como estiveram desde que Bernardo trouxera de volta da Paccioli, aps ter devolvido o dinheiro de Alfredo. O dinheiro que ela no 
pudera entregar aos seqestradores. As jias que no usava mais. Mas no tinha coragem de deix-las ali. E se algum arrombasse a casa? Se algum as roubasse? Se! 
Sentiu-se uma refugiada fugindo do pas durante a guerra. Esvaziou as caixas de veludo verde e colocou tudo nos estojos de cetim, guardando no compartimento secreto 
de uma grande bolsa Herms, de couro de crocodilo. Carregaria no brao durante a viagem. Finalmente, fez a valise deslizar at o cho e saiu sorrateira do quarto, 
trancando-o. Carregou a valise vazia pelo corredor at o quarto de Alessandro, trancando a porta pelo lado de dentro. O menino dormia profundamente, aconchegado 
nas cobertas, uma das mos agarrada a um ursinho de pelcia e a outra pendendo fora da cama. Esboou um breve sorriso para o filho e comeou a esvaziar a cmoda. 
Roupas quentes, um conjunto para andar na neve, luvas, gorros de l, roupas para brincar, para usar no apartamento, jogos e alguns dos seus brinquedos favoritos. 
Lanou um olhar pelo quarto, imaginando o que seria mais precioso, enquanto fazia a escolha. 
        A 1:30, ela estava pronta, as valises ao seu lado, o quarto obscurecido devido  luz suave. Bernardo estaria trazendo as duas valises que ela fechara no 
escritrio. Estava pronta. O relgio na mesinha-de-cabeceira tiquetaqueava implacavelmente. Decidira acordar Alessandro quando desse 1:40. Sabia que l fora, em 
algum lugar, os dois guarda-costas estavam esperando, preparados para viajar, embora no tivessem a mnina idia de para onde. Tinham sido cuidadosamente selecionados 
por Bernardo e avisados para inventarem uma histria que justificasse seu paradeiro durante o dia. Estariam de volta a Roma na noite seguinte, aps deixarem Isabella 
e Alessandro em Londres, onde apanhariam o vo da tarde.
        Isabella ofegava, sentindo o corao bater dentro do peito. O que estava fazendo? Estava certa em partir? Poderia realmente deixar tudo nas mos de Bernardo? 
E por que estava deixando seu lar? Silenciosamente, abriu a porta outra vez e saiu de mansinho. A casa estava totalmente em silncio quando ela perambulou devagar 
pelo corredor. Ainda tinha dez minutos para acordar Alessandro, dez minutos para dizer adeus. 
        Viu-se na sala de estar, olhando ao redor  luz da lua, passando a mo pela mesa, lanando um olhar para o sof vazio. Ali tivera festas incontveis com 
Amadeo, noites felizes, dias melhores. Lembrava-se do rebulio que fizera escolhendo os tecidos, os objetos comprados em Paris, o relgio que, afetuosamente, trouxeram 
de Nova York. Depois, continuou vagueando, passou pela sala de jantar em direo a uma sala de estar menor, que usavam pouqussimo. Por fim, em silncio, ficou na 
entrada do pequeno gabinete que Amadeo tanto amara. Em geral ficava inundado de sol e de luz, repleto de tesouros, livros, trofus e plantas de florao radiante. 
Fizera dele o paraso para o marido, e ambos refugiavam-se ali com freqncia para falarem de negcios ou para rirem de Alessandro pelas portas envidraadas que 
davam para o jardim. Foi ali que o viram dar seus primeiros passos, ali que Amadeo muitas vezes lhe dissera que a amava, ali que ele de vez em quando fazia amor 
com ela no confortvel sof de couro castanho e, algumas vezes, sobre o tapete espesso do cho. Ali haviam fechado as persianas e cortinas, tinham se ocultado, tramado, 
brincado e vivido, ali, no aposento agora to vazio enquanto o olhava, mal ousando entrar, com uma das mos apoiada na porta. "Ciso, Amadeo, eu voltarei." Era uma 
promessa que fazia a si mesma e a ele,  casa e  Roma. Cruzou o tapete e parou ao aproximar-se da escrivaninha. Ainda havia uma fotografia dela ali, numa moldura 
de prata que fora presente de Bernardo. 
        Enquanto olhava o retrato na escurido, lembrou-se do ovinho de ouro Faberg, que dera para o marido no seu aniversrio, pouco antes de Alessandro nascer. 
Passou os dedos por ele gentilmente, tocou no couro sobre a mesa e depois, lentamente, virou-se. "Ciao, Amadeo." Ao fechar a porta atrs de si, sussurrou: "Adeus."
        Parou um momento no vestbulo, depois dirigiu-se apressada para o quarto de Alessandro, rezando para que ele acordasse facilmente e no chorasse. Por um 
breve espao de tempo sentiu uma dor cruciante. Parecia um ato de crueldade levar o menino sem sequer deixar mamma Teresa despedir-se. Ela cuidara dele com todo 
amor, s vezes at com ferocidade, durante os seus cinco anos. Rezava para que a mulher pudesse suportar o choque do seu desaparecimento com coragem e que, de alguma 
forma, compreendesse quando lesse a carta de Isabella no dia seguinte.
        Abriu a porta com suavidade, curvou-se sobre ele, segurando-o junto a si, sentindo sua respirao branda, ronronando em seu pescoo.
        - Alessandro, tesoro.  a mamma. Querido, acorde.
        Ele mexeu-se tranqilamente e virou para o outro lado. Ela tocou-lhe de leve na face com um dedo e beijou-o nos olhos. 
        - Alessandro...
        Ele abriu os olhos e ento olhou-a. Sorriu, sonolento. 
        - Amo voc.
        - Tambm amo voc. Vamos, querido, acorde.
        - Mas ainda no  de noite? - Fitou-a de modo estranho, olhando para a escurido l fora.
        - sim. Mas estamos partindo para uma aventura.  segredo. Apenas voc e eu.
        Ele olhou-a com interesse, arregalando os olhos. 
        - Posso levar meu urso?
        Ela assentiu sorrindo, esperando que ele no ouvisse o martelar acelerado do seu corao.
        - J coloquei alguns dos seus brinquedos e jogos na valise. Vamos, doura. Levante-se. 
        Ainda sonolento, o menino levantou-se, esfregando os olhos, e ela pegou-o no colo.
        - Carregarei voc. 
        Caminhou de mansinho at a porta, trancou-a depois que saram e precipitou-se para o prprio quarto, sussurrando para o filho que no deviam conversar; depois 
sentou-o na cama, retirando-lhe as pantufas e vestindo-o com roupas quentes.
        - Aonde vamos? - Ele ergueu um p para que a me pudesse calar-lhe a meia.
        - E surpresa.
        - Para a frica? 
        Ele parecia encantado. Ajudou com a outra meia. Vestiu uma camiseta azul, um macaco de veludo cotel. Tambm um suter vermelho. Em seguida, os sapatos. 
        - Para a frica, mamma?
        - No, tolinho. Um lugar melhor.
        - Estou com fome. Quero um copo de leite.
        - Tio Bernardo deve ter leite e biscoitos no carro para voc. 
        - Ele tambm vai? - Alessandro parecia intrigado. 
        - Apenas uma parte do caminho. As nicas pessoas que percorrero o caminho todo em nossa aventura so voc e eu. 
        - Mamma Teresa tambm no? 
        Ele afastou-se e Isabella parou. Fitou-o nos olhos e sacudiu a cabea devagar. 
        - No, querido, ela no pode ir conosco. Nem podemos nos despedir.
        - Ela no vai ficar muito triste e nos odiar quando voltarmos?
        - No. Ela compreender. - Pelo menos assim esperava.
        - Okay. - Ele sentou-se na cama outra vez, apanhando seu ursinho. - De qualquer modo, gosto mais de passear com voc.
        Isabella sorriu.
        - Tambm gosto de passear com voc. Estamos prontos, agora? 
        Ela lanou um olhar ao redor. Tudo foi guardado ou embalado. S as pantufas dele permaneciam tristemente sobre a cama de Isabella. Na escrivaninha, ela deixou 
um bilhete explicando  mamma Teresa e  governanta que o sr. Franco decidira que seria mais prudente para ela e o menino sarem da cidade. Elas poderiam entrar 
em contato com o sr. Franco imediatamente se houvesse qualquer problema na casa. No deveriam informar sua partida ou falar com a imprensa.
        - Oh, quase amos esquecendo de uma coisa. - Sorriu para o filho enquanto ele bocejava. - Apanhou seu ursinho? - Ele mostrou o bichinho enquanto a me o 
ajudava a vestir o capote. - Tudo pronto? 
        Ele fez que sim com a cabea outra vez e apertou a mo dela com fora. De repente, j na porta, ela enrijeceu. Podia ouvir o rangido dos portes eltricos, 
o lento revolvimento do cascalho, em seguida as vozes apressadas de Bernardo e de dois homens. Um instante depois, ouviu-se uma suave batida na porta.
        - Isabella, sou eu. - Era Bernardo. 
        Alessandro deixou escapar uma risadinha.
        - Isto est divertido.
        Ela abriu a porta e viu um dos guarda-costas ao seu lado. 
        - Esto prontos?
        Ela confirmou, fitando-o com os olhos arregalados.
        - Eu carregarei Alessandro. Giovanni levar a bagagem. 
        -  isto?
        - Isto  tudo.
        - timo.
        - Falavam aos sussurros. Ela apagou a luz. Os faris do Fiat lanavam um brilho plido no corredor. Silenciosamente, ele apanhou Alessandro no colo enquanto 
o outro homem pegava a bagagem. Isabella foi a ltima. Ela fechou a porta. Estava acabado. Os adeuses tinham sido dados. Ela estava deixando seu lar.
        Bernardo assumiu o volante, com um dos guardas ao seu lado. No banco de trs, o outro homem sentou-se ao lado de Isabella e de Alessandro. Enquanto se afastavam, 
ela lanou um olhar por sobre o ombro. A casa parecia como sempre. Porm, agora, era apenas uma casa. Uma casa vazia.










Captulo Onze



        - Va bene? - Isabella olhou de relance para Bernardo. H horas que estavam viajando, correndo atravs da noite. - No est cansado?
        Ele sacudiu a cabea. Estava nervoso demais para pensar no prprio cansao. O sol despontaria dentro de uma hora, e ele queria atravessar a fronteira antes 
do dia raiar. Pela primeira vez, lamentava estar usando seu Fiat e sentia saudades da Ferrari de Amadeo. De qualquer forma, dirigira a mais de 120 por hora, porm 
agora talvez pudesse usar um pouco mais de velocidade. Em horas normais, os homens da alfndega poderiam ligar o nome no passaporte com o seu rosto e chamar a imprensa.
        - Falta muito ainda? - Perguntou Isabella.
        - Mais uma hora. Talvez duas. 
        O guarda-costas no disse nada. Alessandro dormia profundamente no colo de Isabella. Bernardo passara-lhe um pouco de leite e biscoitos; ele os mastigara 
ruidosamente, muito satisfeito, bebera dois goles de leite e dormira no mesmo instante.
        O sol estava prestes a despontar quando Bernardo finalmente parou. De cada lado da fronteira havia duas cabines aduaneiras com seus respectivos guardas impassveis. 
Um italiano e outro francs. Eles avanaram lentamente at o porto do lado italiano e buzinaram.
        - Buon giorno.
        Bernardo lanou um olhar divertido para o guarda uniformizado e entregou-lhe cinco passaportes. O homem de uniforme olhou para o carro sem interesse. Com 
os passaportes na mo, fez um sinal para Bernardo abrir o porta-malas. Ele desceu do carro, abriu o porta-malas, deixando ver as quatro sacolas de Isabella, duas 
cheias de papis e duas com roupas.
        - Seus pertences? - Bernardo assentiu com a cabea. - Esto indo para a Frana?
        - Estamos.
        - Por quanto tempo? 
        - Alguns dias. 
        O guarda balanou a cabea, ainda segurando os passaportes. Abriu o primeiro, que pertencia a um dos guarda-costas, enquanto Bernardo rezava com fervor para 
que ele no fosse um homem a par dos noticirios. O nome de San Gregorio era mais familiar agora do que nunca. Mas ambos foram surpreendidos por uma sbita buzinada 
no momento em que dois caminhes pararam bem atrs do carro. O homem da alfndega denotou impacincia e o motorista do primeiro caminho usou um brao e um punho 
para expressar um gesto grosseiro. Com isso, o guarda fechou os passaportes com violncia, devolveu-os a Bernardo e tornou a acenar para eles.
        - Ecco. Faam uma boa viagem. 
        Afastou-se em direo ao motorista do caminho, com uma expresso de fria reprimida no olhar. Grato, Bernardo deu partida no carro.
        - O que aconteceu? O que ele disse? 
        Do banco traseiro, Isabella olhava-o ansiosa. Bernardo sorriu.
        - Desejou-nos boa viagem.
        - Disse alguma coisa sobre o meu passaporte?
        - Nada. Aquele idiota atrs do nosso carro nos prestou um grande favor. Estou to contente que daria um beijo nele. 
        Os dois guarda-costas sorriram enquanto atravessavam calmamente a fronteira e tornavam a parar. 
        - Ele fez um gesto grosseiro para o cara da alfndega, que acabou perdendo o interesse em ns - explicou Bernardo.
        - E agora? - Isabella olhou nervosa para o homem vestido de azul-marinho que vinha na direo deles.
        - O homem da alfndega francesa carimba nossos passaportes e estamos livres. - Bernardo baixou o vidro e tornou a sorrir.
        - Bonjour, messieurs, madame.
         - Sorriu-lhes, lanou um olhar compreensivo para Isabella e outro breve para o menino. Isabella flagrou-se fitando fixamente o remate vermelho em seu uniforme 
e desejando estar a quilmetros de distncia. 
        - Frias ou negcios?
        - Um pouco de cada. - No havia outra maneira de explicar as duas valises atulhadas de papis, caso fossem inspecionadas. - Minha irm, nosso primo e meu 
sobrinho. Negcios de famlia.
        - Compreendo.
        Ele apanhou os passaportes da mo de Bernardo. Isabella apertava Alessandro contra si.
        - Vo ficar muito tempo na Frana?
        - Apenas alguns dias. 
        No importava o que Bernardo dissesse; eles voltariam por caminhos diferentes, e Isabella e Alessandro no estariam voltando de modo algum.
        - Alguma coisa no porta-malas? Comida? Plantas? Sementes? Batatas?
        Oh, Deus!
        - No, apenas nossa bagagem. - Bernardo fez meno de sair do carro, mas o guarda da alfndega acenou com a mo. - No  preciso. Merci. - Foi at a janela 
da cabine, apanhou um carimbo, carimbou os passaportes e endossou a entrada deles, sem sequer olhar os nomes. - Bon voyage.  
        Acenou-lhes quando o porto se abriu. Isabella sorriu para Bernardo com lgrimas nos olhos.
        - Como est sua lcera?
        - Ativa e protestando violentamente.
        - A minha tambm. 
        Ambos riram e ento Bernardo calcou firme o acelerador. Chegaram a Nice no meio da manh. Alessandro j comeava a se mexer. A me, como os demais, no dormira 
a noite inteira. 
        - Isto  a frica? J chegamos? - Ps-se de p com um amplo sorriso sonolento.
        - Chegamos, querido. Mas aqui no  a frica.  a Frana. 
        -  para onde vamos? - Parecia desapontado. J estivera na Frana vrias vezes.
        - Quer mais biscoitos? - Bernardo olhou-o de relance enquanto continuavam a grande velocidade.
        - No estou com fome.
        - Nem eu. 
        Isabella apressou-se para reforar os sentimentos dele, mas, a poucos quilmetros do aeroporto, Bernardo parou numa pequena barraca. Comprou frutas, depois 
tornou a parar e comprou quatro xcaras de caf e mais leite.
        - O caf, pessoal!
        O lquido escuro reanimou todos eles. Isabella penteou o cabelo e renovou a maquiagem. S os homens pareciam ter passado a noite em viagem, com olhos cansados 
e barba por fazer.
        - Aonde vamos agora? - Alessandro apresentava um bigode branco de leite, que enxugou com o brao do ursinho. 
        - Para o aeroporto. Vou colocar voc e sua me no avio. 
        - Oh, que bom! 
        Alessandro batia palmas de alegria. Isabella observava-o. Era extraordinrio: nem um pio, nem uma queixa, nem um sinal de medo ou um adeus. Ele aceitara 
a partida e sua "aventura" como algo que tivessem planejado durante semanas. At Bernardo estava um pouco surpreso. E ficou ainda mais quando se despediram no aeroporto.
        - Cuide bem de sua mamma! Logo falarei com voc pelo telefone. 
        Bernardo olhou o menino com ternura, rezando para que ele no chorasse Mas Alessandro olhou-o de modo reprovador. 
        - Na frica eles no tm telefone, seu tolo.
        -  para onde voc e sua mamma esto indo? 
        - .
        Gentilmente, Bernardo desmanchou o cabelo do menino. Depois, nervoso, ficou observando os passageiros dirigindo-se apressados ao avio.
        - Ciao, Isabella. Por favor... tome cuidado.
        - Tomarei. Voc tambm. Ligarei assim que chegarmos. 
        Ele assentiu e tomou-a delicadamente nos braos.
        - Addio. 
        Ele a conservou em seus braos mais tempo do que devia, sentindo um aperto na garganta. Mas ela apenas abraou-o com fora e olhou-o muito sria, afinal.
        - At breve, Bernardo. 
        Abraou-o mais uma vez, por um ltimo instante; em seguida, com os guarda-costas caminhando um de cada lado, com o filho em seus braos e o casaco de vison 
encapelando-se, desapareceu. Ele no queria que ela usasse aquele agasalho. Preferia algo simples e preto, um dos casacos de l de sua criao, mas ela insistira 
que talvez precisasse dele em Nova York. Isabellezza... Sentiu uma coisa terrvel estremecer em seu ntimo. E se ele a tivesse perdido para sempre? Mas no se permitiu 
continuar pensando nisso. Enxugou uma lgrima e saiu do aeroporto, sussurrando um adeus. Isabella tinha uma longa jornada pela frente, e ele queria estar de volta 
a Roma naquela mesma noite.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
Captulo Doze



        Os novos guarda-costas j estavam  espera quando Isabella entrou no saguo do Aeroporto Heathrow com Alessandro no colo. Ela sentiu o corao dar um salto 
ao v-los caminhar em sua direo. Eram altos, morenos, e tinham a aparncia saudvel de jogadores de futebol americano.
        - Sra. Walker? - Referiam-se  senha que ela e Natasha combinaram.
        - Sim. 
        Olhou-os fixamente por um momento, no sabendo o que dizer, porm o mais alto entregou-lhe uma carta escrita por Natasha do prprio punho. Isabella abriu-a 
e, apressada, leu seu contedo:
        "Voc est quase em casa, cara de espaguete. Beije seu molequinho por mim e tranqilize-se. Com amor, Natasha."
        - Obrigada. O que faremos agora? 
        Eles apanharam as respectivas passagens e entregaram as de Isabella. Tinham instrues de nada comentarem diante dos guarda-costas da moa. Ela abriu o envelope 
e verificou a hora. Teria de mandar seus seguranas embora agora. Virou-se para ambos, falou-lhes rapidamente em italiano; eles puseram-se em p e apertaram-lhe 
a mo. Desejaram-lhe boa sorte, esperando que voltasse em breve; em seguida a surpreenderam quando se inclinaram apressadamente para beijar Alessandro. Brotaram 
lgrimas dos seus olhos quando a deixaram. Acabara de perder a ltima lembrana do lar. Estiveram entrando e saindo de sua casa durante tantos meses, que era estranho 
pensar que agora j no os teria mais por perto. Como Alessandro, ela estava ficando cansada. Tinha sido uma noite longa, extenuante, e uma manh nervosa, imaginando 
se encontraria e reconheceria os guarda-costas de Natasha e o que aconteceria se, de alguma forma, isso no acontecesse.
        - Seria aconselhvel irmos agora. 
        O primeiro homem tomou-a pelo brao, e Isabella viu-se impelida para o porto de embarque, ainda com Alessandro em seus braos. Enquanto embarcavam no avio, 
ela viu-se esperando que acontecesse algo espantoso, um alarme de bomba, uma exploso, algum tentando agarrar Alessandro... qualquer coisa.  Era como viver num 
pesadelo; jamais se sentira to longe de casa. Mas o avio decolou tranqilamente, e por fim estavam no ar.
        - Para onde estamos indo, mamma? 
        Cansado, Alessandro olhava para Isabella, os olhos castanhos arregalados, um pouco confuso.
        - Para junto de tia Natasha, querido. Em Nova York. - 
        Beijou-o delicadamente na testa e, com a mo dele na sua, ambos pegaram no sono.
        Ela acordou quatro horas mais tarde, quando Alessandro desprendeu-se dos seus braos. Teve um sobressalto instantneo, alcanou-o, depois voltou a sentar-se 
com um sorriso. Os dois guarda-costas americanos ainda estavam sentados um de cada lado. Alessandro achava-se de p na passagem, olhando para eles.
        - Mi chiamo Alessandro, e lei?
        O homem olhou-o, sorriu e estendeu ambas as mos, desamparado.
        - No capito. - Olhou para Isabella em busca de ajuda. 
        - Ele est lhe perguntando como voc se chama.
        - Oh, Steve. E voc ... Alexandro?
- Alessandro. - O menino corrigiu-o com expresso sria e um brilho malicioso no olhar.
- Certo, Alessandro. J viu uma destas? 
        Estendendo a mo, mostrou uma moeda de cinqenta cents, que fez desaparecer; depois, prontamente, retirou-a de uma das orelhas de Alessandro. O menino soltou 
um grito de prazer e bateu palmas, pedindo mais. Uma moeda de cinqenta cents, depois uma de cinco, outra de 25 e finalmente uma de dez apareceram e desapareceram 
enquanto comeavam uma conversa difcil, Alessandro tagarelando em italiano e o homem corpulento comunicando-se principalmente atravs de mmica.
        Isabella tornou a fechar os olhos. At aqui tudo correra calmamente; s precisava agora passar pela alfndega de Nova York e depois dirigir-se para o apartamento 
de Natasha, onde tiraria todas as suas roupas, mergulharia numa banheira de gua quente e se esconderia pelo resto da vida. Sentia-se como se estivesse usando as 
mesmas roupas h uma semana. Jantaram, assistiram a um filme e, exceto duas idas ao banheiro com Alessandro, no abandonaram seus lugares. Quando saam, os guardas, 
displicentemente, iam junto. Mas Isabella logo notou que ningum no avio mostrara interesse. Nem as aeromoas pareciam impressionadas. Eles constavam da lista de 
passageiros apenas como I. e A. Gregorio, S. Connally e J. Falk. Nada que causasse alvoroo. O longo casaco escuro de vison atrara um olhar de aprovao da aeromoa 
chefe, mas mesmo este fato no era extraordinrio. No percurso entre Londres e Nova York, elas viam casacos de vison em abundncia. Se tivessem visto algumas das 
jias cuidadosamente escondidas no fundo de sua bolsa talvez ficassem mais impressionadas.
        - Estaremos chegando a Nova York aproximadamente dentro de meia hora - o homem chamado Steve inclinou-se para informar. Falava num tom de voz abafado, que 
mal se ouvia, e Isabella assentiu com a cabea. - A sra. Walker estar esperando do outro lado da alfndega. Iremos com vocs at o carro dela.
        - Obrigada.
        Ele olhou-a com cautela assim que ela desviou o olhar para longe. Estava quase certo de que conseguiria adivinhar. Passaram por um caso semelhante ocorrido 
dois anos atrs. Uma mulher seqestrando os filhos que estavam com o pai, escondendo-se com eles na Grcia. Qualquer coisa em relao ao modo como a mulher agarrava-se 
ao menino dizia-lhe que algo semelhante ocorrera com ela. Que vergonha, fazer esse tipo de coisa com uma criana tambm. s vezes no conseguia entender essa gente 
rica, arrastando as crianas de um lado para outro como se fosse um tipo de jogo. Ela parecia uma mulher refinada, apesar do olhar de pnico que assumia de vez em 
quando e o cenho franzido que com freqncia alterava a expresso do seu rosto. Provavelmente receara que o marido pudesse alcan-la e jamais conseguisse tirar 
o menino da Frana. Tudo que sabiam sobre Isabella era que chegara a Londres procedente de Nice. Ele virou a cabea de leve para v-la outra vez, assim que o aparelho 
comeou a descer.
        - Mais uma ida ao banheiro, Alessandro? Talvez demore muito na alfndega. - A me traduziu rapidamente, mas a criana sacudiu a cabea. - Certo. Voc j 
esteve em Nova York? - Isabella traduziu de novo. 
        Alessandro sacudiu a cabea, acrescentando que, de qualquer modo, pensava que estavam indo para a frica. O americano alto, espadado, riu e rapidamente 
firmou o menino na poltrona. Mas agora Alessandro observava a me e estendeu a mo para pegar na dela. Isabella segurou-a e ficou olhando distrada as luzes no cho. 
Eram 16:30, hora de Nova York, mas no incio de fevereiro j era noite. Como agora era diferente! Fazia dois anos desde que estivera em Nova York pela ltima vez. 
Com Amadeo. Geralmente ele fazia as viagens para a Amrica sem ela. Isabella sempre preferira ir para a Inglaterra ou Frana. Mas da ltima vez vieram juntos a Nova 
York, e a viagem fora um sonho. Hospedaram-se no St. Regis, jantaram no Caravelle, Grenouille e Lutece. Tinham ido a uma grande festa para designers americanos, 
compareceram a diversos jantares de gala, deram longos passeios no parque. Desta vez no haveria St. Regis, nem Lutece, nem momentos tranqilos, compartilhados. 
Ela o deixara agora. Nem sequer poderia devanear mais com suas lembranas em todos os cantos familiares do lar, outrora deles. No havia cantos conhecidos. Nem pessoas 
conhecidas. Apenas Natasha, seu filho e Alessandro. Nada que tinha sido parte da vida de Amadeo restara para ela. De repente, lamentava no ter trazido alguma coisa. 
Alguma coisa dele, para olhar, tocar e lembrar... algo para recordar seu riso e o amor em seus olhos. Isabelle...Ainda podia ouvi-lo pronunciar seu nome.
        - Mamma, mamma! - Alessandro puxava-a pela manga. J haviam aterrissado. - Siamo qui. Chegamos. 
        Os dois homens lanaram um rpido olhar para Isabella. 
        - Vamos? 
        O avio nem sequer tinha parado, mas eles j estavam na passagem. O homem chamado Steve entregara-lhe o casaco, o outro pegara Alessandro no colo. No momento 
em que o avio parou completamente, eles a impeliram para o corredor. Por um momento, ela sentiu como se ainda estivesse voando, quase erguida do cho entre eles, 
enquanto caminhavam apressados ao lado dela. Minutos mais tarde, quando chegaram  alfndega, os demais passageiros ainda dispersavam-se lentamente, saindo do aparelho.
        O inspetor alfandegrio fez sinal para Isabella abrir suas sacolas. Ela destrancou-as, escancarou todas as quatro enquanto os guarda-costas e Alessandro 
mantinham-se atentos.
        - Qual o objetivo da sua visita?
        - Uma viagem para visitar a famlia. 
        O inspetor lanou um olhar para os homens, que a ladeavam. Meu Deus! Se ele perceber... se reconhecer meu nome... 
        - Que papis so esses? - Ele olhava para as duas valises abarrotadas.
        - Um pouco de trabalho que eu trouxe. 
        - Est planejando trabalhar aqui?
        - Apenas em alguns assuntos particulares. Assuntos de famlia. 
        Ele tornou a olhar para as duas valises e depois comeou a revolver as valises de roupas. Mas havia muito pouco para despertar interesse na sacola de Alessandro 
e na dela.
        - Muito bem. Podem ir.
        Tinham conseguido. Ela conseguira. Agora s tinham de encontrar Natasha e poderiam ir para casa. Por um momento, ela ficou ali parada, olhando fixamente, 
um tanto confusa, imaginando se alguma coisa sara errado, ento viu-a, correndo na direo deles, o longo cabelo louro esvoaando, flutuando suavemente sobre o 
casaco de lince. Ela corria em direo a Isabella e logo estavam uma nos braos da outra, abraando-se estreitamente, com Alessandro entre as duas. O menino protestou 
e depois gritou, quando Natasha deu uma mordida em seu pescoo.
        - Ciao, Alessandro. Como vai? 
        Tirou-o rapidamente de Isabella, tomando-o em seus braos longos e magros; a seguir, as duas mulheres fitaram-se e Natasha falou, com voz rouca: 
        - Bem-vinda ao lar. - Depois voltou-se para Alessandro: - Tem idia de como voc  pesado, filhote? Que tal caminhar at o carro? 
        Mas Isabella sacudiu depressa a cabea. Desde Roma os ps dele praticamente no tocavam o cho. Seria muito fcil algum arrebat-lo, agarr-lo; ele sempre 
estivera no colo desde que comearam a viagem.
        - Est certo. Eu o carrego.
        - Compreendo. - Ento, ela olhou para os dois guarda-costas. - Estamos expostos aqui.
        O grupinho fortemente unido moveu-se como uma s pessoa para a sada e, em seguida, para o carro. Era um Rolls-Royce com motorista e licena com iniciais 
que Isabella no teve tempo de ver. Antes que pudessem tomar flego, eles foram introduzidos prontamente no interior forrado de couro, a porta fechada, as bagagens 
guardadas, os homens despedidos e o carro afastado do meio-fio pelo motorista. S ento  que Isabella percebeu que no estavam sozinhos no carro. Havia outro homem 
no banco da frente. Ela olhou de repente quando ele virou-se para trs e sorriu. Era bonito, de olhos azuis, um rosto jovem e de cabelos grisalhos.
        - Oh! - Isabella soltou apenas um pequeno som quando ele se virou.
        Mas Natasha, mais do que depressa, deu-lhe um tapinha na mo.
        - Est tudo bem, Isabella. Este  meu amigo, Corbett Ewing. 
        Ele acenou a cabea e estendeu a mo.
        - No pretendia assust-la. Lamento muitssimo.  
        Apertaram-se as mos. Isabella fez um gesto formal com a cabea. No contara ver ningum alm do motorista. Lanou um olhar indagador para Natasha, mas a 
amiga apenas sorriu e trocou um olhar com Corbett. Ento Isabella compreendeu.  
        - Como foi de viagem? 
        Ficou prontamente bvio que ele apenas sabia que ela chegara de Roma. Ali sentado, com seu olhar de despreocupao natural, deixava claro para Isabella que 
no sabia do terror em potencial da viagem. Por um instante, mas s por um instante, ficou aborrecida com Natasha por traz-lo. No desejava manter uma conversa 
polida durante todo o caminho. Mas tambm ficou bvio que ele lhes emprestara o carro e, talvez, Natasha o quisesse junto. Pareciam entender-se muito bem, e Isabella 
calculou que Natasha tambm tivesse sido cautelosa e precisasse da fora dele. Sorridente, Isabella procurou esforar-se. Sentia que devia isso  amiga.
        - A viagem foi tima. Mas acho que ambos estamos... um pouco... - De repente, ela titubeou; estava to exausta, mal conseguia encontrar as palavras. - ...ambos 
estamos muito cansados.
        - Posso imaginar. 
        Ele assentiu outra vez e, momentos depois, virou-se para a frente e falou em tom baixo com o motorista. Contudo, antes de virar-se, no deixou de notar a 
beleza frgil de Isabella.



















Captulo Treze



        A limousine Rolls-Royce parou tranqilamente diante do prdio de Natasha. No mesmo instante, o porteiro e um auxiliar precipitaram-se para ajud-los. Isabella 
desceu do carro, segurando Alessandro com firmeza pela mo, com uma expresso desnorteada no rosto plido, cor de marfim. Ficou parada por um momento, erguendo os 
olhos para o edifcio e depois para a longa rua arborizada. Ento, mais uma vez deu-se conta do quanto estava distante de seu lar. Em outro mundo, em outra vida. 
        Ainda na vspera trabalhara na San Gregorio e residira na villa, em Roma. E agora ali estava, diante da casa de Natasha, na Park Avenue, em Nova York. Eram 
18:00 e centenas de nova-iorquinos voltavam para suas casas, aps um dia de trabalho. Estava escuro e o ar era glido, mas em toda parte havia ao redor deles uma 
espcie de excitao, uma cacofonia de rudos, uma sinfonia de luzes brilhantes. Esquecera-se de como Nova York era estridente e ativa, de algum modo mais louca 
e at mais excitante do que Roma. Enquanto ficou parada por um breve instante na calada, observando as mulheres em seus preciosos, pesados e coloridos casacos de 
l passar apressadas, perdidas na multido de homens prsperos, de aparncia vigorosa, Isabella de repente desejou ir a algum lugar, dar um passeio, tomar um pouco 
de ar. Queria ver o povo, sentir o cheiro da cidade e dar uma olhada nas lojas. J no importava mais que, quarenta horas atrs, dormira praticamente uma insignificncia, 
que andara de carro e de avio quase metade de uma volta ao mundo. Por um momento, s por um momento, queria voltar a viver outra vez, ser um daqueles nova-iorquinos. 
Natasha a observava enquanto o porteiro retirava a bagagem do carro. E do local onde se achava na calada, Corbett tambm a observava.
        - Est tudo bem, Isabella?
        Ela ergueu os olhos para ele, cuidadosamente.
        - Sim, tudo timo. E... muito obrigada pelo passeio de carro.
        - s ordens. - Depois, ele virou-se para Natasha. - As senhoras estaro bem agora?
        - Naturalmente. - Natasha inclinou-se e beijou-o no rosto. - Telefonarei mais tarde.
        Ele assentiu, atento, enquanto elas entravam apressadas. Depois, perdido nos prprios pensamentos, entrou no carro. 
        Natasha e Isabella atravessaram com rapidez o vestbulo e, todos juntos, lotaram o elevador, onde um homem de uniforme preto com alamares dourados e luvas 
brancas manobrava os controles e a porta de metal reluzente.
        - Boa noite, sra. Walker.
        - Obrigada, John. Boa noite.
        Ao introduzir a chave na fechadura, Natasha lanou um olhar de soslaio para Isabella.
        - Sabe de uma coisa? Para uma mulher que esteve viajando, s Deus sabe desde que horas da manh, voc no est com m aparncia.
        Isabella sorriu em resposta. Um momento depois, Natasha abriu a porta, desencadeando o latido excitado de Halley, a saudao frentica de Jazam e o al de 
Apitei. Os aromas e rudos do apartamento conquistaram Isabella assim que cruzou a soleira da porta. No havia a perfeio palaciana da sua villa na Via Afia ntica, 
contudo o apartamento ajustava-se a Natasha perfeitamente. Se Isabella tivesse de criar um cenrio para exibir a beleza extraordinria de Natasha, teria sido exatamente 
o que via naquele instante. A sala de estar era enorme, da brancura do gelo, preciosamente entremeada com grande quantidade de cor creme, tecidos brancos lisos, 
couro branco, paredes brancas, longos painis de espelho e muito ao cromado. Havia mesas de vidro espesso que pareciam suspensas no ar transparente, iluminao 
suave, uma lareira de mrmore branco e plantas que pendiam airosamente do teto at o cho. O nico colorido audacioso na sala provinha dos grandes e bonitos quadros 
modernos salpicados aqui e ali.
        - Gosta?
        - Muito refinado.
        - Venha. Vou lhe mostrar todo o apartamento. Est cansada demais para andar? 
        A fala sulista arrastada era suave como a brisa sulista numa noite quente de vero. Como sempre, parecia incongruente com o andar rpido de Natasha, seu 
passo determinado, sua linguagem colorida. Ela parecia personificar Nova York em tudo, at se ouvir a suave fala arrastada, ver os grandes olhos azuis pensativos 
e os longos cabelos dourados.
        De repente, Isabella estava sorrindo e queria ver mais. Alessandro j havia desaparecido com Hattie e Jason, com o pequeno spaniel castanho latindo nos calcanhares 
deles.
        Entraram no quarto de Natasha, que se espalhou numa poltrona.
        - No gostou, no foi? Seja honesta. No sei o que aconteceu comigo quando fiz este quarto.
        - Eu sei o que aconteceu.  um sonho. 
        O resto do apartamento era estritamente moderno, mas em seu quarto Natasha fora totalmente fantstica. No meio do aposento havia uma cama antiga, ricamente 
trabalhada, de quatro colunas, com drapeados de seda branca em camadas, almofadas e babados, maravilhosos travesseirinhos de renda, e uma penteadeira extrada de 
um sonho de Scarlett O'Hara. Havia dois sofs em azul e branco de dois lugares, ao lado de uma pequena lareira e, ao lado da janela, uma bela chaise-longue de vime, 
estofada de azul-claro. 
        -  to maravilhosamente sulista, Natasha! Como voc. 
        Ento, as duas riram outra vez, como tinham feito uma eternidade atrs, quando Natasha estava com 19 e Isabella com 21 anos.
        - Vamos - convidou Natasha - h mais para se ver. 
        A sala de jantar fora feita num esplendor moderno comedido, com uma enorme mesa de vidro, cadeiras de ao cromado e aparadores de vidro grosso. Porm, nessa 
sala, Natasha tornara a enlouquecer em silncio. O teto era pintado de azul e fora dotado de grandes nuvens brancas, prprias do vero.
        -  como uma viagem  praia, no acha? 
        Ela decorara todo o apartamento com ostentao e humor e, de alguma forma, ele tambm conseguira ter uma aparncia espetacular e aconchegante ao mesmo tempo. 
Um refgio cordial e confortvel conseguia combinar maravilhas modernas e antigas, cobres, veludos, arte mais moderna e um fogo brilhantemente crepitante.
        Deram uma passada ligeira no gabinete de Natasha e na grande cozinha acolhedora com seu piso amarelo-claro. Ento, Natasha olhou-a, sorrindo, seus olhos 
danando por um instante ao afastar-se para o lado.
        - E se voc caminhar por aquele corredor, Isabella, tenho uma surpresa.
        Um ms antes tinha sido um quarto de empregada vazio, atulhado de caixas e velhos esquis. Mas depois do primeiro telefonema de Isabella, Natasha pusera-se 
a trabalhar furiosamente. Agora, ao escancarar a porta, ela quase exultou diante da expresso nos olhos de Isabella. Ela prpria comprara vrios metros de tecido, 
uma delicada seda rosa que um decorador amigo acabara de trazer da Frana. Com grampos (de grampeador), tachas e um delicado enfeite para rematar, ela revestira 
as paredes com um rosa suave. Uma pequenina escrivaninha francesa ficava num canto com uma cadeirinha ideal, revestida no mesmo tom de rosa. Algumas prateleiras 
para livros, algumas plantas, um lindo tapetinho oriental em tons claros de verde entrelaados com sombras de framboesa e o mesmo rosa seco das paredes. Havia duas 
lindas luminrias de metal sobre a escrivaninha e sobre a mesa, um arquivo que ela descobrira e que, na verdade, era revestido de madeira, e um sofazinho que ficara 
irresistvel estofado de veludo com almofadas de seda rosa.
        - Meu Deus, est quase parecido com o meu boudoir! - Isabella olhava a amiga e quase soltou um grito sufocado. 
        - Na verdade, no . Mas tentei.
        - Oh, Natasha, no devia ter feito. Como pde?
        - Por que no? O telefone tem duas linhas. O arquivo est vazio. E emprestarei minha mquina de escrever se voc for muito, muito boazinha. 
        Havia de tudo. Tudo que possivelmente teria desejado. E mais do que isso: havia algo naquilo tudo, algo de familiar, algo de carinhoso, algo de lar. Novamente 
brotaram lgrimas de seus olhos enquanto olhava o aposento.
        - Realmente, voc  a mulher mais extraordinria que conheo.
        Natasha apertou os ombros de Isabella e voltou para o corredor.
        - Agora que j viu o escritrio, mostrarei seu quarto, mas no  to magnfico.
        - Como poderia? Oh, Natasha, voc  espantosa. 
        Isabella ainda estava sem fala ao voltarem para o corredor principal, o mesmo por onde vieram. No caminho passaram pelo quarto de Jason, onde os meninos 
j atacavam impulsivamente a valise de Alessandro, enquanto Hattie fazia correr gua para um banho.
        - Va bene, tesoro? - Da porta, ela dirigiu-se ao filho.
        - Si, ciso! - Feliz, o menino acenou-lhe e desapareceu debaixo da cama com Jason, para irem atrs do cachorrinho.
        - Acredita que seu cachorro vai sobreviver?
        - No se preocupe. Ashley est acostumado. Bem, chegamos. 
        Abriu a porta e entrou na frente de Isabella. O quarto no era to cheio de rufos e babados como o de Natasha, nem to rigidamente moderno como o resto da 
casa. Era acolhedor, confortvel e agradvel, decorado em tons vivos de verde-garrafa e tapetes franceses antigos. Havia mesas estreitas de vidro e uma poltrona 
de veludo verde-escuro. A colcha era feita no mesmo veludo pesado, e aos ps da cama havia uma manta de pele escura, forrada caprichosamente, parecendo uma dessas 
peas existentes em domnios feudais, em uma terra hibernal longnqua. O fogo ardia na lareira de mrmore. Havia rosas de um tom vermelho num vaso de cristal na 
mesa de centro. No canto, estava um armrio com portas cujas almofadas de malaquita chegavam a ser magnificentes.
        - Meu Deus,  uma beleza! Onde encontrou isso?
        - Em Florena. No ano passado. Direitos autorais no so maravilhosos, Isabella?  espantoso o que podem fazer por uma moa. 
        Isabella sentou-se na cama e Natasha na poltrona de veludo verde. 
        - Voc est bem, Isabella?
        - Estou. - Ela olhou para o fogo e deixou a mente voltar para Roma.
        - Como foi?
        - Partir? Difcil. Assustador. Senti medo a cada trecho da viagem. Fiquei pensando que poderia acontecer alguma coisa. Algum iria nos reconhecer e nos desmascarar. 
Continuei pensando... Fiquei preocupada por causa de Alessandro... Acho que no poderamos ter ficado em Roma. 
        Por um momento, vendo Natasha to  vontade em seu ambiente, sentiu saudades do prprio lar em Roma.
        - Voc voltar.
        Isabella assentiu em silncio, depois procurou os olhos da amiga.
        - No sei o que fazer sem Amadeo. Continuo pensando que ele vai voltar para casa. Mas ele no volta. Ele...  difcil explicar. 
        Mas no precisava. A dor estava claramente estampada em seu corao, em sua alma e em seus olhos.
        - Acho que, de fato, no posso imaginar - respondeu Natasha. - Mas... voc precisa agarrar-se aos bons pensamentos, s lembranas felizes, aos momentos preciosos 
que construram uma vida. Esquea o resto.
        - Como? - Os olhos de Isabella fitaram diretamente os da amiga. - Como se pode esquecer uma voz ao telefone? Um momento? Uma eternidade de espera, de no 
saber, e depois... Como catar os pedaos e fazer com que signifiquem algo inteiro de novo? Como interessar-se por alguma coisa, inclusive pelo prprio trabalho?
        Antes que Natasha pudesse responder, Alessandro e o cachorrinho apareceram saltitantes na porta.
        - Ele tem um trem! Um trem de verdade! Exatamente como aquele que papai me levou para ver em Roma! Quer ver tambm? - Da entrada, chamava com a mo e Ashley 
mordiscava seus sapatos.
        - Num minuto, querido. Tia Natasha e eu queremos conversar um pouco.
        Alessandro saiu correndo; Natasha ficou vendo o menino afastar-se correndo, depois respondeu:
        - Alessandro, Isabella. Talvez seja tudo que voc tem para se agarrar por enquanto. O resto comear a desaparecer aos poucos, com o tempo. No as coisas 
boas, apenas o sofrimento. Tem de desaparecer. Voc no pode tolerar a vida inteira, como um vestido de cinco anos atrs! 
        Isabella riu diante da comparao.
        - Est insinuando que estou fora de moda?
        - Dificilmente estaria. - As duas trocaram um sorriso. - Mas voc sabe o que quero dizer.
        - Ecco. Mas, oh, Natasha, sinto-me to velha! E h tanta coisa que preciso fazer! Se ao menos conseguisse fazer daqui... S Deus sabe como poderei agentar 
com Bernardo a milhares de quilmetros de distncia e por telefone. 
        No queria explicar as dificuldades da situao deles, mas seus olhos revelavam tudo.
        - Voc conseguir. Estou certa.
        - E realmente no se importa muito por dividir o apartamento?
        - J lhe disse. Ser como nos velhos tempos.
        Mas no exatamente, e ambas sabiam disso. Nos velhos tempos, saam juntas, iam a restaurantes,  pera, ao teatro. Visitavam amigos, travavam conhecimento 
com homens, davam festas. Esta era uma ocasio muito diferente. Isabella no iria a lugar nenhum, a no ser que parecesse seguro. Talvez, pensou Natasha, pudessem 
dar uma volta no parque. J cancelara a maior parte dos seus compromissos para as prximas trs semanas. Isabella no tinha necessidade de v-la entrando e saindo, 
indo a coquetis, a festas beneficentes e aos ltimos espetculos. Espantou-se quando Isabella falou:
        - Tornei uma deciso quando chegamos esta noite. 
        Por um momento, Isabella olhou-a com um riso insinuando-se sorrateiramente em seus olhos.
        - Do que se trata?
        - Vou sair amanh, Natasha. 
        - No, voc no vai.
        - Preciso. No posso viver enjaulada aqui. Preciso andar, respirar, ver pessoas. Eu as vi esta noite durante o trajeto pela cidade e ao pararmos  sua porta. 
Preciso v-las, Natasha. Preciso conhec-las, senti-las e observ-las. Como posso tomar decises sensatas sobre meu trabalho se vivo num casulo?
        - Voc tomaria as decises certas sobre moda mesmo se ficasse trancada num banheiro durante dez anos.
        - Duvido.
        - Eu no. - Por um momento, houve conflito nos olhos azuis de Natasha. - Veremos.
        - Sim, Natasha, veremos.
        Mas, ao dizer isso, ela reviveu. E embora Natasha se preocupasse, ficou aliviada ao voltar para o seu quarto. Isabella di San Gregorio no estava acabada 
de modo algum. A princpio ficara preocupada, no estava certa quanto  possibilidade da amiga sobreviver  provao. Agora sabia. Ainda havia luta, fria, amargura 
e medo naquela criatura. Mas havia fogo e vida, e os reflexos de diamantes ainda cintilavam nos brilhantes olhos de nix.
        Aps certificar-se de que os meninos sobreviviam, ela voltou para o quarto de Isabella a fim de oferecer-lhe jantar depois que ela tomasse banho e mudasse 
de roupa, mas apenas sorriu ao parar na porta do quarto. Esparramada sobre a colcha de veludo verde, Isabella estava morta para o mundo. Natasha puxou a manta de 
pele sobre a amiga, sussurrou "bem-vinda ao lar", apagou as luzes e fechou suavemente a porta.


































Captulo Quatorze



        Aconchegada num robe de veludo azul, com gola mandarim alta, Isabella perambulava sonolenta pelo corredor. Era muito cedo. Um sol hibernal manifestava-se, 
lanando raios tremeluzentes pelos arranha-cus de Nova York. Ela ficou parada diante da janela da sala de estar por um instante, pensando na cidade aos seus ps, 
uma cidade que atraa os vitoriosos, os dinmicos, os competidores ferozes e os destinados a vencer. Uma cidade para pessoas como Natasha... como ela mesma, tinha 
de reconhecer. Mas no era a cidade que Isabella teria escolhido; faltava-lhe a decadncia, o riso e o encanto simples de Roma. Contudo, possua algo mais; fulgurava 
brilhantemente como um rio de diamantes, e Isabella notou como ele dava a impresso de estar acenando para ela.
        Dirigiu-se silenciosamente at a cozinha, abriu os armrios e encontrou o material com que se fazia o que Natasha chamava caf. No era o que teria servido 
em sua casa. Porm, to logo o preparou, tornou-se pungente e familiar, fazendo-a lembrar-se de sua vida com a amiga doze anos atrs. Os aromas sempre lhe provocavam 
essa sensao; uma fragrncia, um aroma distante, e ela conseguia ver de novo tudo que vira muito tempo antes: uma sala, um amigo, um momento, um encontro com um 
homem h muito esquecido. Mas esta no era uma ocasio para sonhar. Olhou de relance para o relgio da cozinha e sabia que seu dia j comeara. 
        Eram 6:30. E, em Roma, seis horas mais do que isso. Com sorte poderia pegar Bernardo no escritrio, antes do almoo, vergado ao peso da responsabilidade 
agora em seus ombros. Levou a xcara de caf para o seu lindo escritoriozinho e sorriu ao acender a luz. Natasha, doce Natasha. Como era boa! Quanto fizera! Mas 
a ternura em seus olhos logo desapareceu ao preparar-se para o trabalho. Enquanto a telefonista fazia a ligao para a Itlia, Isabella puxou o zper de uma das 
sacas abarrotadas de papis, retirou um bloco grosso e duas canetas coloridas. Tinha tempo suficiente para sentar-se e beber outro gole de caf at a recepcionista 
da San Gregorio atender.
        A telefonista chamava por Bernardo, enquanto Isabella, nervosamente, batia no tapete macio com a ponta do p de unhas bem pintadas. Foi cautelosa ao manter-se 
em silncio para que a moa da San Gregorio no tivesse uma pista quanto  identidade de quem chamava. Teve tempo apenas para um rabisco rpido e depois ele estava 
na linha.
        - Al?
        - Ciao, bravo. Sou eu. 
        Bravo... numa traduo livre: sujeito bom, paciente. Mais do que qualquer um, o nome assentava-lhe bem.
        - Tudo correu bem? 
        - Perfeitamente. 
        - Como se sente?
        - Meio cansada. Ainda um pouco em estado de choque, creio. Acho que no compreendi, at chegar aqui, o que tudo isso significa. Voc teve sorte porque eu 
estava cansada demais para pegar o avio seguinte para casa. 
        Ela sentiu que uma onda de nostalgia a dominava e, de repente, desejou estender-lhe a mo.
        - Teve sorte. Eu a teria feito passar o diabo e mandado de volta na mesma hora. - Seu tom de voz parecia srio, mas Isabella riu.
        - Provavelmente teria. Seja como for, agora estamos metidos nesse negcio, nessa loucura que tramamos. Teremos de fazer o melhor que pudermos enquanto eu 
estiver aqui. Agora me diga, o que aconteceu? Tudo tranqilo por a?
        - Acabei de lhe mandar um recorte de Il Messaggero. Tudo correu de acordo com o planejado. Voc agora est morando, segundo as notcias, na sute da nossa 
cobertura.
        - E o resto?
        - A princpio mamma Teresa recebeu a notcia pessimamente, mas acho que agora compreende. Achava que voc devia t-la levado junto. Contudo, parece resignada. 
Como est o nenm? 
        Nenm... ela e Amadeo j no chamavam Alessandro assim h dois anos.
        - Encantado. Plenamente feliz. Apesar de no termos ido para a frica. 
        Tornaram a rir, e Isabella estava grata por terem, anos atrs, instalado uma linha telefnica especial. S era usada por Isabella, Amadeo e Bernardo, e agora 
iria garantir-lhes liberdade. No havia nenhuma extenso onde algum pudesse ouvir de alguma parte da Casa de San Gregorio.
        - A propsito, diga-me. E quanto  coleo? Telefonemas? Recados? Novas encomendas? Algum problema de ltima hora com a linha de vero? - Devia ser lanada 
breve. Era uma pssima hora para Isabella sumir.
        - No aconteceu nada de drstico, exceto com o tecido vermelho que voc encomendou de Hong Kong.
        - O que h com ele? - Os dedos do p retesaram-se no momento em que brincavam com o fio do telefone que serpenteava no cho, debaixo de sua escrivaninha. 
- Na semana passada, eles me disseram que no havia nenhum problema.
        - Mentiram. No podem entregar.
        - O qu? - Sua voz teria repercutido por todo o apartamento se ela no tivesse tido a precauo de fechar a porta. - Diga queles cretinos que no podem 
fazer isso. No comprarei mais deles. Oh, Deus... no, no se preocupe. Telefonarei para Hong Kong... maldio, no posso! H uma diferena de treze horas daqui. 
Mas posso telefonar em doze horas. Ligarei  noite.
        - Seria aconselhvel voc j pensar em algumas alternativas. No h nada que possamos usar aqui em Roma?
        - Nada. A menos que usemos o roxo da ltima estao no lugar do vermelho.
        - Dar certo?
        - Terei que falar com Gabriela. No sei. Terei que ver como vai se encaixar com o resto da linha.
        No mesmo instante ela soube que isso criaria um look inteiramente diferente para eles. Tons brilhantes de azul-claro, amarelos ensolarados, o vermelho de 
Hong Kong e grande quantidade de branco. Se usassem o roxo, ela precisaria de verde, laranja, talvez um pouco de amarelo e apenas um pouquinho de vermelho.
        - Isso altera o equilbrio todo - disse ela. 
        - Altera. Mas pode ser feito?
        Ela gostaria de gritar: "Pode sim, mas no daqui!''
        - O que eu gostaria de saber e: como pde me dizer que nada de drstico aconteceu? O vermelho de Hong Kong  drstico.
        - Por que voc no o substitui por algo dos Estados Unidos?
        - Eles no tm nada que me agrade. Esquea. Depois eu resolvo. Que mais? No tem nenhuma notcia bem pequena e boa para mim?
- S uma.
- No vo entregar o verde-claro?
- J entregaram. No, esta  uma boa notcia.
        - Para variar. 
        Mas, apesar da ironia em sua voz, o rosto de Isabella readquirira vida. Ela no sabia como fazer, como conseguiria fazer as mudanas de cor e do tecido principal 
em to pouco tempo e de to longe, porm, enquanto falava com Bernardo, o problema a levara de volta  San Gregorio. No importa onde estava, ainda tinha seu trabalho, 
e se precisasse mover montanhas, ela faria as mudanas a tempo.
        - Ento, qual  a boa notcia?
        - A F-B comprou perfume suficiente para fazer flutuar a sexta esquadra.
        - Isso  bom.
        - Por que tanto entusiasmo? 
        Bernardo voltou a parecer o mesmo de sempre. Cansado, zangado, aborrecido. 
        -  claro que estou satisfeita. Estou  farta desses cretinos da F-B com suas ofertas para comprarem a nossa empresa. E no me aborrea mais com esse disparate 
enquanto eu estiver aqui. 
        - No aborrecerei. O que voc quer que eu fale com Gabriela? - A designer chief ia ficar com lcera quando soubesse da notcia. "Mudanas? Que mudanas? 
Como podemos fazer mudanas agora?"
        - Diga-lhe que pare com tudo at eu voltar a telefonar. 
        - Isso significa quando?
        - Em setembro, querido. Estou de frias, lembra-se? Que diabo acha que significa? Acabei de dizer que vou ligar para Hong Kong  noite. E hoje mesmo estudarei 
alternativas. Sei de cada cor, de cada pedao de tecido que temos em estoque. 
        Bernardo sabia muitssimo bem que era verdade.
        - Presumo que isso tambm afetar a linha prt-- porter. 
        - No muito.
        - Mas o suficiente. - A lcera dele dava sua pontada costumeira. - Certo. Certo. Direi a ela para agentar um pouco. Mas, pelo amor de Deus, no deixe de 
telefonar. 
        A velha irritao entre eles estava de volta. Insensatamente, parecia familiar e boa.
        - Ligarei para voc depois que falar com Hong Kong. Por volta de uma hora - disse ela prosaicamente, j rabiscando um rio de pequeninas anotaes bem organizadas. 
- Como est minha correspondncia?
        - No h muita coisa.
        - timo. - Da cobertura, a secretria de Amadeo respondia a toda sua correspondncia. - Volto a falar com voc  noite. No deixe de ligar se alguma coisa 
acontecer durante o dia. 
        Mas, esgotado, Bernardo sabia que no ligaria. Guardaria tudo at a noite.
        - J tem bastante para manter-se ocupada.
        - Hum... hum... j tenho. - Ele a conhecia muito bem para saber que Isabella devia ter preenchido duas folhas do seu bloco. - Ciao.
        Desligaram como se ambos estivessem em seus respectivos gabinetes nos extremos opostos do mesmo andar. Em seu escritrio novo em folha, Isabella separou 
suas anotaes e espalhou-as diante de si. Tinha exatamente doze horas para substituir aquele vermelho de Hong Kong. Claro que sempre havia a possibilidade de ela 
poder atorment-los para que o mandassem, se o tivessem, se pudessem. Mas Isabella sabia que no podia correr o risco de depender deles. No podia mais. Fez outra 
rpida observao mental para falar com Bernardo. 
Queria cancelar a conta de Hong Kong. De qualquer maneira, vira melhores tecidos em Bangkok. No tocante  San Gregorio, Isabella no era pessoa de permanecer compreensiva 
ou se deixar intimidar.
        - Voc est de p de manh bem cedo.
        Surpresa, Isabella ergueu os olhos quando a cabea loura e desgrenhada de Natasha apareceu no vo da porta.
        - O que aconteceu aos dias em que estava acostumada a dormir at o meio-dia?
        - Jason. Tive de aprender a trabalhar durante o dia e a dormir  noite. Diga-me uma coisa, voc tem sempre essa aparncia s sete da manh? - Olhava com 
admirao para o robe de veludo azul-claro de Isabella.
        - S quando vou trabalhar. - Lanou um largo sorriso para a amiga e apontou para as anotaes sobre a mesa. - Acabei de falar com Bernardo.
        - Como esto as coisas em Roma?
        - Formidveis, exceto que preciso refazer metade da coleo de vero antes de voltar a falar com ele esta noite.
        - Est parecendo com a reescritura dos meus textos. Santo Deus! Antes de comear, posso preparar alguns ovos para voc?
        Isabella sacudiu a cabea.
        - Tenho de comear a trabalhar nisto antes de comer. E quanto aos meninos? J levantaram?
        - Est brincando? Oua... - Levou um dedo aos lbios e as duas riram ao ouvirem uma estridente risada distante. - Hattie est aprontando Jason para a escola. 
Natasha lanou um olhar afetuoso para Isabella, caminhou pelo aposento e sentou-se. - O que vamos fazer com respeito a Alessandro? Quer que ele fique em casa?
        - Eu... eu no sei... - As nuvens tinham voltado aos seus olhos escuros quando Isabella virou-se para Natasha, o cenho franzido. - Tinha planejado mant-lo 
em casa, mas... no sei. No estou certa do que fazer.
        - Algum j notou que voc deixou Roma?
        - No. Bernardo diz que tudo saiu perfeitamente bem. Segundo Il Messaggero, refugiei-me na cobertura da Casa de San Gregorio.
        - Ento no h nenhuma razo para algum suspeitar de quem ele possa ser. Acha que conseguiria convenc-lo a no dizer a ningum seu sobrenome? Ele poderia 
ir para a escola com Jason e dizer que  nosso primo de Milo. Alessandro... - Pensou por um momento. - Que tal o nome do seu av? 
        - Parel?
        - Parelli? - Natasha esboou um largo sorriso com a sua criao. - Passei metade da minha vida inventando nomes. Toda vez que inicio um romance, comeo a 
olhar atentamente todos os rtulos  mo e, seja como for, sempre tenho todos os nomes do livro em andamento. Bem, que tal? Alessandro Parelli, nosso primo de Milo?
        - E quanto a mim? - Isabella divertia-se com a imaginao criativa da amiga.
        - Sra. Parelli,  claro. Basta me autorizar que ligarei para a escola. Para falar a verdade... - Parecia pensativa. - Ligarei para Corbett e perguntarei 
se ele tem tempo para lev-los quando for para o trabalho.
        - Isso no seria uma espcie de imposio? 
        Isabella parecia preocupada, mas Natasha sacudiu a cabea.
        - Se fosse, eu mesma faria. Mas ele adora fazer coisas desse tipo. Est sempre me ajudando com Jason. - Ficou olhando ao longe por um momento, perdida nos 
prprios pensamentos. - Ele tem essa coisa sobre ser til... sobre pessoas que precisam dele. 
        Isabella olhou-a, imaginando se Natasha precisaria muito dele. Ela parecia to independente! Ela teria achado graa se soubesse que esse era o mesmo pensamento 
que sempre passava pela mente de Corbett.
        - Bem, se ele no se importar muito, seria maravilhoso. Desse modo no me veriam na escola.
        - Era nisso que eu estava pensando. - Ela mordeu o lpis. - Vou telefonar para ele. 
        E desapareceu antes que Isabella pudesse dizer mais alguma coisa. Contudo, desde que o conhecera, no caminho do aeroporto para casa, Isabella estivera imaginando 
o que haveria entre o homem de cabelos grisalhos e sua velha amiga. Dava a impresso de um timo relacionamento, e a compreenso entre eles era algo que Isabella 
via com inveja agora. Mas at que ponto levavam a srio esse relacionamento? De Natasha, ela sabia que no conquistaria seu ntimo, a menos que ela estivesse disposta 
a falar.
        Natasha foi telefonar para Corbett e voltou dizendo que ele no demoraria. Os meninos estavam de p, numa grande agitao.
        - Meu Deus, ser que ele agentar? - Isabella encolheu-se e Natasha esboou um largo sorriso.
        - Voc vai saber o quanto o homem  realmente doido quando eu lhe disser que ele vai adorar os dois juntos. Mesmo a esta hora do dia.
        - Obviamente um masoquista. 
        Isabella sorria enquanto pesquisava os olhos de Natasha. Mas no havia nenhuma resposta neles. Natasha olhou-a com simpatia, preparando torradas na cozinha.
        - Hoje voc pode dormir?
        - Est brincando? - Isabella olhou-a, horrorizada, e ambas de repente riram. 
        - E quanto ao seu trabalho?
        - Voc me ouvir martelando sem parar dentro de meia hora. Mas no - esboou um largo sorriso malicioso - vestida com algo to elegante assim.
        Isabella deu uma risada. Ela sabia que Natasha possua um uniforme para trabalhar, jeans, uma suter de malha de algodo e meias de l com um desenho decorativo 
em forma de losangos coloridos. No mesmo instante Isabella compreendeu que poderia fazer o mesmo. De sbito, tornou-se invisvel, desconhecida, no existia.
        - Certo, sra. Parelli de Milo, vou telefonar para a escola. 
        Natasha desapareceu e Isabella foi ao encontro do filho. Encontrou-o no quarto, brincando com Ashley, um largo sorriso no rosto.
        - Por que est to feliz? - Ela envolveu-o nos braos, beijando-o.
        - Jason precisa ir para a escola hoje. Vou ficar em casa com o trem dele. - Mas Isabella deixou-o cair pesadamente na cama.
        - Adivinhe s uma coisa. Voc tambm vai para a escola. 
        - Vou? - Olhou-a com desnimo. - No posso brincar com o trem?
        - Claro que pode. Quando voltar para casa. No seria mais divertido ir para a escola com Jason do que ficar aqui sozinho o dia todo, enquanto eu trabalho?
        Ele ficou pensando por um minuto e inclinou a cabea para um lado.
        - Ningum vai falar comigo. No posso falar com eles. 
        - Se for  escola com Jason, logo poder falar com todos, e muito mais rpido do que se ficar aqui falando italiano comigo. O que acha?
        Pensativamente, ele concordou. 
        - Vai ser muito difcil?
        - Igual  sua escola em Roma.
        - Com brincadeiras o tempo todo? - Olhou-a encantado, e ela sorriu.
        - Era s o que estava acostumado a fazer? 
        - No, tnhamos que fazer letras tambm.
        - Que coisa incrvel! - Sua expresso mostrava que concordava. - Voc quer ir? - No estava certa do que faria com ele se o menino recusasse.
        - Okay. Vou tentar. E, se eu no gostar, ns dois samos. Jason pode ficar em casa comigo.
        - Tia Natasha vai adorar. E oua, tenho uma coisa para lhe dizer.
        - O que ?
        - Bem, faz parte da aventura. Temos de guardar segredo que estamos aqui.
        O menino olhou-a e depois sussurrou:
        - Devo me esconder na escola?
        Ela procurou manter a expresso sria e, gentilmente, pegou a mo dele.
        - No, tolinho. Eles vo saber que voc est l. Mas... no queremos que ningum saiba quem voc .
        - No queremos? Por qu? - lanou-lhe um olhar estranho, e ela sentiu a montanha de ferro tornar a cair sobre seu corao.
        - Porque  mais seguro. Todo mundo pensa que ainda estamos em Roma.
        - Por causa do... do papai? - Seus olhos estavam arregalados e tristes ao mergulharem nos dela.
        - Isso mesmo. Vamos dizer que nosso nome  Parelli. E que somos de Milo.
        - Mas no somos de Milo. Somos de Roma. - Aborrecido, lanou um olhar demorado para a me. - E somos di San Gregorio. Papai no gostaria se mentssemos 
sobre isso.
        - Ele no gostaria e eu tambm no gosto. Mas tudo faz parte do segredo, Alessandro. Temos de fazer a coisa desse modo, mas apenas por um pequeno espao 
de tempo.
        - Depois posso contar meu verdadeiro nome na escola? 
        - Talvez mais tarde. Mas agora no, Alessandro Parelli. Provavelmente jamais venham a usar seu sobrenome.
        - Seria melhor que no. No gosto dele. 
        Por um momento, Isabella quase riu. Provavelmente o chamariam Alessandro Espaguete, como fizera Natasha quando se conheceram.
        - No importa como o chamem, querido. Voc sabe quem .
        - Acho que  tolice. 
        Sentou-se sobre as prprias pernas e ficou observando o amigo. Jason amarrava cuidadosamente os cadaros dos sapatos, que tambm tinham sido cuidadosamente 
calados. Mas nos ps trocados.
        - No  tolice, Alessandro.  necessrio. E ficarei muito, muito zangada com voc se contar a algum seu verdadeiro sobrenome. Se o fizer, teremos de fugir 
de novo, e no poderemos mais ficar com tia Natasha e Jason.
        - Teremos de ir para casa? - Parecia horrorizado. - Eu nem sequer brinquei com o trem...
        - Ento faa como eu lhe disse. Quero que me prometa. Alessandro, voc promete?
        - Prometo.
        - Quem voc ?
        Ele olhou-a com expresso de desafio. 
        - Sou Alessandro... Parelli. De Milo.
        - Isso mesmo, querido. E lembre-se de que amo voc. Agora se apresse e se vista.
        J podiam sentir o cheiro de Hattie fritando bacon na cozinha. E Jason, confuso, olhava fixamente para os ps, estranhamente calados.
        - Voc os calou nos ps trocados, querido. - Isabella abaixou-se para dar-lhe uma mozinha. - Adivinhe s uma coisa. Alessandro vai para a escola com voc 
hoje.
        - Vai? Uau! 
        Ela explicou-lhe a respeito do nome Parelli e que eles eram primos de Milo. E ento lembrou-se de dizer a mesma coisa a Alessandro.
        - Que sou primo dele? Por que no posso dizer que sou seu irmo? - Sempre gostara da idia.
        - Porque voc no fala ingls, tolinho.
        - Depois que eu aprender, posso dizer que somos irmos ento?
        - No se preocupe com isso. Vista as calas. E lave o rosto.
        Vinte minutos mais tarde, Corbett buzinou l embaixo. Os meninos estavam consideravelmente vestidos com calas de veludo cotel, tnis, camisas, suteres, 
gorros de l e capotes quentes. Tomaram um caf apressado e foram embora. Quando a porta se fechou atrs deles, Natasha olhou para a sua camiseta desbotada e enxugou 
as mos nos jeans.
        - De qualquer forma, acabo sempre com a roupa suja do que ele comeu por ltimo. Alessandro, sem dvida, estava uma gracinha.
        - Ele queria dizer na escola que era irmo de Jason. - Isabella suspirou ao se afastarem da porta.
        - Acha que ele ser capaz de manter o sobrenome em segredo? - Por um instante, Natasha ficou preocupada.
        - Infelizmente, nos ltimos quatro meses e meio, ele aprendeu bastante sobre segredo, discrio, cautela e perigo. Compreende que os trs primeiros so necessrios 
para evitar o ltimo.
        - No resta dvida de que  um aprendizado e tanto para uma criana de cinco anos.
        - Assim como para uma mulher de 32 - disse Isabella e, enquanto a observava, Natasha sabia que ela falava a verdade. 
        - Espero que tenha isso em mente, cara de espaguete. No foi propriamente entusiasmo o que senti com a sua declarao de ontem  noite, dizendo que queria 
sair. Alessandro  uma coisa,  uma criana annima. No h nada, nem de leve, annimo em voc.
        - Poderia haver.
        - O que tem em mente? Ver um cirurgio plstico para um novo rosto?
        - No seja ridcula. H uma maneira de comportamento quando a pessoa quer ser vista. De "estar ali", de chamar ateno e dizer "estou aqui". Se no quero 
ser vista, no preciso ser. Posso usar um leno na cabea, calas compridas e um casaco escuro. 
        - culos escuros, barba, bigode. Certo. Escute, Isabella. Faa-me um favor. Tenho nervos muito delicados. Se vai comear a perambular por Nova York, posso 
ter um colapso nervoso. Nesse caso, no poderia terminar de reescrever meu livro, no receberia meu prximo adiantamento, meus direitos autorais estancariam, meu 
editor me despediria e meu filho morreria de fome. 
        Mas Isabella apenas ria ao ouvi-la. 
        - Natasha, adoro voc.
        - Ento seja uma boa amiga. Fique em casa.
        - No posso. Pelo amor de Deus, Natasha, o mnimo que preciso  de ar.
        - Comprarei um pouco. Mandarei entregar em seu quarto. - Sorriu, mas nunca estivera mais sria. - Se comear a circular por Nova York, algum a ver. Um 
reprter, um fotgrafo, algum que conhece moda. Deus do cu, pode at ser uma reprter da Women's Wear Daily.
        - No esto interessados em mim. Apenas nas minhas colees.
        - A quem est tentando enganar, querida? No  a voc mesma e nem a mim.
        - Conversaremos a respeito mais tarde.
        Com a questo de Isabella ousando sair ainda no resolvida entre ambas, elas se separaram e cada qual dirigiu-se a seu respectivo mundo: Natasha, perdida 
entre seus papis em desordem, suas inmeras xcaras de caf pela metade, suas vises, seus personagens e seu mundo imaginrio; Isabella, para o seu bloco repleto 
de anotaes minuciosamente detalhadas, seus arquivos cuidadosamente em dia, sua longa lista de tecidos que atualmente tinham em estoque, suas amostras, seus figurinos, 
sua lembrana perfeita sobre a linha de vero. Nenhuma das duas sequer ouviu as crianas voltarem para casa s 15:30, e s duas horas mais tarde que se encontraram 
na cozinha, cada qual tensa, faminta, cansada.
        - Puxa, estou faminta. - Por um momento, o sotaque de Natasha pareceu at mais sulista. Isabella parecia cansada e havia ligeiras sombras debaixo dos seus 
olhos. - Voc comeu hoje?
        - Acho que no.
        - Nem eu. Como foi isso?
        Tinha sido estafante, mas ela fizera um plano eventual para a coleo de alta costura.
        - Acho que conseguiremos. Talvez nem precisemos usar o que fiz hoje. Mas no poderia correr o risco. 
        Ela s saberia com certeza quando ligasse para Hong Kong  noite. Sorriram uma para a outra enquanto bebiam caf. Natasha fechou os olhos por um minuto e 
Isabella esticou os braos cansados. Hoje passara por uma nova experincia. Sem botes para apertar, sem secretrias para dar ordem, sem elevadores para entrar e 
sair, problemas para analisar em cada andar. Sem imagem para ganhar, sem aura, sem magia, sem encanto. Vestira um suter preto de cashmere e jeans j bem surrados.
        - O que vai fazer esta noite? - perguntou a Natasha. 
        - O mesmo que voc. Ficar em casa.
        - Por que quer ficar ou por minha causa?
        Isabella imaginou at que ponto Corbett seria paciente com a deciso imposta por Natasha. Realmente no era justo para com ele.
        - No seja tola. Porque estou extremamente cansada. E, acredite ou no, gosto de ficar em casa. Alm disso, voc  muito mais divertida do que qualquer um 
dos convites que h semanas tenho tido.
        - Fico lisonjeada. - Mas Isabella no se deixava enganar por palavras impetuosas.
        - No fique no. Vivo cercada de idiotas, enfadonhos e pessoas que me convidam porque querem dizer que me conhecem. H dez anos, eu era apenas mais um modelo 
da Gergia e, de repente, sou "Uma Romancista", "Uma Escritora", algum para enfeitar um grande jantar.
        Grandes jantares! H meses que Isabella no ia a um grande jantar, mas tambm jamais fora sozinha. Nunca era apenas Isabella, mas Isabella e Amadeo, juntos. 
Ns, no Eu. ramos uma espcie de time mgico, pensou. Ns dois, quem ramos, o que ramos, o que significvamos juntos. Como aspargos e molho holands. E difcil 
quando j no se pode contar com ambos. Como condimento, como algo doce... como algo interessante... como...
        Novamente triste, Isabella olhou para Natasha com admirao; sua amiga corajosa que "decorava" grandes jantares desacompanhada e que sempre parecia divertir-se 
muito.
        - No sou nada sem ele - sussurrou. - Toda a excitao se foi. Tudo que eu era... que ramos...
        - Voc sabe que isso  tolice. Talvez seja solitrio, mas voc ainda  o que sempre foi. Bonita, inteligente, uma mulher extraordinria, Isabella. Mesmo 
s. Vocs eram dois inteiros que somados um ao outro formaram dois inteiros e uma metade e no duas metades que se tornaram um inteiro.
        - ramos mais que isso, Natasha. Formvamos um inteiro que se tornou nico. Sobreposto, entrelaado, engrenado, soldado, tranado. Nunca soube realmente 
onde eu comeava e ele terminava. E agora sei... muitssimo bem... - Olhou fixamente para o caf, sua voz um sussurro suave.
        Natasha tocou sua mo.
        - D tempo ao que aconteceu.
        Mas quando Isabella ergueu os olhos, neles havia raiva. 
        - Por que deveria? Por que eu deveria dar alguma coisa? Por que teve de acontecer comigo?
        - No aconteceu com voc, Isabella. Aconteceu com ele. Voc ainda est aqui, com Alessandro, com a empresa, com todas as partes do seu ser: sua mente, sua 
alma, seu corao ainda intactos. A menos que deixe a amargura lhe roubar, como pensa que j roubou.
        - No teria causado o mesmo a voc?
        - Provavelmente. Eu no teria a fora para fazer o que voc tem feito. Seguir em frente, assumir a direo da empresa, torn-la melhor, continuar na direo, 
mesmo daqui. Mas isso no basta, Isabella. No basta... oh, Deus, garota, por favor... no esquea de si mesma. 
        Lgrimas brotaram de seus olhos ao fitar a beleza de cabelos negros, to cansada, de repente to desolada e solitria. Enquanto ficasse enterrada no trabalho 
o dia inteiro, ela no sentiria. Porm, mais cedo ou mais tarde, mesmo no quartinho de empregada, seu escritrio agora, o dia precisava terminar para ela e Isabella 
tinha de ir para casa. 
        Natasha entendeu.
        Isabella levantou-se calmamente, deu um tapinha no ombro de Natasha e voltou em silncio para seu quarto. Quando retornou, dez minutos depois, usava culos 
escuros, o casaco de vison e um outro chapu preto de l. Ao v-la, Natasha interrompeu o que estava fazendo.
        - Aonde pensa que vai?
        - Dar uma volta. 
        Era impossvel ver seus olhos por trs dos culos, mas Natasha percebeu no mesmo instante que ela estivera chorando. Durante alguns segundos, as duas mulheres 
ali ficaram, presas numa batalha, sem pronunciarem uma palavra. Ento Natasha capitulou, dominada pela tristeza que sentia pela amiga.
        - Muito bem. Vou com voc - decidiu - mas, pelo amor de Deus, tire esse casaco. Voc est to discreta como a Greta Garbo. S precisa de um dos chapus dela.
        Com expresso cansada, Isabella lanou-lhe um largo sorriso e um encolher de ombros tipicamente italiano.
        - Esse foi o nico que eu trouxe, meu nico casaco.
        - Pobre menina rica. Venha, acharei alguma coisa para voc. 
        Isabella seguiu a amiga, quando Natasha dirigiu-se ao closet e retirou um casaco vermelho de l.
        - No posso usar isto. Eu... Natasha, lamento...
        - Por que no?
        - No  preto.
        Natasha encarou-a por um momento, sem entender; depois, examinando-a, compreendeu. Antes disso no tivera certeza.
        - Voc est usando luto? - Isabella confirmou. - No pode tomar emprestado o casaco vermelho? - O conceito todo era novo para ela. A idia de usar vestidos 
pretos, suteres pretas, meias pretas. Durante um ano inteiro.
        - Eu me sentiria horrvel.
        Natasha ficou examinando o armrio outra vez e depois murmurou, por sobre o ombro:
        - Concordaria em usar azul-marinho?
        Hesitando um instante, Isabella assentiu e, tranqilamente, tirou o espetacular casaco de vison. Natasha vestiu uma jaqueta de raposa, luvas quentes e um 
grande chapu de pele de raposa.
        Virou-se e descobriu Isabella sorrindo.
        - Voc est maravilhosa.
        - Voc tambm.
        Era assombroso como ela conseguira fazer isso. Mas conseguira. O casaco azul-marinho era totalmente liso, e a boina preta de l dificilmente era mais atraente; 
mas o rosto de marfim e os profundos olhos amendoados eram s do que ela precisava. Teria parado o trnsito durante altas horas da noite.
        As duas deixaram o apartamento em silncio. L fora j estava escuro. Natasha saiu primeiro. O porteiro abriu a porta e, por um momento, Isabella espantou-se 
com o frio cortante. De repente, sentiu-se como se algum tivesse lhe dado um murro forte no peito. Ficou com a respirao entrecortada e sentiu uma nvoa transparente 
de lgrimas enchendo seus olhos.
        -  sempre assim em fevereiro? De certa forma, s me lembro de Nova York no outono.
        - Uma poca moderada, abenoada, minha querida. A maior parte do tempo  pior. Gostaria de andar por algum lugar especial?
        - Que tal o parque? 
        Andavam apressadas pela Park Avenue. Natasha olhou-a, chocada.
        - S se estiver com tendncias suicidas. Como sabe, eles tm uma cota a atingir. Acho que  qualquer coisa por volta de trinta e nove assaltos e dois assassinatos 
por hora. 
        Isabella riu para a amiga e, de repente, sentiu seu corpo reviver. Mas no era energia que incitava seus ps para a frente, apenas a tenso e a solido, 
a fadiga e o medo. Estava to cansada... de trabalhar, de viajar, de se esconder, de sentir a falta dele e de ser corajosa. "Procure ser corajosa s mais um pouquinho." 
Ainda conseguia ouvir as palavras que Amadeo lhe dissera quando o deixaram falar com ela... naquela ltima noite. 
        Seus ps j martelavam a calada. Natasha mantinha o passo com ela, mas Isabella esquecera que a amiga estava ali. "Tente ser... corajosa... corajosa... 
corajosa..." Parecia a Isabella que j haviam percorrido quilmetros quando finalmente pararam.
        - Onde estamos?
        - Rua 79. - Tinham percorrido dezoito quarteires. - No est em m forma, para uma velha. Disposta a voltar para casa agora?
        - Estou. Porm mais devagar. Que tal andarmos em lugar mais interessante? 
        Tinham passado por quarteires e quarteires de edifcios semelhantes ao de Natasha, fortalezas de pedra, com toldos e porteiros. Causavam impresso, mas 
no atrao.
        - Podemos ir at a Madison e dar uma olhada nas lojas. 
        Eram quase sete da noite. Uma hora morta, quando as pessoas estavam em casa, aquela hora depois do trabalho e antes que algum sasse para algum programa 
noturno. E estava mesmo frio demais para muitas pessoas ficarem olhando vitrinas  noite. Natasha deu uma olhada para o cu. Havia uma friagem familiar no ar. 
        - Acho que vai nevar.
        - Alessandro adoraria. - Agora caminhavam lentamente, tomando flego.
        - Eu tambm.
        - Gosta de neve? - Isabella olhou-a, surpresa.
        - No. Mas conservaria voc dentro de casa, sem que eu precisasse andar de um lado para outro para certificar-me de que no vai escapar.
        Isabella soltou uma risada e continuaram caminhando, passando por quarteires de boutiques que armazenavam os deleites de Cardin, Ungaro, Pierre D'Alby e 
Yves Saint Laurent. Havia galerias de arte e os penteados artsticos de Sassoon.
        - Checando a concorrncia? 
        Natasha observava-a, divertida. Isabella extasiava-se com tudo, os olhos cintilantes de prazer. Era uma mulher que adorava cada faceta do seu trabalho.
        - Por que no? Eles tm coisas muito bonitas. 
        - As suas tambm so.
        Isabella fez uma pequena reverncia enquanto caminhavam. Era o Faubourg St.-Honor de Nova York, um colar cintilante de gemas brilhantes e de valor incalculvel, 
unidas, realando umas s outras, uma mirade de tesouros oculta em cada quarteiro.
        - Voc realmente adora isto, no?
        - O qu, Nova York? 
        Isabella parecia surpresa. Gostava dali. A cidade a intrigava. Mas amar... no... ainda no. Mesmo depois de ter passado um ano ali, ficou contente quando 
voltou para Roma.
        - Nova York no. Digo moda. Algo acontece com voc, s em olhar as roupas.
        - Ah... isso.
        - Puxa, eu teria enlouquecido se tivesse continuado como modelo.
        - Isso  diferente.
        Isabella olhou-a com uma expresso sagaz, a retentora de segredos que raramente revelava.
        - No, no .
        - , sim. Ser modelo  o mesmo que levar uma existncia inteira fazendo apresentaes nicas em determinados lugares. No h nenhuma aventura amorosa, no 
h amantes carinhosos, no h traies, coraes partidos, casamentos ou proles preciosas. A criao  diferente. Nela h histria, drama, coragem, arte. Voc ama 
as roupas, voc vive com elas durante certo tempo, voc as gera, evoca seus pais, seus avs, os vestidos de outras colees, outros tempos. H toda uma atmosfera 
romntica, uma excitao... - Interrompeu-se, depois riu. - Voc deve pensar que estou louca.
        - No.  assim mesmo que me sinto em relao aos personagens dos meus livros.
        - Maravilhoso, no ? - As duas olharam-se num entendimento perfeito.
        - Muito.
        Estavam quase em casa. Ao dobrarem a esquina da Park Avenue, Natasha sentiu os primeiros flocos de neve.
        - Est vendo, no lhe disse? Mas imagino que isto no ser motivo para prend-la em casa. 
        Contudo, no havia ofensa no que disse. Poderiam andar como tinham feito nessa noite. Afinal, no fora perigoso.
        - No, no ser. Eu no poderia ter ficado no apartamento. No por muito tempo.
        Natasha concordou com a cabea. 
        - Eu sei.
        Tambm sabia que Isabella no ficaria satisfeita para sempre com uma breve caminhada  noite.















Captulo Quinze



        - Mamma! Olhe!... Nevou!
        E realmente nevara. Um manto de uns trinta centmetros de espessura cobria toda a superfcie de Nova York. E do calor aconchegante do apartamento, todos 
os quatro assistiam ao espetculo da tempestade em redemoinho. No havia parado desde que Natasha e Isabella voltaram para o apartamento na noite anterior.
        - Podemos brincar na neve?
        Isabella lanou um olhar de relance para Natasha, que assentiu e ofereceu-se para emprestar-lhes as roupas apropriadas. Certamente no haveria aula. A cidade 
havia parado completamente.
        - Iremos depois do caf.
        Isabella consultou o relgio. E depois ligou para Bernardo em Roma. Na vspera s conseguira ligao com Hong Kong muito tarde, e no ousara telefonar para 
ele quela hora. Afastou-se rapidamente dos meninos, fechou a porta do escritrio e pegou o telefone.
        - Onde esteve a noite passada? Calculei que fosse me telefonar por volta das quatro.
        - Que encantador! Minhas maneiras no so to ruins assim, Bernardo. Foi por isso que esperei at agora.
        - Bonssima signora.
        - Ora, cale a boca. 
        Ela estava sorrindo, muito bem disposta. 
        - O tecido de Hong Kong est fora de cogitao. Teremos de procurar uma harmonia com os planos alternativos. 
        - Que planos alternativos? - Ele parecia frustrado. 
        - Os meus,  claro. Falou com Gabriela para parar com tudo?
        - Naturalmente. Foi o que voc quis. Eu praticamente tive que apanh-la do cho, completamente desacordada.
        - Ento devia me agradecer. Seja como for, ontem resolvi o problema. Est com papel e caneta  mo?
        - Sim, madame.
        - timo. J tenho tudo resolvido. Primeiro a coleo de alta costura, depois faremos o resto. Comeando com o nmero 12, o forro vermelho passou agora para 
amarelo. O nmero do tecido em nosso estoque  2-7-8-3 FBY... Fabia-Bernardo-Yvonne. Entendeu? Os nmeros 16, 17 e 19... - E assim ela continuou at ter abrangido 
a linha inteira. At Bernardo estava atordoado.
        - Em nome de Deus, como fez isso?
        - Com dificuldade. A propsito, as peas adicionais da coleo prt--porter no ficaro to mais caras assim. Usando o tecido que temos em estoque, estamos 
poupando uma enormidade de dinheiro.
        Realmente estavam, Bernardo pensou, com admirao. E ela detalhara cada maldito tecido. Isabella conhecia cada pea, cada rolo, cada metro de tecido, cada 
tipo de textura e cada tom disponvel.
        - E se o 37 da linha de alta costura ficar horrvel, diga a ela para retir-lo - continuou Isabella. - Provavelmente seremos obrigados a esquec-lo e s 
deix-lo na linha como nmero 36 em azul.
        - Que vestido  esse? 
        Ele estava perplexo. Ela fizera o trabalho de um ms em um dia. Em uma manh, ela recuperara a linha de vero inteira. S de falar com Gabriela na noite 
anterior, ele havia compreendido como teria sido potencialmente desastrosa a falta do tecido de Hong Kong.
        - No se preocupe com qual vestido seja. Gabriela sabe. H alguma coisa de novo?
        - Hoje, nada. Tudo calmo no front domstico.
        - Que timo para voc. Nesse caso, vou tirar uma folga hoje.
        - Vai sair? - Parecia em pnico.
        - S at o parque. Est nevando. Natasha e eu acabamos de prometer aos meninos.
        - Isabella, cuidado.
        -  claro. Mas acredite em mim, no haver outra alma. 
        - Por que no deixa Alessandro ir com Natasha? Voc fica em casa.
        - Porque preciso de um pouco de ar fresco, Bernardo. 
        Ele comeou a falar, mas ela o interrompeu.
        - Bernardo, amo voc. Agora preciso ir.
Ela foi lacnica e cordial e estava enervada ao assoprar-lhe um beijo e desligar. Ele no gostou. No gostou de jeito nenhum. Havia de novo um pouco de irritao 
exagerada em sua voz. E, a essa distncia, ele no tinha nenhum controle. S contava que Natasha fosse mais esperta que Isabella e no a deixasse sair alm de uma 
breve caminhada ocasional depois que escurecesse. Ento riu para si mesmo. Havia um meio de mant-la afastada de encrenca e isso era cumul-la de mais trabalho, 
como o esforo macio do dia anterior. Era inconcebvel que ela realmente o tivesse feito.
        - Esto prontos? 
        Isabella olhou para os dois meninos agasalhados como bonecos de neve: Jason num conjunto vermelho, espessamente forrado e com capuz; Alessandro num conjunto 
idntico amarelo-claro, emprestado de Jason.
        Saram para o parque imediatamente e, meia hora depois, os meninos deslizavam nos pequenos montes, no tren de Jason. Ficaram patinando, fazendo algazarra, 
gritando, rindo e atirando neve um no outro. Depois de usarem o tren, passaram a travar uma batalha de bolas de neve e rapidamente Isabella e Natasha juntaram-se 
 brincadeira. Apenas algumas almas corajosas tiveram audcia suficiente para sair no frio. Os quatro resistiram durante quase duas horas; depois, felizes e encharcados, 
estavam prontos para voltar a casa.
        - Banho quente para todos! - Gritou Natasha ao entrarem. 
        Hattie os aguardava com chocolate quente e torradas temperadas com canela e um bom fogo crepitando no gabinete. 
        A tempestade de neve continuou por mais um dia, e os meninos no precisaram ir  escola a semana inteira, enquanto os homens de negcio levavam raquetes 
de neve para os escritrios e as donas-de-casa faziam ressurgir os esquis para fazer compras.
        Porm, para Isabella, o feriado foi breve. E, depois do dia de brincadeiras na neve, ela voltou ao seu escritrio, nos fundos do apartamento de Natasha, 
com um novo mar de problemas de Roma. Dois dos mais importantes tecidos alternativos tinham sido destrudos acidentalmente por uma inundao no armazm, na semana 
anterior. A modelo nmero um da casa demitira-se e tudo precisou ser ajustado outra vez. Pequenos problemas, grandes dores de cabea, desastres e vitrias, um ms 
repleto, com uma abenoada montanha de trabalho em que Isabella pde ocultar-se, com exceo das caminhadas noturnas com Natasha. Agora tornaram-se um ritual sem 
o qual Isabella achava que no podia viver.
        - Por quanto tempo voc vai continuar assim?
        Tinham acabado de fazer uma parada para acender um cigarro na Madison Avenue. Isabella ficara perscrutando as vitrinas das boutiques, examinando as exposies 
para a primavera. Estavam em maro e as ltimas neves finalmente tinham chegado e partido, embora ainda fizesse um frio hibernal e houvesse quase sempre um vento 
gelado.
        Sua pergunta pegou Natasha de surpresa.
        - O que quer dizer? Continuar assim como?
        - Vivendo como uma eremita, sendo minha ama-seca? J percebeu que no saiu uma s noite durante as cinco semanas em que estamos aqui? A essa altura, Corbett 
deve estar com vontade de me matar.
        - Por que ele deveria? - Natasha parecia frustrada ao olhar para a amiga.
        Mas Isabella divertia-se diante da sua inocncia dissimulada. H muito que tinha entendido.
        - Sem dvida ele espera um pouco mais do seu tempo. 
        - No por costume, obrigada. Conservamos nossas vidas muitssimo para ns mesmos.
        Natasha dava a impresso de ligeiramente divertida. Mas desta vez foi Isabella quem ficou frustrada.
        - Que diabo quer dizer? - Natascha no estava zangada com Isabella, apenas confusa.
        Mas Isabella respondeu com um sorriso lento:
        - No espero que se comporte como uma virgem, Natasha, sabe disso. Pode ser franca comigo.
        - Sobre o qu? - E, ento, de repente, Natasha esboava um largo sorriso. - Sobre Corbett? - Durante um longo tempo ela riu at brotarem lgrimas de seus 
olhos. - Est brincando? Oh, Isabella... voc pensou?... Oh, Deus! - E ento olhou para a amiga, divertida. - No posso imaginar nada menos atraente do que estar 
envolvida com Corbett Ewing.
        - Srio? No est envolvida com ele? - Isabella parecia aturdida. - Mas eu supunha... - E, depois, pareceu at mais confusa. - Mas por que no? Pensei que 
vocs dois...
        - Talvez voc tenha pensado, mas Corbett e eu jamais pensamos. Temos sido amigos durante anos e jamais seremos algo mais. Ele  quase como um irmo e  meu 
melhor amigo. Mas ns dois somos basicamente pessoas muito dinmicas. Como mulher, no sou gentil o suficiente para Corbett, no sou bastante frgil ou indefesa. 
No sei, no consigo explicar. Ele sempre diz que eu devia ter nascido homem.
        - Que indelicadeza! - Isabella parecia no aprovar.
        - Bernardo no lhe diz coisas indelicadas?
        Isabella respondeu, com um sorriso:
        - Diariamente, no mnimo.
        - Exato.  como irmo e irm. No consigo imaginar uma coisa diferente com Corbett.
        Esboou um largo sorriso outra vez e Isabella deu de ombros, sentindo-se um pouco tola.
        - Acho que estou ficando velha, Natasha. Minhas percepes andam pssimas. De fato, logo de princpio, presumi...
        Mas Natasha apenas continuava com seu largo sorriso, e sacudia a cabea. E, enquanto caminhavam, Isabella ficou pensativa durante um longo momento. De repente, 
imaginou Corbett Ewing sob um outro prisma muito diferente. No tornaram a falar at se aproximarem do edifcio. Natasha notou que Isabella sorria enquanto caminhavam.
        - Voc devia ter ido ao baile da pera, sabe disso - comentou Isabella. - Deve ter sido divertido.
        - Como sabe?
        - Temos um baile maravilhoso em Roma.
        - Quero dizer: como sabe que havia um baile aqui e que fui convidada?
        - Porque sou excelente detetive e o convite no se queimou inteiramente.
        De repente, brotaram lgrimas nos olhos de Natasha. Suas mentiras, seu "sacrifcio", tinham feito mal  amiga.
        - Muito bem - disse ela, passando um brao pelos ombros de Isabella, abraando-a estreitamente, porm por um breve instante. - Voc venceu.
        - Obrigada - Isabella entrou no edifcio com uma expresso vitoriosa e um brilho extraordinrio no olhar.












































Captulo Dezesseis



        Isabella apagou a luz do escritrio. Eram oito da noite e ela acabara de fazer sua ltima ligao para Roma. Pobre Bernardo! Pela manh, fizera duas chamadas 
para ele, mas tinha sido a noite de lanamento da coleo de vero e ela precisava saber como tinha sido.
        - Requintada, cara - dissera ele. - Todos declararam que  maravilhosa. Ningum entende como voc pde faz-la sob a tenso em que esteve, com as dificuldades, 
com tudo. Enquanto o ouvia, os olhos de Isabella cintilavam.
- No ficou muito estranha com todas aquelas cores em lugar do vermelho? Trabalhando dessa forma, no papel,  distncia, foi um pouquinho como trabalhar s cegas.
        - No pareceu nada estranho e o forro turquesa no casaco branco de noite foi simplesmente genial. Voc devia ter visto a reao da Vogue italiana.
        - Va bene. 
        Ela estava feliz. Ele lhe dera todos os detalhes at que, por fim, nada restava que ela j no soubesse.
        - Certo, querido, acho que conseguimos. Desculpe t-lo acordado. Agora volte para a cama.
        - Quer dizer que no tem nenhum outro projeto para mim a esta hora? Nenhuma instruo frentica sobre uma nova idia sua para o outono? 
        Ele sentia falta dela, mas sua necessidade estava desaparecendo. Tinha sido bom para ambos; a fuga de Isabella fora uma fuga tambm para ele.
        - Amanh. 
        Por um instante seus olhos toldaram-se. O outono... ento ela teria de criar a coleo dali? Jamais conseguiria voltar para casa? Dois meses! J se haviam 
passado dois meses desde que viera para os Estados Unidos. Dois meses de esconderijo e de dirigir sua empresa a oito mil quilmetros de distncia, pelo telefone. 
Dois meses sem ver a villa e sem dormir na prpria cama. J estavam em abril. O ms do sol, dos jardins e das primeiras exploses da primavera em Roma. Mesmo em 
Nova York, o tempo estivera um pouco mais quente no momento em que Isabella caminhara todas as noites at a orla do parque. E, algumas vezes, at o East River para 
dar uma olhada no desfile dos praticantes de cooper dos barquinhos. O rio no era o Tibre e Nova York no era sua terra natal.
        - Ligarei para voc pela manh - disse a Bernardo. - E, a propsito, meus parabns pelo sabonete.
        - Por favor. No seja por isso. 
        Levara quatro meses para fazer a pesquisa, mais dois para coloc-lo no mercado. Mas, pelo menos, compensara. Tinham acabado de receber um pedido de quinhentos 
mil dlares da F-B,  claro. Bernardo relatava os pedidos, mas ela no ouvia. O sabonete. At isso a fazia lembrar-se do seu ltimo dia com Amadeo. Aquele dia fatdico 
quando discutira com Bernardo e depois os deixara para comparecer a um almoo. Isso ocorrera h quase sete meses. Sete meses longos e solitrios, cheios de trabalho. 
Forou sua ateno de volta a Bernardo.
        - Por falar nisso, como est Nova York agora? - Ele perguntava.
        - Ainda fria, talvez um pouquinho mais quente, mas tudo ainda  muito cinzento. Aqui eles no vem a primavera antes de maio ou junho. Ele no lhe disse 
que o jardim da villa estava em plena florao. Tinha ido at l para verificar as coisas apenas alguns dias atrs. Em vez disso, ele falou:
        - Bene, cara. Falarei com voc amanh. E parabns.
        Ela assoprou-lhe um beijo e desligaram. Parabns... Em Roma, ela teria assistido, com terror e fascinao, ao espetculo do lanamento. Teria ficado a postos, 
sem flego, em dvida de repente quanto s cores, aos tecidos, ao look, infeliz com os adereos, a msica e ao cabelo impecvel das modelos. Teria odiado cada momento 
at que a primeira manequim pisasse na passarela forrada de seda cinza. Ento, depois que tivesse comeado, teria sentido toda a emoo, como sempre sentia a cada 
estao. A excitao absoluta, a beleza, a loucura do mundo da alta moda. E quando terminasse, ela e Amadeo teriam piscado um para o outro secretamente, atravs 
do salo perigosamente apinhado; em seguida teriam se encontrado mais tarde para um beijo longo, cheio de felicidade. A imprensa teria estado ali e haveria rios 
de champanha. E festas  noite. Era o mesmo que um casamento e uma lua-de-mel quatro vezes por ano.
        Mas no neste ano. Nesta noite, ela estava de jeans, num minsculo escritrio, bebendo caf e extremamente s. Isabella fechou a porta do escritrio e, ao 
passar pela cozinha, consultou o relgio. Ouviu os meninos ao longe e indagava a si mesma por que no estavam na cama. Alessandro aprendera ingls, no perfeitamente, 
mas o suficiente para se fazer entender. Quando no conseguia, falava aos gritos para compensar, como se de outra forma no pudesse ser ouvido. O estranho era que 
ele raramente falava. Como se Alessandro precisasse do seu italiano como uma recordao da sua ptria,  qual ele pertencia de fato. Riu ao passar pelo quarto dos 
meninos. Brincavam com Hattie, tinham a televiso ligada, e Jason acabara de montar seu trem.
        Nesta noite, ela esquecera-se da caminhada. Estivera muito nervosa, esperando at telefonar para Bernardo, preocupada com a estria da coleo naquele dia. 
De qualquer modo, comeava a cansar-se do caminho j conhecido, mais ainda porque agora Natasha nem sempre a acompanhava. A amiga reassumira sua rotina e,  noite, 
Isabella costumava ficar sozinha.
        Nesta noite Natasha ia sair outra vez. Um baile beneficente. Parando na entrada do seu quarto, Isabella ali permaneceu por um momento; depois caminhou devagar 
at o final do corredor, para o quarto de Natasha. Era timo v-la bonita outra vez, usando cores brilhantes, fazendo algo elegante ou surpreendente com seu cabelo 
longo e louro. Isso deu vida nova a Isabella, to cansada de olhar para o espelho e ver o prprio rosto, o cabelo escuro puxado para trs, a constante sobriedade 
de suas roupas pretas austeras em sua silhueta cada vez mais fina. Bateu suavemente uma vez e sorriu quando Natasha sussurrou:
        - Entre.
        Tinha longos grampos de tartaruga entre os dentes, e seu cabelo j estava preso num turbilho de cachinhos soltos  grega, que cascateavam delicadamente 
de um coque no topo da cabea.
        - Isso est bonito, madame. O que vai vestir?
        - No sei. Eu ia vestir o amarelo antes de Jason deixar suas marcas. - Ela tornou a gemer enquanto fincava mais um dos longos grampos.
        - No me diga! Marcas de dedos? - Isabella passou os olhos pela seda amarela posta de lado.
        - Pasta de amendoim com a mo esquerda. Sorvete de chocolate com a direita.
        - Parece uma delcia. - Ela sorriu de novo.
        - , talvez, mas doloroso tambm.
        - E que tal este?
        Isabella foi at o armrio e apareceu com algo conhecido e azul-claro. Ela pensara em Natasha quando comprara o tecido. Era da mesma cor dos seus olhos, 
uma espcie de lavanda com um toque azulado.
        - Esse?  magnfico. Mas nunca sei o que usar com ele.
        - Que tal dourado?
        - O que dourado? - Natasha olhou-a curiosa ao terminar o cabelo.
        - Sandlias. E um toque dourado nos cabelos.
        Olhava fixamente para a amiga, como fazia com as modelos durante as provas para as colees em Roma. Olhos semicerrados, os ps afastados, vendo algo diferente 
do que realmente era. Criando a prpria magia com uma mulher, um vestido, uma inspirao.
        - Espere! Voc vai pulverizar meu cabelo de dourado?
        Natasha encolheu-se diante da penteadeira branca cheia de babados, mas Isabella ignorou-a e desapareceu. Voltou um minuto depois, com uma agulha e uma linha 
dourada muito fina.
        - O que  isso?
        Ela enfiou a agulha diante do olhar curioso de Natasha.
        - No se mexa. 
        A mo movendo-se com destreza, Isabella ia entrelaando-a levemente, cortando a linha, fazendo as extremidades desaparecerem e executando milagres novamente 
com a agulha at terminar, criando apenas uma impresso, como se, em mistura com os prprios cabelos de Natasha, ela tivesse feito brotar filetinhos dourados brilhantes. 
        - Pronto.
        Natasha olhou assombrada para sua imagem no espelho.
        Esboou um largo sorriso.
        - Voc  espantosa. E agora?
        - Um pouco disto... - Usou uma caixa de p-de-arroz transparente, translcido, que faiscava minsculas partculas douradas. A impresso que criava era de 
uma beleza deslumbrante, um brilho reluzente, num rosto j encantador. Em seguida, ela desapareceu no closet de Natasha, voltando com um par de sandlias douradas 
de salto baixo. - Voc vai parecer uma deusa quando eu terminar.
        Natasha comeava a acreditar, enquanto prendia as prprias sandlias, j esquecidas nos ps calados com meias praticamente invisveis.
        - Lindas meias. Onde as comprou? - Isabella olhou com interesse.
        - Dior.
        - Traidora. - Depois, pensativamente: - No precisa se desculpar. So mais bonitas do que as nossas. 
        Procurou memorizar algo para dizer a Bernardo. J era tempo de fazerem alguma coisa nova e diferente com suas meias. 
        - Agora... 
        Retirou o vestido do seu envoltrio plstico e resmungou de satisfao ao introduzi-lo sem problemas pela cabea da amiga, sem desmanchar um fio do cabelo 
de Natasha. Puxou o zper com habilidade e foi para frente, afofando aqui, alisando ali, aprovando. O vestido era criao sua. Fizera-o para a linha primavera, apenas 
trs anos antes. Como adereo, escolheu entre suas prprias coisas um anel de ametistas de cor malva-clara, cercadas de diamantes e engastadas em ouro. Havia um 
par de brincos pequeninos, delicadamente moldados, e tambm um bracelete. Era um conjunto notvel.
        - Onde conseguiu isto?
        - Amadeo comprou para mim em Veneza, no ano passado. So do sculo XIX, creio. Ele disse que as pedras no so perfeitas, mas a montagem  extremamente primorosa.
        - Oh, meu Deus, Isabella! No posso usar uma coisa dessas. Mas obrigada, querida, voc  maluca.
        - No enche! Quer ficar encantadora ou no? Se no quiser, talvez queira ficar em casa tambm.
        Ela fechou o colar ao redor do pescoo de Natasha. Ele caa exatamente na direo certa do decote, cintilando de maneira deslumbrante entre as dobras de 
chiffon malva-claro. 
        - Tome, ponha-os voc mesma. - - Entregou os brincos aps fechar o bracelete no brao de Natasha. - Est maravilhosa. - Isabella lanou-lhe um olhar de puro 
prazer.
        - Estou morrendo de medo. E se eu os perder, pelo amor de Deus? Isabella, por favor!
        - J lhe disse, no enche, t? Agora v e divirta-se.
        Natasha se olhou rpido no espelho, sorrindo para Isabella e para sua imagem. A campainha tocou quase no mesmo instante, e um corretor da Bolsa, de smoking, 
chegou para reivindicar a pessoa com quem tinha compromisso. Isabella foi para seu quarto e esperou at ouvir a porta fechar-se. S houvera uma batida suave antes 
de Natasha sair com ele, alm de um agradecimento sussurrado s pressas. Depois, Isabella ficou outra vez com os rudos dos meninos e do trenzinho de Jason, correndo 
e apitando. Ela consultou o relgio meia hora depois e foi beijar os meninos, j deitados. Alessandro olhou-a de modo estranho.
        - Voc no sai mais, mamma?
        - No, querido. Gosto mais de ficar aqui com vocs. 
        Apagou a luz para eles e foi deitar-se na pele estendida sobre a cama. "No sai mais mamma?" No caro. Nunca. Talvez nunca mais.
        Tentou dormir enquanto olhava fixamente para o fogo, mas foi intil. Ainda estava muito nervosa, muito excitada, muito ansiosa, aps passar o dia aguardando 
notcias das colees de Roma. E no tomara nem um pouco de ar o dia todo. No caminhara. No correra. Finalmente, com um suspiro, virou-se e ficou olhando o fogo, 
mas em seguida levantou-se. Saiu  procura de Hattie, em seu quarto, assistindo televiso, com o cabelo cheio de rolinhos e um volume de Good housekeeping ao lado 
da cama.
        - Voc ainda vai ficar em casa por algum tempo?
        - Sim, sra. Parelli. No vou sair.
        - Ento vou andar um pouco. Voltarei logo.
        Isabella fechou a porta e voltou para o quarto. O casaco azul-marinho que Natasha lhe emprestara ficava pendurado no seu armrio agora, e ela j no precisava 
mais da boina de l. Vestiu rapidamente o casaco e apanhou a bolsa, lanando um olhar pelo quarto por um momento, como se receosa de esquecer alguma coisa. O qu? 
A bolsa a tiracolo? O p compacto? As luvas longas de pelica branca, de ir  pera? Olhou melanclica para os jeans que usava e por um instante sentiu uma pontada 
de cimes. Natasha. Natasha felizarda. Com seus atos de caridade, suas sandlias douradas e seus beaux. Isabella sorriu quando voltou a pensar na conversa que tiveram 
sobre Corbett. Ela devia ter sabido que Corbett no era o tipo de Natasha. Ele no seria dominado com muita facilidade. Ento olhou-se no espelho, zangada, e sussurrou: 
" isso o que quer?"  claro que no. Sabia que no. No queria um corretor da Bolsa, usando culos de aros de tartaruga. "Ah, ento  um sujeito bonito o que voc 
quer." Acusou-se enquanto fechava suavemente a porta. "No! No!", foi sua resposta. Ento o que ela queria? Amadeo,  claro. S Amadeo. Porm, ao pensar nisso, 
uma breve viso de Corbett manifestou-se repentinamente em sua cabea.
        Nessa noite caminhou muito alm do que sempre tinha ido, as mos comprimidas nos bolsos, o queixo enterrado na gola do casaco. O que ela queria? De repente, 
ficou em dvida. Perambulou mais lentamente, passando pelas lojas agora muito conhecidas. Por que no mudavam as vitrinas com mais freqncia? Ningum se importava? 
E eles no sabiam que ainda estavam usando as cores do ano passado? E por que no era primavera? Fazia crticas a tudo aquilo enquanto procurava afastar repetidamente 
a imagem de Natasha da mente. Ento o que era isso? Apenas cimes? Mas por que Natasha no podia se divertir? Ela trabalhava tanto! Era boa amiga. Abrira seu lar 
e seu corao para Isabella como ningum fizera. Que mais poderia desejar? Conservar a amiga trancada em casa, como ela mesma? De repente, sem querer, ficou sabendo 
a resposta muitssimo bem. No queria a recluso de Natasha, mas sim um pouco de liberdade para si prpria. S isso.
         Enterrou as mos nos bolsos, comprimiu ainda mais o queixo no casaco e continuou andando incessantemente at que, pela primeira vez, viu-se no centro da 
cidade. No estava mais no aconchego, na segurana, na parte residencial das ruas sessenta; ou na sobriedade notvel das setenta; ou at no tdio caracterstico 
das oitenta; sem falar no refinamento duvidoso, decadente das noventa, onde ela vez por outra chegara a se perder; porm, desta vez, ao contrrio, passou pelas ruas 
cinqenta cheias de entusiasmo, com seus restaurantes, seus jantares animados, seus txis estridentes e suas lojas muito maiores. Passou pelas lojas de departamentos 
com vitrinas exageradas. Pela Tiffany's, com suas atraes cintilantes, pelo Rockefeller Center, com seus patinadores ainda promissores, e pela igreja de St. Patrick, 
com suas torres elevadas. 
        Ela percorreu todo o caminho at a rua 42, at os edifcios de escritrios, as lojas menos elegantes e os bbados. Tudo parecia passar por ela em disparada, 
numa velocidade que a fazia lembrar-se de Roma. 
        Finalmente, retomou o caminho de volta para a Park Avenue e, ao passar pela Grand Central, ficou olhando diretamente para o alto da Park Avenue. Enfileirados 
de cada lado, encontravam-se os arranha-cus, monumentos altaneiros de vidro e ao cromado, onde se aspirava alcanar fortunas e realizar ambies. Enquanto os olhava, 
Isabella ficou com a respirao suspensa pela emoo; o topo dos edifcios parecia levar direto ao cu. Lenta e pensativamente, voltou para casa.
        Sentia como se tivesse aberto uma nova porta nessa noite e no havia um modo de poder fech-la outra vez. Ela curvara-se servilmente, ocultara-se num labirinto, 
trancada num apartamento, fingindo que vivia num lugarejo distante da excitao da cidade. Porm, nessa noite, vira bastante, sentira a proximidade do poder, do 
sucesso, do dinheiro, da excitao, da ambio. Quando Natasha chegou em casa, ela j se decidira.
        - O que est fazendo ainda de p, Isabella? Julguei que j estivesse dormindo h horas. 
        Ela vira luz na sala de estar e, perplexa, entrara devagar.
        Isabella sacudiu ligeiramente a cabea, com um pequeno sorriso para a amiga.
        - Voc est maravilhosa esta noite, Natasha.
        - Graas a voc. Todos adoraram o dourado no meu cabelo; no fazem idia de como consegui isso.
        - Contou a eles? 
        - No.
        - timo. - Ela ainda sorria. - Afinal,  preciso ter alguns segredos.
        Preocupada, Natasha observava-a. Alguma coisa mudara naquela noite. Havia algo no modo como Isabella estava ali, no modo como olhava, como sorria.
        - Saiu para dar um passeio esta noite? 
        - Sai.
        - Como foi? Aconteceu alguma coisa? 
        Por que Isabella olhava daquele jeito? Sentia algo estranho na expresso dos seus olhos.
        - Claro que no. Por que deveria acontecer alguma coisa? Ainda no.
        - E no vai acontecer. Enquanto for cautelosa.
        - Oh, sim. - Ela parecia melanclica. - Isso. - De repente, ela ergueu a cabea com um olhar de poder e de graa que indicava que ela devia ter sido a pessoa 
usando os fios dourados nos cabelos. - Natasha, quando vai sair de novo?
        - S daqui a alguns dias. Por qu? - Droga! Provavelmente ela estava se sentindo solitria e entediada. Quem no estaria? Principalmente Isabella. - Alis, 
estava pensando em ficar em casa o resto da semana, com voc e os meninos.
        - Que maante!
        Era isso ento, Natasha devia ter calculado. Ela voltara a se envolver com tudo, levara Isabella por demais a srio.
        - De jeito nenhum, tolinha. Na verdade - bocejou encantadoramente - se eu no parar de correr de um lado para outro como ando, vou acabar desmoronando. - 
Mas Isabella ria, e Natasha no compreendia. - E quanto  pr-estria que voc deve comparecer depois de amanh?
        - Que pr-estria? 
        Natasha arregalou os olhos e parecia totalmente apatetada, mas Isabella apenas ria mais.
        - A de quinta-feira. Lembra-se? Em benefcio de uma fundao pr-cardacos ou qualquer coisa parecida!
        - Mais essa! Acho que no irei.
        - timo! Usarei seu convite. - Recostou-se e quase soltou um grito de prazer.
        - O qu? Espero que esteja brincando.
        - No, no estou. Quer me arranjar um convite? - Esboou um largo sorriso e sentou-se sobre as pernas cruzadas no sof.
        - Est maluca?
        - No. Andei at o centro da cidade esta noite e foi maravilhoso. Natasha, no consigo mais fazer o que estou fazendo. 
        - Voc precisa. Sabe que no tem escolha.
        - Tolice. Numa cidade deste tamanho? Ningum me conhecer. No estou dizendo que vou comear a me exibir por a, indo a desfiles de modas e almoando fora. 
Mas certas coisas posso fazer.  loucura esconder-me aqui deste jeito.
        - Seria loucura no se esconder.
        - Est enganada. Se for a uma pr-estria como essa, posso entrar e sair sem ser notada. Depois do coquetel, da reunio. Posso apenas assistir ao filme e 
ver as pessoas enquanto entro e saio. O que imagina? Que posso criar roupas para as mulheres elegantes sem pr os ps fora da minha casa e conseguir sentir o que 
est dando resultado e o que no est, do que elas gostam, o que fica bem nelas, sem sequer ver o que est sendo usado? Sabe bem que no sou mstica. Sou uma estilista. 
Uma profisso muito equilibrada.
        Mas o discurso no foi convincente. Natasha apenas sacudiu a cabea.
        - No posso fazer o que me pede. No posso. Pode acontecer alguma coisa. Isabella, voc perdeu o juzo!
        - Ainda no. Mas perderei. Breve. Se no comear a sair. Discretamente. Com precauo. Mas no posso continuar assim por muito mais tempo. Compreendi isso 
esta noite. 
         Natasha parecia acabrunhada, e Isabella deu-lhe um tapinha amistoso na mo.
        - Por favor, Natasha, ningum sequer suspeita que seja outra pessoa que no eu que mora na cobertura da casa em Roma.
        - Suspeitaro se comear a se exibir em pr-estrias cinematogrficas. 
        - Prometo-lhe, no suspeitaro. Vai me arranjar o convite? - De repente, ela adotou o olhar suplicante de uma criana.
        - Vou pensar a respeito.
        - Se no arranjar, eu mesma arranjarei. Ou irei a outro lugar. Um outro lugar pblico, onde estou certa de que serei vista. 
        Por um momento, seus olhos escuros cintilaram com malcia, e os olhos azuis de Natasha subitamente inflamaram-se.
        - Nada de chantagem comigo, droga! - Ergueu-se de um salto e ficou andando de um lado para outro da sala.
        - Ento, vai me ajudar? Por favor, Natasha... por favor...
        Ao ouvir as palavras da amiga, Natasha virou-se lentamente para encar-la outra vez, fitou os olhos acossados, o rosto fino e plido e teve de admitir que 
Isabella precisava mais do que o apartamento e uma caminhada ocasional pela Madison Avenue  noite.
        - Vou ver.
        Mas Isabella estava cansada do jogo agora; seus olhos se inflamaram e ela ergueu-se de um pulo.
        - Esquea, Natasha. Eu mesma cuidarei do assunto. 
        Dirigiu-se para os fundos da casa. Um momento depois, Natasha ouviu-a fechar a porta. Lentamente, apagou as luzes da sala de estar e olhou para a cidade 
l fora. Mesmo s duas da madrugada, estava animada, atarefada, alvoroada; havia caminhes, txis, pessoas; havia ainda buzinas e vozes, excitao e tumulto. Era 
por isso que as pessoas afluam a Nova York, por isso  que no conseguiam ficar longe. Ela prpria sabia que precisava do que a cidade lhe dava, precisava sentir 
seu movimento pulsando como o sangue em suas veias. Como podia negar isso a Isabella? Porm, no negando, se os seqestradores a descobrissem, se custasse a vida 
de Isabella, talvez ela fosse a responsvel. Em silncio, Natasha percorreu o corredor, devagar. Parou  porta do quarto de Isabella e bateu gentilmente. A porta 
abriu-se no mesmo instante. As duas ali ficaram, sem falar, face a face. Foi Natasha quem falou primeiro.
        - No faa isso, Isabella.  muito perigoso. No est certo.
        - Diga-me isso quando tiver vivido assim, aterrorizada, escondida, durante tanto tempo quanto eu. Diga-me que seria capaz de continuar.
        Mas Natasha no poderia. Ningum poderia.
        - Voc tem sido muito corajosa, Isabella, e por muito tempo.
        "Corajosa... s mais um pouquinho." O eco das palavras de Amadeo pegou Isabella de surpresa, alojando-se em sua garganta. Com lgrimas nos olhos, ela sacudiu 
a cabea.
        - No tenho sido corajosa.
        - Tem sim, voc tem sido. - Ainda sussurravam. - Tem sido corajosa, paciente e sensata. Poder ser mais um pouquinho?
        Diante dessas palavras, Isabella quase gritou. Sacudiu freneticamente a cabea de um lado para outro, sussurrando para Amadeo, bem como para sua amiga:
        - No. No, no posso. - E, ento, ficou ereta e olhou atrevidamente para Natasha, de repente sem vestgio de lgrimas. - No posso ser corajosa s mais 
um pouquinho. Tenho sido assim enquanto pude.
        - E quanto  quinta-feira?
        Isabella olhou-a, sorrindo lentamente. 
        - A pr-estria? Estarei l.











Captulo Dezessete



        - Isabella!... Isabella!... 
        Natasha estava diante do quarto da amiga e batia freneticamente na porta.
        - Espere um minuto! Ainda no estou pronta. S um segundo... pronto... 
        Calou depressa os sapatos, colocou os brincos, olhou-se apressada no espelho e abriu a porta. Natasha aguardava, j vestida para a pr-estria, usando um 
casaco bege, longo, em estilo chins, forrado de cetim cor de pssego, em sua tonalidade mais clara. As calas que usava por baixo eram de veludo cor de caf e essas 
cores, caf e pssego, reuniam-se no brocado dos sapatos. E ela estava usando brincos de coral que espreitavam atravs dos cabelos louros. Isabella examinou-a com 
admirao e sorriu de prazer, enquanto aprovava. 
        - Minha querida, voc est maravilhosa. E nem sequer  um dos meus! Onde comprou esse traje sensacional?
        - Em Paris, no ano passado. 
        - Muito bonito.
        Contudo, de repente, foi Natasha quem olhou e aprovou, reduzida ao silncio com a surpresa ao ver a figura familiar ali parada, numa atitude rgia no centro 
do aposento. Era a antiga Isabella, e Natasha ficou instantaneamente sem flego, sob o efeito da fascinao. Esta era a Isabella di San Gregorio, como outrora tinha 
sido. A mulher de Amadeo e a mais brilhante estrela de toda Roma.
        No era apenas o que vestia, mas a maneira como vestia, alm do ngulo do longo pescoo de marfim, talhado com tanta delicadeza, a linha do seu cabelo escuro 
penteado e preso com perfeio, o formato de suas delicadas orelhas, a profundeza dos notveis olhos negros. Mas agora Natasha ficou boquiaberta diante do que ela 
estava usando, to simples e to severo. Um tubinho longo, preto, de cetim, que caa dos ombros aos ps. Um pequeno decote em V, mangas formando minsculas abas 
nos ombros e a riqueza do pesado cetim preto, que expunha apenas a ponta dos sapatos tambm pretos de cetim. O cabelo fora arrebatado num coque, os braos estavam 
totalmente nus e sua nica jia era um par de grandes brincos de nix cravejados de diamantes, brilhantes como seus prprios olhos.
        - Meu Deus,  magnfico, Isabella! - Era perfeitamente simples, inteiramente despretensioso. - Deve ser um dos seus.
        Isabella confirmou com a cabea.
        - Minha ltima coleo, antes... De deixarmos o pas.
        Houve uma longa pausa. Antes do desaparecimento de Amadeo... Fazia parte da mesma coleo do vestido verde de cetim que ela usara naquela noite, aguardando 
que ele voltasse para casa.
        - O que vai usar por cima? Seu casaco de vison? 
        Natasha hesitava. Sem dvida, o casaco devia chamar ateno. Contudo, mesmo de cetim preto totalmente sem enfeite, Isabella era uma mulher que todos iriam 
ver. Mas Isabella sacudia a cabea, desta vez com um olharzinho de prazer, uma insinuao de sorriso.
        - Com esse casaco no, tenho outra coisa. Algo da coleo que lanamos esta semana. Na verdade - disse ela por sobre o ombro, enquanto procurava no armrio 
por alguns instantes - isto  apenas uma amostra, mas Gabriela mandou-o para mim, para mostrar que efeito bom produziu. Foi  caixa que voc apanhou na semana passada 
com o seu agente. Na coleo, ns o forramos de turquesa, para ser usado sobre roxo ou verde. 
        E, enquanto falava, voltava do armrio, vestindo um casaco de cetim branco leitoso. Com o preto do vestido por baixo, ela parecia ainda mais extraordinria 
que antes. 
        - Oh, Deus! - Natasha parecia ter visto um fantasma.
        - No gosta? - Isabella mostrou-se admirada.
        - Adorei. - Natasha fechou os olhos e sentou-se. - Mas acho que voc enlouqueceu. Enlouqueceu! Jamais conseguir levar a cabo o que pretende. 
        Reabriu os olhos e fixou-os em Isabella, que vestia o notvel casaco branco e o vestido preto extraordinariamente simples. O traje inteiro era to simples 
e to lindo que no havia dvida de que pertencia  alta costura. E um olhar para o seu rosto plido, to plido e revelador, e o estratagema terminaria. O paradeiro 
de Isabella di San Gregorio seria conhecido imediatamente. 
        - H alguma chance, humanamente possvel, por mais remota que seja, de eu dissuadi-la? - Natasha olhava-a sombriamente.
        - Nenhuma. 
        Agora era ela quem ditava as ordens. A princesa da Casa de San Gregorio, de Roma. Isabella consultou o relgio que deixara sobre a mesa, depois voltou-se 
para a amiga. 
        -  melhor apressar-se, Natasha, voc vai se atrasar. 
        - No h essa possibilidade. E voc?
        - Exatamente como prometi. Ficarei aqui at nove e quinze em ponto. Pegarei a limousine que voc alugou para mim e irei direto para o cinema, mandarei o 
motorista verificar com os lanterninhas se o filme j comeou, e, caso tenha comeado, conforme programado, s nove e meia, entrarei rapidamente. Sentarei na poltrona 
do corredor lateral que voc reservou para mim e sairei no momento em que as luzes se acenderem no final.
        - Antes das luzes se acenderem. No espere pela lista dos participantes ou por mim. Saia imediatamente. Voltarei mais tarde para casa, depois do jantar.
        - Ecco. E quando voc voltar, estarei aqui, e ento poderemos fazer um brinde a uma noite perfeita.
        - Perfeita? Mil coisas podem sair erradas.
        - Mas nada sair errado. Va, cara. Chegar atrasada para o coquetel.
        Natasha continuava parada, paralisada. Isabella lhe sorria. Parecia no entender nada, como era grande o risco que corria, como poderia ser facilmente reconhecida, 
a sensao que causaria se sua residncia em Nova York se tornasse conhecida. 
        - Bernardo sabe o que voc est tramando?
        - Bernardo?! Ele est em Roma. E aqui  Nova York. Sou apenas um rosto nas revistas de modas. Nem todos se mantm em dia com a moda, minha querida. Ou no 
sabia?
        - Isabella, voc  uma tola. Voc no cria vestidos apenas para as condessas francesas e mulheres ricas de Roma, Veneza e Milo. Voc tem uma linha americana 
inteira, roupas masculinas, prt--porter, cosmticos, perfumes, sabonetes. Voc  uma mercadoria internacional.
        - Nada disso. Sou uma mulher. E no posso mais viver assim.
        Nos dois ltimos dias andaram discutindo o assunto mais de cem vezes e os argumentos de Natasha estavam se esgotando. O melhor que conseguira foi apresentar 
um plano razoavelmente seguro. E, com sorte, funcionaria, se Isabella chegasse ao cinema tarde, sasse cedo o bastante e se sentasse discretamente para assistir 
ao filme. Talvez, apenas talvez, desse certo.
        - Ento, est pronta? 
        Isabella olhava-a com expresso dura, como se instigasse uma debutante indecisa a comparecer ao seu primeiro baile.
        - Bem que gostaria de estar morta.
        - No seja tola, querida. - Beijou docemente Natasha na face. - Vejo voc no cinema.
        Sem dizer mais nada, Natasha levantou-se para ir embora; parou na porta por um instante, sacudiu a cabea e saiu, enquanto Isabella tornava a sentar-se, 
sorrindo e, impacientemente, batendo no cho um p calado de cetim preto. 
        Em seu esplendor negro e discreto, a limousine que Natasha alugara aguardava  porta. Eram exatamente 21:15. Isabella caminhou at o meio-fio. O ar caiu 
sobre seu rosto como uma bno e, por uma vez, ela nem se importou com o frio. Com um rudo surdo, o motorista fechou a porta depois que ela entrou. Isabella acomodou-se 
cuidadosamente, o casaco branco espalhado ao seu redor como o manto da coroao. Seguiram decorosamente pelo Central Park, em seguida encaminharam-se para o centro 
da cidade, para o cinema, enquanto Isabella observava em silncio os outros carros passarem por ela. Oh, Deus, finalmente ela saa de casa! Em sedas e cetins, perfume 
e traje a rigor. At Alessandro a olhara com entusiasmo, gritando de alegria ao dar-lhe um beijo de boa-noite, com todo o cuidado, com ambas as mos no ar, de acordo 
com as instrues que recebera.
        - Igualzinho quando saa com papai! - Gritara. 
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
Captulo Dezoito



        Porm, na verdade, no era igual. Por um instante, os pensamentos de Isabella voaram para Roma. Para os dias de suas idas a festas na Ferrari; das corridas 
para casa depois do escritrio, a fim de tagarelar e vestir-se para um baile, a mente ainda aturdida, bombardeada de trabalho; de Amadeo cantando no chuveiro enquanto 
ela depositava seu smoking sobre a cama e desaparecia no seu quarto para surgir de veludo cinza ou brocado azul. Isso era tolice, uma "vida vazia", algum lhe dissera 
certa vez, mas era o mundo deles tambm. Tinham conseguido isso juntos e o desfrutavam, compartilhavam suas risadas e seus sucessos com divertimento e orgulho.
        Agora era diferente. O lugar ao seu lado estava vazio. No havia ningum alm do motorista no grande carro preto. Ningum com quem conversar quando l chegasse, 
ningum com quem rir quando acabasse de chegar em casa, ningum para quem brilhar, para quem sorrir. Sua cabea estivera um pouco mais alta porque ele havia estado 
ali. De sbito, seu rosto adquiriu uma expresso sria ao pararem  porta do cinema. 
        O motorista virou-se para trs, para falar com Isabella.
        - A sra. Walker falou qualquer coisa sobre eu entrar para ver se o filme j comeou.
        Ele a deixou na limousine e foi ver se estava tudo certo. Ela sentiu o corao comear a acelerar um pouco, como sentira no dia do casamento, quando, numa 
nuvem de renda branca e tule, ela havia sido a noiva de Amadeo. Mas era tolice sentir o mesmo agora. Ia apenas a um cinema. E desta vez estava de preto. E j no 
era mais a noiva de Amadeo e sim sua viva. Embora fosse tarde demais para hesitaes. O motorista havia voltado para ajud-la a descer do carro.
        No cinema s escuras, Natasha estava fora de si. Um grupo de sete pessoas j havia se apossado dos sete primeiros lugares junto  passagem lateral, e todas 
as suas desculpas: "Sinto muito, se importaria muito? Minha prima... tem um terrvel resfriado... aqui em um minuto... vem mais tarde... talvez no se sinta bem 
e tenha de ir embora.." foram inteis. Ningum lhe dava ouvidos, o grupo era intratvel e numeroso. Um homem gordo do Texas, "do petrleo, querida'" de smoking e 
chapu Stetson, tinha bebido excessivamente. "Rins doentes, querida, sabe como !" Fora impossvel tira-lo do seu lugar na passagem. Ao lado dele, estava a esposa 
de brocado branco e seus convidados, o editor financeiro do Times de Londres, mais outro casal muito amvel e, finalmente, Natasha, com seu assento sobressalente. 
Ela queria matar Isabella. O plano fora uma loucura desde o princpio. Isabella teria de passar por todos; seria impossvel impedir que fosse vista. Natasha sentou-se 
com expresso carrancuda, aguardando que o filme comeasse e esperando que Isabella, ao dirigir-se para o carro, tivesse pegado varola ou tifo, talvez at malria.
        - Parece infeliz esta noite, Natasha. O que aconteceu? Cancelaram seu novo livro?
        - No h essa possibilidade. - Ela olhou para Corbett Ewing, sentado do outro lado da poltrona vaga.
        - Est parecendo doida de pedra. - Ele lanou um olhar divertido para o homem de chapu Stetson, na poltrona junto  passagem. - Problemas com o Texas? - 
Corbett Ewing fitou-a com seus olhos azuis buliosos e um amplo sorriso.
        - Eu tentava guardar o lugar para uma pessoa.
        - Ah! Ento est apaixonada de novo. Droga, toda vez que saio da cidade, pareo perder minha chance!
        Natasha sorriu. Mas ele logo notou que ela estava preocupada. E, ao observ-la, imaginou quem devia ser a pessoa. E ao pensar nela, seu corao acelerou. 
        - Onde tem estado? 
        Natasha procurou iniciar uma conversa banal, mas ainda havia inquietao em seu olhar.
        - Em Tquio, principalmente. Depois Paris, Londres. E, na semana passada, Marrocos. Puxa,  um lugar lindo!
        - Assim ouvi dizer. Como vo os negcios? - Com Corbett era o mesmo que perguntar ao chef da Casa Branca: "Como foi o almoo?" Ele estava constantemente 
tramando grandes negcios empresariais.
        - Tudo bem. Como est seu livro?
        - Terminei, afinal. Decidi que, na verdade, no sou escritora. Apenas uma pessoa que reescreve. Passo seis semanas planejando os livros e seis meses resumindo-os.
        - Na realidade,  mais ou menos como acontece comigo.
        Os dois ficaram em silncio por algum tempo, observando as pessoas.
        E ento, sem qualquer aviso, Corbett mudou-se para a poltrona vaga. Natasha olhou-o, espantada, e fez um gesto para que voltasse ao lugar.        
        - Ali no consigo ver. - Olhou-a com ternura.
- Corbett... quer fazer o favor de voltar? - Sua voz era insistente, mas o sorriso dele apenas se expandia enquanto sacudia a cabea.
- Nada disso, no vou voltar.
        - Corbett! 
        Porm, naquele exato momento, as luzes diminuram de repente. Natasha continuou insistindo com ele na escurido. Atrs deles, algumas senhoras aristocrticas 
pediram silncio.
Exatamente naquele instante, a lanterna de um vaga-lume surgiu na extremidade da passagem. Sobressaltada, Natasha olhou naquela direo. Pelo menos Isabella chegara 
na hora exata. Estava de p, confusa por um momento, encarando o homem de chapu Stetson.
        - Oi, querida, voc deve ser a prima de Natasha. No  que esse casaco  belssimo? 
        Isso foi dito num nvel de sussurro alto, pois as senhoras idosas voltaram a se manifestar. O texano apresentou Isabella  esposa. Isabella murmurou algo 
amvel e lanou um olhar pela fileira de poltronas. Natasha fez lhe um sinal e Isabella assentiu com a cabea, avanando lentamente atravs de sete pares de ps 
e joelhos.
        - Lamento... oh... desculpe... lamento muitssimo.  
        Conseguiu alcanar Natasha, que apenas apontou silenciosamente para a poltrona vazia... Isabella concordou com a cabea, olhou para Corbett, ultrapassou 
os dois, ajeitou o casaco  sua volta e sentou-se. O filme comeava e o cinema estava s escuras, mas, ao sentar-se, ela voltou-se para Corbett e os dois trocaram 
um sorriso. Ela estava excitada demais para assistir ao filme; em vez disso, viu-se passando os olhos de cima a baixo pelas longas passagens escuras. Como seriam 
aquelas pessoas, quem eram, o que estavam vestindo? Ser que sabiam como era bom no estar enclausurada? Sorria na escurido, fitando muito feliz os penteados elaborados 
e as cabeas masculinas de cabelos bem aparados. Finalmente, deixou que seus olhos fossem atrados pelo filme e ficou satisfeita, quase como uma criana, desfrutando 
o que acontecia na tela. H quanto tempo no ia a um cinema? Pensou um instante. Desde o princpio de setembro, com Amadeo. Sete meses... Ouviu-se emitir um pequeno 
gemido de contentamento. O filme em si era delicioso, e ela estava encantada com a sua beleza e o humor dos atores. Ficou assistindo, absorta, at a cortina descer 
lentamente e as luzes se acenderem.
        - J terminou?
        Confusa, Isabella lanou um olhar para Corbett, insatisfeita com o final do filme. Mas ele, divertido, ria para ela e apontava para os crditos na tela, 
quase ocultos pelas borlas douradas da pesada cortina que se fechava, balouante. 
        -  apenas o intervalo. - O sorriso intensificou-se. -  timo v-la, Isabella. Vamos at o foyer para tomarmos um drinque.
        Mas enquanto Isabella concordava com a cabea, a mo de Natasha pegou-a pelo brao. Seus olhos sustentaram os de Corbett com uma expresso carrancuda.
        - Acho que ela deve permanecer aqui.
        Ele parou momentaneamente, olhando com interesse para Isabella; e depois com preocupao para a velha amiga. Ele gostaria de dizer-lhe que se descontrasse 
um pouco, que no era um homem metido a conquistador e nem seqestrador, mas no era nem lugar nem hora. Voltou-se outra vez para Isabella. 
        - Gostaria que eu lhe trouxesse alguma coisa? 
        Mas Isabella apenas sacudiu a cabea, sorrindo educadamente, e voltou a sentar-se em seu lugar.
        Assim que ele se afastou, Natasha aproximou-se mais, lamentando ter permitido que Isabella viesse.
        Isabella apenas sorriu e deu-lhe um tapinha na mo.
        - No fique to preocupada, Natasha. Est tudo bem. 
        Ela estava tendo a oportunidade que desejara com tanto desespero. Observar as pessoas, ver seus vestidos, ouvir as risadas, estar "ali". E, de repente, Natasha 
viu-a levantar-se e olhar lentamente ao redor.
        Natasha sibilou furiosamente: 
        - Sente-se. 
        Mas essa era Isabella, e antes que Natasha pudesse det-la, ela dirigiu-se devagar para a direo oposta, para a outra passagem.
        - Isab... droga!... - Sussurrou para si mesma atravs dos dentes cerrados, levantando-se rapidamente, pedindo desculpas, evitando os ps em elegantes sapatilhas 
e procurando ficar perto de Isabella. 
        Porm, no instante em que se juntaram  multido na passagem, Isabella pareceu estar sendo levada por uma corrente de pessoas que passavam entre elas num 
turbilho, rindo alegremente, procurando no respingar seus drinques. Puxaram Natasha pelas longas luvas brancas.
        - Natasha! Querida! Senti sua falta no...
        Ela murmurou rapidamente:
        - Mais tarde. - E prosseguiu, decidida.
        Contudo, estava a uma boa distncia de Isabella agora, que entrava no foyer junto com os demais, onde uma multido se comprimia ao redor do bar improvisado.
        - Mudou de idia? - Era Corbett Ewing, de repente dominando Isabella com sua altura. 
        Ela ergueu os olhos para ele com um sorriso.
        - Mudei, obrigada.
        - Gostaria de um drinque?
        - No, eu... 
        Muito atrs, Natasha de repente olhava fixamente para ela, com uma expresso de pnico nos olhos. Acenou freneticamente para Corbett, que apenas retribuiu 
o aceno. Natasha no retribuiu o sorriso, mas olhava aflita para a amiga. Precisava alcan-la. Acenou para que ela virasse para trs. Perturbada, Isabella assim 
o fez, imaginando se havia algo de especial que devesse ver. Foi Natasha quem viu o perigo se aproximando, na forma de duas reprteres, uma da Women's Wear Daily 
e a outra da seo Gente do Time. A mulher da revista, parecendo uma aranha num vestido preto de jrsei, olhou atentamente para Isabella por um instante, franzindo 
as sobrancelhas. Ento, procurou aproximar-se mais, aps sussurrar alguma coisa para o homem que a acompanhava. 
        Nesse meio tempo, Isabella estava sorrindo para Corbett e lanando um olhar embaraado para Natasha. Natasha ainda no conseguira chegar at ela. Tinha vontade 
de chutar todos eles, mord-los, empurr-los para o lado com os cotovelos. Precisava alcanar Isabella antes das duas reprteres, antes...
        Tarde demais. Dois flashes espocaram nos olhos de Isabella. Ela virou-se depressa, assustada, momentaneamente cega pelas luzes fortes. Agarrou o brao de 
Corbett exatamente quando Natasha alcanou-a e puxou-a para o seu lado. Aturdido, Corbett ficou ali parado, com o drinque na mo, seu corpo vigoroso bloqueando as 
reprteres que, no momento, tinham sido afastadas para o lado com empurres. Natasha agarrou o brao dele, gritando mais alto que o alarido:
        - Tire-a daqui, pelo amor de Deus! Agora! 
        Tomou-lhe o copo e os dois braos de Corbett cercaram Isabella como uma fortaleza, enquanto outro flash explodia no rosto dela. Antes que ela percebesse, 
ele praticamente j a impelira atravs do foyer. Isabella ouvia indistintamente o murmrio que crescia no recinto. Corbett segurava seu brao com fora e saram 
do cinema, correndo at o Rolls-Royce. Isabella no dissera uma palavra, porm, enquanto corria, pensou que isto no era novidade para ela. Precipitaram-se para 
dentro do carro. Antes da porta se fechar, Corbett gritou:
        - Vamos embora daqui, depressa! 
        Foi s ento que as reprteres surgiram  porta de sada, lanando-se ruidosamente ao encalo deles. Corbett esboou um largo sorriso. O futebol que jogara 
na universidade vez por outra se desforrava. E tinha de admirar Isabella. Ela cobrira a distncia com ele sem as pretenses de uma dama sobre saltos altos, caindo 
ou o que poderia estar fazendo com seu vestido. Agora estava sentada no banco, sem falar, tentando recuperar o controle e tomar flego. J haviam dobrado a esquina, 
deixando as reprteres boquiabertas no meio-fio.
        - Voc est bem? - Corbett voltou-se para ela, abrindo um compartimento e retirando uma garrafa de conhaque e um copo.
        - Muito conveniente! - E depois, sorrindo debilmente - Estou tima.
        - Isto lhe acontece sempre? - Entregou-lhe o copo, que ela aceitou.
        - Com freqncia.
        Ele olhou para Isabella, notando que a mo dela tremia ao pegar o copo. Pelo menos era humana, apesar da serenidade. J no estava mais ofegante.
        - Natasha no me disse aonde devo lev-la. Quer ir para casa? Ou seria mais seguro na minha?
        - No, para nossa casa est timo. Peo desculpas pela cena desagradvel.
        - De modo algum. Minha vida  extremamente enfadonha, em comparao. 
        Ele deu o endereo ao motorista. Mas, de sbito, ficou enervado pelo que observara em Isabella. Apesar da serenidade, havia uma expresso desesperada em 
seu rosto.
        - No pretendi levar o caso na brincadeira. Deve ser muito enervante. Foi por isso que deixou a Itlia? Ou  algo que s lhe acontece aqui? - Sua voz estava 
gentil ao recostar-se ao lado dela. 
        - No  s aqui. Isto... aconteceu tambm na Itlia. Eu... sinto muito, mas no posso explicar.  muito embaraoso. Apenas sinto muitssimo ter estragado 
sua noite. Basta me deixar em casa e voltar.
        Mas isso no era em absoluto o que Corbett Ewing desejava. Havia algo raro e estranho em Isabella que lhe tocava o corao. Algo oculto, extraordinrio e 
sutil. Isabella tinha um porte de rainha, beleza. Notava em seus olhos humor e inteligncia, porm havia algo mais, algo soterrado. Dor, sofrimento, solido, percebera 
agora, com seu olhar escuro, manifestando uma emoo reprimida. Ele se manteve calado por algum tempo; depois, ao dobrarem no parque, Corbett falou calmamente:
        - Como vai meu amigo Alessandro?
        Trocaram um sorriso, e Corbett ficou satisfeito ao notar que ao falar no menino ela pareceu descontrair-se.
        - Ele vai muito bem.
        - E quanto a voc? Ainda aborrecida? 
        Ele sabia que Isabella raramente deixava o apartamento, exceto para breves caminhadas com Natasha. Ele no entendia, mas parecia ser tudo que ela fazia. 
Porm, agora, Isabella sacudia a cabea com veemncia, sorrindo.
        - Oh, no, aborrecida no! Tenho estado to ocupada! 
        - Ocupada? - Ele ficou curioso. - Fazendo o qu? 
        - Trabalhando.
        -  mesmo? Trouxe seu trabalho para Nova York? - Ela assentiu com a cabea. - Qual seu ramo de atividade?
        Por um instante, ela ficou aturdida. Mas deu uma resposta rpida.
        - No da minha famlia. Em... arte.
        - Interessante. Receio que eu no possa reivindicar algo to nobre com o meu ramo de atividade.
        - O que faz? - Obviamente uma coisa de muito sucesso, pensou ela, enquanto seus olhos percorriam discretamente o interior revestido de madeira e couro do 
novo Rolls-Royce.
        - Muitas coisas, mas principalmente tecidos. Pelo menos  o que prefiro. O resto deixo para as pessoas com quem trabalho. Minha famlia comeou com tecidos 
h muitos anos e  do que sempre gostei mais.
        -  interessante. - Durante alguns instantes surgiu um brilho nos olhos de Isabella. - Est envolvido em algum tipo especial? 
        Morria de vontade de saber se havia comprado dele, mas no ousava perguntar. Talvez descobrisse atravs de alguma informao que ele revelasse.
        - Ls, linhos, sedas, algodo. Temos uma linha de veludo que estofa a maior parte deste pas e,  claro, fibras artificiais, sintticos e algumas coisas 
novas que estamos desenvolvendo agora.
        - Sei, mas no tecidos para vestidos, ento. - Parecia desapontada. Ela nada tinha a ver com tapearia.
        - Tambm para vestidos,  claro. Fazemos tecidos para vesturio. 
        Vesturio. Isabella encolheu-se diante da hedionda palavra. Vesturio. Seus vestidos no faziam parte do vesturio. Isso pertencia  Stima Avenida. O que 
ela fazia era alta-costura. Ele no conseguia decifrar a expresso dos olhos de Isabella, mas achava divertido assim mesmo. 
        - Provavelmente fizemos, inclusive, o tecido do vestido que est usando. 
        Permitiu que uma rara exploso de orgulho aparecesse em sua voz, mas ela o olhou ento com arrogncia, a prpria princesa romana.
        - Este tecido  francs.
        - Nesse caso, peo desculpas. - Divertido, ele recuou. - O que me faz lembrar algo muito importante. Voc no me disse seu sobrenome.
        Ela hesitou apenas por um instante. 
        - Isabella.
        - S isso? - Ele sorriu. - Apenas Isabella, a amiga italiana?
        - Isso mesmo, sr. Ewing. S isso.
        Ela lanou-lhe um olhar longo e srio e ele assentiu com a cabea lentamente. 
        - Compreendo. 
        Depois do que viu de relance no cinema, ele sabia que ela j havia sofrido o bastante. Alguma coisa difcil acontecera a essa mulher, e ele no ia intrometer-se. 
No queria afugent-la.
        Naquele exato momento, pararam  porta de Natasha. Com um pequeno suspiro, Isabella virou-se para ele e estendeu-lhe a mo direita.
        - Muito obrigada. E lamento muitssimo ter estragado sua noite.
        - No estragou. Fiquei at feliz por sair de l. Sempre acho essas sesses beneficentes um aborrecimento.
        - Acha? - Ela olhou-o com interesse. - Por que razo? 
        - Gente demais, falatrio demais. Todos esto l por motivos errados, para ver seus amigos e no para fazer um benefcio seja qual for a causa. Prefiro ver 
meus amigos em pequenas reunies onde possamos ouvir uns aos outros.
        Ela assentiu com a cabea. Sob certos aspectos, concordava com ele. Mas, por outro lado, noites como essa estavam em seu sangue.
        - Permita que eu a acompanhe at l dentro, para ter certeza de que ningum est escondido nos corredores?
        Ela riu diante da suspeita, porm, grata, inclinou a cabea. 
        - Obrigada. Mas estou absolutamente certa de que estou a salvo aqui.
        Quando Isabella fez essa declarao, alguma coisa disse a Corbett que essa era a razo por que ela viera para a Amrica. Para estar a salvo.
        - Vamos apenas nos certificar. - Acompanhou-a at o elevador e entrou com ela. - S vou lev-la at l em cima. 
        Isabella no disse nada at o elevador parar. Ento, de repente, sentiu-se embaraada; ele tinha sido to encantador... 
        - Gostaria de entrar por um instante? Sabe de uma coisa? Poderia esperar at Natasha voltar.
        - Obrigado, gostaria mesmo. - Fecharam a porta. - A propsito, por que ela no veio conosco, em vez de ficar para representar com a imprensa? 
        Aquilo o deixara confuso enquanto corria com Isabella, pensando no que Natasha acabara de falar.
        Isabella suspirou ao fitar Corbett. Poderia ao menos contar-lhe essa parte:
        - Creio que Natasha achou ser mais sensato se ningum soubesse que eu estava com ela.
        - Foi por essa razo que voc chegou atrasada? - Ela confirmou com a cabea e ele continuou - Voc leva uma vida muito misteriosa, Isabella. - Sorriu e no 
fez mais perguntas, ao se sentarem no longo sof branco.
        O resto da noite transcorreu rapidamente. Conversaram sobre a Itlia, sobre tecidos, sobre a terra natal dele. Corbett tinha comprado uma grande plantao 
na Carolina do Sul, uma fazenda na Virgnia e uma casa em Nova York.
        - Voc cria cavalos na Virgnia? 
        - Sim, crio. Sabe montar?
        Ela esboou um largo sorriso enquanto bebericavam conhaque.
        - Eu costumava montar. Mas faz muito tempo.
        - Voc e Natasha precisam levar os meninos qualquer dia desses. Haveria tempo para isso antes de voc voltar?
        - Talvez.
         Mas quando comearam a falar a respeito, Natasha avanou porta adentro. Parecia abatida, exausta. Olhou para Isabella diretamente nos olhos.
        - Eu disse que voc estava louca ao tentar sair. Tem alguma idia do que fez? 
        Por um momento Corbett ficou confuso diante da expresso do rosto da amiga e da veemncia em seu tom de voz. Mas Isabella no parecia perturbada. Fez sinal 
para Natasha sentar-se.
        - No fique to exaltada. No foi nada. Tiraram algumas fotos. E da? - Procurava ocultar a prpria inquietao e estendeu a mo num gesto cordial.
        Mas Natasha no concordava. Deu as costas, furiosa; depois, olhou fixamente para Corbett, em seguida para Isabella; ento levantou a tnica de cetim e sentou-se.
        - Faz uma idia de quem eram? Da revista Women's WearDaily e do Time. A terceira era da Associated Press. E acho que talvez tenha visto, de relance, o editor 
da coluna social da Vogue. Mas acontece, sua dbil mental, que no teria importado se fosse um menino de doze anos com uma fadinha. Seu estratagema acabou.
        Que estratagema? O que estava acontecendo? Corbett estava curioso. Olhou para as duas mulheres e perguntou, rpido: 
        - Devo me retirar?
        Natasha respondeu antes que Isabella o fizesse:
        - No importa, Corbett. Confio em voc. E amanh de manh o mundo inteiro vai saber.
        Mas Isabella agora estava zangada. Levantou-se e ficou andando pela sala.
        - Isso  absurdo.
        - , Isabella? Acha que ningum lembra de voc? Acha que aps poucos meses todos j a esqueceram? Sente-se mesmo to segura assim? Porque se assim for, voc 
 uma idiota!
        Corbett no dizia nada. No tirava os olhos do rosto de Isabella. Ela estava assustada, porm determinada, e tinha o olhar de quem se aventurara, perdera 
a primeira mo e no ia desistir ou abandonar o jogo. Ele queria confort-la, dizer-lhe que a protegeria, dizer a Natasha que sossegasse. Sua voz era profunda e 
gentil quando finalmente falou:
        - Talvez nada seja divulgado.
        Natasha apenas lanou-lhe um olhar furioso, como se ele tivesse participado da trama original.
        - Engana-se, Corbett. Voc no sabe o quanto est enganado. Amanh de manh sair em todos os jornais. - Com ar infeliz, olhou para Isabella. - Voc sabe 
que estou certa. 
        Isabella empertigou-se e falou com bastante suavidade: 
        - Talvez no.






















Captulo Dezenove



        Em seu escritrio, Corbett Ewing olhava fixamente para o jornal matutino, em desespero. Como predissera Natasha, estava tudo nos noticirios. Ele lia o The 
New York Times. "Isabella di San Gregorio, viva do costureiro seqestrado e subseqentemente assassinado, Amadeo di San Gregorio..." A notcia prosseguia para explicar 
mais uma vez cada detalhe possvel do seqestro e do lamentvel resultado final. E, o mais interessante, descrevia com detalhes minuciosos como Isabella havia desaparecido 
e como se chegara a pensar que ela se refugiara na cobertura da Casa de alta costura de Roma. Havia uma pequena frase questionando se, de fato, Isabella estivera 
nos Estados Unidos o tempo todo ou se fugira depois do lanamento vitorioso da linha primavera da San Gregorio.
        O artigo continuava dizendo que no se sabia onde ela estava hospedada e que indagaes discretas junto a pessoas importantes do mundo da moda em nada resultaram. 
Ou estavam cooperando para manter seu paradeiro em segredo, ou realmente no sabiam. O signore Cattani, representante americano da San Gregorio em Nova York, disse 
que ouvira falar dela com mais freqncia do que a usual nos ltimos meses, mas no tinha nenhuma razo para acreditar que ela estivesse em Nova York e no em Roma. 
Tambm havia uma meno sobre o fato de que ela fora vista na pr-estria cinematogrfica acompanhada por um homem alto, de cabelos grisalhos, e que conseguiram 
fugir juntos num Rolls-Royce preto com motorista. Mas nada se sabia ao certo quanto  identidade dele.
        O interesse das reprteres concentrou-se no choque que sentiram ao verem Isabella e, embora uma das reprteres tivesse a impresso de que o homem de fato 
tinha um rosto conhecido, nenhuma das duas pensou em examin-lo com mais cuidado e tudo que se podia ver dele nas fotos era sua nuca enquanto corriam.
        Corbett suspirou, largou o jornal, recostou-se na cadeira e a fez girar lentamente. O que ela sabia dele? O que Natasha teria dito? Ele desejava que, de 
todas as mulheres do mundo, ela fosse qualquer uma, menos quem realmente era. Parecendo desalentado, ficou olhando o jornal, em seguida para as mos. 
        Aos poucos, seus pensamentos desviaram-se de suas prprias preocupaes para as dela. Isabella di San Gregorio. Jamais poderia imaginar. A prima de Milo 
de Natasha! Ele achou graa da histria, depois sorriu mais amplamente ao reunir o resto dos pedaos e lembrar-se de todo aquele estratagema tolo... ele lhe dissera 
que estava no ramo de tecidos... ela lhe dissera que sua famlia ligava-se  arte. Contudo, ela sabia alguma coisa sobre tecidos. 
        E o modo como Isabella empertigara-se quando lhe contou que o cetim do seu vestido sem dvida no era dele, mas fora comprado na Frana! 
        Agora compreendia tudo melhor: o segredo, a fuga deles do espetculo beneficente, e os olhos de Isabella cheios de medo, como se vivesse aquela cena com 
muita freqncia, como se tivesse sido assediada por ela durante um tempo longo demais. Pobre mulher! O que deve ter sofrido! Corbett achou-se imaginando, tambm, 
como Isabella conseguia dirigir a empresa de Nova York. 
        Uma coisa era certa: Isabella di San Gregorio era uma mulher notvel, uma mulher com talento, beleza e alma. Contudo, agora, ele indagava a si mesmo se um 
dia chegaria a conhec-la. Se teria, inclusive, essa oportunidade. Compreendia que havia apenas uma resposta, e essa teria que vir dela. Nessa noite ele lhe contaria. 
No poderia correr o risco de Isabella descobrir mais tarde e saber de maneira deturpada o que ele sentia por ela e o que queria fazer para ajud-la. Se ela assim 
permitisse. Se ao menos falasse com ele novamente...
        Com um longo suspiro de resignao, Corbett Ewing ergueu-se e afastou-se da mesa. Olhou para a Park Avenue ao longe, para o lugar onde ele sabia que Isabella 
estava escondida, no apartamento de Natasha, com seu filho e o da amiga, ento tornou a sentar-se e pegou o telefone.
        Isabella ainda falava com Bernardo em Roma. Ele recebera as primeiras notcias ao meio-dia. Sua secretria trouxera-lhe o jornal da tarde, que ele leu com 
horror, com os olhos flamejantes, mas sem dizer uma palavra. Ligara para Isabella s seis, s sete e, de novo, agora, pouco depois das dez.
        - Certo, que droga! E da? Fiz isso mesmo. Agora no h nada que se possa mudar. Voltarei a me esconder. Ningum saber se ainda estou aqui. No posso suportar 
mais. Trabalho noite e dia. Fao minhas refeies com as crianas. Dou umas voltinhas depois que escurece. Sozinha, Bernardo! Sem ningum para olhar, com quem rir, 
com quem conversar. Ningum inteligente com quem conversar sobre negcios. A nica agitao existente em minhas noites  fornecida pelo trem eltrico de Jason.
        Sua voz estava suplicante, mas Bernardo no queria ouvir.
        - Muito bem, v em frente, exiba-se. Mostre-se. Mas se acontecer alguma coisa a voc ou a Alessandro, no venha chorar no meu ombro, porque ser unicamente 
sua maldita culpa. 
        Em seguida, subitamente, tomou um longo flego e moderou o modo de falar. Do outro lado, podia ouvir Isabella chorar de mansinho ao telefone. 
        - Certo, certo, desculpe... Isabella, por favor... mas fiquei to assustado por sua causa! Foi uma tolice o que fez. - Ele acendeu um cigarro, mas acabou 
apagando-o no cinzeiro.
        - Eu sei. - Ela tornou a soluar e depois, num gesto de cansao, enxugou os olhos. - Apenas achei que tinha de ir. No pensei, realmente, que algum pudesse 
me ver ou que houvesse algum mal.
        - Pensa diferente agora? Compreende o quanto voc  visvel?
        Sentindo-se infeliz, ela assentiu com a cabea. 
        - Sim. Eu costumava gostar dele. Agora eu o odeio. Sou prisioneira do meu prprio rosto.
        - Um rosto lindo que eu adoro, portanto pare de chorar. - Sua voz era gentil.
        - Ento o que fao agora? Volto para casa?
        - Est maluca? Seria pior do que a noite passada. No. Voc fica a. Tentarei contar a todos que voc s partiu depois do lanamento da coleo e que j 
est voltando para a Europa. Nas entrelinhas, deixarei uma pista sobre algo relacionado com a Frana. Far sentido devido  famlia de sua me que vive l. 
        - J morreram todos. - Ela fungou ruidosamente e assoou o nariz.
        - Sei disso. Mas faz sentido voc ter laos naquele pas. 
        - Acha que vo acreditar?
        - Quem se importa? Contanto que no a vejam em pblico de novo, voc est segura. Parece que ningum sabe onde est hospedada. Natasha saiu do cinema com 
voc? - Ele fez uma breve orao para que uma das duas tivesse sido mais esperta.
        - No. Um amigo dela levou-me para casa. Ela saiu depois.
        - timo. - Ele parou por um instante, tentando parecer casual. - E, a propsito, quem  o homem da fotografia? Era s o que lhe faltava, envolver-se com 
algum americano! 
        -  um amigo de Natasha, Bernardo. Acalme-se. 
        - Ele no contar a ningum onde voc est?
        - Claro que no!
        - Voc  confiante demais. Eu me encarrego da imprensa aqui. E Isabella, por favor... pelo amor de Deus, cara, use a cabea e fique em casa.
        - Capisco, capisco. No se preocupe. Agora entendo, mesmo aqui sou prisioneira. Mais at do que se estivesse em Roma.
        - Um dia tudo isso vai acabar. Voc s precisa ter pacincia por enquanto. J se passaram sete meses desde o seqestro, sabe disso. Dentro de alguns meses, 
um ano, ser uma notcia ultrapassada.
        Notcia ultrapassada... ela estava pensando que, nessa poca, ela tambm seria notcia ultrapassada. 
        - . Talvez. E Bernardo... desculpe por lhe dar tanto problema. - De repente, ela se sentiu como uma menina muito levada.
        - No se preocupe. Estou acostumado. A esta altura, eu estaria perdido sem isso.
        - Como vai sua lcera? - Ela sorriu ao telefone.
        - Conduzindo-se lindamente. Acho que fica maior e mais forte a cada dia.
        - Pare com isso. Tenha calma, por favor, sim?
        - Sim. Certo. Agora veja se consegue continuar trabalhando naqueles problemas com a linha prt--porter para a sia. E, se ficar entediada, pode comear 
a linha de vero.
        - Voc  bom demais para mim.
        - Ecco. Eu sei. Telefonarei mais tarde se surgir mais alguma coisa. No deve surgir nada, se voc conservar a porta fechada e permanecer em casa.
        - Capisco. 
        Despediram-se e desligaram. Do seu lado, Isabella estava indignada. Por que teria ela de ficar em casa, e que direito tinha ele de lhe dizer para no confiar 
em Corbett? Deixou o escritrio, foi  cozinha e encontrou Natasha servindo-se de uma xcara de caf, com expresso severa.
        - Bateu um papo agradvel com Bernardo?
        - Sim, encantador. Mas voc tambm no, por favor, Natasha. - Natasha havia entrado em seu quarto intempestivamente s sete horas, com o jornal na mo e 
no semblante uma expresso de fria. 
        - Acho que no suportarei mais nada por hoje. Cometi um erro. Fui excessivamente confiante. No devia ter sado ontem  noite, mas sa. Precisava. No estava 
agentando mais. Mas agora compreendo que tenho de ficar em segundo plano pelo menos por enquanto.
        - O que ele vai dizer  imprensa?
        - Que estive aqui durante alguns dias e que vou morar na Frana.
        - Isso deve mant-los espionando por Paris durante um ou dois dias. E voc, o que vai fazer?
        - O que estive fazendo. Meu trabalho e pouca coisa mais. 
        - De toda aquela confuso de ontem  noite, pelo menos uma coisa boa aconteceu. - Ela observava Isabella atentamente.
        - O qu? - Isabella parecia inexpressiva.
        - Voc se encontrou com Corbett outra vez. - Natasha fez uma pausa, sem tirar os olhos do rosto da amiga. - Permita que lhe diga que voc teve uma sorte 
e tanto.
        - Com Corbett? No seja absurda. - Mas enquanto afastava-se, Natasha estava certa de que a viu corar.
        - Gosta dele? - Houve um longo silncio. - E ento? - Porm, lentamente, ela tornou a virar-se com um brilho ardente nos olhos escuros.
        - Natasha, no force.
        A outra assentiu com a cabea.
        - Acho que talvez ele lhe telefone. Como resposta, Isabella concordou em silncio, mas seu corao deu um pulinho enquanto ela voltava para o escritrio 
e fechava a porta.
Captulo Vinte



        Isabella ainda estava em seu quarto, vestindo-se para o jantar, quando Corbett chegou. Ainda com a porta fechada, enquanto prestava ateno, ouvia a risada 
estridente de prazer de Jason e, um momento depois, as risadinhas igualmente alegres do seu prprio filho. Sorriu. No faria nenhum mal a ele ver um homem, para 
variar. Fazia muito tempo que ele estivera ao lado de Bernardo e, ao contrrio de sua casa, Natasha no tinha nenhum empregado em seu servio domstico. Alessandro 
s tivera contato com pessoas do sexo feminino, que ultimamente o fizeram sentir ainda mais a falta do pai.
        Isabella puxou o zper do vestido preto de l, alisou as meias pretas e calou os sapatos pretos de camura. Colocou os brincos de esmalte preto e prola 
e passou a mo pelo cabelo escuro, num penteado severo. Esboou um largo sorriso para si mesma ao apagar a luz. O cisne voltara a ser o patinho feio. Mas no importava. 
Ela no estava tentando conquistar Corbett Ewing, e, tal como para Alessandro, iria fazer-lhe bem ter um amigo do sexo masculino.
        Quando entrou tranqilamente na sala de estar, encontrou-o cercado pelos dois meninos, que tinham acabado de abrir dois grandes embrulhos, contendo idnticos 
chapus de bombeiro equipados com lanterna, sirene e dois casacos de bombeiros para combinar.
        - Veja, agora somos bombeiros!
         Vestiram seus equipamentos e comearam a correr pela sala. Obviamente, Alessandro estava encantado por rever Corbett, e o som estridente das sirenes era 
estarrecedor, fazendo Natasha estremecer.
        - Presente adorvel, Corbett. No me deixe esquecer de lhe telefonar e agradecer amanh de manh, s seis.
        Ele ia responder quando viu Isabella de p, do outro lado da sala. Levantou-se no mesmo instante, olhou-a meio nervoso e caminhou em sua direo para cumpriment-la, 
estendendo-lhe a mo.
        - Al, Isabella. Como vai? 
        Mas os olhos dela diziam como Isabella estava: Cansada. Exausta. Porm, mais uma vez, ele viu-se atrado por sua beleza. Ela teria ficado surpresa ao ouvir 
isso, mas ele concluiu que ela parecia ainda mais bonita no severo vestido preto de l, sem a magnificncia dos cetins e do extraordinrio casaco branco.
        - Voc deve ter tido um dia e tanto. 
        Ele virou os olhos de maneira simptica, e ela sorriu ao acompanh-lo de volta ao sof, onde sentou-se.
        - Oh, eu sobrevivi. Sempre se sobrevive. E quanto a voc? 
        - Para mim, foi fcil. Tudo que sabiam a meu respeito era que eu tinha cabelo branco. A nica coisa que no disseram foi que eu era um cavalheiro idoso... 
-
        Ele ia continuar falando, mas os meninos o interromperam.
        - Vejam, vejam, esguicha gua!
        - Oh, no!
        Jason descobrira que havia uma pequena pipa fixada em algum lugar no chapu, que se podia encher de gua e, subseqentemente, ser usada para encharcar os 
amigos do seu proprietrio.
        - Corbett, talvez no volte a falar com voc nunca mais. - Natasha gemeu e anunciou aos meninos que j era hora de irem para a cama.
        - No, mame... tia Isabella... no... por favor! 
        Jason as olhava com ar suplicante, mas Alessandro apenas aproximou-se mais dos joelhos de Corbett. Olhava-o com interesse enquanto Jason continuava brincando 
com o chapu. Isabella nunca o vira to quieto e, de uma pequena distncia, ela ficou observando. Corbett tambm notara e voltou-se para o menino, sorriu-lhe e colocou 
despreocupadamente um brao ao redor dos pequeninos ombros.
        - O que pensa de tudo isso, Alessandro?
        - Acho que ... - procurou usar o ingls correto - muito divertido. Gosto muito do chapu. - Ergueu os olhos para Corbett com admirao e esboou um largo 
sorriso.
        - Tambm os achei timos. Voc gostaria de ir comigo qualquer dia a um quartel do corpo de bombeiros de verdade? 
        - Com bombeiros? - Olhou para Corbett e depois para a me com temor respeitoso. - Voc tambm vai? 
        Isabella assentiu com a cabea, notando que Alessandro agora falava em ingls tambm com ela.
        - Claro. Eu quis dizer vocs dois. O que diz?
        - Si!
        Mas isso foi demais para ele. Passou os cinco minutos seguintes matraqueando freneticamente com a me em italiano. Houve longas especulaes sobre os bombeiros 
americanos, como deviam ser maravilhosos, o que vestiam, como seus carros eram grandes e se realmente usavam ou no um poste de metal.
        - Non so... non so... espere, descobriremos isso tudo.
        Isabella ria com ele e, divertida, observou que o menino mudou, da posio em que estava ao seu lado, para os joelhos de Corbett.
        - Iremos logo? 
        - Prometo.
        - timo. -
        Ele bateu palmas e saiu em busca ansiosa de Jason. Momentos depois, ambos foram banidos para o quarto, apesar dos pedidos, splicas, protestos e comentrios 
violentos de que era cedo demais para bombeiros irem para a cama. Quando por fim se foram, a sala ficou estranhamente silenciosa. Corbett, mais uma vez, ficou observando 
Isabella.
        - Voc tem um menino encantador.
        - Acho que ele est um pouco ansioso por companhia masculina, como provavelmente deve ter notado. - Mas depois do que Corbett tinha lido nos jornais daquele 
dia, no havia necessidade de esconder a verdade. - Em Roma ele tinha um dos meus scios, que  seu padrinho. Aqui ele tem - ela olhou para Natasha - apenas ns. 
No  realmente a mesma coisa. Mas no precisa sentir-se obrigado a lev-lo ao quartel do corpo de bombeiros. Os presentes que trouxe so maravilhosos. J fez mais 
do que o suficiente.
        - No seja tola. Adoro isso. Natasha pode dizer. Jason  um dos meus melhores amigos.
        - Felizmente - confirmou ela - uma vez que seu encantador pai nunca aparece. 
        Nos dois ltimos meses, ela e Isabella comentaram com freqncia a respeito. Porm, de qualquer modo, Jason parecia feliz, e ter outra criana em casa estava 
fazendo aos dois meninos um enorme bem. Compensava outras carncias, outras perdas, como nem a prpria me deles conseguia.
        - Providenciarei para qualquer dia desta semana. Talvez no prximo fim de semana, se todos estiverem livres. - Mas, quando ele disse isso, Isabella olhou-o 
e riu.
        - Oh, sim, sem dvida estaremos livres.
        Corbett ficou satisfeito porque Isabella estava rindo. Depois do que tinha lido naquele dia, ele no sabia como Isabella ainda conseguia. Mas enquanto a 
observava, percebeu o quanto ela era forte. Estava magoada, solitria, porm era destemida, e nela ainda havia riso, fogo e uma certa alegria indestrutvel. Ele 
esboou um amplo sorriso e depois ergueu uma sobrancelha.
        - Diga-me, Isabella - perguntou - gostaria que eu lhe falasse mais sobre tecidos esta noite? Ou apenas comentaremos sobre arte? 
        Ele agora tambm ria. Um momento depois, todos riam, e a atmosfera da sala ficou descontrada e livre. 
        - Desculpe. No pude evitar. Mas o que voc me contou foi muito interessante. Mesmo se comprssemos realmente a maior parte dos nossos cetins na Frana.
        -  a que voc se engana. Mas, no mnino, o que voc poderia ter feito era me dizer que estava no mundo da moda ou em algo relacionado com o comrcio.
        - Por qu? Eu estava gostando do que voc poderia ainda me dizer. E voc estava absolutamente certo sobre tudo, exceto no que diz respeito aos sintticos. 
Detesto us-los na alta costura.
        - Mas os usa na linha prt--porter, no ?
        - bvio. Tenho de usar, pela sua durabilidade e preo.
        - Ento no estou to por fora. 
        Lanaram-se numa discusso complexa sobre substncias qumicas e cores. Silenciosamente, Natasha os deixou. Quando voltou, a conversa mudara para a sia, 
a dificuldade de se fazer negcios ali, o clima, os acordos financeiros, problemas de taxas de cmbio, openmarket, todos os termos altamente especializados, at 
que, finalmente, Hattie anunciou o jantar e Natasha bocejou.
        - Adoro vocs dois, mas esto me entediando ao extremo. 
        - Desculpe. - Isabella apressou-se em desculpar-se. -  muito bom ter algum com quem conversar sobre negcios, para variar.
        - Est desculpada.
        Corbett sorriu para a sua anfitri.
        Os trs tiveram uma noite agradabilssima. J estavam se servindo de mousse de limo; em seguida serviram-se de caf expresso, enquanto Hattie passava uma 
bandejinha de prata cheia de pastilhas de hortel.
        - Eu no devia fazer isto. - Natasha fazia lembrar Scarlett O'Hara ao jogar na boca quatro balinhas.
        - Nem eu. - Isabella hesitava, mas acabou dando de ombros. - Por que no? De acordo com Natasha e Bernardo, vou ficar escondida nos prximos dez anos, de 
qualquer modo, portanto eu bem que poderia ficar enorme de gorda. Posso deixar meu cabelo crescer at o tornozelo...
        Natasha interrompeu imediatamente. 
        - Eu no disse dez anos. Disse um.
        - Que diferena faz? Um ano? Dez anos? Agora sei como as pessoas se sentem quando so condenadas  priso. Nunca parece real enquanto no se est na situao 
e, uma vez estando,  difcil acreditar que um dia acabar. Continua, continua, continua sem parar at que um dia acaba. E, nessa altura, provavelmente no importa 
mais. 
        Sua fisionomia estava sria enquanto mexia o caf e Corbett observava.
        - No sei como agenta. No estou certo se conseguiria. 
        - Tudo indica que no agento assim to graciosamente, ou no teria favorecido aquele fiasco de ontem  noite. Graas a Deus que voc, Corbett, estava l 
ou eu teria sido lanada aos lobos, e agora no poderia nem mesmo ficar aqui no apartamento de Natasha. Teria de me esconder sozinha com Alessandro em algum outro 
lugar. 
        Os trs ficaram muito srios com a idia.
        - Ento fico satisfeito por ter estado l.
        - Eu tambm. 
        Ela lanou-lhe um olhar sincero e foi exibindo um sorriso aos poucos. 
        - Acho que fui muito tola. Mas tambm uma felizarda. Graas a voc de novo. - Ela cara em si, mas ele sacudia a cabea.
        - No fiz nada. A no ser correr como doido.
        - Bastou. 
        Por um momento seus olhos se encontraram atravs da mesa e ele olhou-a com um sorriso clido. Relutantes, deixaram a sala de jantar e voltaram  sala de 
estar para sentarem ao lado do fogo. Conversaram sobre os livros de Natasha, teatro, viagens e acontecimentos de Nova York. Por um minuto, Natasha pareceu preocupada 
ao ver um olhar de saudade surgindo nos olhos de Isabella. Corbett entendeu rapidamente e, por um breve espao de tempo, ficaram calados. Depois Natasha levantou-se 
preguiosamente e ficou de costas para o fogo.
        - Bem, meus amigos. Acho que vou ser rude para variar. Estou cansada. 
        Mas ela tambm sabia que Corbett desejava falar com Isabella a ss. Surpresa, Isabella aguardou que Corbett sugerisse que era ele quem devia ir, mas ele 
no o fez. Ele levantou-se para beijar Natasha, depois os dois ficaram sozinhos. Corbett ficou observando-a por um breve instante enquanto Isabella olhava distraidamente 
o fogo, a incandescncia iluminando suavemente o rosto dela, a luz refletindo-se nos seus olhos grandes e escuros. Ele queria dizer o quanto ela estava encantadora, 
mas, por instinto, sabia que no podia.
        - Isabella... - Sua voz era um sussurro suave e ela virou o rosto para ele. - Lamento muitssimo sobre a noite passada. 
        - No lamente. Foi inevitvel, creio eu. S gostaria que tivesse sido diferente.
        - Voc sabe que Natasha est certa. No final ser diferente.
        - Mas no antes de um perodo de tempo muito longo. - O riso esmaecera e ela olhou-o, pensativa. - Sob certos aspectos, tenho sido mimada.
        - Esse tipo de coisa, como o evento de ontem  noite,  importante para voc?
        - Na verdade, no. Mas as pessoas sim. O que esto fazendo, que aparncia tm, o que pensam.  muito difcil de repente viver sem elas em meu mundinho prprio.
        - No precisa ser to diminuto assim. 
        Ele passou os olhos pela sala de estar iluminada suavemente e depois focalizou seu olhar nela com um sorriso. 
        - H meios de voc sair sem ser vista.
        - Tentei isso ontem  noite.
        - No, voc no tentou. Entrou direto na arena, vestida como o matador, e, quando todos deram pela sua presena, ficou surpresa.
        Ela riu diante da comparao.
        - Eu no havia pensado nisso dessa maneira. 
        Ele tambm riu, de mansinho.
        - No tenho certeza se disse a coisa certa. Mas voc pode sair daqui. Pode ir passear no campo, dar longas caminhadas. No h nenhuma necessidade de trancar-se 
inteiramente aqui em cima. Voc precisa sair. Tem necessidade disso.
        Sentindo-se infeliz, ela estendeu a mo, tentando dominar o anseio em seu corao.
        - Voc permitiria que eu a levasse para passear qualquer dia? Com Alessandro talvez? Ou sozinha?
        - Seria timo. - Ela aprumou o corpo, muito tensa por um momento, e olhou-o diretamente nos olhos. - Mas voc no  obrigado, sabe disso.  muita bondade 
sua.
        Ele no tirava os olhos dela. Sacudiu a cabea suavemente, depois desviou o olhar.
        - Compreendo mais do que imagina. Perdi minha mulher h muito tempo. No da maneira chocante como voc perdeu seu marido. Mas, a seu modo, foi insuportavelmente 
doloroso. No princpio, pensei que ia morrer sem ela. Perde-se tudo que  familiar, tudo que importa, tudo que de fato conta. A nica pessoa que sabe como voc pensa, 
como voc ri, como voc chora, como voc se sente, a pessoa que lembra as brincadeiras favoritas de sua infncia, os piores medos, a pessoa que conhece isso tudo, 
a que tem a chave. De repente, voc fica s e est certa de que ningum jamais a compreender outra vez.
        - E realmente compreendem? - Isabella o observava, contendo as lgrimas. - Ser que algum mais conhece a linguagem, compreende os segredos? Ser que algum 
voltar a se interessar algum dia? - Ela estava pensando: Voltarei a me interessar um dia?
        - Estou certo de que no fim sempre h algum. Talvez os segredos no sejam exatamente os mesmos, talvez o modo de rir seja diferente, ou chorem mais, ou 
suas necessidades estejam engrenadas de outro modo que no o nosso. Mas h outras pessoas, Isabella. Por mais que no queira,  algo que deve saber.
        - Tem havido para voc? Algum que pudesse substitu-la?
        - Sob certos aspectos, no. Porm, na verdade, no dei abertura para tanto, no fui diferente de voc. Embora o que tenha acontecido  que aprendi a viver 
com isso. J no machuca todos os dias. Por outro lado, tambm no perdi meu lar, meu pas, todo o meu modo de vida, como voc acabou de fazer. 
        Ela suspirou de mansinho.
        - As duas nicas coisas que no perdi foram meu trabalho e meu filho. Razo pela qual estamos aqui. Houve um alarme falso sobre Alessandro, e decidi que 
no poderia mais viver desse modo.
        - Mas voc ainda tem essas duas coisas, e ningum pode tir-las de voc. Nem o trabalho e nem o menino. Ambos esto a salvo com voc, aqui.
        - Alessandro est, mas me preocupo muito com o meu trabalho.
        - No creio que precise. Pelo que li a respeito, parece estar muito firme.
        - Por enquanto. Mas no posso dirigir a empresa dessa maneira para sempre. Mais do que ningum, voc deve compreender.
        Corbett compreendia, melhor do que ele desejava lhe dizer. Depois do que ela acabara de falar, ele no podia mais tocar em outro assunto. Sentiu um peso 
em seus ombros enquanto aquecia as mos no fogo.
        - Eventualmente, voc pode fazer certas mudanas. Pode abrir um escritrio maior aqui. Pode dividir sua administrao de uma forma que lhe permita dirigi-la 
de qualquer lugar. Mas s se for obrigada. E, provavelmente, esta no  a poca certa. 
        - Planejo voltar para Roma.
        Em resposta, ele assentiu sensatamente com a cabea, no dizendo nada. Depois falou suave:
        - Estou certo de que voltar. Mas, enquanto a hora no chega, vai ficar aqui. Gostaria de ajud-la a aproveitar ao mximo. A nica coisa que me salvou quando 
Beth morreu foram meus amigos.
        Com um gesto de cabea Isabella confirmou que compreendia; sabia disso muitssimo bem.
        - Corbett... - Ela o olhou com lgrimas brilhando subitamente em seus olhos. - J teve a sensao de que algum dia ela poder voltar para casa? No creio 
que algum compreenda isso. Mas continuo me sentindo assim, como se ele estivesse apenas viajando.
        Ele sorriu gentilmente e assentiu.
        - Sob certos aspectos, ele est mesmo. Acredito que um dia todos ns nos encontraremos de novo. Mas agora temos esta vida para melhorar. Precisamos aproveitar 
ao mximo enquanto estivermos aqui. Mas, respondendo  sua pergunta, sim, eu costumava ter a sensao de que Beth tinha sado apenas por algum tempo, algumas horas, 
que se ausentara por uns dias, que estava fazendo visitas, compras, em algum lugar. Eu ouvia o elevador ou uma porta que se fechava no meu apartamento e pensava: 
"Ela chegou!" E, um minuto mais tarde, eu me sentia pior do que antes. Talvez seja um jogo que jogamos com ns mesmos para ignorarmos a verdade. Ou talvez seja apenas 
difcil romper velhos hbitos. Algum vem para casa todos os dias e voc pensa que vir eternamente. A nica coisa que muda no final  que, posteriormente, esse 
algum no vem mais. Isso  bom porque torna voc grata pelo que tem, enquanto o tem, porque agora sabe como, s vezes, a vida  breve e efmera. 
        Ficaram silenciosos novamente durante algum tempo, enquanto as cinzas da lareira luziam indistintamente.
        - Sete meses e meio no  muito tempo. Mas  tempo suficiente para se estar muito solitria e perceber que realmente est sozinha. s vezes, isso me assusta. 
No, assustar no  a verdade. Fico aterrorizada.
        - Para mim, voc no parece muito aterrorizada. 
        Ela parecia calma, reanimada e quase capaz de lidar com tudo, e ele estava certo de que nos ltimos sete meses e meio ela lidara.  
        - No deixe que as pessoas forcem voc. Siga a sua prpria marcha. 
        - No tenho marcha nenhuma. Exceto em meu trabalho.  a nica vida que agora tenho.
        - Agora, apenas agora. No esquea isso. No  eterno. Lembre-se disso todos os dias. Se ficar insuportvel de to doloroso, diga a si mesma que  apenas 
agora. Quando perdi Beth, uma pessoa amiga disse-me isso... uma mulher. Ela disse que se assemelhava um pouquinho a ter um filho. Quando est em trabalho de parto 
e as dores ficam insuportveis, voc acha que aquilo vai durar eternamente, que jamais conseguir sobreviver. Mas no  eterno, so apenas algumas horas. E depois 
est terminado, fica para trs. Voc conseguiu, voc sobreviveu. Ela sorriu diante da comparao. Tivera uma hora difcil quando Alessandro nasceu.
        - Vou procurar me lembrar. 
        - timo.
        Ento ela olhou-o, curiosa. 
        - Voc tem filhos, Corbett? 
        Ele sacudiu a cabea.
        - Apenas os que peo emprestado de vez em quando aos amigos.
        - Talvez no seja um arranjo to ruim assim. - Ela esboou um largo sorriso. -  provvel que se sinta dessa maneira, principalmente depois que tiver levado 
Jason e Alessandro ao quartel dos bombeiros.
        - Vou adorar. E quanto a voc? 
        - Quanto a mim o qu?
        - Gostaria de dar um passeio de carro, amanh?
        - Voc no trabalha amanh? - Ela pareceu surpresa. 
        - Amanh  sbado. Voc trabalha?
        - Eu tinha esquecido. E eu ia trabalhar, mas - olhou-o afetuosamente - adoraria dar uma volta de carro. Em plena luz do dia?
        -  claro! - Parecia momentaneamente vitorioso. - O banco traseiro do meu carro tem cortinas. Podemos fech-las at nos afastarmos um pouco da cidade.
        - Quanto mistrio! - Ela tornou a rir e Corbett levantou-se quando Isabella lhe estendeu a mo. - Obrigada, Corbett. 
        Ele ia provoc-la por estar sendo formal, mas decidiu que seria mais prudente no faz-lo. Ento, apertou-lhe a mo e encaminhou-se para a porta.
        - At amanh, Isabella.
        - Obrigada. - Ela riu mais uma vez quando o elevador chegou. - Boa noite.
        Dessa vez, quando a deixou, Corbett estava sorrindo. Mas foi invadido por um tremor de medo ao lembrar-se de tudo que no dissera.
Captulo Vinte e Um



        No dia seguinte, foram para Connecticut, ocultos na intimidade misteriosa do Rolls-Royce com cortinas, conversando sobre negcios novamente, desta vez sobre 
a Casa de alta-costura do av em Paris e, depois, mais uma vez sobre Roma.
        - Como sabe tanto a respeito disso tudo? -
        Ela olhou-o intensamente enquanto passavam debaixo de rvores que comeavam a exibir suas folhas.
        - No  diferente de qualquer outro negcio. Seja qual for o produto com que voc lida, geralmente os conceitos so os mesmos.
        A idia deixou-a curiosa. Jamais pensara em aplicar o que sabia sobre sua empresa a qualquer outra coisa. 
        - Voc est envolvido em muitos empreendimentos?  
        Mas ela j sabia, devido aos seus extensos conhecimentos, que ele estava. Achou estranho sua reserva sobre esse assunto, a maioria dos homens ficava ansiosa 
s de pensar nisso.
        - Estou.
        - Por que no me fala mais a respeito?
        - Isso vai entedi-la. Alguns entediam at a mim. 
        Ela riu junto com ele e espreguiou-se alegremente quando desceram do carro.
        - Se ao menos voc soubesse h quanto tempo no ando na grama e no vejo rvores! At que enfim, at que enfim, vejo um pouco de verde! Pensei que fosse 
ficar eternamente cinza.
        Ele sorriu gentilmente.
        - Veja bem.  a mesma coisa. Nada  eterno, Isabella. Coisas boas e coisas ruins. Ns dois sabemos disso agora. Voc no pode cortar uma rvore porque ela 
ainda no est florida. Precisa esperar, aliment-la, am-la. Quando chegar a hora, ela torna a reviver. 
        Ele queria dizer: "Voc tambm."
        - Talvez tenha razo. 
        Mas estava muito feliz para pensar no passado agora. Gostaria apenas de respirar profundamente e usufruir do campo e da sua primeira amostra da primavera.
        - Por que no trouxe Alessandro? - perguntou ele ao fit-la.
        - Ele e Jason tinham um compromisso com alguns amigos no parque. Mas pediu-me que me certificasse e lembrasse voc sobre o corpo de bombeiros. - Sacudiu 
um dedo diante dele, rindo. - Eu bem que avisei!
        - J acertei a visita. Para tera-feira,  tarde! 
        - Voc  um homem de palavra, ento.
        Ele olhou-a com seriedade. 
        - Sou, Isabella, sou sim.
        Mas ela j sabia. Tudo nele indicava um homem honrado, algum em quem se podia confiar os segredos do corao. H anos que no conhecia algum assim; h 
muito tempo no se abria com algum como fizera com ele. Seus nicos confidentes tinham sido Amadeo, Bernardo e Natasha. Mas perdera Amadeo, e ela e Bernardo... 
bem, ela e Bernardo j no conversavam mais sobre assuntos pessoais. Havia muita distncia entre eles e, alm disso, sentia-se reservada com Bernardo e o mesmo se 
dava com ele. Portanto, restara-lhe Natasha, e agora Corbett. Era espantoso como viera, em to poucos dias, a confiar nele e em tudo que dizia.
        - Em que esteve pensando?
        -  estranho como me sinto  vontade com voc. Como se voc fosse um velho amigo.
        - Por que  to estranho?
         Pararam numa rvore cada e sentaram-se. Corbett esticou as longas pernas  sua frente, cruzando-as na altura do tornozelo; seus ombros largos estavam protegidos 
por um excelente tweed ingls. Parecia surpreendentemente jovem, apesar dos cabelos brancos prematuros.
        - S  estranho porque no conheo voc. No mesmo; no sei quem voc .
        - Conhece sim. Sabe todos os pontos essenciais a meu respeito. Onde moro, o que fao. Sabe que sou amigo de Natasha h muitos anos. Sabe outras coisas. Inclusive 
j lhe contei bastante sobre minha vida. - Referia-se a Beth, sua finada esposa. 
        Isabella assentiu em silncio; depois ergueu os olhos para as rvores, o longo pescoo arqueado em direo ao cu, o cabelo caindo-lhe nas costas. Ele sorriu 
para ela; por um instante, ela deu a impresso de uma menina no balano.
        Ele estava intrigado com ela, devido  sua grande beleza, sua mente brilhante como o diamante, a elegncia requintada, em combinao com uma energia rara 
e um poder de comando. Ela era toda contrastes e ricas nuanas, com elevaes, ngulos e texturas que ele adorava.
        - Por que est sempre vestida de preto, Isabella? Nunca a vi usando algo diferente exceto naquela noite; voc usava um casaco branco.
        Ela fitou-o com simplicidade.
        - Estou de luto por Amadeo. Durante um ano usarei preto.
        - Desculpe. Eu devia ter sabido. Mas, aqui nos Estados Unidos, as pessoas no guardam mais luto. 
        Ele parecia contrariado, como se tivesse dito algo indevido, mas Isabella sorriu.
        - Est tudo bem. Isso no me perturba.  um costume, s isso.
        - Voc usa preto at em casa? - Ela assentiu com a cabea. - Mas deve ficar maravilhosa com roupas de cor... tons de cinza e pssego, azuis brilhantes e 
fcsia... com seu cabelo escuro... - Parecia sonhador e jovem. Ela riu.
        - Devia ser estilista, Corbett. 
        - s vezes sou.
        - Com o qu, por exemplo? 
        Os olhos de Isabella adquiriram uma expresso sria, enquanto ela endireitava a cabea e o olhava mais de perto. Era um homem interessante.
        - Certa vez selecionei alguns designs para uma companhia area. - Ele receava falar demais.
        - Saiu-se bem?
        - A companhia area?
        - No, o design. Estava bom? 
        - Acho que sim.
        - Usou seus tecidos? 
        Ele confirmou e ela pareceu aprovar.
        - Foi bom negcio. De vez em quando tento usar coisas alternativas entre minha linha prt--porter e minha linha de alta costura. Embora nem sempre seja 
fcil, devido aos tecidos. Mas fao quando posso.
        - Onde aprendeu tudo isso? - Estava fascinado, e ela sorriu.
        - Com meu av. Ele era um gnio. O primeiro e nico Jacques-Louis Parei. Observei-o, ouvi e aprendi com ele. Sempre soube que seria uma estilista. Depois 
de passar um ano aqui, abri meu prprio atelier em Roma. 
        Foi assim que ela conhecera Amadeo, como tudo havia comeado...
        - Gnio congnito, ento.
        - Obviamente. - Com um largo sorriso, ela apanhou uma flor silvestre.
        - E modstia tambm. - Tranqilamente, ele colocou um brao ao redor do ombro de Isabella e levantou-se. - Que tal comermos alguma coisa?
        - Podemos ir a algum lugar? 
        Ela parecia encantada, mas ele sacudiu a cabea rapidamente.
        - No. - Por um momento, ela baixou os olhos.
        - Foi idiotice perguntar.
        - Voltaremos no vero. H um timo restaurante do outro lado da colina. Mas, nesse meio tempo, Isabella, providenciei algumas coisas.
        - Voc?
        -  claro. No esperava que eu a deixasse passar fome, esperava? Tenho um pouco mais de juzo. Alm disso, tambm estou com fome, sabe?
        - Voc providenciou um piquenique?
        - Mais ou menos. 
        Ele estendeu a mo para ela, e Isabella levantou-se do tronco de rvore, sacudindo a poeira da saia, aconchegando-se mais ao blazer preto enquanto voltavam 
para o carro. Corbett dirigiu at um lago das proximidades, parou e abriu uma grande sacola de couro. O piquenique consistia em pat, queijo, po francs, caviar, 
biscoitos, doces e frutas.
        Isabella olhou encantada para aquilo tudo, distribudo sobre uma mesinha que ele fizera surgir de um compartimento existente nas costas do banco da frente.
        - Meu Deus, isto  magnfico! S falta champanha. 
        Ele curvou-se para a frente e lanou-lhe um olhar malicioso. 
        - Falou cedo demais.
        Tornou a abrir o bar e retirou uma garrafa grande, pousada num balde de gelo. Tambm pegou duas taas.
        - Voc pensa em tudo. 
        - Quase.
        Ela brincou com Alessandro durante todo o domingo chuvoso, sentindo-se grata por no ter chovido no dia anterior. Na segunda-feira, trabalhou durante quinze 
horas, passando a tera-feira telefonando para Hong Kong, Europa, Brasil e Bangkok. Estava na cozinha, descala e de jeans, bebericando caf, quando tocaram a campainha. 
Ergueu os olhos, espantada. Era muito cedo para os meninos. Hattie estava no supermercado e Natasha lhe dissera que ficaria fora o dia todo. Com uma expresso aturdida, 
foi at a porta da frente e deu uma espiada pelo olho mgico. Depois, esboou um largo sorriso. Era Corbett. Tambm usava um velho suter e jeans.
        - Como pde esquecer algo to importante?  o dia da visita aos bombeiros,  claro!
        Isabella pareceu embaraada.
        - Esqueci.
        - Os meninos esto em casa? Se no esto, preciso levar voc. O pessoal do quartel jamais me perdoar se no aparecermos. Direi que voc  minha sobrinha. 
        Um olhar avaliador percorreu Isabella da cabea aos ps, notando subitamente as longas pernas finas e os quadris estreitos.
        - Os meninos chegaro dentro de cinco minutos e vo vibrar. E como vai voc?
        - Estou timo. E vocs duas, o que pretendem fazer? Trabalhar, como sempre?
        - Naturalmente. - Isabella lanou-lhe um olhar pretensioso. Depois, chamou-o com um gesto em direo  porta do seu escritrio. - Gostaria de ver o lindo 
escritrio que Natasha me ofereceu quando cheguei? 
        Parecia uma menina exibindo seu quarto. E ele a seguiu de bom grado e assobiou ao entrar.
        - No  adorvel?
        - Sem dvida. Seu trabalho estava espalhado sobre a mesa, montanhas de papis, o cho coalhado de pilhas arrumadas de designs. 
        - Deve levar algum tempo para se acostumar. Imagino que em Roma devesse ter um pouco mais de espao.
        - Um pouquinho mais. - Ela sorriu ao pensar nos espaosos escritrios que ela e
Amadeo dividiam no quarto andar. - Mas estou me acostumando.
        - Parece-se com voc.
        Naquele momento os meninos chegaram. Deram gritos de alegria ao descobrirem que ele estava ali. Dez minutos mais tarde, j haviam sado de novo, com Corbett, 
s voltando duas horas depois.
        - Como foi o passeio? 
        Isabella os esperava quando chegaram, e eles relataram os mnimos detalhes. Alessandro informou-a, muito excitado, que de fato havia um poste de metal. Foi 
falando por sobre o ombro enquanto Hattie finalmente conseguiu lev-lo para tomar banho. 
        - E mais objetivamente - disse ela a Corbett quando ficaram a ss - como voc est? 
Exausto?
        - Um pouco. Mas nos divertimos muito.
        - Que sujeito bom voc ! Gostaria de beber alguma coisa?
        - Por favor. Usque com gua e bastante gelo.
        - Muito americano. 
        Ela lanou-lhe um olhar de reprovao zombeteira e dirigiu-se ao bar de mrmore branco de Natasha.
        - O que eu deveria beber?
        - Cinzano, Pernod, ou talvez Kirsch.
        - Da prxima vez no esquecerei. Mas, com franqueza, prefiro usque escocs. - Ela entregou-lhe o drinque e ele esboou um largo sorriso. - Onde est Natasha?
        - Vestindo-se para um jantar e um vernissage. 
        - E voc, Cinderela?
        - O mesmo de sempre. Vou dar minha caminhada.
        - No tem medo de fazer isso, Isabella? - Olhou-a, subitamente preocupado.
        - Sou cautelosa. - Ela nem mais voltava a p pela Madison Avenue. - No  muito empolgante, mas serve.
        Ele concordou.
        - Posso ir com voc esta noite? 
        Ela respondeu prontamente:
        -  claro.
        Antes de sarem, esperaram at que ele terminasse seu drinque e Natasha fosse para o seu programa noturno. Percorreram o trajeto costumeiro de Isabella e 
mais um pouco, fazendo cooper em uma parte do caminho, e caminhando o resto at em casa. Depois dessas caminhadas, ela sempre se sentia melhor. Como se seu corpo 
tivesse grande necessidade de exerccio e ar fresco. Ainda no era o suficiente, mas era melhor do que nada.
        - Agora sei como aqueles coitadinhos se sentem presos o dia todo no apartamento.
        - s vezes sinto o mesmo no escritrio.
        - . - Ela o olhou com ar de censura. - Mas voc pode sair.
        Depois, quando voltaram para o apartamento, ele parecia estar pensando em alguma coisa, mas os meninos os atacaram no mesmo instante, agora de pijamas, com 
os cabelos recm lavados, e o momento se perdeu. Isabella ficou observando-o com os meninos cerca de meia hora, enquanto os trs lutavam e brincavam. Corbett parecia 
estar se divertindo. Tinha um modo encantador de lidar com as crianas como, alis, com todo mundo. Mas agradava muito a Isabella ver as crianas com ele. Era o 
nico homem que tinham. Mas Hattie finalmente entrou em cena e, apesar dos veementes protestos, levou-os para a cama. 
        - Gostaria de ficar para jantar?
        - Adoraria.
        Comeram na cozinha um jantar prtico que Hattie deixara para que se servissem sozinhos: galinha frita, espigas de milho e manteiga derretida no prato de 
cada um. Depois do jantar, caminharam at os fundos da casa e acomodaram-se no pequeno e agradvel refgio de Natasha. Isabella providenciou um pouco de msica, 
e Corbett,  vontade, esticou suas longas pernas.
        - Estou muitssimo satisfeito por ter ido quela sesso cinematogrfica beneficente da semana passada. Sabe que por pouco no fui?
        - Por que no?
        - Julguei que fosse me aborrecer.
        Ele riu ao se lembrar, e Isabella imitou-o.
        - Aborreceu-se?
        - Quase. E, desde ento, nem por um minuto.
        - Nem eu. - Ela sorriu tranqilamente e ficou surpresa quando ele pegou em sua mo.
        - Fico satisfeito. Lamento muito pelo que voc tem passado. Se eu pudesse mudar isso tudo... 
        Mas ele no podia e sabia disso. Ainda no podia.
        - s vezes, a vida no  fcil, mas, como voc disse, sempre sobrevivemos.
        - Alguns sobrevivem, outros no. Mas voc  uma sobrevivente. Assim como eu.
        Ela concordou com um gesto de cabea.
        - Acho que meu av me ensinou isso. No importa o que pudesse acontecer, o que sasse errado, ele se levantava e fazia algo melhor imediatamente aps. s 
vezes, demorava um pouco para tomar flego, mas sempre conseguia fazer algo espetacular. Admiro isso.
- Voc  muito parecida com ele - disse Corbett, e ela agradeceu com um sorriso. - Por que ele acabou vendendo o negcio?
        - Ele estava com 83 anos, cansado e velho. Minha av j havia morrido e minha me no tinha nenhum interesse no negcio. S restava eu. Mas era jovem demais. 
No poderia ter dirigido a Parel na poca. Embora agora pudesse. s vezes sonho em compr-la de novo e incorpor-la  San Gregorio. 
        - Por que ainda no comprou?
        - Amadeo e Bernardo sempre insistiram que isso no fazia sentido.
        - E faz? Para voc?
        - Talvez. Ainda no considerei a possibilidade totalmente. 
        - Ento, talvez, algum dia possa compr-la.
        - Talvez. Mas uma coisa  certa: jamais venderei o que tenho. - Referia-se  San Gregorio.
        - Houve cogitao a respeito? - Ele olhava em outra direo quando fez a pergunta.
        - No da minha parte. Jamais. Mas meu diretor, Bernardo Franco, continua tentando nesse propsito.  um perfeito idiota! Jamais venderei.
        Corbett concordou.
        - Um dia a empresa pertencer a Alessandro. Devo isso a ele. - Corbett tornou a assentir e a conversa desviou-se para outros assuntos; msica e viagem, os 
lugares em que viveram quando crianas, e por que Corbett nunca teve um filho.
        - Receava que no teria tempo para um filho. 
        - E sua mulher?
        - No estou bem certo se ela era do tipo maternal. Seja como for, concordava comigo e nunca tivemos um filho. Agora,  um pouco tarde demais.
        - Aos 42 anos? No seja ridculo. Na Itlia, homens muito mais velhos tm filhos incessantemente.
        - Ento vou sair correndo e ter um imediatamente. O que devo fazer? Pr um anncio no jornal?
        Isabella sorriu-lhe da extremidade oposta do sofazinho. 
        - Eu no ousaria pensar que voc tivesse de fazer algo to drstico assim.
        Ele sorriu de mansinho.
        - Talvez no.
        E, ento, sem mesmo saber como aconteceu, ela o viu aproximar-se mais e colocar as mos em seus ombros. Sentiu-se arrastada para seus braos. A msica tocava 
ao longe e algo martelava em seus ouvidos quando Corbett beijou-a e ela agarrou-se a ele como a uma balsa de salvamento na arrebentao violenta. Ele a beijou gentilmente. 
Isabella sentiu profundamente aquele beijo, ao mesmo tempo seu corpo lanava-se para Corbett. Ento ela afastou-se, desviando-se subitamente.
        - Corbett! No! - Estava alarmada, mas a expresso nos olhos dele tranqilizou-a. Uma expresso amorosa e gentil do homem em quem ela confiava, com quem 
sentia-se totalmente segura. - Como isso aconteceu? - Seus olhos estavam toldados de lgrimas confusas e, talvez, um toque de alegria.
        - Bem, vejamos, fui me deslocando suavemente por este sof aqui, depois coloquei minha mo aqui... 
        Ele ria bondosamente, e ela no pde fazer outra coisa a no ser rir tambm.
        - Isso foi terrvel, voc no devia fazer isso, Amadeo... 
        De repente, ela parou. No era Amadeo. Breves lgrimas surgiram em seus olhos. Mas ele a tomou outra vez em seus braos e abraou-a estreitamente enquanto 
Isabella chorava.
        - No, Isabella, no chore. No olhe para trs, querida. Pense no que lhe disse. A dor no dura para sempre. Isto  muito, muito novo. Mas, enquanto a abraava, 
estava grato pelo fato de Amadeo ter morrido h quase oito meses. Tempo longo o suficiente para ela estar pronta, para ao menos considerar outra pessoa.
        - Mas eu no devia, Corbett. - Afastou-se dele, devagar. - No posso.
        - Por que no? Se for algo que voc no deseja, ento no falaremos mais sobre o assunto.
        - No  isso, gosto de voc.
        -  cedo demais? Iremos devagar. Prometo. No quero v-la infeliz, nunca mais.
        Ela ento sorriu gentilmente.
        -  um sonho adorvel. Nada  eterno, lembra-se? Nem coisas boas, nem ruins.
        -  verdade, mas algumas coisas o so durante um tempo bastante longo. Eu gostaria muitssimo de uma coisa dessas com voc.
        Sem saber por que dizia, ela viu-se respondendo: 
        - Tambm eu.
        Ele sorriu-lhe. Beberam conhaque, ouviram msica e sentaram-se no cho como crianas. Era tranqilo ficar com ele, e ela estava feliz, mais feliz ainda quando 
Corbett a beijou novamente. Desta vez ela no discutiu e no queria que ele parasse. Por fim, ele consultou o relgio, olhou-a com afeto e levantou-se.
        - Minha querida, acho que est na hora de eu ir para casa. 
        - To cedo? No deve passar das dez.
        Ele sacudiu a cabea.
        - J  quase uma e meia da manh, e se eu no sair daqui agora, vou atacar voc.
        - Estupro? - Perguntou ela divertida. J conseguira dominar-se.
        - Podamos comear com isso. O recinto  timo, no acha? - Seus olhos azuis reluziam maliciosamente, e ela riu.
        - Voc  impossvel.
        - Talvez, mas estou louco por voc. - Estendeu-lhe a mo e ajudou-a a levantar-se. - Sabe de uma coisa, Isabella? H anos que no me sinto assim.
        - E antes disso? 
        Ela ainda estava brincando. Ficou to feliz de repente que gostaria de voar.
        - Antes disso apaixonei-me por uma garota chamada Tillie Erzbaum. Tinha 14 anos e um busto fabuloso.
        - E voc, quantos anos tinha? 
        Ele considerou, pensativamente. 
        - Nove e meio.
        - Ento est perdoado. 
        - Graas a Deus.
        Caminharam lentamente at a porta e ele a beijou de novo ao se despedirem. 
        - Telefonarei amanh. - Feliz, ela ofereceu-lhe um sorriso. - E quanto  nossa caminhada? Posso ir com voc amanh?
        - Acho que podemos dar um jeito.
        Ao levantar-se na manh seguinte, Isabella estava horrorizada com o que fizera. Era uma viva. Em seu corao, ainda uma mulher casada. O que estava ela 
fazendo, beijando-o a noite toda no cho do escritrio de Natasha? O corao batia forte toda vez que pensava naquilo, e sentia um misto de pesar e uma culpa desconhecida. 
Quando ele telefonou, Isabella escondeu-se no escritrio e disse a Natasha, num tom brusco de voz atravs da porta fechada, que estava muito ocupada para atender 
telefonemas, inclusive dele. Mas a culpa no era dele, raciocinou, ao tentar infrutiferamente enterrar-se no trabalho. No era culpa dele de maneira alguma. Ela 
estivera to ansiosa como ele por aqueles beijos, ficara to surpresa como ele diante da reao dela, e muito mais surpresa diante do que sentia agitando-se no fundo 
de sua alma. Mas Amadeo... Amadeo... Ento era verdade. Amadeo no ia voltar mais.
        - Aonde voc vai? - Natasha olhou-a, admirada, enquanto Isabella dirigia-se para a porta da frente.
        - Vou dar minha caminhada mais cedo. Tenho muito trabalho para fazer esta noite. 
        Lanou um olhar rpido e nervoso para Natasha, e sua voz soou spera.
        - Certo. No precisa ficar to tensa. S fiz uma pergunta. 
        s cinco, Isabella estava de volta, mas ainda trmula, ainda nervosa, ainda abatida com o que fizera. Depois, de repente, enquanto subia pelo elevador, percebeu 
que estava sendo tola. Era uma mulher adulta, estava solitria, e ele era um homem muito atraente. Portanto o beijara. E da? Porm, quando abriu a porta do apartamento, 
deu um pulo ao v-lo parado, de p; no meio da sala. Como sempre, as crianas brincavam ao redor de suas pernas e Natasha estava escarrapachada no sof, cercada 
de livros e papis, procurando conversar com Corbett apesar da barulhada.
        - Oi, Isabella. Como foi a caminhada? - Gritou Natasha. 
        - tima.
        - Espero que lhe tenha feito algum bem. Voc estava de pssimo humor quando saiu.
        Ela concordou e Corbett esboou um largo sorriso. Mas no havia nada ntimo demais, nada possessivo ou constrangedor na expresso dos olhos dele.
        - Teve um dia ruim?
        Ela tornou a assentir com a cabea, procurando sorrir, e se descontraiu um pouco diante da expresso insistente de serena amizade em seus olhos. Talvez ela 
tivesse dado muita importncia ao fato. Talvez ele no levasse a coisa adiante afinal. Fora o conhaque, a msica, mas isso ainda podia ser esquecido; no era tarde 
demais. Em seguida, viu-se sorrindo e escarrapachada numa cadeira, como Natasha. Esta gritava por Hattie enquanto Corbett e os meninos brincavam. Hattie apareceu 
um momento depois, e Natasha, com um gesto, mandou os meninos embora.
        - Meu Deus, eu os adoro, mas, s vezes, me deixam louca. 
        Descontrado, Corbett sentou-se numa poltrona, deixou escapar um suspiro e esboou um largo sorriso.
        - Vocs duas nunca jogaram bruto com eles? Ambos tm mais energia do que um estrado de molas novo em folha. 
        - Lemos histrias para eles. - Natasha olhou-o, divertida. - E brincamos com os jogos.
        - Ento comprem para eles aqueles sacos de areia com que os pugilistas treinam, ou algo parecido. No, pensando bem, calculo que eles no precisam disso. 
Eles tm a mim. - Seus olhos encontraram-se com os de Isabella, dessa vez com uma expresso mais penetrante. - J foi dar sua caminhada? 
        - J - Confirmou ela.
        - Muito bem. Ento mostre-me o que fez em seu escritrio hoje. Prometeu-me ontem, lembra-se? 
        E, antes que ela pudesse opor-se, ele j tomara sua mo e a colocara de p com um puxo. No querendo fazer uma cena diante de Natasha, ela encaminhou-se 
depressa para o escritrio. Corbett fechou a porta.
        - Corbett, eu...
        - Espere um minuto antes de dizer alguma coisa. Por favor. - Ele sentou-se numa cadeira e olhou-a com bondade. - Por que no se senta?
        Ela sentou-se, como uma aluna obediente, aliviada s porque ele no a envolvera impetuosamente em seus braos. 
        - Antes que me diga o que tem em mente - continuou ele - deixe-me dizer-lhe o que j sei. J passei por isso. Sei como . E  horrvel; portanto, deixe-me 
ao menos compartilhar com voc o que aprendi. Se no estou de todo maluco, quando sa daqui a noite passada voc estava to feliz como eu. Mas em algum momento... 
talvez ontem  noite, talvez nesta manh, 
talvez s agora de noite, embora eu duvide disso... voc comeou a pensar. Em seu marido, no que costumava ser, em ainda estar casada. Sentiu-se culpada, assustada, 
louca. Isabella olhou-o, aturdida, no disse uma s palavra, mas seus olhos arregalaram-se.
        - Nem mesmo conseguia entender por que agiu assim, mal conseguia lembrar-se de quem eu era. Mas deixe-me dizer-lhe, querida, que isso  muito natural.  
uma coisa pela qual ter de passar. No pode fugir, agora. Est solitria,  humana, no fez nada de terrvel ou errado. E se tivesse sido voc a seqestrada, seu 
marido estaria passando exatamente pela mesma coisa. Demora muito tempo para se voltar a ter um novo sentimento, para se descontrair, e ento, quando esse tempo 
chegar, e voc tiver todos os mesmos sentimentos que j teve um dia, no haver ningum com quem compartilh-los. Mas agora tem a mim. Pode experimentar aos poucos, 
aos pouquinhos, ou pode fugir desesperadamente e esconder-se em sua culpa e na sensao de que ainda  casada para o resto da vida. Isto no significa um ultimato. 
Voc pode simplesmente no me querer. Talvez eu no seja o sujeito certo. Se  o que est pensando, entenderei. Mas no fuja do que est sentindo, Isabella... voc 
no pode voltar. - Ele parou ento, quase sem flego, e Isabella o olhava, aturdida.
        - Mas como soube?
        - J passei por isso. E na primeira vez em que beijei uma mulher, senti como se tivesse profanado a memria de Beth, como se a tivesse trado. Fiquei arrasado. 
Mas a diferena  que eu no ligava a mnima para aquela mulher. Apenas estava solitrio, excitado, cansado e triste. Mas por voc tenho interesse. Eu a amo. E espero 
loucamente que se interesse por mim.
        - Como consegue entender tudo assim? 
        Ela o olhava espantada, do outro lado do aposento. E ele esboou um sorriso cheio de amor sereno, do fundo do corao.
        - Sou muito esperto, s isso.
        - Ah, e modesto! - De sbito, ela voltava a sorrir e sentia prazer em provoc-lo.
        - Nesse caso, acontece que somos iguaizinhos. Foi por essa razo que deu sua caminhada sem esperar por mim?
        - Eu queria fugir de voc. Ter acabado a caminhada antes de voc chegar.
        - Foi uma esperteza. - Mas no parecia magoado, nem que o fato o divertira. Compreendeu, simplesmente.
        - Desculpe.
        - No  necessrio. Quer que eu v embora agora? Tudo bem, Isabella, eu compreenderei.
        Mas ela sacudiu a cabea e estendeu a mo. Corbett encaminhou-se para ela e pegou na mo estendida, olhando diretamente nos olhos negros insondveis.
        - No quero que se v. Sinto-me uma idiota, agora. Talvez eu estivesse errada. 
        Agarrou-se a ele como as crianas faziam, e ele, delicadamente, tomou-lhe as mos. Ajoelhando-se ao lado dela, segurou-as entre as suas.
        - J lhe disse que iramos devagar. No estou apressado. 
        - Fico satisfeita.
        Ento, ela colocou os braos suavemente ao redor do pescoo dele e apertou-o com fora, como fazem as crianas. Ficaram abraados assim durante o que pareceu 
um longo tempo. E dessa vez foi Isabella quem moveu a mo lentamente, tocou-lhe o queixo, os olhos e o rosto fino e bonito. Foi ela quem deu o primeiro passo, seus 
lbios procurando os dele, gentilmente a princpio e avidamente depois. E era ela quem tremia quando pararam.
        - Tenha calma, querida. 
        Mas ela voltava a sorrir.
        - O que foi que voc disse sobre estupro?
        - Se me estuprar, lhe darei uma surra. - Ele parecia a prpria virtude ofendida enquanto ela ria. Depois, ele voltou a sorrir. - Gostaria de dar uma volta 
de carro? - Ele parecia ansioso, mas no queria forar.
        - Trouxe o carro?
        - No, planejava roubar um.  claro que trouxe. Por qu?
        - Ento eu adoraria. - Ela parou. - O que diremos a Natasha?
        - Que vamos dar uma volta de carro.  to errado assim? 
        Ela olhou-o, acanhada.
        - Ainda me sinto culpada. 
        Mas ele sorriu gentilmente.
        - No se preocupe. s vezes tambm me sinto. 
        Deram um au revoir casual a Natasha e saram para o passeio de carro, at Wall Street, Cloisters, em seguida pelo parque. Recostada no estofado macio, sentada 
ao lado dele, sentia-se protegida contra o mundo.
        - No sei o que aconteceu comigo hoje - disse ela. 
        - No se preocupe, Isabella. Est tudo bem.
        - Acho que est. Acredita que um dia voltarei a ser sensata? 
        Olhou-o, sorrindo, meio zombeteira, meio sincera. 
        - Espero que no. Gosto de voc assim.
        Ela sorriu-lhe ternamente. 
        - Tambm gosto de voc.
        Mas, duas semanas depois, quando Natasha foi passar um fim de semana fora com os meninos, Isabella soube que o sentimento que tinha por ele era mais do que 
apenas gostar.
        - Est dizendo que eles simplesmente a deixaram? 
        Corbett parecia infinitamente pesaroso por ela, ao passar pelo apartamento no sbado  tarde para um ch. Planejara ficar com ela algumas horas, para talvez 
dar uma caminhada, e contara que Natasha sasse. Gostava dessas ocasies a ss com Isabella, mas eram-lhe ainda mais preciosas por serem raras. Estavam sempre cercados 
pelas crianas, por Natasha ou at por Hattie, a criada.
        - Aonde foram?
        Divertida, Isabella sorriu ao entregar-lhe uma xcara de Earl Grey.
        - Para a casa de uns amigos de Natasha em Connecticut. Far bem aos meninos.
        Ele assentiu lentamente, mas no era nos meninos que pensava ao pegar-lhe a mo, gentil.
        - J notou como est silencioso aqui e como so raras as ocasies em que ficamos a ss?
        Isabella ficou ali sentada, pensando, e lentamente sua mente deixou-se levar para Roma. Ali tivera tanto espao em seu lar, tanto lugar para si mesma, tantas 
horas s para ela.
        - Gostaria que tivesse me conhecido na ocasio. - Ela pronunciou as palavras sonhadoramente, enquanto ele observava seus olhos.
        - Quando, Isabella?
        - Na Itlia... - disse com suavidade, depois ergueu os olhos para ele com um ligeiro rubor. - Mas isso no faz sentido nenhum, faz?  
        Na Itlia, nos bons tempos, ela era casada. Corbett no teria tido lugar em sua vida. Mas ele compreendeu o que Isabella estava pensando. Era normal que 
sentisse saudades do seu lar.
        - Na Itlia sua casa era to maravilhosa assim?
        Ela sorriu e concordou, em seguida contou-lhe sobre o carrossel que Alessandro ganhara no Natal, enquanto seus olhos danavam. Parecia to encantadora no 
momento em que falava que ele ps a xcara sobre a mesa e tomou-a nos braos.
        - Gostaria de poder lev-la de volta para l... lev-la para casa, se  o que deseja. - E, depois, ele falou suavemente: - Mas, quem sabe, talvez um dia 
seu lar seja aqui? 
        Porm, na verdade, ela no acreditava; no podia imaginar-se passando o resto da vida em outro lugar que no fosse Roma. 
        - Sente uma falta tremenda de l?
        Ela deu de ombros e sorriu.
        - A Itlia ... simplesmente a Itlia. No h nada igual, em nenhuma parte do mundo. Gente louca, trfego louco, timo espaguete, cheiros maravilhosos... 
        Ao dizer isso, viu-se pensando nas ruelas estreitas no muito distantes da San Gregorio, nas mulheres amamentando seus bebs nas portas das casas e crianas 
saindo correndo da igreja, nos pssaros cantando no topo das rvores do seu jardim... S em pensar, brotaram-lhe lgrimas nos olhos. E, ao observ-la, Corbett sentiu 
sincera simpatia por suas lgrimas.
        - Quer jantar fora esta noite, meu amor? 
        Era a primeira vez que ele a chamava assim e ela sorriu, mas sacudiu lentamente a cabea.
        - Sabe que no posso. 
        Mas ele pensou um instante. 
        - Talvez possa.
        - Fala srio?
        - Por que no? - Os olhos dele danavam, maliciosos. Tinha um plano. - Conheo um restaurantezinho italiano singular, que costumava freqentar, indo para 
o centro. Pessoas "respeitveis" no vo l. - Esboou um largo sorriso. - Talvez pudssemos dar uma passada rpida, um jantar ligeiro, e ningum teria a mnima 
idia de quem voc possa ser. E  to italiano que est determinado a fazer com que as pessoas se sintam na prpria Itlia.
        Por um momento, imaginou se isso tornaria as coisas piores, mas tinha a sensao de que no seria o caso, e ele cuidaria para que ela se divertisse bastante. 
Como um companheiro de conspirao, ele ficou esperando na sala de estar enquanto ela se aprontava. Isabella surgiu dando uma risadinha, usando calas compridas 
pretas e suter, com um chapu Borsalino, preto, de feltro, puxado sobre um olho.
        - Pareo misteriosa? - Ela ria, bem como ele. 
        - Muitssimo misteriosa!
        Ele inclusive estacionou o Rolls-Royce algumas casas adiante. Entraram no restaurante sem serem notados e comeram vorazmente. Isabella conversou muito feliz 
com o garom que os servia, enquanto bebiam vinho romano barato.
        - Prometa que no vai contar nada para Natasha! Ela me mataria. 
        Os olhos dela cintilavam e ele concordou.
        - Eu no poderia contar. Provavelmente ela me mataria primeiro.
        Mas ele no estava nervoso por causa de Natasha. Sabia que Isabella se achava segura, e aps comerem massa e bebido vinho tinto comum at se fartarem, voltaram 
sem pressa para casa, com uma breve volta pelo parque. 
        - Feliz? 
        Ela confirmou e pousou a cabea no ombro dele. Havia colocado o chapu ao seu lado, no banco, e seu cabelo negro caa suavemente no casaco de Corbett. Com 
delicadeza, Corbett alisou-o, depois acariciou-lhe o rosto. E seus olhos pareciam no abandon-la enquanto ele e Isabella entravam em casa de mansinho.
        - Quer entrar para tomar um caf? 
        Ela olhou-o convidativamente, mas no era caf o que cada um tinha em mente. Ele aceitou e seguiu-a para o interior do apartamento, mas assim que chegaram 
ao corredor, Isabella no se preocupou em acender as luzes. No mesmo instante, viu-se nos braos de Corbett e, na escurido, sentiu-se palpitante de paixo, que 
h muito esquecera, quando Corbett comprimiu seus lbios contra os dela.
        Arquejantes, caminharam de mos dadas at o quarto e, sem acender as luzes, Corbett despiu-a. Isabella fez o mesmo com ele. Finalmente, seus corpos se uniram. 
Quando Isabella acendeu uma pequena luminria, vrias horas pareciam ter transcorrido, e ela sorriu para ele, deitado em sua cama. Ela lanou um olhar pelo quarto, 
para as roupas espalhadas dos dois, e comeou a rir.
        - Est rindo de qu, meu bem?
        - De ns. - Olhou-o e depois beijou-o carinhosamente no pescoo. - No se pode confiar em ns em absoluto. Minha colega de apartamento vai passar o fim de 
semana fora, e o que fazemos? Vamos jantar num restaurante e depois voltamos para casa e fazemos amor.
        Corbett puxou-a lentamente para si.
        - ... Em seguida fazemos de novo... e mais uma vez... e ainda outra vez.







Captulo Vinte e Dois



        Abril e maio passaram correndo por eles com extrema rapidez. Quando o tempo permitia, saam para caminhar todas as noites ou para dar uma volta de carro. 
s vezes, levavam Alessandro ao campo e ficavam observando a expresso maravilhada em seus olhos enquanto brincava no gramado ou construa castelos em praias ainda 
desertas. E, algumas vezes, tambm levavam Natasha. Durante as primeiras semanas, ela tentara fingir que ignorava o que estava acontecendo, mas acabou perguntando. 
        E, como uma menina, Isabella confirmara, rindo e admitindo, que ela e Corbett estavam apaixonados. Era bvio que Isabella se achava imensamente feliz, e 
sempre que Natasha via Corbett notava o mesmo nele. Mas para ela evidenciava-se tambm que, excetuando-se a alegria de Isabella sobre seu romance, a amiga ainda 
tinha grandes preocupaes com o trabalho.
        A noite era quente, balsmica, quando Corbett chegou a casa com um fiacre, convidando Isabella para dar uma volta. Ela riu ao ver o veculo, e ficaram passeando 
durante duas horas.
        - Ento, como foi o trabalho hoje, querida? 
        Puxou-a para mais perto e olhou diretamente nos olhos escuros.
        - Terrvel. Bernardo est me dando preocupao outra vez.
        -  a nova linha?
        - No, essa j est resolvida. Lanamos na prxima semana.  o resto. Planejamento para o inverno, cosmticos, tecidos, no sei. Ele est impossvel neste 
exato momento.
        - Talvez ele esteja sobrecarregado, j que voc est aqui. 
        - O que est insinuando? - Olhou-o com expresso cansada. - Que eu v para casa?
        - Quase isso. Embora sempre tenha pensado que h certas coisas que voc poderia mudar.
        - Eu sei, mas agora no posso. No enquanto estiver aqui. 
        O modo como falou a fez pensar em Roma outra vez, algo que agora odiava admitir para Corbett. Tinham-se apegado um ao outro como se a ligao fosse eterna, 
porm, mais cedo ou mais tarde, teria de voltar para casa. E os negcios de Corbett sempre o prenderiam aos Estados Unidos. Nada  eterno, pensou, e em seguida afastou 
a idia.
        - Bem, no se preocupe. As coisas provavelmente vo se acalmar dentro de alguns dias.
        Mas no se acalmaram. Durante as duas semanas seguintes, os problemas s pioraram. Exploses aps exploses, brigas aps brigas. Isabella estava saturada. 
Disse isso a Bernardo certa manh, ao telefone. Ele parecia ter se desligado dela. Na verdade, parecia mais capaz de lidar com seus sentimentos por ela. Oh, Bernardo, 
ela pensou mais de uma vez, se ao menos fosse voc a pessoa a quem amo. A vida seria muito mais simples. 
        - Seja sensata, pelo amor de Deus, e venda!
        - Ah, no, outra vez isso! Escute Bernardo, pensei que tivssemos acertado esse assunto antes de eu partir!
        - No, no acertamos. Voc se recusava a raciocinar. Bem, estou fsica e mentalmente esgotado. Gabriela est fazendo o trabalho de dez pessoas, voc muda 
os malditos tecidos toda vez que viramos as costas, voc no entende nada sobre marketing de cosmticos e, sempre que voc se mete, fico atolado, arrumando tudo 
depois.
        - Muito bem, por que ento no tem a coragem de portar-se como homem em vez de me dizer para vender? Talvez o problema esteja com voc e no com a empresa! 
 voc quem causa os problemas entre ns o tempo todo,  voc quem no cumpre o que eu mando. Por que no faz o que lhe peo, s para variar, em vez de me meter 
a F-B goela abaixo toda vez que abro a boca?
        A fria italiana continuava partindo do escritrio de Isabella.
        - No quero mais ouvir falar nesse assunto. E se voc no parar, volto para casa - ela gritou. - No ligo a mnima para esse lixo sobre perigo. Voc, definitivamente, 
est enterrando a empresa. 
        Era uma acusao injusta, mas o nvel de frustrao entre eles chegara ao mximo. H cinco meses que ela estava nos Estados Unidos e o fascnio de trabalhar 
a distncia comeava a diminuir.
        - Tem alguma idia do que est fazendo, Isabella? Voc ao menos ouviu o pessoal da F-B? No.  claro que no. Preferiu ficar como espectadora a, insultar-me, 
aferrar-se  empresa, ao seu ego e salvar as aparncias.
        - A empresa  perfeitamente slida e voc sabe disso. 
        - Sim, eu sei. Mas o fato  que no posso mais continuar sozinho; e voc ainda no pode voltar. So as circunstncias, Isabella, as circunstncias. Seu av 
tambm viu-se diante das circunstncias e foi inteligente o bastante para vender.
        - Eu nunca venderei.
        -  claro que no. - Ela pde perceber o tom mordaz de sua voz. - Porque  orgulhosa demais, no obstante o fato de que a F-B, a I.H.I. e Ewing me tivessem 
solicitado para que voc vendesse. Bem, na verdade, no ultimamente, ele continuou, mas sei muitssimo bem que tudo que preciso fazer  pegar no telefone, cham-los 
e voc mesma fecharia o negcio.
        No houve resposta para o que ele acabara de dizer. Isabella estava chocada, quase sem fala.
        - Quem?
        - Do que est falando? - De repente, ela no falava coisa com coisa e ele ficou confuso.
        - Estou perguntando quem tem se oferecido para comprar. - A voz dela soou como ao gelado.
        - Voc enlouqueceu? Venho lhe dizendo isto desde outubro do ano passado e voc me pergunta quem so?
        - No quero nem saber a quanto tempo voc vem me dizendo. Diga-me agora. Devagar.
        - Farnham-Barnes. - Ele falou como se Isabella fosse retardada.
        - Quem mais?
        - Mais ningum. O que h com voc? F-B. F-B. F-B. E eles pertencem  I.H.I.
        - E qual foi o outro nome que voc mencionou?
        - Qual? Ewing? Ele  o presidente do conselho da I.H.I. A oferta inicial partiu dele.
        - Oh, meu Deus!
        - O que est havendo?
        - Nada. 
        Ela tremia dos ps  cabea. Os piqueniques. As caminhadas, os jantares, o corpo de bombeiros... apareceram subitamente diante de seus olhos ...que bela 
brincadeira fizeram com ela! Foi uma aventura amorosa uma aventura amorosa de Corbett com a Casa de San Gregorio.
        - Devo cham-los?
        - No. Est entendendo bem? Jamais! Cancele nossos negcios com a F-B, a partir de hoje! Telefone para eles ou eu mesma farei.
        - Voc ficou doida!
        - Oua, Bernardo, no estou louca e jamais falei to srio em toda a minha vida. Ligue para a F-B e diga-lhes que vo pro inferno. Agora, hoje. Finito. No 
h mais ofertas, no h mais pedidos. Nada. E prepare-se. Volto para casa esta semana. - Ela acabara de se decidir. A tolice durara um tempo longo demais. - Se ainda 
achar que  necessrio, contrate dois seguranas, mas s isso. Telefonarei avisando quando devo chegar.
        - Vai trazer Alessandro?
        Bernardo estava abalado. Ela falava num tom de voz que h anos ele no ouvia. Talvez nunca tivesse ouvido. De sbito, ela ficou fria e a ponto de brigar, 
e ele estava satisfeito por no se encontrar na mesma sala com ela ou teria receado pela prpria pele.
        - No levarei Alessandro. Ele pode ficar aqui.
        - Quanto tempo ficar aqui?
        Ele nem sequer discutira. Sabia que no ia adiantar. Isabella voltava para casa. Punto. Finito. Talvez ela estivesse certa. J estava na hora.
        - Enquanto eu tiver que ficar obrigando voc e os demais a entrarem na linha de novo. Agora ligue para a Farnham Barnes.
        - Est falando srio? - Agora ele estava realmente abalado.
        - Estou. 
        - Capito.
        - E diga ao pessoal para aprontarem a cobertura. Ficarei l. 
        Sem mais cerimnias, desligou o telefone.
        - Como teve coragem? - Isabella entrou no pequenino aposento e ficou olhando para Natasha.
        - O qu?
        - Como teve coragem?
        - Coragem para qu?
        Natasha olhou-a com sbito terror. Isabella estava de p diante dela, tremendo da cabea aos ps, o rosto branco como papel, as mos nos quadris.
        - Voc me preparou uma armadilha!
        - Isabella! O que est falando no faz sentido! 
        Teria ela sofrido um colapso mental, afinal? A tenso dos negcios fora demais para ela? Porm, enquanto Natasha a observava, evidenciava-se que a amiga 
tinha algo bem definido em mente. Ela sentou-se de repente, sem tirar os olhos de Natasha, um sorriso mau de fria dominando-lhe o semblante.
        - Ento me deixe contar-lhe uma pequenina histria - disse Isabella. - Talvez, depois, ns duas possamos entender. Em outubro do ano passado, depois que 
meu marido morreu... voc sabe, Amadeo... voc ainda se lembra dele? Bem, ele morreu, vtima de um seqestro brutal...
        Natasha olhava Isabella com ateno. Se isto era loucura, era uma loucura calculada, fria e furiosa, cada palavra embebida em amargura. Assustada, continuou 
a observ-la. No havia nada a fazer a no ser deix-la prosseguir.
        - Ele me deixou uma Casa de modas, uma grande Casa de alta costura bem-sucedida em Roma. Tambm produzimos prt--porter, cosmticos, lingerie, no vou entedi-la 
com a listagem. Assumi o controle da empresa, esgotei-me de tanto trabalhar e fiz uma promessa a mim mesma e a Amadeo de que a conservaria forte at o dia em que 
nosso filho pudesse tomar conta. Mas, veja bem, eis que meu brao direito, Bernardo Franco, primeiro me prope casamento. - Natasha estava chocada, mas Isabella 
prosseguiu, vigorosamente - Em seguida me participa que uma empresa americana chamada Farnham-Barnes quer comprar meu estabelecimento. No, eu lhe disse. No quero 
vender. Mas ele insiste, insiste, tenta e torna a tentar. Inutilmente. No venderei! Ento, como que por milagre, certo dia recebo um telefonema, informando-me que 
meu filho tambm fora seqestrado. S que, felizmente,  uma brincadeira. E meu filho est timo. Ento Bernardo me diz que a minha vida e a do meu filho correm 
perigo em Roma. "Voc precisa ir embora", diz ele. Portanto, telefono para a minha amiga Natasha Walker em Nova York, com quem ele, por coincidncia, transou algumas 
vezes quando ela esteve em Roma. 
        Natasha tentou argumentar, mas Isabella ergueu a mo. 
        - Deixe-me continuar. Ento eu telefono para minha amiga Natasha, que me convida para ficar com ela. Um plano elaborado  preparado para me manter segura 
e dirigir a empresa do apartamento de Natasha em Nova York. Maravilhoso! Mais uma vez, Bernardo tenta me convencer a vender para a F-B e eu recuso. Viajo para a 
Amrica, com meu filho, e minha amiga Natasha me apanha no aeroporto, juntamente com um amigo num belo Rolls-Royce preto. Ento passo a morar com Natasha, dirijo 
minha empresa, Bernardo me levando  loucura e, toda vez que tem oportunidade, ele me aborrece com a idia de vender. Mas eu me torno amiga do homem do aeroporto, 
sr. Corbett Ewing. "Meu amigo" muito conveniente.
        Ela destilava veneno nas palavras.
        - Natasha me convida para ir a uma pr-estria cinematogrfica. Vou, e ao lado de quem devo me sentar seno do sr. Corbett Ewing, que por acaso  apenas 
o presidente do conselho da I.H.I., proprietria da F-B, que quer comprar a San Gregorio? Feliz coincidncia, no? Passo trs meses sendo interrogada habilmente 
sobre meus negcios, sendo cortejada, sendo manipulada por esse monstro, esse aproveitador, esse vilo, que quer comprar minha empresa e, aparentemente, far qualquer 
coisa para conseguir, inclusive fingindo-se apaixonado por mim, adulando meu filho e usando meus "amigos". Natasha,  claro, o convida noite e dia e fica emocionada 
quando nos "apaixonamos". E o que acontece, ento, minha querida? Voc ganha uma comisso de Corbett quando ele se casar comigo e me convencer a vender a empresa?
        Natasha olhava-a com espanto. Levantou-se lentamente. 
        - Voc est falando srio?
        Isabella era a prpria frieza agora.
        - Cada palavra. Acho que Bernardo armou a brincadeira sobre Alessandro para me tirar do caminho, usou-a para me mandar para c e voc providenciou para que 
Corbett Ewing 
se aproximasse de mim! Tudo feito lindamente, mas  intil, porque nunca venderei. Nunca! Nem para Corbett, nem para mais ningum e acho repulsivo o que vocs fizeram. 
Ouviu bem, repulsivo! E eram meus amigos, que se danem! 
        Em seus olhos havia lgrimas de raiva e desapontamento, e Natasha no ousava aproximar-se dela.
        - Isabella, eu no fiz nada! Nada! Foi voc quem quis vir para c. Foi voc quem quis ir quela maldita pr-estria. Eu nem queria que voc fosse. O que 
est pensando, que informei  imprensa? Oh, Deus! - Ela tomou a sentar-se e passou a mo pelo cabelo emaranhado.
        - No acredito em voc. Est mentindo, como Bernardo. Como ele...
        - Escute, Isabella, por favor. Sei que isto  difcil e, do modo como voc fala, tudo se encaixa, mas apenas aconteceu desse modo, ningum planejou, e claro 
que Corbett no... - Agora havia lgrimas correndo-lhe pelas faces. - Ele a ama, sei disso. Ele ficou alucinado quando descobriu quem voc era, depois da pr-estria. 
Ele veio aqui no dia seguinte para lhe contar; falou comigo a respeito. Temia que algo semelhante acontecesse. Mas acabou no lhe contando nada. No sei porque, 
mas algo aconteceu naquela noite que o fez mudar de idia. Corbett receava perd-la antes que tivesse oportunidade, e esperava que, se isso viesse  tona um dia, 
na ocasio talvez voc pudesse entender.
        - Entender o qu? Que ele dormiu comigo para roubar a San Gregorio? Entendo perfeitamente.
        - Pelo amor de Deus, oua-me. - Natasha soluava e segurava a cabea com ambas as mos. - Ele a ama, no quer perd-la. Ao descobrir quem voc era, ele avisou 
aos seus assessores na F-B para retirarem a oferta e jamais mencionarem o seu nome.
        - Bem, Bernardo acabou de faz-lo.
        - A respeito de uma nova oferta, ou ele se referiu  oferta antiga?
        - No sei, mas eu mesma vou me informar quando for para Roma. O que traz  baila apenas mais uma questo. Voc se diz minha amiga... bem, no tenho ningum 
a quem recorrer, no importa o que eu pense qual seja a verdade... voc fica com Alessandro enquanto vou at Roma?
        -  claro. Quando voc vai? - Natasha parecia abalada. 
        - Esta noite.
        - Por quanto tempo?
        - Um ms, dois. O tempo que o assunto exigir de mim. No sei. E conserve aquele cretino afastado do meu filho enquanto eu estiver fora. Quando eu voltar, 
providenciarei outra acomodao. Se eu no voltar de vez para Roma, vou procurar um apartamento para mim.
        - No precisa fazer isso, Isabella. - Natasha encolhera-se na cadeira, aniquilada.
        - Preciso, sim. - Ela moveu-se para deixar o aposento, depois parou por um instante. - Obrigada por ficar com Alessandro. - Amava Natasha. Tinham passado 
muita coisa juntas.
No importa qual fosse a verdade.
        Natasha ainda chorava.
        - Eu o amo e amo voc tambm. O que vai dizer a Corbett?
        - Exatamente o que disse a voc.
        Isabella ligou para ele e Corbett chegou ao apartamento uma hora depois, com uma aparncia provavelmente no melhor do que a de Natasha quando passou pela 
mesma situao.
        - Isabella, s posso lhe dizer que tentei lhe contar vrias vezes. Mas alguma coisa sempre atrapalhava. - Inconsolvel, lanou um olhar para ela da poltrona 
onde se encontrava, quase do outro lado da sala. No ousava aproximar-se. - Estou horrorizado porque o fato revelou-se dessa forma.
        - Voc precisava forar, interrogar sobre os meus negcios, manipular, descobrir, revolver dentro da minha cabea tudo que pudesse aprender sobre a San Gregorio. 
Bem, j sabe o suficiente agora? No lhe servir para nada, fique sabendo. Pois no estou vendendo e mandei Bernardo cancelar todos os nossos negcios com a Farnham-Barnes 
a partir de hoje.
        - H mais de trs meses que no tem havido nenhuma oferta da F-B para a San Gregorio.
        - Terei de verificar isso. Mas no faz diferena. Voc foi muito esperto para evitar ofertas enquanto estivesse me "cortejando", talvez tenha calculado que 
eu seria bastante inteligente para descobrir. Mas e depois? O que tinha em mente, Corbett, casar-se comigo e cativar-me em troca da San Gregorio? Jamais teria essa 
oportunidade.
        - O que vai fazer agora?
        - Voltar para Roma e obrigar todo mundo a entrar novamente na linha.
        - E depois? Vai voltar para c para tornar a se esconder? Por que no traz a firma com voc? E a nica coisa que faz sentido.
        - No se preocupe com o que eu possa fazer com a minha firma. Voc j disse e fez o bastante.
        - Ento vou embora. Mas deve saber de uma coisa, Isabella. O que aconteceu entre ns foi verdadeiro, foi honesto; estou sendo totalmente sincero.
        - Foi uma mentira.
        - Eu no menti. Amo voc.
        - No quero ouvir falar mais sobre isso! - Ela levantou-se e sorriu maliciosamente. - Nada dura para sempre, Corbett. Lembra-se? Nem mesmo uma mentira. Voc 
me usou, droga! Tomou meu corao, meu corpo, minha vulnerabilidade, e me usou s para acrescentar outra marca ao seu cinturo de corporaes: San Gregorio. Bem, 
a mim voc teve, mas no ter o resto.
        - No posso dizer que nunca desejei o resto. Antes de conhec-la, eu desejei. Mas depois no. Depois jamais, nem por um instante sequer.
        - Nunca acreditarei em voc.
        - Ento s me resta dizer adeus.
        Ela ficou olhando enquanto ele, com expresso infeliz, saa da sala. Mas ela j estava no prprio quarto fazendo as malas quando ele despachou o carro com 
um gesto e caminhou sozinho, rapidamente, cabea baixa, de volta para o escritrio.








































Captulo Vinte e Trs

        O avio aterrissou no Aeroporto Leonardo da Vinci s 11:05 da manh seguinte. Bernardo e dois guarda-costas estavam  espera quando ela passou pela alfndega. 
O cumprimento que endereou a Bernardo demonstrava afeto bem como tenso. Parecia exausta, sem ter dormido durante todo o vo. Fora doloroso deixar Alessandro, deixar 
Natasha constrangida. Tudo que desejara fazer era fugir. Tinha chorado metade da viagem para Roma. Ele a trara. Todos a tinham trado. Bernardo, Amadeo, Corbett, 
Natasha. Todas as pessoas em quem confiava. Todos que amava. 
        Amadeo, por morrer; Bernardo, por seus esforos para faz-la vender; e Corbett , no suportava pensar. Ela gostaria de saber como comearia outra vez, como 
ainda conseguiria ao menos trabalhar.
        Aps passar pela alfndega com duas pequenas valises, cansada, ela olhou nos olhos de Bernardo. Era difcil acreditar que no o via h cinco meses. Mais 
pareciam cinco anos.
        - Ciao, Bellezza. - Ao olh-la, ele achou que os cinco meses que ela passara em Nova York no tinham sido muito benignos. Parecia frgil, magra e destroada, 
e havia crculos profundos ao redor dos seus olhos. - Voc est bem? - Bernardo estava preocupado.
        - Apenas cansada. - Pela primeira vez em 24 horas, ela sorriu.
        Ele podia sentir a tenso que a dominava durante todo o trajeto por Roma. Isabella estava estranhamente reticente, enquanto olhava em silncio e com expresso 
de sofrimento pela janela da limousine.
        - Nada mudou muito. 
        Ele procurou iniciar uma pequena conversa. No queria falar de negcios diante dos seguranas.
        - Mudar no mudou, mas est mais quente. --Lembrou-se de como estava frio na noite em que partira.
        - Como est Alessandro? 
        - Est timo.
        - Isabella ansiava ver a villa, mas sabia que no estava preparada. Ainda no. E tinha muito trabalho para fazer na firma. Para ela fazia mais sentido ficar 
ali mesmo. Havia mais sentido ficar junto  San Gregorio, embora admitisse apenas abertamente para si mesma: Aps ter dado seu corpo a Corbett, no desejara voltar 
para a cama que compartilhara com Amadeo. Agora ela o trara tambm. E para qu? Para uma artimanha. Uma mentira. Sentiu o tropel mansinho do corao ao pararem 
diante da pesada porta preta. Tinha vontade de chorar, mas s pde olh-la fixamente por um instante. Depois, desceu do carro e entrou na Casa de San Gregorio em 
largas passadas, como se nunca tivesse partido. Ningum fora avisado de sua chegada, mas sabia que a notcia se espalharia por toda Roma naquela noite mesmo. No 
ligava a mnima. Que eles a persigam, que faam explodir seus flashes diante do seu rosto; ela no ligava a mnima a isso tampouco. Nada mais a perturbaria ou surpreenderia, 
nada mais. 
        Levada pelo longo hbito, introduziu a chave no elevador e apertou o boto para o quarto andar, enquanto Bernardo a observava, abalado e infeliz. Ele notara 
que alguma coisa horrvel acontecera a Isabella. Estava morta interiormente. O rosto plido, de marfim, que tanto amava, mais parecia uma mscara. Nunca a vira assim, 
nem mesmo durante aquelas horas pavorosas em que aguardavam notcias de Amadeo, nem durante o funeral, ou nem mesmo em seu vo para o exlio. A Isabella que ele 
conhecera durante anos no existia mais.
        Do final do corredor do quarto andar, ela dirigiu-se para a porta da escada que levava  cobertura, com Bernardo acompanhando o pequeno lance de escadas. 
Foi ento que ela finalmente sentou-se, tirou o chapu de feltro e pareceu se descontrair.
        - Allora, va bene, Bernardo?
        - Eu estou bem, Isabella. E voc? Esteve longe durante cinco meses, volta para casa e age como se eu tivesse lepra. 
        Talvez tenha, ela pensou. Disse apenas:
        - Ligou para a F-B? 
        Ele confirmou.
        - Deixou-me doente, mas telefonei. Sabe o que vai significar para as nossas contas?
        - Recuperaremos no ano que vem.
        - O que aconteceu ontem? 
        Ele no tinha coragem de discutir com ela agora. Isabella parecia muito cansada, frgil demais.
        - Fiquei sabendo de uma coisa muito interessante. 
        - E o que foi?
        - Que um amigo de Natasha, que pensei que tivesse se tornado meu amigo tambm, esteve me usando. Para comprar a empresa. Talvez consiga reconhecer o nome, 
Bernardo. Corbett Ewing. No achei graa.
        Bernardo olhou-a, chocado.
        - O que quer dizer, "usando" voc?
        Ela poupou-lhe os detalhes.
        - Nunca imaginei quem ele era. Mas Natasha sabia,  claro. E voc tambm. No tenho meios de saber; no h nenhuma possibilidade de um dia vir a saber. No 
estou certa se essa era a razo pela qual voc insistia para que eu sasse de Roma. Isso no tem mais importncia, Bernardo. Estou em Roma agora. Na verdade, o vilo 
 Ewing. A questo j foi resolvida. No vou vender. E tomei uma deciso que devia ter tomado alguns meses atrs. Exigiu-me certo tempo. Bernardo ficou imaginando 
o que estava para vir. Sentiu uma dolorosa ferroada de sua lcera e aguardou as notcias. 
        - Vou levar comigo para os Estados Unidos a parte principal dos negcios. 
        Fora sugesto de Corbett. Porm, o mais notvel, ele estava certo!
        - O qu? Como?
        - Ainda no resolvi. O setor da alta costura ficar aqui. Gabriela pode dirigi-lo. Viajarei vrias vezes por ano. Essa parte da empresa no precisa da minha 
superviso constante. O resto sim. Do contrrio,  tenso demasiada sobre voc... e sobre mim. - Ela sorria outra vez, debilmente, e observava Bernardo enquanto 
ele assimilava o choque. - Resolveremos juntos, enquanto estou aqui. Mas quero que voc volte comigo. No importa o que aconteceu, preciso de voc. Sempre foi meu 
amigo e  bom demais para se perder.
        - Terei de pensar no assunto. Isso surgiu como uma espcie de impacto. No sei, Isabella... 
        Mas com suas palavras ela s confirmava o que ele j sabia. Ele era apenas seu amigo e funcionrio. Ela jamais o deixaria ser mais. E ele imaginava algo 
mais. Era melhor assim. Isabella sempre teria sido demais para ele lidar como amante. Ela continuava relatando seus planos:
        - No posso mais viver aqui, principalmente sem Alessandro. Quanto a isso, voc estava com a razo. No posso correr o risco. No h nenhuma razo que nos 
impea de dirigir a parte internacional inteira em Nova York. E - ela hesitou outra vez - decidi levar Peroni e Baltare comigo, se desejarem. Dos nossos quatro subdiretores, 
so os nicos que falam ingls. Os outros dois tero de ir. Mas podemos falar sobre o resto depois. E vou dizer uma coisa. - Ela suspirou baixinho e olhou ao seu 
redor. - timo ver algo familiar para variar. Estava excessivamente cansada de ficar to longe de casa.
        - Mas decidiu-se por ficar l. Est segura? 
        - Acho que no tenho escolha.
        - Talvez no. E quanto  villa?
        - Vou fech-la e conserv-la. Ela pertence a Alessandro. Talvez, um dia, ele possa voltar para viver aqui. Mas est na hora de eu estabelecer um lar para 
ele nos Estados Unidos. E est na hora de parar de me esconder. Faz nove meses que Amadeo morreu, Bernardo. Chega.
        Ele assentiu lentamente com a cabea. Nove meses. E quanta coisa havia mudado.
        - E quanto a Natasha? Pelo que conclu, ento vocs tiveram uma desavena?
        - Concluiu corretamente. - No acrescentou mais nada. 
        - Acha mesmo que Ewing tentava for-la?
        - To certa como nunca. Talvez voc saiba mais a respeito do que eu. Isso tambm jamais saberei.
        Era chocante. Agora ela no confiava em ningum. De repente estava amarga e fria. O que o deixou constrangido e assustado. O que ele viu nas trs semanas 
seguintes no contribuiu em nada para faz-lo mudar de idia.
        Isabella participou aos diretores suas decises e examinou cada milmetro da Casa de San Gregorio, indo de sala em sala, de escritrio em escritrio, de 
sala de estoque em sala de estoque, de mesa em mesa, de arquivo em arquivo, andar por andar. Em trs semanas sabia tudo que acontecia e tudo que desejava saber. 
Os dois subdiretores que Isabella convidara para juntarem-se a ela em Nova York concordaram e ela decidiu contratar dois subdiretores americanos para trabalharem 
com eles l. O resto do pessoal estava sendo transferido e dividido. Gabriela ficou imensamente satisfeita. Seria quase autnoma agora na parte de alta costura, 
supervisionada unicamente por Isabella, que confiava plenamente nela. Mas a confiana de Isabella parava a. Estava desconfiada, incrdula, e a maior mudana de 
todas era que Isabella nem brigava mais com Bernardo. No era mais a mulher afvel para quem todos gostavam de trabalhar, de repente era uma mulher a quem todos 
temiam. Qualquer um poderia ser demitido inesperadamente. Seus olhos negros viam tudo, seus ouvidos escutavam tudo. Ela parecia no ter mais suspeitas dele, mas 
continuava desconfiada dos demais.
        - Bem, Bernardo, a quantas andamos?
        Durante o almoo em seu escritrio, ela observava-o. Apenas por um momento, o desejo dele era tocar em sua mo. Queria libert-la desse feitio hediondo, 
assegurar a si mesmo que ela ainda era humana, queria estender-lhe a mo. Tinha dvidas se algum ainda poderia, inclusive ele. A nica hora em que sua voz se animava 
era quando falava com Alessandro ao telefone; em seu telefonema daquela manh, ela lhe prometera que voltaria em breve.
        - Estamos extraordinariamente bem, Isabella. - Bernardo deixou o momento passar com um suspiro. - Considerando o tipo de mudanas que estamos fazendo. Eu 
diria que voc trabalhou esplendidamente. Devemos estar aptos para organizar os escritrios em Nova York dentro de um ms.
        - Isso significa fim de julho, princpio de agosto.  o bastante. - Em seguida veio a pergunta final. A que ele vinha temendo h semanas: - E voc?
        Ele hesitou por um longo momento; por fim, sacudiu a cabea.
        - No posso. 
        Ela parou de comer, depositou o garfo no prato e olhou para Bernardo com ateno. Por um instante parecia a Isabella de outrora, e ele quase sentiu alvio.
        - Por que no?
        - Estive pensando no assunto. No daria certo. - Ela aguardou em silncio enquanto ele prosseguiu - Voc est preparada para dirigir a empresa sozinha. Entende 
do assunto to bem como eu, na verdade at melhor do que Amadeo entendia. No sei se voc se d conta disso.
        - No  verdade.
        -  verdade, sim. - Ele sorriu para ela e Isabella ficou emocionada. - E eu no seria feliz em Nova York. Quero ficar em Roma, Isabella.
        - Fazendo o qu?
        - Vai aparecer alguma coisa. A coisa certa. No devido tempo. Talvez tire at umas longas frias, talvez v para algum lugar, talvez passe um ano na Grcia.
        - Voc enlouqueceu. No poderia viver sem a empresa.
        - Tudo tem de chegar a um fim.
        Ela olhou-o, pensativa.
        - Nada  eterno.
        - Exatamente.
        - Gostaria demais algum tempo para pensar no assunto?
        Ele quase concordou, mas depois tomou a sacudir a cabea. Era intil. Estava tudo acabado.
        - No, cara, no gostaria. No quero viver em Nova York. Como voc disse quando aqui chegou, basta.
        - No me referia a voc.
        - Eu sei. Mas est na hora para mim. 
        De repente, enquanto olhava para ela, ele viu lgrimas em seus olhos. O rosto crispado, cansado, com os grandes olhos negros apertados. Ele moveu-se para 
sentar-se ao lado dela no sof de couro e tomou-a nos braos.
        - No chore, Bellezza. Isabellezza...
        Isabellezza... Ao som daquela palavra ela virou a cabea e rompeu em soluos.
        - Oh, Bernardo, no existe mais nenhuma Isabellezza. 
        - Sempre existir. Para mim. Jamais esquecerei aqueles tempos, Isabella. Nem voc esquecer.
        - Mas terminaram. Tudo mudou.
        - Tem de mudar. Voc est certa ao mudar a San Gregorio. A nica coisa que est errada em mudar  voc.
        - Mas estou to confusa! 
        Ela parou por um instante para assoar o nariz no leno dele, enquanto Bernardo passava a mo gentilmente pelos seus cabelos.
        - Sei que est. No confia em mais ningum.  natural, depois do que aconteceu. Porm, agora, precisa livrar-se disso. Precisa parar, antes que deixe que 
isso a destrua. Amadeo morreu, Isabella. Mas voc no pode deixar-se morrer tambm. 
        - Por que no? 
        Ela parecia uma menina inconsolvel, ali sentada ao lado dele, enquanto assoava o nariz outra vez. 
        - Porque voc  muito especial, Bellezza. Partiria meu corao se permanecesse assim, zangada, infeliz, desconfiada de todos. Por favor, Isabella, voc precisa 
libertar-se do passado e tentar outra vez.
        Ela no lhe contou que fizera exatamente isso e que fora magoada mais do que j havia sido antes.
        - No sei, Bernardo. Muita coisa mudou nesse ano que passou.
        - Mas voc ver. Vai descobrir, no devido tempo, que algumas dessas mudanas foram boas tambm. Est tomando a deciso certa ao levar a empresa para a Amrica.
        - Espero que sim.
        - A propsito, o que vai fazer com a villa?
        - Comearei a empacotar as coisas na prxima semana. 
        - Vai levar tudo com voc?
        - Tudo no. Deixarei algumas coisas aqui. 
        - Posso ajud-la?
        Ela assentiu lentamente com a cabea.
        - Tornaria mais fcil. Ando com medo de voltar para l. 
        Ele tambm assentiu com a cabea e sorriu enquanto ela assoava o nariz pela ltima vez.














































Captulo Vinte e Quatro



        O carro dobrou na entrada de cascalho e parou diante da familiar porta da frente. Isabella olhou-a pensativa por um momento, antes de descer. De alguma forma, 
a casa parecia-lhe maior e o espao ao redor estranhamente silencioso. Por um instante, deu-lhe a impresso que voltava de uma longa viagem. Esperava vislumbrar 
o rosto de Alessandro na janela, a seguir, um minuto depois, v-lo saltitando para vir ao seu encontro, mas ele no veio. Ningum veio. Nada se moveu.
        Bernardo permanecia silencioso atrs dela enquanto Isabella comeava a caminhar lentamente para a casa. Nas cinco semanas em que estava em Roma, ainda no 
viera at aqui. De certa forma, em seu corao, ela na realidade no tinha voltado. Viera para Roma a fim de prestar assistncia  sua empresa. Mas isto era algo 
diferente, algo ntimo, um pedao do passado. E ela prpria sabia que no estava preparada para v-la. Agora que estava de volta, sentia-se grata por no estar sozinha. 
Ento olhou de relance por sobre o ombro com um sorriso suave, lembrando-se de Bernardo. Mas os olhos negros no estavam sorrindo; pareciam infelizes e distantes 
quando Isabella olhou  sua volta e depois tocou a campainha. Tinha a prpria chave, mas no queria us-la. Era o mesmo que visitar algum agora. Algum que ela 
fora outrora.
        Bernardo estava atento quando uma criada abriu a porta e Isabella entrou. Ele avisara o pessoal. A signora di San Gregorio estava de volta. A notcia foi 
recebida com agitao e alvoroo: com Alessandro? Para sempre? Tinha-se seguido um lufa-lufa de planos, que quartos abrir, que refeies preparar. Mas Bernardo apressara-se 
em dispersar as iluses. Ela no ficar hospedada na villa e vir sozinha. Alessandro ainda estava na Amrica. A seguir, ele desferira o derradeiro golpe. Ela fecharia 
a casa.
        De qualquer modo, a casa j no era mais a mesma. As figuras centrais do corpo domstico j tinham ido embora. Mamma Teresa partira em abril, compreendendo 
finalmente que seu pupilo ficaria afastado durante um tempo muito longo. Bernardo falara francamente com ela, os riscos eram grandes demais. O menino ficaria afastado 
por um ano, talvez um pouco menos ou, provavelmente, um pouco mais. Ela fora trabalhar para uma famlia em Bolonha, com trs filhas e dois meninos. Jamais se recuperara 
inteiramente do modo como Isabella a deixara, sem sequer avis-la que estava tirando Alessandro dela, na escurido da noite, abandonando a cama dele vazia e deixando 
seu quarto trancado e a mulher que o protegera e amara para trs. Luisa arranjara emprego para o vero, em San Remo, com as pessoas para quem j havia trabalhado 
certa vez. E Enzo aposentara-se; seu quarto sobre a garagem estava vazio. Pesarosas, h muito que as trs estrelas de primeira grandeza do corpo domstico tinham 
partido. Agora havia apenas os corpos celestes secundrios para ajudar Isabella.
        Bernardo encomendara um nmero incontvel de caixas, que foram deixadas no vestbulo. Isabella viu-as assim que entrou. Silenciosamente, ficou parada, olhando-as, 
mas seus olhos deixaram-se levar dali. Isabella parecia estar aguardando; por rudos familiares, por sons que ali ouvira, por vozes que no estavam mais. Bernardo 
observava-a, cautelosamente retrado. 
        Ela colocou a jaqueta leve de linho numa cadeira e comeou a caminhar pelo longo vestbulo, seus passos soando ocos. Passaram-se apenas cinco meses desde 
a noite em que ela fugira com Alessandro? Cinco meses desde que ela percorrera furtiva aquele vestbulo, reunindo valises e Alessandro em suas pantufas vermelhas, 
sussurrando "psiu" e prometendo aventura? "Vamos para a frica, mamma?" Ela sorriu e perambulou pela sala de estar. Olhou para o relgio Faberg azul, o mesmo que 
consultara com tanta intensidade na noite em que ficara aguardando por Amadeo, quando iam a um jantar na casa da principessa, na noite em que ele se atrasara tanto, 
na noite em que desaparecera. Sentou-se pesadamente na chaise longue ao lado da janela, olhando para Bernardo, com uma expresso vazia.
        Nem mesmo sei por onde comear. 
        Seus olhos estavam marejados e pesados, e ele assentiu com a cabea, entendendo. 
        - Est certo, Bellezza. Faremos tudo devagar, quarto por quarto.
        - Levar anos.
        Olhou para o jardim. O carrossel que ela dera a Alessandro no Natal estava envolto por uma lona, os sinos e a msica em silncio. Brotaram lgrimas em seus 
olhos, mas ela sorriu. Bernardo a observava, lembrando-se daquela noite, como ele tambm estava. Remexeu no bolso e retirou algo que ficou segurando.
        - No ltimo Natal no cheguei a lhe dar isto. Receei que a faria muito infeliz se lhe desse um presente. - O Natal com Amadeo sempre significara originalidade, 
uma jia ou objetos singulares, pequenos tesouros e livros notveis que ela cobiava, pequenas surpresas que ela sempre adorara. De modo algum Bernardo poderia ter 
feito o mesmo para agrad-la e ele ficara, inclusive, receoso de tentar. Mas tinha ido ao Alfredo Paccioli e comprara uma coisa que agora, cinco meses depois, ele 
lhe oferecia. - Depois me senti pssimo por no lhe dar nada. 
        Silenciosamente, tateou o relgio de bolso agora familiar, que fora de Amadeo. Usava-o sempre.
        Bernardo entregou-lhe o pacotinho. Ela o recebeu, seus olhos marejaram-se de lgrimas, e sentou-se outra vez com um pequeno sorriso.
        - No precisa me dar presentes, Bernardo.
        Mas pegou-o e abriu-o, depois ergueu os olhos para o amigo, sem fala pela emoo. Era um anel de ouro grande, com o selo da San Gregorio cuidadosamente gravado, 
impecavelmente cinzelado na superfcie lisa de uma pedra preta. Era nix, e suas propores eram perfeitas em sua mo longa e fina. Ela colocou-o antes da aliana 
e seus olhos arregalaram-se, tornando a umedecer.
        - Bernardo, voc  doido...
        - No, no sou. Gosta? - De onde se achava, lanou-lhe um sorriso, parecendo muito jovem para ela, quase um garoto.
        -  perfeito. - Contemplou o anel mais uma vez.
        - Se gostar dele a metade do que gosto do meu relgio de bolso, ficarei feliz.
        Sem falar mais nada, ela levantou-se e dirigiu-se a ele. Por um momento, ficaram estreitamente abraados, e ele sentiu as batidas do corao de Isabella 
ao mant-la junto a si.
        - Obrigada.
        - Va bene, Bellezza. No, no chore. Vamos, temos um trabalho a fazer. - Separaram-se sem pressa, ele tirou o palet e soltou as abotoaduras enquanto ela 
observava. - Por onde comeamos?
        - Meu quarto?
        Ele concordou com a cabea e, de mos dadas, encaminharam-se com determinao para o corredor. Ela estava dividindo tudo em trs categorias. As coisas que 
deixaria na casa sob capas contra poeira, para serem apanhadas por ela, um dia, talvez, ou postas em uso na casa se Alessandro viesse a reabri-la, se, j adulto, 
voltasse para Roma. As coisas que empacotaria e mandaria para a Amrica. E os objetos preciosos que no poderiam ficar abandonados ali, mas teriam de ser postos 
em um guarda-mveis. Desses, ela concluiu, havia poucos. Coisas que valiam a pena levar com ela ou poderiam ficar em Roma, na casa. Coisas como o piano de cauda 
e algumas peas da moblia grande e antiga que estivera durante anos na famlia de Amadeo, mas das quais nenhum dos dois gostara muito. A maioria dos tapetes ela 
deixaria no guarda-mveis. Talvez no se adaptassem ao seu novo apartamento. As cortinas ficariam nas janelas para as quais tinham sido feitas. Os candelabros de 
parede e os lustres ficariam. No queria deixar buracos ou fendas expostos na casa. Quando Alessandro um dia voltasse, ela queria que a casa ainda tivesse a aparncia 
de um lar, no de um lugar que algum tivesse saqueado ao preparar-se para fugir.
        - Allora. -Lanou um olhar para Bernardo. - Avanti! 
        Ele sorriu-lhe, e comearam a embalar as coisas. Primeiro, no quarto dela, depois no de Alessandro, a seguir seu boudoir, ento, finalmente, pararam para 
almoar. O santurio sagrado estava sendo desmantelado, as caixas agrupadas em pilhas interminveis no vestbulo, e Isabella estava satisfeita enquanto olhava ao 
seu redor. Era uma boa oportunidade para separar suas coisas favoritas das que no lhe interessavam realmente. Bernardo observara-a com ateno, mas no aparecera 
uma lgrima sequer desde o instante em que comearam. Isabella readquirira o autocontrole. Estavam almoando no jardim.
        - O que vai fazer com o carrossel? - perguntou Bernardo. 
        Ele mastigava com firmeza e energia um sanduche de presunto defumado e tomate. Isabella servia vinho branco a ambos.
        - No posso lev-lo. Nem mesmo sei onde vamos morar. Talvez nem tenhamos um jardim.
        - Se puder t-lo, avise-me. Mandarei encaixot-lo. Alessandro adoraria.
        Ela olhou para Bernardo.  
        Ir nos visitar?
        -  claro que irei. Posteriormente. Mas antes - ele parecia vitorioso - vou  Grcia.
        - J decidiu ento?
        - Est tudo acertado. Na semana passada, aluguei uma casa em Corfu, por seis meses.
        - E depois disso? - Ela bebeu outro gole de vinho. - Talvez devesse ir a Nova York e fazer uma avaliao cuidadosa. 
        Ele sacudiu a cabea.
        - No, Bellezza, ambos sabemos que tomamos as decises certas. Farei alguma coisa por aqui.
        - Para um dos meus rivais? 
        Seu olhar de preocupao era apenas meio srio, porm, ele tornou a sacudir a cabea. 
        - Voc no tem nenhum, Isabella. E eu no suportaria trabalhar com um profissional de segunda aps ter trabalhado para voc. J recebi cinco ofertas.
        - Santo Deus,  mesmo? De quem? - Ele mencionou, e ela mostrou-se desdenhosa. - Esses fazem lixo, Bernardo! No!
        -  claro que no! Mas pode surgir outra coisa. Houve uma oferta que me deixou intrigado. - Ele contou-lhe. Era o maior designer de roupa masculina da Itlia, 
que tambm fazia provas particulares em Londres e na Frana.
        - E isso no iria aborrec-lo?
        - Talvez. Mas precisam de algum que dirija a empresa. O velho Feleronio morreu em junho, o filho vive na Austrlia e  mdico, a filha no entende nada 
do negcio. E - Bernardo lanou-lhe um olhar malicioso - no querem vend-la. Querem algum que dirija para eles, assim podem continuar vivendo como reis. Acho que 
no final acabaro vendendo, porm no antes de cinco ou dez anos talvez. Me daria um bocado de liberdade para fazer o que eu quisesse. - Lanou-lhe um sorriso.
        - Prossiga, diga logo. Uma coisa que nunca teve comigo. 
        - Eu no a teria respeitado tanto se voc desempenhasse papel sem importncia. E no h razo para desempenhar, pois conhece mais esse negcio do que qualquer 
um na Europa.
        - E nos Estados Unidos - ela acrescentou, com orgulho. 
        - E nos Estados Unidos. E se fizer a metade de um bom trabalho ensinando Alessandro, a San Gregorio continuar por mais cem anos.
        - s vezes me preocupo a esse respeito. E se ele no quiser?
        - Vai querer.
        - Como pode saber?
        - J conversou com ele sobre o assunto? Alessandro mais parece um menino de quinze do que de cinco anos. Talvez no tenha realmente seu olho para o design 
e cor, mas o funcionamento, a engenhosidade e o mecanismo da San Gregorio j esto no sangue dele. Como em Amadeo. Como em voc.
        - Espero que sim. - Ela fez uma anotao mental para falar com o filho a respeito quando voltasse. - Sinto terrivelmente a falta dele - acrescentou - e acho 
que est ficando zangado. Quer saber quando vou voltar.
        - Quando voc vai?
        - Dentro de um ms.  bastante razovel. Natasha alugou uma casa em East Hampton para o vero. Ele pode ficar na praia enquanto termino aqui e, depois, enquanto 
procuro um apartamento em Nova York.
        - Vai ficar extremamente ocupada. Tem de procurar um local para os escritrios temporrios. Os rapazes estaro chegando l duas semanas depois de voc... 
sem falar que precisa escolher sua casa definitiva e um arquiteto para faz-la, uma casa para voc e Alessandro.
        - Enquanto voc fica passeando na Grcia!
        Ele esboou um largo sorriso.
        - Eu mereo, criatura desnaturada.
        - Vamos - disse ela - vamos voltar ao trabalho.
        Trabalharam at as onze da noite, separando os tesouros da sala de estar, embalando o que podiam e deixando o resto para os embaladores profissionais. Etiquetas 
vermelhas indicavam o que ia com ela, as azuis o que ficaria em Roma e as verdes o que iria para o guarda-mveis. Depois, havia o restante, o inevitvel excedente 
que vem  tona na vida de toda pessoa quando muda de residncia. Mesmo para Isabella, com seus mveis Lus XV, seus mrmores, seu relgio Faberg, havia ainda os 
brinquedos quebrados, coisas que ela detestava, livros que no queria mais e loua rachada.
        Naquela noite, Bernardo deixou-a na Casa de San Gregorio e voltou para apanh-la no dia seguinte. Durante as trs semanas seguintes, eles deixavam o trabalho 
cedo, chegando  villa por volta das duas e s saindo depois da meia-noite. Na quarta semana a tarefa terminara.
        Isabella ficou parada por um ltimo e solitrio momento entre a montanha de caixas empilhadas em ordem na sala de estar e no vest-lo. Um mar de etiquetas 
vermelhas, os tesouros que ela estava enviando para Nova York. De repente, a casa produziu um eco estranho; as luzes estavam apagadas. Eram duas da manh. 
        - Voc no vem? - Bernardo j aguardava na entrada para automveis.
        - Espere! - Ela gritou. Exatamente quando pensava. O qu? Ele estava chegando? Ia ouvir seus passos? Do homem que se fora h dez meses. Ela sussurrou docemente 
na escurido: - Amadeo?
        Ela ficou esperando, ouvindo, prestando ateno, como se ele pudesse voltar para ela e dizer-lhe que seu desaparecimento no passara de uma brincadeira. 
Que ela devia parar com tudo e desfazer as caixas. Na verdade, no houve nenhum seqestro... ou tinha havido, mas eles mataram outra pessoa. Ela ficou ali de p 
parada, trmula, sozinha, durante um minuto que pareceu uma hora. Ento, com as lgrimas escorrendo-lhe pelas faces, fechou suavemente a porta e trancou-a. Segurou 
o trinco um derradeiro instante, sabendo que jamais voltaria.

Captulo Vinte e Cinco



        - Voc ir me visitar? Promete? 
        Ela agarrava-se a Bernardo no aeroporto. Ambos estiveram chorando. Agora ele enxugava os olhos dela com seu leno e o passava rudemente nos seus.
        - Prometo.
        Ele sabia como Isabella ficara de repente nervosa a respeito de dirigir a empresa sozinha em Nova York. Isabella estava provendo-a sensatamente de auxiliares. 
Peroni e Baltare no tinham imaginao, mas eram firmes. Isabella no precisava de ningum com imaginao, pois a possua e sobra por todos eles.
        - D um beijo em Alessandro por mim - disse ele.
        Ela chorava de novo.
        - Darei. 
        Fora uma semana insuportvel de despedidas. Na villa. Na casa. Com Gabriela, que s a veria na sua prxima viagem a Roma, dentro de trs meses. Mas, ainda 
assim, havia a dor constante da partida, e agora Bernardo. De certa forma, era o mesmo que partir como fizera seis meses antes. Mas desta vez, era em plena luz do 
dia, do aeroporto de Roma, com os dois guarda-costas parecendo entediados, e no houvera mais nenhum telefonema dos manacos. Finalmente estava terminado. 
        At Bernardo concordara que ela estaria a salvo sendo vista em Nova York. No era segredo que a empresa estava sendo transferida, e haveria fotos e telefonemas 
da imprensa. Mas a polcia tinha lhe assegurado que ela no corria mais nenhum perigo real. S precisava ser sensata e, talvez, um pouco cautelosa com Alessandro, 
porm no mais do que qualquer pessoa em sua posio. Ela aprendera bem a lio. Dolorosamente bem.
        Beijou Bernardo pela ltima vez, e ele sorriu para ela, mais uma vez atravs das prprias lgrimas.
        - Ciao, Isabellezza. Cuide-se. 
        - Ciao, Nardo. Amo voc.
        Abraaram-se estreitamente pela ltima vez, e ela embarcou no avio. Sozinha desta vez, sem guarda-costas, na primeira classe, com seu nome na lista de passageiros. 
Escorriam lgrimas os seus olhos. Dormiu durante trs horas, depois lhe apresentaram um jantar leve. A seguir ela tirou alguns papis da pasta e sorriu diante da 
perspectiva de ver Alessandro. H dois meses que no o via.
        Quando o avio aterrissou em Nova York, ela passou rapidamente pela alfndega, sem nenhum receio desta vez. Lembrou-se da ltima vez que chegara em Nova 
York, exausta, aterrorizada, suas jias escondidas na bolsa a tiracolo, os guarda-costas ao seu lado e o filho em seus braos. Hoje, as autoridades alfandegrias 
a liberaram com um aceno, e ela murmurou um rpido "obrigada", passando pelo porto, os olhos esquadrinhando o aeroporto.
        Ento, ela os viu, Natasha e os meninos, esperando. Correu na direo deles e tomou Alessandro nos braos.
        - Mamma!... Mamma! - Os gritos do menino invadiram o aeroporto inteiro. Ela o envolveu com fora em seus braos. 
        - Oh, querido, como eu amo voc... oh, e voc est to moreninho! Bernardo te mandou um beijo...
        - Trouxe meu carrossel? - Seus olhos estavam arregalados e felizes, um reflexo dos da me.
        - Ainda no. Se encontrarmos uma casa com jardim, pedirei que o mandem, mas voc j est um pouquinho crescido para ele, sabe disso.
        - Carrossis so para nenns. 
        Jason olhou-os, aborrecido com todos aqueles beijos e abraos. Aquele tipo de tolice no era prprio de um homem. Mas, de qualquer modo, Isabella beijou-o 
e fez-lhe ccegas, e ele de repente riu.
        - Esperem at ver o que eu trouxe para vocs dois! 
        Houve gritos de excitao e mais risadas, e Isabella ergueu os olhos para Natasha. A expresso do seu rosto ficou mais moderada, mas ela sorriu gentilmente.
        - Como vai?
        Por um instante, Natasha hesitou, em seguida caram nos braos uma da outra.
        - Tambm senti muita falta de voc, sabe disso.
        - Tambm senti. Foi horrvel no ter a colega de apartamento.
        Ambas riram outra vez. Enquanto caminhavam juntas, Natasha saia que Isabella no estava mais zangada. O brilho da angstia toldara-se um pouco nos olhos 
da amiga. 
        - Quase ca dura quando voc disse que estava transferindo a empresa. O que disseram em Roma?
        - O mesmo que voc. O nico que achou maravilhoso foi Bernardo. Ele sabia que eu estava certa ao fazer isso. Vai ser uma loucura durante algum tempo. Tenho 
milhes de coisas para fazer. - Gemeu s em pensar.
        - Eu ajudarei.
        - Voc no est em East Hampton? - Todos pareciam bronzeados e saudveis devido a um ms ao sol.
        - Estou, mas posso deixar os meninos com Hattie. 
        Isabella assentiu.
        - Certo. 
        Tinha algumas arestas a aparar com Natasha. O caso com Corbett no importava mais tanto assim. Talvez a inteno de Natasha tivesse sido boa. Mas no importava. 
Isabella no queria saber. O assunto estava encerrado entre elas. Dessa vez no havia nenhum Rolls-Royce, apenas a limousine comum que Natasha s vezes alugava e 
que levara Isabella quela pr-estria desastrosa em abril. Isabella sorriu para ela. Parecia que mil anos tinham se passado.
        Foram para o apartamento. Os meninos abriram os embrulhos, gritando e rindo, experimentando suteres e chapus bizarros, jogando com novos jogos e brincando 
com seus brinquedos. Finalmente, sorrindo com timidez, Isabella ofereceu um embrulho a Natasha.
        - Este  para voc.
        - Ora, Isabella. Que tolice  essa?
        - No interessa. Abra. 
        Era o requinte da alta costura da nova coleo de inverno, lanada em junho. Um vestido azul, de cashmere macio, com um casaco azul combinando. Natasha ergueu-o 
diante do espelho, cheia de admirao.
        -  magnfico.
        - Combina com seus olhos. - Das camadas de papel, Isabella retirou uma echarpe e um chapu. - Pode us-lo para almoar com seu editor.
        - Essa no! Por que desperdiar com ele?
        - Ento pode usar para almoar comigo. No Lutece. 
        Natasha olhou-a fixamente.
        - Vai sair outra vez?
        Isabella confirmou com um gesto de cabea.
        - Agora j est tudo bem. J est na hora. 
        Corbett estivera certo, pensou, sua priso no durara para sempre. Apenas dez meses, embora lhe parecesse uma vida inteira.
        Pela manh, Natasha e os meninos voltaram para East Hampton e Isabella foi trabalhar. Desta vez no ia telefonar para Roma, mas para quatro corretores de 
imveis que a levaram de uma extremidade  outra da Park Avenue e de cima a baixo da Quinta Avenida. Em uma semana, Isabella j tinha lugar para um escritrio temporrio, 
contratara cinco secretrias bilnges, alugara montes de equipamento e encomendara telefones. No era o ideal, mas um comeo.
        No final da segunda semana, ela encontrou o que procurava. No alto do mais elevado arranha-cu da cidade, dois andares para a Casa de San Gregorio, com vista 
para toda a cidade de Nova York.
        Para encontrar o apartamento, ela levara mais tempo, mas, no final de duas semanas de procura, ela estava de p, numa cobertura da Quinta Avenida, olhando 
o panorama. L estava o movimento circular do Central Park aos seus ps, o rio Hudson mais alm e a silhueta da cidade  sua esquerda, tendo pela frente o sul. O 
apartamento em si era espaoso e encantador. Tinha quatro quartos, um para ela mesma, outro para Alessandro, um quarto de hspedes e outro que Isabella poderia usar 
como gabinete de leitura, duas dependncias de empregada, uma sala de jantar enorme com lareira, uma sala de estar dupla e um amplo corredor e vestbulo que a faziam 
lembrar-se vagamente da casa de Roma. O corretor ficara observando-a atentamente.
        - Gostou?
        - Ficarei com ele.
        O edifcio possua um exrcito de porteiros e auxiliares, mais do que no edifcio de Natasha, doze quarteires ao sul. No dia seguinte, Natasha veio de East 
Hampton para v-lo. 
        - Meu Deus, Isabella, que vista! - Isabella estava de p, orgulhosa, em seu novo terrao. Haveria lugar, inclusive, para o carrossel, se ele conseguisse 
sobreviver s neves de inverno de Nova York. - Quando vai mudar?
        - Bem, ontem telefonei para a empresa de mudanas. O navio chega amanh. Estava pensando no prximo sbado. Tenho que acabar logo com isso, assim posso voltar 
para trabalhar. 
        Seus auxiliares de confiana, de Roma, j haviam chegado e todos estavam ansiosos para comear e pr mos  obra. 
        Mas Natasha pareceu triste de repente.
        - To cedo? - Isabella sacudiu a cabea. - Isso  horrvel. Sentirei muito sua falta. E Jason diz que ficar com medo de dormir sozinho no quarto.
        - Ele pode vir nos visitar todo fim de semana - Isabella sorriu-lhe.
        - Sinto-me como se estivesse me divorciando de novo. 
        - Mas no est no.
        Durante o calor intenso de uma tarde de setembro, as duas mulheres olhavam uma para a outra, e Isabella decidiu afinal mencionar o assunto doloroso. Devia 
isso  amiga.
        - Devo-lhe uma desculpa, Natasha.
        No mesmo instante, Natasha compreendeu do que Isabella estava falando, mas sacudiu a cabea e olhou ao longe.
        - No, no me deve.
        - Devo-lhe sim. No compreendo o que realmente aconteceu. Eu estava zangada com Corbett. Mas errei ao agredi-la. No sei se voc tentou me ajudar, ou no, 
mas isso no importa. Se o fez, foi levada por boas intenes. Eu sei. E sinto muito tudo o que disse.
        Mas agora Natasha olhou-a intensamente. 
        - Voc est errada a respeito dele.
        - Isso jamais saberei.
        - Poderia conversar com ele, deixar que ele lhe contasse. Poderia ao menos dar-lhe essa oportunidade.
        Isabella apenas sacudiu a cabea.
        - Nada dura eternamente. Nem o bom. Nem o ruim. Corbett disse-me isso no comeo. Ele tinha razo.
        - Ele ainda a ama. - Natasha pronunciou as palavras suavemente.
        - Ento voc o tem visto? 
        Isabella procurou os olhos da amiga. Natasha confirmou com a cabea.
        - Ele compreende o que aconteceu. Talvez melhor do que voc. Desde o princpio ele receava esse desfecho. O nico erro que ele cometeu foi no lhe contar 
logo.
        - Agora no faz diferena. Est acabado.
        Sentindo-se infeliz, Natasha sabia que Isabella falava srio. Para ela, estava acabado. Mas no para Corbett ou para o menino. Mas Natasha no disse nada, 
e Isabella no falou mais de Corbett at essa tarde. Ela contava para Alessandro a respeito do apartamento. 
        - Voc est dizendo que posso ter meu carrossel?
        - Claro que sim. J telefonei para Roma.
        - Mamma!... Mamma! Espere at Corbett ver ele. 
        Seus olhos cintilavam e, por um instante, tudo parou. Isabella olhou-o de modo estranho, depois sacudiu a cabea.
        - Ele no o ver, querido.
        - Ele vai ver sim! Ele  meu amigo. 
        Uma expresso de desafio luzia nos olhos escuros de Alessandro. Ningum dissera nada a ele, mas o menino sentira uma brecha entre sua me e seu amigo. Alessandro 
no gostou. De jeito nenhum. Podia afirmar isso pelo modo como Corbett falava de sua me. Como se ele a temesse. Como se ela estivesse morta. 
        - Eu o convidarei para ver o carrossel. - Ergueu os olhos para a me, com uma expresso de desafio, mas a voz de Isabella tornou-se spera. 
        - No, Alessandro, voc no vai convid-lo.
        - Vou sim. Prometi a ele, neste vero. 
        - Prometeu? Quando?
        - Quando vi ele na praia. Ele tambm estava em East Hampton.
        Ento Isabella virou-se rpido e foi  procura de Natasha. Mais uma vez encontrou-a em seu escritrio, com uma xcara de caf na mo, lendo uma pgina nova. 
Isabella fechou a porta com violncia aps entrar. Natasha deu um pulo com o rudo, depois olhou com ateno para a amiga como se ela tivesse perdido o juzo.
        - O que h?
        A expresso de Isabella era estranhamente conhecida, mas antes que Natasha pudesse reconhec-la, a amiga comeou a esbravejar.
        - Por que no me disse? Que ele estava em East Hampton durante o vero, grudado em Alessandro, tentando reaproximar-se de mim!
        Natasha levantou-se, com as mos na cintura. Desta vez no seria condescendente.
        - Alessandro precisa dele, Isabella. E Corbett no est tentando aproximar-se de voc. Pare com essa parania, pelo amor de Deus! O que h com voc? Acha 
que todo mundo quer roubar sua maldita empresa, todo mundo est usando voc e seu filho?
        - Mas esto, droga! Tiraram meu marido tambm.
        - Eles tiraram. Eles. Pessoas loucas, que queriam dinheiro. Mas isso terminou, Isabella. Terminou! Agora ningum est procurando prejudic-la.
        - Pouco me importa. No quero aquele homem perto do meu filho.
        - Est enganada. Mas diga isso a ele, no a mim.
        - Mas voc sabia! Sabia como me sentia quando fui para Roma.
        - Pensei que recobrasse o juzo, que passasse por cima disso tudo.
        - No vou passar por cima de nada. J recobrei o juzo. No minuto em que Bernardo mencionou o nome dele. No quero aquele homem ao lado de Alessandro novamente. 
- Depois saiu do escritrio de Natasha batendo a porta. 
        Foi para o seu quarto e, com mo trmula, pegou no telefone. Ele apressou-se em atender.
        - Isabella? Aconteceu alguma coisa?
        - Muita coisa. E quero v-lo. Agora!  possvel? 
        - Estarei a em meia hora.
        - timo. Encontrarei com voc l embaixo. 
        Ela no queria que Alessandro o visse. Consultou o relgio do quarto, e 25 minutos depois desceu. Quatro minutos mais tarde, o Rolls Royce parou na porta 
do prdio. Corbett estava sozinho no carro. Ele desceu e abriu a porta para ela. Isabella entrou discretamente no carro, mas quando Corbett comeou a virar a ignio, 
ela fez um gesto rpido com a mo, exibindo o anel que ganhara de Bernardo.
        Ele notou e compreendeu no mesmo instante o que a jia significava. Ele queria dizer-lhe que era bonito, que ela estava linda, que ainda a amava, mas Isabella 
no lhe deu oportunidade.
        - No se incomode, Corbett. No vou a canto algum com voc. Mas no queria falar l em cima, onde Alessandro poderia nos ouvir.
        Preocupado, o rosto dele retesou-se. 
        - O que aconteceu?
        - Quero que se afaste do meu filho. Ficou claro? Quero voc fora da vida dele, total, permanente e completamente. Estou farta dos seus estratagemas... influenciando 
meus amigos, meus assistentes, em minha empresa, e agora meu filho. Quanto aos outros, tinha o direito de fazer; como conduz seus negcios, s compete a voc saber. 
Mas quando me usa pessoalmente ou meu filho, Corbett, ento est se envolvendo numa guerra que s pode perder. Se tornar a se aproximar do menino, se lhe mandar 
presentes, se tentar v-lo ou falar com ele, ou se deix-lo telefonar para voc, chamarei a policia e meu advogado. Eu o processarei por estar nos molestando. Tomarei 
seus negcios e o verei na cadeia. Molestar um menor, tentativa de seqestro, estupro, chame como quiser, mas fique totalmente afastado do meu filho!
        Ela gritava to alto que o porteiro a teria ouvido se Corbett no tivesse tomado a precauo de fechar os vidros do carro.
        Ele ficou olhando-a por um instante, no acreditando no que ouvia. Depois, foi dominado pela raiva.
        -  isso o que acha que estou fazendo, Isabella? - perguntou. - Usando o menino para tomar a me aproximar de voc?  o que pensa?  mesmo? Como voc  pretensiosa, 
arrogante e incrivelmente imbecil! Meses atrs, eu lhe disse que devia continuar com sua empresa, disse que minhas ofertas tinham sido retiradas. Apaixonei-me e, 
para falar a verdade, sentia enorme pena de voc. Trancada como um animal, com medo de todo mundo, no confiando em ningum. Voc passou um perodo de infortnio 
na vida, Isabella. E o mesmo aconteceu com o menino. Ele perdeu o pai; est to solitrio como voc. E quer saber de uma coisa? Amo aquele menino.  uma criana 
maravilhosa. E ele precisa de mim. Precisa muito mais do que voc! Voc  uma maldita mquina. Sua empresa, sua empresa, sua empresa! Estou farto de ouvir isso. 
Agora me deixe em paz e saia imediatamente do meu carro!
        Antes que Isabella pudesse responder, ele j descera do carro de um salto, contornara a frente do Rolls Royce e segurava a porta aberta para ela, enquanto 
ela, aturdida, descia.
        - Espero que me tenha feito entender por voc. - Ela olhou-o com expresso de frieza.
        - Completamente - respondeu ele. - Adeus.
        Corbett voltou para o carro e, antes que ela tivesse entrado no edifcio, ele j havia partido.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
Captulo Vinte e Seis
      
      
        
         - Demoro a me organizar sempre que mudo de local, Natascha, mas do jeito como eles esto demorando para se organizar nos novos escritrios, no terei que 
me preocupar com isso novamente at o ano que vem. Vo levar sculos.
        - Tolice. H quanto tempo j esto ali? - Ela esboou um largo sorriso para Isabella. - Duas semanas?
        Isabella retribuiu o sorriso. 
        - Seis.
        - Pacincia, pacincia!
        - Uma virtude pela qual jamais fui conhecida.
        - Voc est aprendendo. 
        Ela aprendera muito no ano que passou.
        - Que tal a sensao de sair outra vez?
        - Magnfica. - Em seguida, ficou sria. - Mas um pouco estranha. Continuo aguardando que algo acontea. Algo horrvel. Algo inevitvel. Que a imprensa faa 
explodir seus flashes no meu rosto, em seguida as ameaas, os telefonemas dos manacos.
        - E tem havido tais telefonemas?
        Isabella sacudiu a cabea, esboando um lento sorriso. 
        - No, s das reprteres da Women's Wear Dady, que desejam saber o que estou comendo ou o que vou vestir. Mas leva muito tempo para se esquecer o pesadelo, 
Natasha. Um tempo muito, muito longo. 
        Pelo menos ela j no aguardava mais que Amadeo voltasse para casa  noite. Levara um ano. 
        - O que me faz lembrar de uma coisa. - Voltou seus pensamentos para algo alegre. - Quero que jante comigo amanh  noite. Est ocupada?
        -  claro que no. O homem com quem gastei minhas energias durante o vero acaba de voltar para a esposa. O miservel!
        Isabella exibiu um largo sorriso, e ambas disseram juntas: 
        - Nada permanece eternamente.
        A suave iluminao rosada animava os rostos conhecidos, rostos que geralmente se viam nas revistas de modas ou nas capas do Fortune ou do Time. Estrelas 
de cinema, magnatas, editores, autores, empresrios. Os muito bons naquilo que faziam e os muito ricos porque simplesmente o eram. As mesas estavam colocadas juntas, 
as chamas das velas sobre as toalhas cor-de-rosa danavam na brisa suave que vinha do jardim e os diamantes de todos pareciam cintilar, enquanto os rostos esfuziantes 
conversavam e riam. O Lutece jamais esteve to encantador.
        Como entrada, pediram caviar, fil mignon e salmo escaldado para cada uma. Meia garrafa de vinho tinto para Isabella e meia de branco para o peixe de Natasha. 
A salada constava de palmito e endvia e, como sobremesa, morangos grandes e lindos. Isabella parecia  vontade e feliz, quando de repente Natasha notou seu vestido.
        - O que houve? 
        Isabella olhava com ateno para a amiga, mas esta apenas ficou sentada ali, com uma expresso de espanto nos olhos.
        - Durante o ano inteiro voc se assemelha a uma freira ou a um espantalho e, de sbito, muda completamente e eu nem sequer comentei!
        Isabella apenas sorriu. O perodo de luto oficial terminara e, nessa noite, pela primeira vez, ela usava o mais suave tom de malva e branco. O traje era 
composto de um tubinho branco de gabardine, criao sua e, por cima dele, uma tnica malva de cashmire macio, com os brincos de ametistas e diamantes que certa vez 
emprestara a Natasha.
        - Gostou?  novo.
        - Da mesma coleo daquela minha maravilha azul? - Isabella confirmava com a cabea ao mesmo tempo em que Natasha inclinava-se para ela, confidenciando: 
- No outro dia liguei o ar-condicionado s para que eu pudesse us-lo pela casa. 
        - No se preocupe. Logo estar frio o suficiente para us-o. 
        Isabella estremeceu, j pensando no longo inverno de Nova York que dava a impresso de no acabar nunca.
        - Voc est linda - disse Natasha. Contudo, havia um lampejo de algo muito triste nos profundos olhos de nix da amiga. - Estou contente porque tudo acabou, 
Isabella. 
        Imediatamente lamentou o que disse, porque, sob certos aspectos, ela sabia que no estava acabado. Jamais acabaria. A perda de Amadeo sempre pesaria no corao 
de Isabella.
        - Nem acredito que j tenha se passado um ano. - Isabella levantou os olhos do caf, com uma expresso pensativa. - Sob certos aspectos, d a impresso de 
que ele se foi para sempre. Em outros, parece que foi ontem apenas. Mas, para mim,  mais fcil suportar aqui do que em Roma. 
        - Voc tomou a deciso certa.
        Isabella tornou a sorrir. 
        - O tempo dir.
        Continuaram conversando por mais uma hora, a seguir cada uma foi para sua casa, Natasha para um apartamento que agora lhe parecia vazio, Isabella para a 
sua cobertura nova. Ela despiu-se tranqilamente, colocou a camisola, foi beijar Alessandro, j adormecido em sua cama. Depois meteu-se pacificamente debaixo das 
cobertas de sua cama e apagou a luz. Eram seis horas da manh seguinte quando foi acordada, sobressaltada, pelo telefone.
        - Al?
        - Ciao, Bellezza.
        - Bernardo! Sabe que horas so? Eu estava dormindo. J est entediado? 
        Bernardo partira para Corfu pouco depois que ela retornara a Nova York.
        - Entediado? Est louca! Adoro isto aqui. - A voz dele adquiriu um tom sbrio no mesmo instante. - Isabella, querida... tive de telefonar. Tenho de ir a 
Roma.
        - J? - Ela soltou uma risada. - J vai voltar para trabalhar? Foi rpido.
        - No, no  nada disso. 
        - Houve uma pausa enquanto Bernardo revestia-se de coragem para contar-lhe. Gostaria de estar ao lado dela e no em uma ilha a milhares de quilmetros de 
distncia, olhando desamparado para o telefone. 
        - Ontem recebi um telefonema. Esperei at me telefonarem de novo esta manh, at que tivessem certeza.
        - Quem, pelo amor de Deus? - Ela levantou-se da cama e bocejou, sonolenta. Era sbado, e ela contara dormir at meio-dia.  - Voc no est sendo coerente.
        - Eles os pegaram, Isabella.
        - Quem pegou o qu? - Ela agora franzia a testa, e sentiu o sangue gelar de repente no momento em que compreendeu. - Os seqestradores?
        - Todos eles. Eram trs. Um deles falou bastante. Est tudo terminado, Isabella. Est terminado, cara.
        Ao ouvi-lo, subitamente ela comeou a chorar e a sacudir a cabea.
        - Terminou no ano passado - disse. 
        No sabia se ficava feliz ou triste agora. No fazia mais nenhuma diferena. Amadeo morrera. E capturar os homens que o mataram no iria traz-lo de volta.
        - Temos de ir a Roma. A polcia tornou a me telefonar esta manh. Eles tm permisso especial de acelerar o julgamento. Que ser dentro de trs semanas.
        - Eu no vou. - Ela parou de chorar. Estava mortalmente plida.
        - Voc precisa, Isabella. Precisa. Eles necessitam do seu depoimento.
        - Nardo... No! No posso. 
        - Pode sim. Estarei com voc. 
        - No quero v-los.
        - Nem eu. Mas devemos isso a Amadeo. E a ns mesmos. Voc no pode ficar de fora, Isabella. E se acontece alguma coisa, se forem libertados? Pode deixar 
que isso acontea com outras pessoas?
        Diante de suas palavras, os acontecimentos de um ano atrs voltaram a assalt-la. Ento aquele maldito Corbett mentira para ela. Continuava sempre. No terminava 
nunca. Nunca!
        Ela chorava de novo ao telefone.
        - Isabella, pare com isso. Est quase acabado. 
        - No est.
        - Prometo-lhe, cara. Est. S mais esta ltima coisa e, depois, voc pode deixar o caso para trs, para sempre. A polcia me pediu que telefonasse para voc, 
acham que seria um choque menor se voc soubesse por mim - continuou. - Acham que o julgamento no levar mais de uma semana. Voc pode ficar na Casa.
        - No vou.
        Agora a voz dele estava firme: 
        - Vai, sim, Isabella. Voc vai.
        Depois de desligar, ela sentou-se na cama. Via as imagens que apagara da mente durante o ano que passou; a de ficar aguardando na sala de estar em seu vestido 
verde de noite, vigiando o relgio no console da lareira; a de Alessandro com a mo cheia de biscoitos naquela mesma noite. Em seguida o telefonema, a visita a Alfredo 
Paccioli para vender suas jias, Amadeo ao telefone, dizendo-lhe para ser corajosa. Ela fechou os olhos bem apertados, procurando no gritar. Com mo trmula, pegou 
no telefone outra vez e discou o nmero de Natasha. Quando a sonolenta Natasha respondeu, Isabella j estava histrica.
        - Quem? Quem fala? Isabella! O que h? Querida, fale comigo... Isabella?... Por favor... - disse Natasha.
        - Eles os pegaram... os seqestradores... e tenho de... ir ao julgamento... em Roma...
        - Estarei a agora mesmo.
        Com o rosto enterrado nos travesseiros, Isabella afugentou as imagens e largou o telefone.












Captulo Vinte e Sete



        Do aeroporto, dirigiram-se direto para a Casa de San Gregorio, indo  grande velocidade atravs de Roma. Era aquela poca milagrosa do ano outra vez, ainda 
ensolarada e quente, embora com brisas frias, cu azul sem nuvens. Meados de outubro. Outrora tinha sido a poca do ano favorita de Isabella. Ela estava sentada 
no carro em completo silncio, usando um costume cinza e um chapu da mesma cor. Bernardo mal podia ver-lhe os olhos, ocultos pela aba e voltados para as mos dela, 
cruzadas firmemente no colo.
        - O julgamento comea amanh, Bellezza. Agiu certo ao vir.
        Isabella lanou-lhe ento um olhar cansado, e ele retraiu-se diante da dor que viu estampada to nitidamente naqueles olhos.
        - Estou cansada de fazer o que  certo. O que isso importa agora?
        - Importa. Confie em mim.
        Ela segurou a mo dele. Depois de todo esse tempo, de todas as discusses e acusaes, ela confiava.
        Havia alguns fotgrafos aguardando-a na porta, mas Bernardo foi conduzindo-a entre eles, e ambos passaram rapidamente pela Casa, at a cobertura, onde ele 
colocou suas valises e serviu um copo de vinho para os dois.
        - Como foi a viagem? 
        - Correu tudo bem. 
        - E Alessandro?
        - Louco da vida por eu ter partido, mas est timo. 
        - Contou-lhe o motivo da viagem?
        Ela assentiu lentamente com a cabea.
        - Contei. Eu no ia, mas Natasha disse que eu devia lhe contar. Assim ele no ficaria mais com medo.
        - O que ele disse? 
        Ela parecia espantada.
        - Ficou feliz. Mas no compreendia por que eu tinha de vir. Nem eu. 
        Isabella bebeu mais pouco do vinho e olhou para Bernardo, bronzeado e parecendo anos mais moo aps o ms que passara em Corfu.
        - Voc compreendeu e sabe disso. E quanto ao escritrio? 
        - Est tudo timo. - Pela primeira vez ela sorriu para ele, tirando o chapu cinza. 
        - E quanto a voc? - Bernardo lanou-lhe um olhar penetrante. 
        - O que essa pergunta deve significar?
        - Tem visto algum? J faz mais de um ano agora. Est na hora de comear a sair. 
        Ele finalmente veio a aceitar aquilo que jamais haveria entre eles e a tratar com carinho o que tinham.
        - Cuide da sua prpria vida. - Ela olhou ao longe, para os telhados de Roma.
        - Por que deveria? Voc no cuida da sua. E quanto ao Corbett Ewing?
        - E quanto a ele o qu? - Lanou um olhar aturdido para Bernardo. - O que sabe sobre ns?
        - No foi difcil de calcular. Sua reao violenta sobre a F-B e o modo como falou naquele dia quando mencionei o nome de Ewing ao telefone. Nunca ouvi voc 
to zangada.
        - Nunca fiquei to zangada realmente. Mas achei que ele havia me seduzido de propsito, s para botar as mos na San Gregorio.
        -  o que acha agora? 
        Ela deu de ombros.
        - Isso no importa mais. No o tenho visto, de jeito nenhum.
        - Ele a seduziu? - A voz de Bernardo soou muito macia. 
        - No  da sua conta. - Depois, ela moderou o tom. - Por um momento pensei que estivssemos apaixonados. Mas enganei-me,  s. Jamais teria dado certo, de 
qualquer maneira. 
        - Por que no?
        - Porque... oh, droga, no sei, Bernardo. Talvez porque sejamos diferentes. Talvez porque eu j esteja casada com meu trabalho. Alm disso, jamais ser como 
foi com Amadeo. E no quero partir meu corao ou o de outra pessoa, descobrindo. 
         Olhou-o com expresso de tristeza. Ele sacudiu a cabea. 
        - Ento quer destruir-se,  isso? Aos 33 anos, resolve confinar-se. Perde Amadeo, e ento desiste de viver.
        - No desisti de viver! Tenho Alessandro e a empresa. 
        Olhou para Bernardo com expresso de desafio, mas ele no o aceitou.
        - Para uma vida isso no  muito. Deu pelo menos uma chance ao Ewing de contar-lhe o que aconteceu, para descobrir se o que pensa  verdade?
        - J disse, isso no interessa. Ah, sim, eu o vi uma vez quando voltei de Roma.
        - E o que aconteceu?
        - Nada. Disse a ele para se afastar de Alessandro. Descobri que, enquanto estive aqui, Natasha tinha deixado Corbett ver o menino. - Deixou escapar um suspiro 
brando e esboou um sorriso amargo. - Eu disse a ele que, se voltasse a se aproximar de ns, eu chamaria meu advogado e a polcia e mandaria prend-lo por molestar 
Alessandro... algo assim.
        - Voc enlouqueceu? O que ele disse?
        - Mandou-me sair imediatamente do carro dele.
        - Fez muito bem. Eu a teria posto para fora com um pontap. Pelo amor de Deus, Isabella, no que esteve pensando?
        - No sei... em mim mesma... Amadeo... alguma coisa. Eu disse a voc, est acabado. No teria dado certo.
        - No mesmo, se  dessa maneira que voc tem se comportado. - Ele serviu-se de outro copo de vinho.
        - Natasha o v,  claro. So velhos amigos.
        - Ela contou a ele sobre o julgamento? 
        Bernardo olhava-a de modo estranho, mas Isabella apenas deu de ombros.
        - No sei. Talvez. Em todo caso, estava nos jornais. Vou lhe dizer uma coisa, ficarei contentssima quando voltar a ver meu nome unicamente na seo de modas.
        - Esse dia chegar. Depois desta semana, estar tudo terminado. Agora durma um pouco. Apanharei voc pela manh.
        - Beijou-a gentilmente no rosto e deixou-a sentada ali, bebendo o restante do seu vinho.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
Captulo Vinte e Oito



        - Va bene? 
        Bernardo olhou-a com ar preocupado, assim que Isabella desceu do carro. Hoje usava um vestido preto, porm, desta vez, sem meias pretas. Era um vestido preto 
de l, de mangas compridas, com sapatos e bolsa de crocodilo, e um chapu pequeno e discreto. Usava apenas suas prolas e o anel que Bernardo lhe dera da ltima 
vez em que partira de Roma.
        - Voc est bem, Isabella? - perguntou ele.
        Estava to plida que, por um momento, ele receou que ela desmaiasse nos degraus do tribunal.
        - Estou tima.
        Ele pegou-a pelo brao. Num instante, a barragem comeou. Fotgrafos, cmeras de TV, microfones, loucura.
        Houve um retrospecto de toda aquela poca feia. Ela apertava fortemente a mo dele e, um momento depois, estavam no interior do tribunal, aguardando numa 
salinha anexa  sala de audincia do juiz. Ele a deixara disponvel s para ela.
        Ficaram ali durante o que pareceu a Isabella o mesmo que horas, at que um guarda uniformizado entrou e acenou para ela. Apoiando-se firmemente em Bernardo, 
sentindo as pernas duras, ela o seguiu para a sala do tribunal, desviando os olhos da longa mesa onde se encontravam os acusados, procurando no olhar para eles, 
no desejando v-los. Bernardo sentiu-a trmula quando Isabella sentou-se.
        O depoimento das testemunhas foi longo e penoso: a secretria de Amadeo, o porteiro e, finalmente, dois funcionrios da San Gregorio que tinham visto os 
dois homens entrarem. 
        Foi explicada a histria sobre o carro, e Bernardo pde ver um dos homens demonstrar embarao. A seguir mais depoimento do mdico-legista, dois funcionrios 
subalternos, e, depois, finalmente, terminou; a corte no voltaria a se reunir depois do almoo. Devido  natureza dolorosa do julgamento e em considerao  viva 
do signore di San Gregorio. O julgamento seria adiado at a manh seguinte.
        O juiz ordenou aos guardas que retirassem os acusados. Quando se levantaram, prontos para serem levados sob escolta, Bernardo ouviu Isabella soltar um grito 
abafado. Eram homens comuns, usando roupas simples, homens que ela nunca vira, mas que, de repente, estavam ali, diante dela, os homens que haviam tirado a vida 
de Amadeo. Isabella empalideceu ainda mais
        - Tudo bem, Isabella, tudo bem - disse ele, sentindo-se impotente para acalm-la. - Ela precisava de algo que mesmo ele no poderia lhe dar. - Venha, vamos 
embora agora. s cegas, ela deixou-se levar. Em um momento, foram cercados outra vez por um tumulto nos degraus da frente do prdio. 
        - Signora di San Gregorio, viu os acusados?... Como eram eles ... Lembra-se?... Pode-nos contar?...
        Algum arrebatou-lhe o chapu. Ela corria e chorava, protegida por dois guarda-costas e Bernardo, at que finalmente alcanaram o carro. Ela jogou-se nos 
braos de Bernardo, soluando, o caminho todo at a casa. Ele levou-a rapidamente para a cobertura e amparou-a at o sof.
        - Quer que chame um mdico?
        - No... no... mas no me deixe... - comeou ela, no momento em que o telefone tocou.
         Isabella sentou-se imediatamente ereta, com uma expresso de terror no olhar. No conseguiria passar por aquilo outra vez, no agentaria.
        - Diga-lhes para no transferirem ligaes c para cima. 
        Mas Bernardo j atendera e falava em voz baixa. Ela no podia ouvir o que ele dizia. Por fim, ele olhou para ela, sorriu e assentiu. Em seguida, sem maiores 
explicaes, passou-lhe o telefone e deixou a sala.
        - Isabella? - A princpio, ela no reconheceu a voz. Depois, seus olhos arregalaram-se. - Corbett? - Mas no podia ser! 
        Mas a voz respondeu:
        - Eu mesmo - acrescentando - e no desligue. Ou, pelo menos, ainda no.
        - Onde voc est? 
        O rosto dela estava impassvel; dava a impresso de que ele estava ali com ela, na mesma sala. 
        - Estou aqui embaixo, Isabella, mas no precisa me ver. Se quiser, vou embora.
        - Mas por qu? E por que agora, quem diria! 
        - Vim para roubar a empresa. Lembra-se de mim?
        - Sim, lembro de voc. Eu... eu lhe devo uma desculpa... pelo que disse em seu carro. - Ela sorria ao telefone.
        - Voc no me deve nada. Nem desculpa, nem a empresa, nada. Nada a no ser dez minutos do seu tempo. 
        Ocorreu-lhe uma idia ento, e ela ficou espantada. Bernardo! Teria pedido a Corbett para vir?
        - Veio a Roma para me ver, Corbett? 
        Ele respondeu:
        - Vim. Calculei o que devia estar passando. Pensei que talvez precisasse de um amigo. - Depois: - Isabella, posso subir?
        Um instante depois, ela abria a porta para ele. No falou. Seus olhos escuros estavam cansados e vazios. Lentamente, ela estendeu a mo.
        - Como vai, Corbett?
        Era igual ao comeo. Ele apertou-lhe a mo solenemente e acompanhou-a at a sala.
        - Gostaria de um copo de vinho?
        Ela sorria agora ao olhar para ele. Corbett precisou usar todo o seu autocontrole para no tom-la nos braos. Ele sacudiu a cabea e deu uma olhada pelo 
aposento.
        -  seu escritrio?
        - No,  um apartamento que mantemos para hspedes importantes. - Em seguida, olhou-o com ar infeliz e sentou-se, a cabea baixa. - Oh, Corbett, como eu 
gostaria de no estar aqui! - Ele sentou-se ao lado de Isabella, demonstrando-lhe solidariedade.
        - Lamento que tenha de passar por isto, mas, pelo menos, foram apanhados. Pelo menos, agora voc no vai ficar imaginando o que aconteceu com eles e se um 
dia voltariam a atacar de novo.
        - Acho que sim. Mas pensei que tivesse me livrado disso tudo.
        Ele limitou-se a sacudir a cabea. Queria dizer a ela que isso  uma coisa que no se pode fazer realmente. No se consegue apagar uma lembrana. Ou negar 
uma perda irreparvel. Pode-se emba-la, pode-se remedi-la, pode-se preencher uma lacuna com outra coisa.
        - Isabella... - ele parou por um momento - ...posso ficar l com voc amanh?
        Ela olhou-o, horrorizada.
        - No julgamento? - Ele confirmou. - Mas por qu? 
        Ento ele era curioso? Era isso? Ele era igual aos outros? Foi por isso que veio? Olhou-o com desconfiana, e ele pegou em sua mo.
        - Quero estar l com voc. Foi por isso que vim...
        Desta vez ela concordou, compreendendo, enquanto ele apertava estreitamente a mo dela na sua.















































Captulo Vinte e Nove



        Na manh seguinte, ela desceu do carro com um guarda-costas  sua frente e outro atrs, com Corbett de um lado e Bernardo de outro. Juntos, avanaram a custo 
atravs da multido, Isabella de cabea baixa, o rosto oculto pela aba do chapu preto. Momentos depois, estavam na sala do tribunal e o juiz tinha entrado e chamado 
Alfredo Paccioli, o joalheiro, para depor no banco das testemunhas.
        - E a signora di San Gregorio levou para o senhor suas jias? Todas?
        - Todas - murmurou Paccioli.
        - O que deu a ela em troca? Deu alguma coisa? - O promotor estava pressionando, e novamente Paccioli confirmou. 
        - Dei a ela todo o dinheiro que tinha no escritrio na ocasio. E consegui mais trezentos mil dlares com comerciantes conhecidos meus. Tambm prometi a 
ela uma quantia igual na semana seguinte.
        - E o que ela lhe disse?
        Corbett sentiu Isabella enrijecer ao seu lado, e ele voltou-se ligeiramente para observ-la. Seu rosto estava plido, quase branco.
        - Ela disse que no bastava, mas que levava. 
        - Ela lhe disse por que precisava do dinheiro? 
        - No. - Paccioli parou, incapaz de prosseguir. Quando falou de novo, sua voz era quase um sussurro. - Mas desconfiei. Ela... ela... parecia... destroada... 
desanimada... assustada... 
        Ele teve de parar, enquanto as lgrimas inundavam suas faces coradas. Seus olhos encontraram-se com os de Isabella. Ela chorava tambm.
        O juiz anunciou um recesso.
        O depoimento continuou de maneira angustiante por mais trs dias. Finalmente, na manh do quinto dia, o juiz olhou para Isabella com uma expresso pesarosa 
no olhar e pediu-lhe que ocupasse o banco das testemunhas.
        - A senhora  Isabella di San Gregorio?
        - Sou. - Sua voz foi um sussurro trmulo, seus olhos quase maiores do que seu rosto.
        -  a viva de Amadeo di San Gregorio, que foi seqestrado do seu escritrio em 17 de setembro e assassinado em... 
        O promotor apurou a data certa. Forneceu-a, e Isabella, com um gesto de cabea, confirmou tristemente.
        - Sou a viva sim.
        - Pode nos contar, de maneira ordenada, o que aconteceu naquele dia? A ltima vez que o viu, o que fez, o que soube? 
        Passo a passo, ela fez a recapitulao minuciosa: sua chegada  casa naquela manh, o assunto que discutiram, o aviso de Bernardo, como Amadeo e ela ficaram 
perturbados, mas puseram o aviso de lado. Ela olhou rapidamente para Bernardo. Havia lgrimas em seus olhos, e ele olhou em outra direo. Com angstia, Corbett 
prestava ateno nos trabalhos, fazendo votos para que Isabella tivesse energia para prosseguir. 
        Durante dias, agora, ele ficara observando-a e ouvindo-a, levando-a de volta para a San Gregorio todas as tardes e conversando com ela at a noite. Mas no 
dissera nada de natureza intima, nunca a tocara, exceto gentilmente com os olhos. Ele viera a Roma como amigo, sabendo que esses dias seriam os mais dolorosos, que, 
ao reviver o acontecimento, finalmente ela ficaria livre. Mas sabendo tambm que esse julgamento poderia abat-la, que ela poderia no querer nada com ele mesmo 
se sobrevivesse  prova. De qualquer modo, ele viera, esteve ali com ela, como estava agora, por ela mesma..
        - E quando percebeu que seu marido estava atrasado?
        - As... no sei... talvez s sete e meia.
        Contou sobre o momento em que fora interrompida por Alessandro. Em seguida, em agonia, continuou explicando que chamou Bernardo, que ficou aguardando, que 
de repente sentiu medo. E, depois, o telefonema. Comeou a descrev-lo, mas desesperou-se e no pde continuar. Ficou ofegante por um instante, esforando-se para 
obter ar e serenidade, mas, de sbito, as lgrimas caram pelas suas faces.
        - Eles... eles disseram que tinham... meu marido. - Era uma palavra sufocada pronunciada entre uma arfada e um grito estridente. - ...que eles o matariam... 
e... me deixaram falar com ele, e Amadeo disse...
        Bernardo olhou para o juiz com ar infeliz, mas ele apenas assentiu com a cabea. Era melhor se ela acabasse com tudo de uma vez. Tinham que prosseguir.
        - E ento o que a senhora fez?
        - Bernardo... o signore Franco... chegou. Conversamos. Mais tarde, naquela mesma noite, chamamos a polcia.
        - Por que mais tarde? Os seqestradores lhe disseram que no chamasse?
        Ela tomou flego e continuou:
        - Sim, mais tarde. Mas, a princpio receei que, se eu chamasse a polcia, minhas contas seriam congeladas e eu no poderia de jeito nenhum obter o dinheiro. 
E elas foram congeladas,  claro. - Ela parecia amarga ao dizer isso.
        - Foi por essa razo que tentou vender suas jias?
        Ela olhou para Paccioli, sentado no fundo da sala, e confirmou. Ele chorava sem reservas.
        - Foi. Eu teria feito qualquer coisa... qualquer coisa... 
        O maxilar de Corbett retesou-se, e ele e Bernardo trocaram um olhar aflito.
        - O que aconteceu em seguida? Depois de ter conseguido o dinheiro? Entregou-o aos seqestradores, embora fosse uma quantia menor do que a exigida?
        - No cheguei a entregar. Eu ia fazer isso. Ia contar a eles. Foi na noite de segunda-feira, e eles queriam o dinheiro para a tera-feira. Mas... - ela recomeou 
a tremer - ... mas eles telefonaram... estava... estava... - Estampou-se uma expresso de horror em seu rosto, e os olhos procuraram por Corbett e Bernardo. - No 
posso! No posso continuar!
        Ningum se mexeu. O juiz falou gentilmente com ela e insistiu para que terminasse, se pudesse. Ela aguardou um instante, soluando, enquanto um guarda trazia-lhe 
um pouco de gua. Ela bebeu um pequeno gole e continuou:
        - Estava nos jornais que eu fora  loja de Alfredo. Algum disse a eles. - E, ao pronunciar estas palavras, lembrou-se do rosto da moa. - Os seqestradores 
ento souberam que minhas contas haviam sido congeladas. Que tnhamos chamado a polcia. - Ficou sentada muito ereta e fechou os olhos. 
        - E que lhe disseram na vez seguinte que falou com eles? 
        Ela sussurrou, os olhos fechados:
        - Que iam mat-lo.
        - Foi s o que disseram?
        - No. - Ela tornou a abrir os olhos, como se estivesse diante de uma viso, como se ela prpria estivesse agora muito longe. As lgrimas corriam-lhe pelas 
faces. Ela olhou para o teto. - Disseram que eu poderia... - Sua voz estava sumindo quando tornou a baixar os olhos. - ...me despedir de Amadeo... E... eu me despedi. 
Ele me disse... ele me disse... para ser corajosa s mais um pouquinho, que tudo ficaria... bem... que ele me amava... eu disse que o amava... e depois...
        s cegas, ela ficou olhando fixamente para a sala do tribunal.
        - E ento o mataram. Na manh seguinte, a polcia encontrou-o morto.
        Enquanto permaneceu ali sentada, ela ficou inerte, relembrando aquele momento, a sensao, e o ltimo som da voz de Amadeo, que parecia desaparecer gradualmente 
no momento em que a voz dela tambm se extinguia. Em silncio, Isabella olhou para os trs acusados do assassinato de Amadeo e, ainda chorando, ela sacudiu a cabea. 
        O juiz fez um rpido sinal para Bernardo. A parte de Isabella no julgamento estava terminada. Ele queria que ela fosse retirada.
        Compreendendo, Bernardo levantou-se. Corbett seguiu-o juntamente com o promotor at o banco das testemunhas, onde estenderam a mo para Isabella, que os 
olhava sem entender.
        - Eles o mataram... eles o mataram... Bernardo... - Sua voz foi um pavoroso grito de dor na sala do tribunal... - Ele est morto!
        Seu grito chegara  parte externa do tribunal. Enquanto Corbett e Bernardo amparavam Isabella em direo  sada, cujas portas se abriram de par em par, 
os fotgrafos precipitaram-se sala adentro.
        - Vamos, Bernardo! - Subitamente Corbett estava em plena ao, envolvendo Isabella em seus braos. - Afastem-se e, seus cretinos. 
        Bernardo e os dois guarda-costas avanavam a custo atravs do rebulio. O juiz, aos gritos, exigia ordem e os auxiliares tentavam retirar a imprensa. A sala 
do tribunal assemelhava-se a um matadouro, e Isabella continuava chorando, enquanto a multido aturdida os observava.
        De algum modo, conseguiram chegar ao carro de Isabella finalmente; as portas se fecharam e os trs se comprimiram no banco traseiro enquanto o carro se afastava 
a toda velocidade e os reprteres continuavam gritando e os cliques das cmeras se sucediam.
        Isabella desabou no peito de Corbett.
        - Acabou, Isabella. Acabou, querida... acabou. 
        Ele repetiu muitas vezes que havia acabado, enquanto Bernardo, abalado, os observava. Ele lamentava ter dito a ela para fazer a viagem. Errara, mas os olhos 
de Corbett no o censuravam, nem mesmo quando chegaram  Casa di San Gregorio e uma nova multido de reprteres aguardava por eles.
        Bernardo olhava para aquela gente com horror, e Isabella comeava a derramar novas lgrimas. Corbett lanou um olhar para a multido e falou rapidamente 
com o motorista:
        - No pare aqui. Prossiga. - Olhou para Bernardo. - Vamos lev-la para o meu hotel.
        Furioso, Bernardo assentiu com a cabea, achando que a nica coisa sensata que fizera ultimamente foi ter chamado Corbett Ewing, pedindo-lhe que viesse.
        Cinco minutos depois, estavam em sua sute do Hassler, e Isabella fitava-os com expresso arrasada.
        - Tudo acabou agora - disse Corbett. - Jamais ter de passar por uma coisa dessas outra vez.
        Ela assentiu lentamente, como uma menina que tivesse acabado de ver sua famlia morrer num incndio. Bernardo olhava-a com ar penalizado. 
        - Lamento, Bellezza.
        Porm ela j estava mais controlada enquanto o observava e inclinava-se para a frente, a fim de beij-lo no rosto.
        - Esquea. Talvez agora esteja realmente terminado. O que acontecer queles homens?
        - Se conseguirem viver tempo suficiente para sarem da sala do tribunal, sabero que foram considerados culpados e presumo que sentenciados  priso perptua 
- respondeu Bernardo maldosamente, e Corbett concordou com um gesto de cabea.
        Mas, em seguida, levantou-se e dirigiu-se ao telefone. Falou em voz baixa e voltou um instante depois para consultar os outros.  
        - Acho que deveramos partir para Nova York no prximo vo. Pode ir, Isabella? Ou tem algum trabalho a fazer? 
        Ela sacudiu a cabea, meio entorpecida, e a seguir ergueu os olhos para ele. 
        - E as minhas coisas?
        Mas Bernardo j estava de p agora. 
        - Vou busc-las.
        Corbett assentiu com a cabea.
        - timo! Voc pode encontrar-se conosco no aeroporto em uma hora? 
        Bernardo, respondeu concordando e olhou para Isabella.
        - Est tudo bem com voc?
        - O julgamento j terminou? 
        Ambos confirmaram. O depoimento principal fora dado e nunca houve dvidas quanto ao resultado. Foi uma ofensa capital. Os homens que levaram Amadeo e o mataram 
seriam punidos.
        - Terminou, Isabella. Pode ir para casa agora.
        Casa. Bernardo referia-se a Nova York como sua casa. Pela primeira vez, ela percebeu que era mesmo. Ela no pertencia mais a Roma. No pertencia mais, depois 
do dia de hoje, depois desta semana, depois do que acontecera. Seus olhos procuraram os de Corbett, aps Bernardo deix-los e ele trancar a porta. Ela ficou observando-o 
enquanto ele fechava sua valise, e depois veio sentar-se por um instante ao lado dela.
        - Obrigada por estar aqui. Eu... foi to horrvel... pensei que fosse morrer... O que me deu foras para prosseguir foi saber que eu tinha de contar o fato, 
precisava ir at o fim, deixar sair tudo... - Olhou para ele de novo. - E eu sabia que daria conta de tudo contanto que voc estivesse ali. - Em seguida, ela precisou 
perguntar: - Foi Natasha quem o mandou?
        Mas ele sacudiu lentamente a cabea. No esconderia mais nada.
        - Bernardo me chamou.
        - Bernardo? - Ela parecia chocada. Depois, sacudiu a cabea. - Capisco.
        - Est zangada?
        Sua voz soou muito gentil quando sorriu para ele. 
        - No.
        Desta vez, ele tambm sorriu. Olhou-a por um longo momento, sentando-se bem perto dela no sof.
        - H certas coisas sobre as quais precisamos falar, mas, neste exato momento, vamos para o aeroporto pegar nosso avio. Est com o seu passaporte? Se Bernardo 
desencontrar-se de ns, poder mandar sua bagagem no prximo vo.
        - Meu passaporte est na bolsa.
        - Ento vamos. 
        Estendeu-lhe a mo, e ambos se levantaram. A limousine j os aguardava. No havia nenhum papparazzi. No tinham nenhum interesse por Corbett Ewing, hospedado 
no Hassler. Estavam ocupados demais na San Gregorio.
        Uma hora mais tarde, Bernardo foi encontr-los no aeroporto, cinco minutos antes de pegarem o avio. Isabella agarrou-se fortemente a ele por um ltimo momento.
        - Grazzie, Nardo, grazzie. - Ele tambm abraou-a estreitamente por um instante, em seguida empurrou-a para o avio.
        - Vejo voc em maro! - Foram suas ltimas palavras, enquanto Corbett acenava-lhe e eles embarcavam.
        Quando Roma ficou reduzida l embaixo, Corbett observava silenciosamente, olhando pela janela, por cima da asa do aparelho. Finalmente, ela virou-se para 
ele e introduziu sua mo na dele. Mas ele no podia esperar mais. Contemplou-a com uma expresso preocupada nos olhos.
        -  muito cedo para lhe dizer que a amo? 
        Sua voz era apenas um sussurro que mal chegava aos ouvidos dela. Enquanto o olhava, Isabella esboou um sorriso que foi se espalhando lentamente at seus 
olhos.
        - No, querido, nunca foi cedo demais. 
        Trocaram um beijo longo e vido enquanto a aeromoa esperava para servir-lhes champanha. Ela derramou o lquido espumante nas taas e Isabella, apanhando 
a sua, lanou um olhar longo e penetrante para os olhos de Corbett. Ento, suavemente, sussurrou enquanto erguia seu corpo: 
        - Para sempre, meu amor... para sempre, enquanto dure.





FIM










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